
Caleidoscpio
Danielle Steel
       
       
       

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Sempre-Lendo, o melhor grupo de troca de livros da Internet!


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       Este livro foi digitalizado por Deolinda Fernandes e revisto por Amrico Azevedo. 
Caso esteja interessado em obter mais obras deste gnero, contacte com Amrico Azevedo - 
Rua Manuel Ferreira Pinto, 530 - 4470-077 Gueifes Maia - Telefs.: 229607039 ou 
918175758
       

Caleidoscpio
       Danielle Steel
       Traduo Brasileira: Isabel Paquet de Araipe
       Copyright (c) 2001 by Benitreto Productions, Ltd.
       ISBN: 85-01-163112
       Depsito Legal: B-25554-2001
       

RESUMO DE CAPA:
       
       Hilary, Alexandra, Megan: trs irms separadas ainda na infncia por uma tragdia 
familiar. Filhas de um actor americano e de uma francesa, elas ficam rfs quando o pai, 
enlouquecido, mata a me durante uma briga e comete suicdio na priso. As meninas, 
sozinhas e sem dinheiro, s vo se encontrar trinta anos mais tarde por uma nova artimanha 
do destino e pela interferncia de John Chapman, um detetive que se apaixona por uma delas.
       
       Em Caleidoscpio, Danielle Steel demonstra, mais uma vez, seu talento para 
construir personagens marcantes, com problemas e condies que so tambm os dos leitores. 
Como o prprio ttulo define, trata-se de um romance cheio de nuanas e movimento, destinos 
que se entrelaam numa trama fascinante.
       

Para trs irmzinhas muito especiais:
       Samantha, Victoria e Vanessa,
       senhoritas preciosas,
       e a sua irm mais velha, Beatrix,
       que  to linda,
       e seus trs irmos mais velhos,
       Trevor, Todd e Nicky,
       que tambm so muito especiais.
       Que cada um de vocs seja abenoado
       com vidas boas e boa sorte,
       bons coraes e gente boa que os ame
       e que vocs amem bastante.
       Que vocs sejam sempre prudentes e fortes
       e felizes... e unidos!
       E que cada volta do caleidoscpio
       lhes traga alegria!
       A primeira volta, que foi a nossa volta,
       trouxe-os para ns, de um em um,
       presentes especiais, muitssimo amados, pessoas especiais.
       E que a volta de vocs lhes traga amor
       e flores... demnios jamais...
       Apeguem-se uns aos outros, queridos,
       dem a cada um fora e risos
       e bons momentos e amor... do mesmo modo
       que ns os demos a vocs.
       Com o meu amor por vocs e o seu papai,
       e com o nosso, um pelo outro,
       e por vocs.
       De todo o corao,
       ds.
       

Caleidoscpio
       
       o primeiro momento tremeluzente da vida, como um diamante no mar, cintilando ao 
sol do meio-dia, uma chama luminosa e ardente, UM nome novo, uma luz brilhante, depois 
leve virada e a noite mais escura chega, pela primeira vez, depois rimas felizes e doces 
canes, coraes que se entrusam at que a gente fica s, da aurora mais vvida at o 
crepsculo mais profundo, do sol da manh aos sonhos do entardecer, planos fantsticos e 
vidas que s vezes do em nada, esperando to fulgurantes, voltas to repentinas, do claro 
para o escuro, do sombrio para o grandioso, da alegria para a tristeza, sempre  espera do 
amanh e de uma virada do destino, um raio de esperana... com um gesto mnimo, a 
alterao de todos os planos da vida e de todo o seu objetivo... tudo com uma pequenina volta 
do caleidoscpio da vida.
       

PRIMEIRA PARTE
       SOLANGE
       Captulo 1
       As chuvas eram torrenciais a nordeste de Npoles no dia 24 de dezembro de 1943, e 
Sam Walker encolhia-se dentro de sua trincheira, apertando a capa de chuva junto ao corpo. 
Tinha 21 anos e nunca estivera na Europa antes da guerra. Era um jeito infernal de conhecer o 
mundo, e ele j vira mais do que pretendia. Estava no exterior desde novembro de 1942, 
combatendo na frica do Norte e tomando parte da Operao Tocha at maio de 1943. Ele 
achara a frica ruim, com o terrvel calor, os ventos do deserto e as tempestades de areia que 
deixavam qualquer um quase cego, com os olhos vermelhos e ardendo durante dias, e as 
lgrimas escorrendo constantemente pelas faces, mas isso era pior. As suas mos estavam to 
entorpecidas que mal conseguia segurar, muito menos acender, o cigarro que seu colega lhe 
dera de Natal. 
       O vento das montanhas atravessava os ossos das pessoas, era o pior inverno que a 
Itlia j enfrentara, pelo menos era o que diziam, e ele ansiou subitamente pelo calor trrido 
do deserto. Chegara  Siclia em julho, com o 45.o de Infantaria, anexado ao V Exrcito de 
Clark; e depois da Siclia eles tinham tomado parte na batalha de Npoles, em outubro. E na 
batalha de Termoli logo depois, mas h dois meses que se arrastavam sobre pedras e atravs 
de fossos na direo de Roma, escondendo-se em celeiros, quando os encontravam, roubando 
a comida que podiam, lutando contra os alemes a cada palmo do caminho, e sangrando a 
cada passo dado. 
       - Merda... - Seu ltimo fsforo estava ensopado e a essa altura a guimba, seu nico 
presente de Natal, tambm estava. Quando os japoneses atacaram Pearl Harbor, ele estudava 
em Harvard. Harvard... s de pensar nisso tinha vontade de rir, e riria se no estivesse 
to exausto. 
       Harvard... Com a sua vida perfeita e seu ptio imaculado, os rostos jovens e vivos to 
certos de que algum dia governariam o mundo. Se eles soubessem... Era difcil acreditar agora 
que algum dia fizera parte de tudo aquilo. Esforara-se tanto para chegar l. Morava na cidade 
universitria de Somerville, e o seu sonho era estudar em Harvard. A irm rira dele; a 
ambio dela era casar com um de seus colegas de segundo grau - qualquer deles serviria - e 
dormira com muitos deles para se candidatar ao papel. Era trs anos mais velha do que Sam, e 
j se casara e divorciara quando Sam, por fim, conseguiu ingressar em Harvard, depois de 
fazer todos os biscates possveis durante um ano, aps o trmino do segundo grau. Ficaram 
rfos de pai e me quando ele tinha quinze anos, num acidente de carro numa viagem a Cape 
God. Ele fora ento morar com Eileen e seu "marido" de dezoito anos. Sam abandonara-os 
quatro meses antes do cnjuge de Eileen e eles mal se haviam visto desde ento. Fora v-la 
uma vez, para se despedir, trs dias aps sua convocao. Ela estava trabalhando num bar, 
pintara o cabelo de louro, e ele mal a reconheceu na penumbra, logo que a viu. A princpio ela 
pareceu embaraada, e tinha o mesmo olhar ladino de que ele se lembrava e que sempre 
detestara. Eileen s se preocupava consigo mesma, o irmo caula pouco significava para ela. 
       - Bem, boa sorte... - Ela o fitava constrangida, num canto escuro do bar, enquanto ele 
se perguntava se deveria dar-lhe um beijo de despedida, mas a irm parecia ansiosa por voltar 
ao trabalho e no parecia ter mais nada a dizer a ele.
       - Mande noticias... 
       - Sim... claro... se cuide... 
       Ele se sentira como se tivesse outra vez doze anos ao se despedir dela, e se lembrou 
de todas as coisas de que no gostava na irm. Era difcil lembrar de alguma de que gostasse: 
Os dois sempre pareceram duas pessoas de mundos diferentes, de vidas diferentes, quase de 
planetas diferentes. Ela o torturara em criana, dizendo-lhe que era adoptado, e Sam 
acreditara nela at que sua me a surrara certo dia e dissera a Sam, no seu jeito pattico de 
bbada, que aquilo tudo era mentira de Eileen. A irm sempre mentia, sobre tudo, e vivia 
culpando Sam pelo que tinha feito. Na maioria das vezes o seu pai acreditava nela, Sam 
sempre se sentira um estranho em relao  famlia, o pai grando e rude, que trabalhara num 
barco de pesca a vida toda; a me que bebia demais; e a irm, que passava as noites na farra. 
s vezes ficava deitado na cama, imaginando como seria fazer parte de uma famlia "de 
verdade", com refeies quentes na mesa e lenis limpos na cama... uma famlia de Beacon 
Hill, quem passava os veres em Cape Cod... uma famlia com filhos pequenos e cachorros, e 
pais contentes. No se lembrava de ver os pais rindo ou de mos dadas, e s vezes se 
perguntava se alguma vez agiram dessa forma. Odiava-os, em silncio, pela vida miservel 
que levavam, e a vida a que o haviam condenado. Queria muito mais do que aquilo. E em 
troca eles o odiavam por suas boas notas, sua inteligncia, seus papeis principais nas peas 
escolares, e pelas coisas que lhes contava sobre outras vidas, outros mundos, outras pessoas. 
Certa vez confidenciara ao pai que queria ingressar em Harvard algum dia, e o pai o fitara 
como a um estranho. E o era, para todos eles. Quando finalmente foi para Harvard, era um 
sonho que se tornava realidade, e a bolsa de estudos que conseguira fora o maior dos 
presentes... o maior dos presentes... e ento aquele primeiro dia mgico, depois de ter se 
esforado tanto, e ento de repente, trs meses mais tarde, tudo se acabara. 
       A chuva caa-lhe sobre as mos congeladas, e ele escutou uma voz ao seu lado pela 
primeira vez, enquanto olhava por sobre o ombro. 
       - Quer fogo? 
       Ele anuiu com a cabea, voltando ao presente, ergueu os olhos e deparou com um 
louro alto, de olhos azuis, e com a chuva escorrendo pelas faces magras. Todos pareciam estar 
chorando. 
       - Quero... obrigado... - Sam sorriu, e por um momento os seus olhos brilharam, como 
no passado. Ele fora cheio de vida, sculos atrs. Sonhara em ser o centro das atenes no 
clube de teatro em Harvard. - Que belo Natal, hem? 
       O outro sorriu. Parecia mais velho do que Sam, mas at Sam aparentava ser mais 
velho do que realmente era, hoje em dia. Depois da frica do Norte e da Campanha da Itlia, 
todos se sentiam velhos, e alguns aparentavam ser. 
       - Arthur Patterson - apresentou-se formalmente. 
       Sam riu alto quando uma rajada de vento jogou os dois contra O lado da trincheira. 
       - Que lugar encantador a Itlia, no ? Sempre tive vontade de vir para c. Umas 
frias maravilhosas. - Correu os olhos ao seu redor, como se visse belas garotas de mai, e 
praias repletas de corpos encantadores enquanto Patterson sorria e soltava uma risadinha 
abafada, mesmo a contragosto. 
       - Est aqui h muito tempo? 
       - Ah, faz uns mil anos. Passei o ltimo Natal na frica do Norte. Um lugar 
fantstico. Fomos convidados por Rommel. - Aceitou agradecido o fogo que o louro alto 
oferecia, acendeu a guimba e deu duas boas baforadas antes de queimar os dedos. Gostaria de 
t-la oferecido ao novo amigo, mas no deu tempo antes que a chuva apagasse o que sobrara, 
e olhou com ar de desculpas para o seu benfeitor. - A propsito, sou Sam Walker. 
       - De onde voc ? 
       Teve vontade de dizer Harvard, pelos velhos tempos, mas isso teria parecido 
maluquice. 
       - Boston. 
       - Nova York. 
       Como se isso agora tivesse importncia. Nada importava agora, eram s nomes de 
lugares inexistentes. A nica coisa real era Palermo, Siclia e Salerno, Npoles e Roma, o 
objetivo final, isso se chegassem l. O louro alto lanou um olhar  sua volta, os olhos 
apertados contra o vento e a chuva, e comentou: - Eu era advogado antes disso tudo. 
       Sam teria ficado impressionado, mas assim como os lugares de onde vinham, as 
pessoas que tinham sido j no importavam mais. 
       - Eu queria ser actor. - Contara isso a pouqussimas pessoas, no aos pais, antes de 
morrerem, ou  irm, depois disso, mas apenas a alguns amigos, e mesmo eles tinham achado 
graa. E seus professores aconselhavam-no a estudar algo que valesse mais a pena. Mas 
nenhum deles entendia o que representar significava para ele, e o que acontecia quando pisava 
num palco. Era como a magia que vinha da sua alma, transformando-o no personagem que 
representava. Os pais que odiava sumiam, a irm que detestava, e todos os seus medos e 
inseguranas com eles. Mas ningum parecia entender isso. Nem mesmo em Harvard. Os 
estudantes de Harvard no eram actores, mas sim mdicos, advogados, empresrios, chefes de 
firmas e fundaes, embaixadores... Riu baixinho mais uma vez. Sem dvida, era um 
embaixador agora, com uma arma na mo e a baioneta preparada o tempo todo para poder 
enfi-la nas entranhas dos inimigos, como o fizera repetidas vezes neste Ultimo ano. Ficou 
imaginando quantos homens Patterson matara, e como se sentia a respeito agora, mas esta era 
uma pergunta que no se fazia a ningum, vivia-se com os prprios pensamentos e as 
lembranas dos rostos retorcidos e olhos fixos enquanto se retirava a baioneta e a limpava no 
cho. Olhou para Arthur Patterson com os olhos de um velho e se perguntou por um instante 
se algum dos dois estaria vivo para ver outro Natal. 
       - O que o levou a querer ser actor? 
       - Hen? - Ficou espantado com a expresso sria dos olhos de Patterson, enquanto 
ambos se sentavam sobre uma rocha plantada na lama, junto aos ps deles, enquanto a gua 
na trincheira rodopiava  sua volta. - Ah, bem... no sei... me pareceu uma coisa interessante 
para fazer. 
       Mas era mais do que isso, muito mais, era a nica vez em que se sentia inteiro, que se 
sentia poderoso e confiante. Mas no podia contar isso a esse sujeito. Era ridculo falar de 
sonhos sentado numa trincheira na vspera de Natal. 
       - Fiz parte do orfeo em Princeton. 
       Era um comentrio absurdo, e de repente Sam Walker soltou uma risada. 
       - Percebe como somos malucos? Falando de orfeo, clube de teatro e Princeton, 
sentados nesta maldita trincheira? Percebe que provavelmente nem estaremos vivos na 
semana que vem, e c estou eu lhe contando que queria ser acto... - De repente sentiu vontade 
de chorar no meio da prpria risada. Tudo era to terrvel, mas real, to real que podiam 
sentir-lhe o gosto, a textura e o cheiro. No sentia outro cheiro que no o da morte h um ano, 
e estava farto daquilo. Todos estavam, enquanto os generais planejavam o seu ataque a Roma. 
Afinal, quem estava preocupado com Roma? Ou Npoles ou Palermo? Pelo que estavam 
lutando? Pela liberdade em Boston, Nova York e San Francisco? J eram livres, e em casa as 
pessoas estavam indo para o trabalho, danando na USO e indo ao cinema. Que sabiam de 
tudo isso aqui? Nada. Droga, absolutamente nada. Sam ergueu os olhos para o louro alto e 
sacudiu a cabea, os olhos cheios de sabedoria e tristeza, sem a risada repentina. Queria ir 
para casa... para qualquer um... at mesmo a irm, que no lhe escrevera nem uma nica vez 
desde que Sara de Boston. Escrevera para ela duas vezes, e depois decidira que no valia a 
pena. Pensar nela sempre o deixava zangado. Ela o encabulara durante toda a sua 
adolescncia e vrios anos anteriores, assim como a me... e o pai rgido e taciturno, 
Detestara-os a todos, e agora estava aqui, sozinho, com um estranho ex-integrante do orfeo 
em Princeton, mas j gostava dele. 
       - Onde estudava? 
       Patterson parecia querer apegar-se desesperadamente ao passado, lembrar os velhos 
tempos, como se pensar neles fosse lev-los de volta, mas Sam no se iludia. O presente era aqui, 
na imundcie e na chuva gelada da trincheira.
       Sam olhou para ele com um sorriso retorcido, desejando ter outro cigarro, um de verdade, 
no apenas uma guimba do que pertencera a outra pessoa.
       - Em Harvard.
       Em Harvard ele tinha cigarros de verdade, na hora que quisesse... Lucky Strikes. S de 
pensar nisso sentiu vontade de chorar de saudade. Patterson parecia impressionado.
       - E voc queria ser actor?
       Sam deu de ombros.
       - Acho que sim... eu estava me formando em literatura inglesa. Talvez acabaria ensinando 
em alguma parte e organizando as peas escolares para os calouros aborrecidos.
       - No  uma vida ruim. Eu cursei St. Paul's, e l tnhamos um clube de teatro danado de 
bom. - Sam fitou-o, perguntando-se se ele era de verdade. Princeton, St. Paul's... o que estavam 
todos fazendo aqui? O que estava qualquer um deles fazendo aqui, especialmente os rapazes que 
tinham morrido?
       - Voc  casado?
       Agora Sam estava curioso a seu respeito, como se um anjo de Natal lhe tivesse aparecido; 
ele parecia diferente de todas as maneiras possveis e, no entanto, tinham alguma coisa em comum.
       Arthur sacudiu a cabea.
       - Eu estava ocupado demais fazendo carreira. Trabalhava para uma firma de advocacia em 
Nova York. Estava l h oito meses quando me alistei. - Tinha 27 anos e seus olhos eram srios e 
tristes, enquanto os de Sam pareciam maliciosos. O cabelo de Sam era to negro quanto o de Arthur 
era louro, e ele tinha uma compleio mdia com ombros fortes, pernas longas para o seu tamanho e 
uma espcie de energia que parecia faltar a Arthur. Tudo em Arthur Patterson era mais contido, 
mais tateante, mais quieto. Mas, afinal, Sam tambm era mais jovem.
       - Tenho uma irm em Boston... se a essa altura ainda no foi morta por um sujeito num 
bar. - Parecia importante partilhar informaes sobre si, como se pudessem no ter outra chance, e 
cada um deles queria que outra pessoa os conhecesse. Queriam ser conhecidos antes de morrer, 
fazer amigos, ser lembrados. - Nunca nos demos bem. Fui v-la antes de partir, mas ela no me 
escreveu nem uma vez. E voc? Tem irmos?
       Arthur sorriu pela primeira vez desde algum tempo.
       - Sou filho nico, de filhos nicos. Meu pai morreu quando eu estava estudando fora, e 
minha me no tornou a casar. Isto  bem duro para ela. D para eu perceber nas suas cartas.
       - Aposto que sim. - Sam assentiu, tentando imaginar a me de Arthur, tentando 
visualiz-la: uma mulher alta e magra com cabelos brancos que j tinham sido louros, provavelmente 
da Nova Inglaterra. - Meus pais morreram num acidente de carro quando eu tinha quinze anos. - 
No contou a Arthur que no sentira a perda, que os odiava, e que jamais o haviam compreendido. 
Seria muito piegas agora, e no havia mais importncia. - Ouviu alguma coisa sobre o lugar para onde 
vamos, depois daqui? - Era hora de pensar na guerra de novo, no fazia sentido ficar se prendendo 
muito ao passado. No os levaria a parte alguma. A realidade estava aqui, a nordeste de Npoles. - 
Ouvi falar alguma coisa sobre Cassino ontem, fica do outro lado das montanhas. Deve ser divertido 
chegar at l.
       Ento agora teriam que se preocupar com a neve, no com a chuva. Sam se perguntava que 
outras torturas os aguardavam nas mos dos generais que agora eram os donos de suas vidas.
       - O sargento falou alguma coisa sobre Anzio ontem  noite, fica no litoral.
       - ptimo. - Sam deu um sorriso perverso. - Quem sabe a gente pode ir nadar?
       Arthur Patterson sorriu. Gostava desse garoto extrovertido de Boston. Sentia que por trs da 
amargura nascida da guerra havia um corao leve e uma inteligncia viva, e pelo menos era algum 
com quem podia conversar. A guerra fora dura para Arthur de muitas maneiras. Mimado quando 
menino, superprotegido quando rapaz, especialmente aps a morte do pai, e criado por me amorosa 
num mundo altamente civilizado, a guerra representara um choque brutal para ele. Nunca 
conhecera o desconforto na vida, ou o perigo, ou o medo, e agora vivia s voltas com eles 
interminavelmente, desde que chegara  Europa. Admirava Sam por ter sobrevivido to bem.
       Sam pegou as raes de campanha que estivera guardando como guloseima de Natal e 
abriu-as com uma careta de nojo. J tinha dado as balas para umas crianas da localidade.
       - Quer um pouco de peru de Natal? O molho est um pouco gorduroso, mas as castanhas 
esto ptimas.
       Ofereceu a latinha pattica com um floreio, e Arthur achou graa. Gostava muito de Sam. 
Gostava de tudo nele e pressentia instintivamente que possua a espcie de coragem de que ele 
prprio carecia. S queria sobreviver e voltar para casa, para uma cama quente com lenis 
limpos, e mulheres louras de pernas bonitas que haviam estudado em Wellesley ou Vassar.
       - Obrigado, j comi.
       - Mmmm - murmurou Sam convincentemente, como se estivesse comendo faiso em 
conserva. - Que cozinha fabulosa, hem? Eu no sabia que a comida era to boa na Itlia.
       - O que h, Walker? - O sargento acabava de passar rastejando por eles, e parou para fitar 
os dois. No tivera ainda problemas com Sam, mas ficava de olho nele. O garoto tinha fogo 
demais para o seu prprio bem, e j arriscara a vida tolamente mais de uma vez. Com Patterson 
eram outros quinhentos. No tinha garra e era instrudo demais. - Est com algum problema?
       - No, sargento. Eu s estava comentando como a comida aqui  boa. Quer um biscoito 
quente?
       Estendeu a lata semivazia enquanto o sargento resmungava.
       - Pare com isso, Walker. Ningum o convidou para c para uma festa.
       - Droga... devo ter entendido mal o convite.
       Sem ligar para as insgnias do sargento ou para sua carranca, riu e terminou de comer, 
enquanto o superior passava por eles sob a chuva contnua e depois olhava por cima do ombro.
       - Vamos seguir caminho amanh, cavalheiros, se  que vocs podem arranjar um tempinho 
nas suas agendas sociais.
       - Faremos o possvel, sargento... todo o possvel...
       Sorrindo a contragosto, o sargento seguiu o seu caminho e Arthur Patterson estremeceu. 
O sargento admirava a capacidade de Sam de rir e de fazer os outros rirem tambm. Era algo de que 
todos pensavam desesperadamente, em especial agora. E ele sabia que tempos mais duros os 
esperavam. Talvez at Walker deixasse de rir.
       - Aquele cara est pegando no meu p desde que cheguei aqui - queixou-se Arthur para 
Sam.
       - Faz parte do charme dele - resmungou Sam, tateando os bolsos atrs de outra guimba, para 
o caso de ter se esquecido de algum e ento, como o presente dos Reis Magos, Arthur tirou do 
bolso um cigarro quase inteiro. - Meu Deus, rapaz, onde arranjou isso? - Seus olhos se arregalaram de 
desejo enquanto Arthur o acendia e o passava para ele. - No vejo tanto fumo desde aquele que tirei 
de um alemo morto na semana passada.
       Arthur estremeceu  ideia, mas imaginou que Sam era capaz daquilo. Era em parte a 
insensibilidade da juventude, e em parte o facto de que tinha coragem. Mesmo sentado 
sossegadamente na trincheira, fazendo piadas infames e falando em Harvard, dava para se sentir isso.
       Eles dormiram encolhidos lado a lado naquela noite e a chuva estiou de manh. Na noite 
seguinte, dormiram num celeiro capturado numa pequena escaramua, e dois dias mais tarde se 
dirigiram para o rio Volturno. Foi uma caminhada brutal que lhes custou mais de uma dzia de 
homens, mas a essa altura Sam e Arthur j se haviam tornado grandes amigos. Foi Sam quem 
literalmente arrastou Arthur e, por fim, at o carregou, quando ele jurou que no podia mais andar. 
Foi Sam quem o salvou de um atirador de tocaia que os teria matado a todos.
       Quando as invases em Nettuno e Anzio falharam, a tarefa de romper as linhas alems em 
Cassino coube  diviso de Sam e Arthur. E desta vez Arthur foi ferido. Acertaram-lhe um tiro no 
brao, e a princpio Sam pensou que o amigo estivesse morto ao se voltar para ele quando ouviu o 
zunido da bala. Arthur jazia com o peito coberto de sangue e os olhos vidrados, enquanto Sam lhe 
rasgava a camisa e descobria que fora atingido no brao. Levou-o para trs das linhas at os 
mdicos e ficou com ele at ter certeza de que estava bem, depois andou de um lado para o outro at 
a ltima retirada, mas foi uma provao deprimente para todos eles.
       Os quatro meses seguintes foram um pesadelo. Cerca de 59 mil homens morreram em 
Anzio. E Sam e Arthur sentiam como se tivessem se arrastado por cada centmetro de lama e neve na 
Itlia enquanto as chuvas continuavam, e eles se dirigiam para o norte, para Roma. Arthur logo 
voltou  ao, e Sam ficou radiante por t-lo por perto de novo. Nas semanas antes de Arthur ser 
baleado, eles haviam criado um elo do qual nenhum dos dois falava, mas que ambos sentiam 
profundamente. Os dois sabiam que era uma amizade que suportaria o teste do tempo. Estavam 
passando pelo inferno juntos e aquilo era algo que nenhum dos dois jamais esqueceria. Significava 
muito mais do Que qualquer coisa no passado deles e, no momento, at mais do que qualquer coisa 
no seu futuro.
       - Como , Patterson? Levante essa bunda da. - Eles estavam descansando num vale ao sul 
de Roma, na marcha contnua para derrotar Mussolini. - O sargento falou que vamos seguir caminho 
daqui a meia hora. - Patterson gemeu, sem se mexer. - Seu babaca preguioso, voc nem teve que lutar 
em Cassino. - Enquanto Arthur se recuperava do ferimento, eles haviam lutado por Cassino, e 
combateram at que a cidade inteira ficasse reduzida a escombros. A fumaa tinha sido to 
espessa que levara vrias horas para se ver que o imenso mosteiro fora totalmente destrudo e 
virtualmente desaparecera sob o bombardeio. Desde ento no houvera grandes batalhas, mas 
sim escaramuas constantes com os italianos e os alemes. Desde 14 de maio, porm, seus 
esforos tinham se acelerado, quando se juntaram ao VII Exrcito para cruzar os rios 
Garigliano e Rpido, e na semana seguinte todos os homens estavam exaustos. Arthur parecia 
capaz de dormir durante uma semana, se Sam permitisse. - Levante, homem, levante! - Sam 
cutucava-o com a bota. - Ou est esperando um convite dos alemes?
       Arthur fitou-o atravs de um olho apertado, desejando poder cochilar mais um 
momento. O ferimento ainda o incomodava de vez emquando e se cansava com mais facilidade 
do que Sam, mas isso tambm acontecia antes de ser baleado. Sam era incansvel, mas Arthur 
dizia a si mesmo que tambm era mais jovem.
       - Cuidado, Walker... voc est comeando a ficar parecido com o sargento.
       - Os cavalheiros esto com algum problema? - O sargento sempre surgia nos momentos 
menos oportunos, e parecia adivinhar quando os homens falavam a seu respeito em termos pouco 
lisonjeiros. Como de hbito, ele se materializou atrs de Sam, e Arthur se ps rpida.mente de 
p com ar culpado. O homem tinha uma queda invulgar para encontr-lo nas situaes menos 
favorveis.
       - Descansando de novo, Patterson?
       - Merda. No conseguia agradar ao sujeito.
       H semanas que estavam marchando, mas, como Sam, o sargento nunca parecia se 
cansar.
       - A guerra est quase acabando. Voc poderia ficar acordado o tempo suficiente para 
ver a gente ganhar. - Sam abriu um sorriso e o sargento irritadio o fitou, mas havia um pacto 
entre os homens, um respeito mtuo que exclua Arthur. Ele o achava um filho da puta perfeito, 
mas sabia que, secretamente, Sam gostava dele. - Voc tambm est pretendendo tirar um 
cochilo, Walker, ou podem ficar de p o tempo suficiente para se juntarem a ns em Roma?
       - Vamos tentar, sargento... vamos tentar.
       Sam sorriu docemente enquanto o sargento gritava por sobre a cabea dele para os 
outros:	
       - Vamos andaaaando!!!
       Ele seguiu adiante para reuni-los, e dali a dez minutos dirigiam-se de novo para o norte. 
Arthur teve a impresso de que nunca pararam at o dia 4 de junho quando, inexprimivelmente 
exausto, ele se viu literalmente cambaleando pela Piazza Venezia, em Roma, sendo 
bombardeado com flores e beijado por italianos eufricos. Ao seu redor havia barulho, risos, 
cantoria e os gritos dos seus prprios homens. Sam, com uma barba de uma semana, gritava 
radiante para ele e para todo mundo:
       - Conseguimos! Conseguimos! Conseguimos!
       Havia lgrimas de alegria nos olhos de Sam, igualadas pelas lgrimas nos olhos das 
mulheres que o beijavam, gordas, magras, velhas, jovens, mulheres de preto e andrajos e de 
avental e sapatos de papelo, mulheres que, numa outra poca, poderiam ter sido belas, mas 
que no o eram mais, depois dos estragos da guerra, s que para Sam todas pareciam belas. 
Uma delas colocou uma imensa flor amarela no cano da arma dele e Sam a abraou por tanto 
tempo e com tanta fora que Arthur ficou encabulado s de olhar.
       Jantaram aquela noite numa das pequenas trattorias que foram abertas para eles, 
juntamente com uma centena de outros soldados e mulheres italianas. Foi um festival de 
emoo, comida e cano, e por algumas horas representou ampla recompensa pelas agonias que 
tinham passado. A lama, a imundcie, a chuva e as neves quase foram esquecidas. Mas no por 
muito tempo. Eles tiveram trs semanas de folia em Roma e depois o sargento os avisou que iam 
embora. Alguns homens ficariam em Roma, mas Sam e Arthur no estavam entre eles. Em vez 
disso, se juntariam ao I Exrcito de Bradley perto de Coutances, na Frana, e durante algum 
tempo eles disseram a si mesmos que no poderia ser uma misso muito difcil. Era incio de 
vero e na Itlia e na Frana a regio rural estava linda, o ar tpido. As mulheres lhes deram 
as boas-vindas, juntamente com alguns tocaieiros alemes.
       O sargento salvou a pele de Sam desta vez, e dois dias mais tarde Sam impediu que o 
peloto inteiro casse numa emboscada. De um modo geral, porm, foi uma movimentao fcil, 
com o exrcito alemo em franca retirada, em meados de agosto. Eles deviam cruzar a Frana, se 
reunir  diviso francesa do general LeClerc e seguir para Paris. Enquanto a notcia corria pelas 
fileiras, Sam comemorava discretamente com Arthur.
       - Paris, Arthur... puta que o pariu! Sempre tive vontade de ir Para l!
       Era como se ele tivesse sido convidado para se hospedar no Ritz e ir  pera e ao 
Folies-Bergre.
       - No fique to esperanoso, Walker. Voc pode no ter notado, mas estamos em 
guerra. Talvez a gente no viva o bastante para ver Paris.
       -  isso que adoro em voc, Arthur. Voc  sempre to otimista e animado!
       Mas nada desanimava Sam. S conseguia pensar na Paris sob a qual lera e com a 
qual sonhara durante anos. Na sua cabea nada mudara, e tudo estaria ali, esperando por ele e 
por Arthur. No falava noutra coisa enquanto marchavam por cidades e aldeias cheias de 
excitamento pelo fim de quatro anos de amarga ocupao. Sam estava obcecado pelo sonho de 
toda uma vida, e at a emoo de Roma ficou esquecida enquanto abriam caminho at Chartres 
nos dois dias seguintes. Os alemes estavam se retirando metodicamente na direo de Pa ris, 
como que conduzindo-os  sua meta e ao que, Arthur estava certo, seria a destruio total.
       - Voc  maluco. Algum j lhe disse isso, Walker? Maluco. Totalmente louco. Voc 
age como se fosse sair de frias.
       Arthur fitava-o, totalmente incrdulo, enquanto Sam tagarelava no intervalo de matar 
alemes. At mesmo esqueceu de revistar os bolsos deles em busca de cigarros, de to excitado 
que estava.
       Nas primeiras horas de 25 de agosto, o sonho de Sam se tornou realidade. E num 
silncio sinistro, com olhos a observ-los de todas as janelas, entraram em Paris. Foi 
totalmente diverso da marcha vitoriosa sobre Roma. Aqui as pessoas estavam amedrontadas, 
cautelosas, saindo devagar das casas e esconderijos, e ento, aos poucos apareceram, e de 
repente houve gritos, abraos e lgrimas, bem parecido com Roma, mas tudo levou mais 
tempo.
       s duas e meia daquela mesma tarde o general von Choltitz se rendeu e Paris foi 
oficialmente libertada plos Aliados, e quando eles marcharam plos Champs-Elyses na parada 
da vitria, quatro dias mais tarde, a 29 de agosto, Sam chorou abertamente enquanto marchava 
com seus camaradas. S de pensar at onde tinham chegado e o quanto haviam realizado, 
libertando a Paris dos seus sonhos, ficava sem flego. E os gritos das pessoas postadas nas 
caladas s faziam com que chorasse mais, enquanto as tropas marchavam do Arco do Triunfo 
at Notre-Dame para uma missa de ao de graas. Sam percebera que jamais se sentira to 
grato por uma coisa na vida como se sentira por ter sobrevivido  guerra at ento, e por ter 
vindo para essa cidade admirvel a fim de trazer a liberdade ao seu povo.
       Depois da missa em Notre-Dame, Arthur e Sam, profundamente emocionados, 
deixaram a catedral e desceram lentamente a rue d'Arcole. Estavam livres pelo resto da tarde, e 
por um momento Sam nem pde pensar no que desejava fazer; queria apenas andar, absorver 
tudo aquilo e sorrir para o povo. Pararam para um caf num minsculo bistr de esquina, 
receberam uma pequena xcara fumegante da chicria que todos bebiam e um prato de 
biscoitinhos das mos da mulher do proprietrio, que os beijou em ambas as faces. Quando 
chegou a hora de partirem ela no permitiu que pagassem, embora insistissem. Arthur falava 
um pouco de francs, e Sam pde apenas gesticular em agradecimento e beijar a mulher de 
novo. Eles sabiam muito bem que a comida andava escassa, e o presente dos biscoitos era 
como barras de ouro oferecidas a um estranho.
       Sam estava mudo de assombro quando deixaram o bistr. Talvez a guerra no tivesse 
sido to ruim, afinal de contas. Talvez tudo tivesse valido a pena. Ele tinha 22 anos e sentia como 
se tivesse conquistado o mundo, ou pelo menos a nica parte que importava. Arthur sorria para 
ele enquanto caminhavam. Por alguma razo, Roma o emocionara mais. Talvez porque tivesse 
passado algum tempo ali antes da guerra e Roma fosse um lugar especial para ele, tal como Paris 
parecia ser para Sam, muito embora nunca tivesse estado ali.
       - Eu no quero ir para casa, sabia, Patterson? Parece doideira, no ?
       Enquanto falava, reparou numa jovem que caminhava  frente deles, e ficou distrado 
quando Arthur respondeu. A moa tinha cabelos ruivos flamejantes presos num coque, e trajava 
um vestido de crepe azul-marinho que estava lustroso de to velho, mas que deixava ver todas as 
curvas generosas do seu corpo. Inclinava a cabea orgulhosamente, como se no devesse nada a 
ningum - sobrevivera aos alemes e no devia agradecimentos, nem mesmo aos Aliados que 
haviam libertado Paris. Tudo que sentia era manifestado pelo seu porte, e Sam fitou as suas 
pernas bem torneadas e o bamboleio dos seus quadris enquanto a acompanhava rua abaixo, a 
conversa com Arthur encerrada.
       -... no acha? - perguntou Arthur.
       - O qu?
       Sam no conseguia se concentrar no que o amigo dizia. S tinha olhos para o cabelo 
ruivo e os ombros esguios, e o modo orgulhoso como ela caminhava. Ela parou na esquina e 
depois cruzou a ponte sobre o Sena e dobrou no Quai de Montebello, enquanto Sam a seguia, 
inconscientemente.
       - Aonde est indo?
       - Ainda no sei.
       A sua voz era intensa, os olhos azuis srios, como que se algo terrvel fosse acontecer 
caso a perdesse de vista por um momento.
       - O que est fazendo?
       - Ha? - Ele olhou para Arthur por um breve instante e depois estugou o passo, como 
que apavorado de perder a moa. E ento, de repente, Arthur tambm a viu. Olhou-a bem a 
tempo de ver o seu rosto voltado para eles, como se tivesse subitamente pressentido a presena 
deles atrs de si. Tinha um rosto de camafeu, com pele branca e cremosa, feies delicadas e 
imensos olhos verdes que fitaram um de cada vez, e seu olhar pareceu se deter em Sam, como 
que advertindo-o para manter distncia.
       Ele ficou paralisado por no falar francs e pelo olhar arrasador que ela lhe lanara, 
mas quando ela recomeou a caminhar, ele a seguiu com determinao ainda maior.	
       - J viu um rosto como aquele? - perguntou a Arthur, sem olhar para ele. -  a mulher 
mais linda que j vi.
       Ela possua uma aura que chamava facilmente a ateno, alm duma fora que dava 
para se sentir mesmo  distncia. No era momento de ficar jogando flores para as tropas 
aliadas, ou pronta a abraar o soldado mais prximo. Era uma mulher que sobrevivera  
guerra e no pretendia agradecer a ningum por isso.
       -  uma moa bonita - concordou Arthur, percebendo a inadequao das prprias 
palavras, mas se sentindo um pouco encabulado pela perseguio obstinada de Sam. - Mas no 
acho que esteja muito satisfeita por estarmos seguindo-a.
       Era bvio que aquilo era minimizar a realidade.
       - Diga alguma coisa para ela. 
       Sam estava completamente hipnotizado pela jovem,  medida que a distncia entre eles 
diminua.
       - Est maluco? No foi exactamente um olhar amistoso o que nos lanou, ainda h 
pouco.
       E os dois ficaram vendo quando ela desapareceu dentro de uma loja, enquanto eles 
permaneciam na calada, impotentes.
       - E agora?
       Arthur parecia embaraado por estar perseguindo uma mulher numa rua de Paris. 
Libertao ou no, parecia uma coisa constrangedora para se estar fazendo, e ele no estava 
gostando.	,
       - Vamos esperar por ela. Vamos convid-la para tomar um caf.
       Desejou de repente ter guardado o prato de biscoitinhos. Ela estava muito magra. 
Provavelmente h anos que no via nada. Tudo o que ele fizera fora se arrastar de barriga pela 
frica do Norte e a Itlia, e marchar pela Frana de joelhos. Que diabo, o que era isso em 
comparao com sobreviver  ocupao nazista, especialmente sendo mulher? De repente, 
desejou salv-la de tudo o que j lhe havia acontecido, e de qualquer coisa que pudesse acontecer 
agora, com milhares de soldados aliados correndo enlouquecidos por Paris. Ela saiu da loja 
carregando dois ovos numa cesta e uma bisnaga. Olhou-os com irritao evidente ao v-los 
esperando do lado de fora por ela. Seus olhos chamejavam quando falou algo directamente a 
Sam, que ele no entendeu. Ele se voltou rapidamente para Arthur.
       - O que foi que ela disse?
       Era bvio que no fora uma coisa simptica, mas nem mesmo isso importava agora. 
Pelo menos falara com eles, e havia um leve rubor nas faces de Arthur quando olhou para Sam, 
irritado. Isso no era do feitio dele. Ele se comportara bem em Roma e em todos os outros 
lugares por onde tinham passado, com exceo de alguns belisces e abraos e beijos, mas esse 
comportamento era novo, e Arthur no estava gostando.
       - Disse que se dermos um passo na sua direo, ir at o nosso comandante e far com 
que sejamos presos. E francamente, Walker, acho que est falando srio.
       - Diga a ela que voc  um general. - Sam abriu um sorriso, parecendo recobrar um 
pouco da sua pose e bom humor, enquanto o desespero o abandonava. - Puxa... diga que estou 
apaixonado por ela.
       - Devo oferecer-lhe um chocolate e meias de seda, para no perder o embalo? Pelo amor 
de Deus, Sam, crie juzo e deixe a moa em paz. - Ela entrava em outra loja naquele momento, e 
ficou evidente que Sam no pretendia ir embora. - Vamos... - Arthur tentou induzi-lo a partir, mas 
em vo. Ela saiu da loja enquanto eles ainda discutiam, e agora se aproximou directamente 
dos dois, ficando to perto Que Sam pensou que ia desmaiar. A pele da moa era to cremosa 
que ele teve vontade de estender a mo e tocar-lhe o brao, enquanto ela se enfurecia no seu 
ingls muito limitado.
       - Saiam! Voltem! Vo embora! - ela falou, mas a despeito da escolha estranha de 
palavras, os dois entenderam o que queria dizer, parecia que ia esbofete-los, especialmente 
Arthur, como se esperasse que ele fosse o mais sensato e tomasse alguma providncia quanto a 
Sam. - C'est compris?
       - No... - Sam imediatamente comeou a conversar freneticamente com ela. - No 
compris... no falo francs... sou americano.. Meu nome  Sam Walker e este  Arthur Patterson. S 
queramos dizer al e... Ele lhe lanou o seu sorriso mais cativante e algo nos olhos deu estava mais 
zangado e magoado do que Sam jamais poderia compreender, do que ele jamais sentira ou 
experimentara, e a sentiu uma pena imensa dela.
       - Non! - Ela agitou os braos. - Merde! Voil! C'est conpris?
       - Merde? - Sam ficou perdido e se virou para Arthur buscando a traduo. - O que  
"merde"!
       - Quer dizer merda.
       - Que simptico. - Sam sorriu como se ela os tivesse convidado para tomar ch. - Quer 
tomar um cafezinho conosco... un caf? - Ele ainda sorria para ela enquanto falava com Arthur. - 
Puxa, Peterson, como  que a convido para tomar um caf? Diga alguma coisa, por favor!
       - Je m'excuse... - disse ele, em tom de desculpas, tentando se lembrar do seu francs de 
escola, a maior parte do qual parecia ter-| escapado diante dessa francesa de aparncia incrvel. Sam 
tinha razo. Ela era a moa mais bela que j vira. - Je regrette... mon ami est trs excite... voulez-
vous un caf? - disse ele, sem graa no fim, subitamente tambm no querendo deix-la partir. A 
reao dela foi de ultraje imediato.
       - Quel sacr culot... bande de salopards... allez-vous faire... 
       E ento, com lgrimas nos olhos, ela sacudiu de repente a cabea e passou rapidamente por 
eles, voltando por onde viera, de cabea baixa, mas com os ombros to orgulhosos quanto antes, 
caminhando mais depressa com sapatos que eles podiam ver que eram bem gastos e grandes demais 
para ela, como o vestido azul-escuro que parecia pertencia  sua me.
       - O que foi que ela disse, Arthur? 
       Sam j estava partindo atrs dela, tendo de passar entre um bando de soldados que parecia 
ter brotado do nada.
       - Acho que estava prestes a nos mandar para o inferno, no percebi o resto. Acho que era 
argot.
       - O que  isso? Um dialecto?
       Sam pareceu instantaneamente preocupado. O francs j era bastante complicado sem ter 
que se preocupar com dialectos, mas ele estava mais interessado em no perd-la no meio da 
multido.
       -  a gria de Paris. - Ela tinha se metido numa rua curta, a rue ds Grands-Degrs, 
parado subitamente diante de uma porta e depois desaparecido, batendo a porta com fora s suas 
costas, enquanto Sam parava e suspirava com um sorriso vitorioso. - Por que est com essa cara 
to satisfeita? - indagou Arthur. 
       - Agora sabemos onde ela mora. O resto seria fcil.
       - Como sabe que no est fazendo uma visita?
       Arthur estava fascinado pela intensidade da paixo de Sam. Ele prprio nunca sentira 
algo parecido, mas tambm nunca vira ningum como ela. Era verdadeiramente linda.
       - Ela vai sair mais cedo ou mais tarde. Vai ter de sair.
       - E voc pretende ficar aqui e esperar por ela o dia todo? Walker, voc  maluco! - Arthur 
sacudiu a cabea, desalentado. No pretendia passar todo o seu tempo em Paris fazendo hora diante 
da porta de uma garota... uma garota que evidentemente no queria falar com ele, quando havia mil 
outras que ficariam encantadas em lhes demonstrar todo o tipo de gratido e paixo. - Eu no vou 
ficar aqui parado o dia todo, pelo amor de Deus... se voc pensa...
       Sam no se abalou.
       - Ento pode ir. Encontro com voc mais tarde. Naquele lugar onde tomamos caf.
       - E vai ficar aqui esperando?
       - Acertou.
       Ele acendeu um cigarro e se encostou todo feliz na parede do que imaginava ser o prdio 
dela. Estava pensando em entrar, mas isso podia esperar. Presumivelmente ela tornaria a sair - teria 
que sair - e ele tinha toda a inteno de esperar.
       Arthur ficou de p na calada, furioso, tentando convenc-lo a fazer algo de mais 
construtivo com o seu tempo, mas de nada adiantou. Sam no tinha a menor inteno de ir embora. 
E, com irritao total, Arthur desistiu e resolveu esperar junto com ele, em parte porque no queria 
deixar Sam e em parte porque tambm a achara fascinante. Ela saiu em menos de uma hora, 
carregando uns livros numa sacola. O seu cabelo agora estava solto, e parecia mais linda do que 
h uma hora atrs. Ela os viu imediatamente logo que saiu de casa, comeou a recuar por um 
momento, depois mudou de ideia. De cabea erguida ela passou por eles, e ento Sam lhe tocou muito 
suavemente no brao para chamar sua ateno. A princpio pareceu que ela ia ignor-lo, mas 
depois parou, os olhos verdes chamejantes, e olhou para ele. O olhar que lhe lanou foi 
significativo, mas ela tambm parecia entender que no fazia sentido tentar dizer alguma coisa 
porque ele no compreenderia e, o que era pior, no queria compreender.
       - Gostaria de ir comer alguma coisa conosco, mademoiselle? - Ele fez o gesto de comer e 
seus olhos no deixaram de fit-la. Havia algo de muito insinuante no jeito como olhava para ela, 
como se quisesse que compreendesse que no ia machuc-la nem se aproveitar dela. S queria olhar 
para ela... v-la... e talvez at estender a mo e toc-la. - Oui?
       Parecia esperanoso, como um garotinho, e ela sacudiu a cabea.
       - Non. Okay? - O seu sotaque francs nessa nica palavra era encantador e ele sorriu 
enquanto Arthur observava o dilogo, sem conseguir se manifestar no seu francs limitado. Havia 
algo na moa que o deixava sem fala. - No...
       Ela repetiu o gesto que Sam fizera para indicar comer e sacudiu a cabea.
       - Por qu? - Ele se esforou para encontrar a palavra em francs. - Pourquoi? - Lanou um 
sbito olhar de pnico  mo dela. Talvez fosse casada. Quem sabe o marido dela ia mat-lo? Mas 
no havia nenhuma aliana. Ela parecia muito jovem, mas tambm ser viva.
       - Parce que - disse ela lentamente, se perguntando se ele compreenderia, mas quase certa 
de que no - je ne veux pas. 
       Arthur traduziu, num sussurro.
       - Ela disse que no quer.
       - Por qu? - Sam parecia magoado. - Somos bons sujeitos. S almoo... comida. - Repetiu 
o gesto de comer. - Caf... okay?... Cinco minutos? - Ele mostrou cinco dedos de uma das mos. - Ok
       Ele ergueu as duas mos, com as palmas para cima, num gesto de impotncia e paz, e ela 
pareceu subitamente exausta enquanto sacudia a cabea. Parecia ter enfrentado anos disto, anos 
de soldados perturbando-a, de estranhos na sua ptria.
       - Nada de alemo... nada de americano... no... nada de caf... no... - Ela repetiu o gesto 
familiar de comer.
       Sam juntou as mos em sinal de splica, e por um momento pareceu que ia cair no choro. 
Mas pelo menos ela ainda estava parada ali, ouvindo-o. Ele apontou para si mesmo e para Arthur.
       - frica do Norte... Itlia... agora Frana... - Fingiu atirar, imitou o brao ferido de 
Arthur e olhou para ela, implorando. - Um caf... cinco minutos... por favor...
       Ela parecia quase lamentar desta vez, quando sacudiu a cabea e depois comeou a se 
afastar.
       - Non... je regrette...
       E ento ela se afastou rapidamente enquanto eles ficavam olhando. Nem mesmo Sam quis 
segui-la desta vez. No fazia sentido. Mas quando Arthur comeou a se afastar, Sam no o 
acompanhou.
       - Vamos, rapaz, ela foi embora e no quer ver a gente. 
       - No me importo. - Parecia um garoto de escola desapontado. - Quem sabe ela vai 
mudar de ideia quando voltar?
       - A nica coisa que vai ser diferente  que dessa vez ela pode chamar o pai e sete irmos 
para nos quebrarem os dentes. Ela disse no e falava srio, no vamos desperdiar o dia todo 
parados aqui. H um milho de outras mulheres em Paris, morrendo de vontade de demonstrar a 
sua gratido para os heris libertadores.
       - Estou pouco ligando. - Sam no se mexia. - Esta moa  diferente.
       - Pode apostar que . - Arthur estava comeando a ficar zangado. Muito zangado. - Ela nos 
mandou plantar batatas. E eu, pessoalmente, pretendo no incomod-la mais, no importa o quanto 
suas pernas sejam bonitas. Voc vem ou no?
       Sam hesitou por um momento e depois o acompanhou, mas com pesar evidente. E onde 
quer que fossem naquele dia, s conseguia pensar na bela moa da rue d'Arcole com os olhos verdes 
cheios de fogo e tristeza. Havia algo nela que o atormentava e, depois do jantar naquela noite, ele 
deixou Arthur  mesa com trs moas e se afastou discretamente para caminhar devagar pela rua 
dela, s para ficar perto dela. Era uma coisa maluca, e ele mesmo se dava conta disso, mas nada 
podia fazer. Queria v-la mais uma vez, mesmo que fosse s de longe. No era s pela beleza dela, havia 
algo mais. Algo que no conseguia definir ou compreender, mas queria conhec-la... ou pelo menos 
v-la. Tinha de faz-lo.
       Parou num pequeno caf do outro lado da rua e pediu uma xcara de caf amargo que todos 
tomavam puro e sem acar. Ficou fitando a porta da moa e depois observou espantado sua 
chegada, caminhando pela rua com a sacola ainda cheia de livros. Ela se dirigiu at os degraus da 
casa e parou ali por um momento, procurando uma chave na bolsa e olhando por sobre o ombro, 
como que para se certificar de que ningum a seguia. Sam se ergueu de um salto, largou um 
punhado de moedas na mesa e atravessou a rua correndo. Ela ergueu os olhos, espantada. Parecia 
que ia fugir, mas depois ficou no mesmo lugar, desafiadora. Na Paris ocupada ela se defrontara 
com homens piores do que Sam, e parecia pronta para enfrentar mais um. Mas agora seus olhos 
estavam mais cansados do que irados quando se voltou para ele.
       - Bonjour, mademoiselle. 
       Ele agora parecia meio encabulado e ela sacudiu a cabea, como uma me ralhando com 
um garotinho.
       - Pourquoi vous me poursuivez? - Ele no tinha ideia do que ela dissera, e desta vez no 
podia se apoiar em Arthur, mas ela falava mais ingls do que ele imaginara anteriormente. Ela 
repetiu a pergunta na sua voz suave e rouca. - Por que faz isto?
       - Quero falar com voc.
       Ele falou suavemente, como que acariciando os braos graciosos que se arrepiavam de 
leve ao ar fresco da noite. Ela no usava suter, apenas o feio vestido azul.
       Ela fez um aceno vago na direo das pessoas na rua, como as estivesse oferecendo.
       - Muitas moas em Paris... felizes falar americanos. - Os olhos dela ficaram duros. - Felizes 
falar alemes, felizes falar americanos...
       Ele a compreendeu.
       - E voc fala apenas com franceses? 
       Ela sorriu e deu de ombros.
       - Povo francs tambm fala alemes... americanos...
       Ela teve vontade de lhe contar como a Frana se atraioara, como fora horrvel, mas no 
conseguiria faz-lo com o pouco ingls que sabia e, afinal de contas, ele no passava de um 
desconhecido.
       - Como se chama? Eu me chamo Sam. 
       Ela hesitou por muito tempo, achando que ele no precisava saber, e depois deu de 
ombros, como se estivesse falando consigo mesma.
       - Solange Bertrand. - Mas no estendeu a mo para cumpriment-lo. - Voc vai? - 
Olhou esperanosa para ele e ele indicou o caf do outro lado da rua.
       - Uma xcara de caf e depois eu vou. Por favor? 
       Por um instante pensou que ela ia ficar zangada de novo, e ento seus ombros relaxaram 
pela primeira vez e ela pareceu hesitar.
       - Je suis trs fatigue. - Apontou para os livros. Ele sabia que ela no podia estar 
frequentando a escola. Tudo estava parado.
       - Voc costuma ir  escola?
       - Ensinando... garotinho em casa... muito doente... tuberculose.
       Ele anuiu. Tudo nela parecia nobre.
       - No est com fome?
       Ela pareceu no entender e ele repetiu o gesto de comer. Dessa ela riu, exibindo belos 
dentes e um sorriso que fez o corao dele dar cambalhotas.
       - D'accord... d'accord... - Ela ergueu a mo espalmada. - Cinq minutes... cinco minutos!
       - Voc vai ter que beber depressa, e o caf deles  bem quente... 
       Ele sentia como se estivesse voando enquanto tomava a sacola das mos dela e a conduzia 
para o caf do outro lado da rua. O proprietrio a cumprimentou como se a conhecesse, e parecia 
interessado no facto de que ela estava ali com um soldado americano. Ela o chamou de Julien e 
conversaram por um momento antes que ela pedisse uma xcara de ch. Mas Solange se recusou a 
pedir qualquer coisa para comer at que Sam pediu para ela. Pediu um pouco de queijo e po e, 
mesmo a contragosto, ela os devorou. Ento ele notou pela primeira vez como era magra, vista 
assim de perto. Os ombros orgulhosos eram em sua maioria ossos, e tinha dedos longos e graciosos. 
Sorvia o ch quente com cuidado e parecia grata pelo lquido fumegante.
       - Por que faz isto? - perguntou ela depois de sorver o ch. Sacudiu a cabea devagar. - Je 
ne comprends ps.
       Ele no conseguiu explicar por que se sentia to compelido a falar com ela; s sabia que, 
no momento em que a vira, sentira que tinha de faz-lo.
       - No tenho certeza. - Ficou pensativo e ela pareceu no compreender. Ele ergueu as mos 
espalmadas para demonstrar que nem ele mesmo sabia. E ento tentou explicar, tocando o corao 
e depois os olhos. - Senti algo diferente na primeira vez em que a vi.
       Ela pareceu no aprovar e lanou um olhar s outras moas no caf com soldados 
americanos, mas ele logo sacudiu a cabea.
       - No, no... assim no... mais...
       Ele indicou "maior" com as mos, e ela o olhou com ar triste como se no tivesse iluses.
       - a n'existe ps... isso no existe.
       - O que no existe?
       Ela tocou o corao e indicou "maior", como ele o fizera.
       - Perdeu algum na guerra?... - Detestava ter de perguntar. - Seu marido?
       Ela sacudiu a cabea lentamente e ento, sem saber por qu, contou-lhe.
       - Meu pai... meu irmo... os alemes matam eles... minha me morre de tuberculose... 
Meu pai, meu irmo, dans Ia Rsistance.
       - E voc?
       - J'ai soign ma mre... eu... me doente...
       - Voc cuidou da sua me? 
       Ela fez que sim.
       - J'ai eu peur... - Ela fez um aceno de mo, irritada consigo mesma, depois indicou medo 
- de Ia Rsistance... porque minha me ela precisa muito de mim... Meu irmo tinha dezesseis 
anos...
       Os olhos dela se encheram de lgrimas e, sem pensar, Sam estendeu a mo e tocou a de 
Solange e, milagrosamente, ela deixou que fizesse, pelo menos por um instante, antes de retir-la 
para tomar outro gole de ch, o que lhe deu a pausa de que precisava nas emoes do momento.
       - Tem mais famlia? - Ela pareceu no entender. - Mais irmos? Irms? Tias e tios?
       Ela sacudiu a cabea, os olhos srios. H dois anos que estava sozinha. Sozinha contra os 
alemes. Dando aulas para ganhar o suficiente para sobreviver. Muitas vezes pensara na Resistncia 
depois que a me morrera, mas tinha muito medo, e o irmo tivera uma morte to sem sentido... 
No morrera com glria, morrera trado por um dos vizinhos franceses. Todos pareciam 
colaborar e ser traidores. Excepto por um punhado de franceses leais, e estes estavam sendo caados 
e chacinados. Tudo se modificara. E Solange tambm. A garota risonha e efervescente se 
transformara numa mulher reprimida, irada, distante, no entanto, este rapaz conseguira toc-la, e 
ela sabia. O que era pior, estava gostando. Aquilo a fazia sentir-se humana de novo.
       - Quantos anos tem, Solange?
       - Dix-neuf... - Ela pensou por um minuto, tentando achar a palavra certa em ingls. - 
Noventa - falou, e ele riu e sacudiu a cabea.
       - No, acho que no. No sero dezenove? - De repente, percebeu o que tinha dito e riu 
tambm, parecendo jovem de novo e mais bela do que nunca. - Voc est fabulosa, para noventa 
anos.
       - Et vous? - Ela lhe fez a mesma pergunta.
       - Vinte e dois. - De repente era como um dilogo entre um rapaz e uma moa em qualquer 
parte, Excepto que os dois j tinham tanto da vida. Ela em Paris, e ele com a sua baioneta, 
matando alemes.
       - Vous tiez tudiant?...
       Ele fez que sim.
       - Num lugar chamado Harvard, em Boston.
       Ele ainda se orgulhava disso, mesmo agora. Estranhamente, isso ainda parecia importar em 
relao a ela, e ficou duplamente orgulhoso ao notar a luz do reconhecimento em seus olhos.
       - 'Arvard?
       - J ouviu falar?
       - Bien sr... claro!... como a Sorbonne, no?
       - Provavelmente. - Ficou satisfeito por ela conhecer Harvard e trocaram um sorriso. O 
ch, o po e o queijo j tinham acabado h muito, mas ela no parecia mais to ansiosa para ir 
embora. - Posso encontr-la amanh, Solange? Para dar um passeio, quem sabe? Ou almoar?... 
jantar?
       Ele agora percebia como ela tinha fome, e sentiu que era seu dever aliment-la.
       Ela comeou a sacudir a cabea e apontou para os livros na sacola.
       - Depois... ou antes?... por favor... no sei quanto tempo ainda vou passar aqui.
       J se comentava que eles sairiam de Paris e seguiriam para a Alemanha, e ele no conseguia 
suportar a ideia de deix-la. No agora... ainda no... e quem sabe nunca. Era a sua primeira 
paixonite e ele estava totalmente dominado por ela enquanto fitava os olhos verdes que pareciam to 
mais meigos agora, to cheios de sabedoria.
       Ela soltou um suspiro. Ele era persistente. E, mesmo a contragosto, estava gostando dele. 
Durante toda a Ocupao no fizera amizade com um nico alemo, muito menos com um 
soldado, e no via por que a Liberdade devesse ser diferente e, no entanto... no entanto este rapaz 
era diferente. E ela sabia disso.
       - D'accord - falou, com relutncia.
       - No fique to empolgada - brincou ele, e Solange pareceu confusa quando ele sorriu e 
segurou de novo a sua mo. - Obrigado. 
       Levantaram-se lentamente e ele a acompanhou at  porta, do outro lado da rua. Ela lhe deu 
um aperto de mo formal e agradeceu pelo Jantar. E ento, com um som resoluto, a porta pesada se 
fechou atrs dela. Enquanto Sam caminhava lentamente pelas ruas de Paris, sentia como se a sua 
vida inteira tivesse se modificado numas poucas horas. No sabia ao certo como, mas sabia que 
esta mulher... esta moa... essa criatura extraordinria... tinha entrado na sua vida por algum 
motivo.
       
       Captulo 2
       - Onde esteve ontem  noite?
       Arthur bocejou enquanto tomavam o caf da manh no refeitrio do hotel onde 
estavam alojados. Era o Hotel Ideal, na rue Saint-Sebastien, e as tropas estavam sendo 
alojadas em acomodaes semelhantes por toda Paris. Arthur tivera uma noite especialmente 
agradvel, que terminara com vinho em demasia, mas no mulheres em demasia.
       - Jantei com Solange - revelou Sam com naturalidade terminando o seu caf, 
tentando fazer com que parecesse um encontro comum, coisa que ambos sabiam que no era.
       - Quem  ela? Algum que voc encontrou depois que me deixou?
       - Neca. - Sam olhou-o bem nos olhos, com o famoso sorriso cheio de malcia. - 
Lembra-se dela... nos conhecemos ontem na rue d'Arcole... cabelos ruivos, olhos verdes... 
Belas pernas... bamboleio...
       - Est falando srio? - Pareceu aturdido, e depois riu. Era bvio que Sam estava 
brincando. - Por um minuto cheguei a acreditar em voc. Falando srio, onde esteve?
       - J lhe disse. Com Solange.
       E desta vez parecia falar mesmo srio.
       - Walker, no est brincando? Aquela garota? Que diabo, onde a encontrou?
       - Diante da casa dela. Voltei, por via das dvidas, e ela estava voltando para casa. D 
aulas para um garoto tuberculoso.
       - Que diabo, como sabe disso? Ao que me lembre ela s falou francs conosco, e 
argot, ainda por cima. - Arthur parecia aturdido.
       - Fala um pouquinho de ingls. No muito, mas o bastante. Tirando o facto de que 
me disse que tinha noventa anos, nos demos muito bem.
       Deu um sorriso de proprietrio para Arthur. Estava claro que Solange j era a mulher 
dele e, olhando-o, Arthur sentiu uma pontada de arrependimento por no ter insistido. Havia 
algo em Sam, em gente como ele. Costumavam, invariavelmente, ganhar todos os prmios da 
vida.
       - Quantos anos ela tem?
       Estava curioso, agora. Como Sam, queria saber tudo a respeito da moa.
       - Dezenove.
       - E o pai dela no veio atrs de voc com um faco de aougueiro?
       Sam sacudiu a cabea suavemente.
       - O pai e o irmo dela foram mortos plos alemes. A me morreu de tuberculose. 
Est sozinha.
       Arthur parecia impressionado. Eles tinham mesmo conversado.
       - Vai encontrar com ela de novo?
       Sam fez que sim e depois sorriu significativamente para o amigo.
       - Sim, vou, e ela ainda no sabe, Patterson, mas depois da guerra vamos nos casar.
       Arthur quase ficou de queixo cado ao fitar Sam, mas nem se deu ao trabalho de lhe 
dizer que era maluco, pois pressentiu de repente que Sam no estava brincando. 
       Sam e Solange foram jantar juntos naquela noite, e desta vez ela lhe contou como era 
viver em Paris sob o jugo alemo. De um modo sutil, era pior do que aquilo por que ele 
passara, e ela estivera indefesa. Tivera que se virar, evitando ser presa ou torturada ou 
simplesmente violentada pelos alemes que se julgavam donos de Paris e de todas as 
mulheres na cidade. Aps a morte do pai, tivera que sustentar a me. Praticamente no tinham 
comida, e ela dava quase toda a que tinham para a me. Acabaram perdendo o apartamento, e 
a me morreu nos braos dela num quarto alugado, o quarto em que ainda morava estava 
cheio de lembranas feias e fantasmas tristes, mas ela no tinha outro lugar para onde ir agora. 
E depois do que vira durante a guerra no confiava em mais ningum. A traio que o irmo 
sofrera fora o golpe final em quaisquer sentimentos que pudesse ter tido pela Frana ou seus 
compatriotas.
       - Gostaria que algum dia voc viesse para os Estados Unidos - disse ele, como que 
testando, observando-a comer. Ele ficava mandando servir mais e sentia-se gratificado porque 
ela comia.
       Ela deu de ombros em resposta ao convite, como se fosse um sonho impossvel que 
nem valia a pena ter.
       - Muito longe... - Ela fez um gesto e depois explicou em francs - C'est trs loin.
       De todas as maneiras, era o que ela estava pensando. 
       - No  to longe. 
       - E voc? 'Arvard de novo depois da guerra? 
       - Talvez. - Se ainda tivesse importncia. Era difcil imaginar a volta aos estudos. 
Talvez decidisse ser actor, afinal. Ele e Arthur conversavam muito sobre isso,  noite, na 
trincheira. Ali fazia sentido. Mas era difcil saber o que faria sentido depois que voltassem 
para casa. As coisas seriam bem diferentes. - Quero ser actor - falou, para ver a reao dela. 
Pareceu interessada. 
       - Um actor?
       E ento ela meneou a cabea como se aquilo fizesse sentido para ela, e Sam teve 
vontade de beij-la. Sorriu para ela e Solange no soube ao certo por qu; depois pediu uma 
vasilha de frutas para ela, as primeiras que comia em muitos meses e com as quais nem 
sonhava. A generosidade dele a embaraava. No entanto, por outro lado, parecia natural, 
como se fossem velhos amigos. Era difcil imaginar que esta era apenas a segunda vez em que 
jantavam juntos.
       A amizade deles pareceu florescer  medida que davam passeios  margem do Sena e 
paravam em pequenos bistrs e cafs para conversar e comer e, por fim, ficar de mos dadas. 
H dias que Sam mal via Arthur, e quando se encontraram na hora do caf, Sam no gostou 
do que ele tinha a dizer. Patton cruzara o Meuse dois dias aps o desfile da vitria pelos 
Champs-Elyses, e no dia seguinte estava em Metz, s margens do Mosela, a caminho da 
Blgica. Era improvvel que fosse permitir que eles permanecessem em Paris por muito 
tempo mais. E no dia 3 de setembro Bruxelas foi libertada pelos ingleses, e no dia seguinte a 
Anturpia. 
       - Qualquer hora dessas vo nos mandar de volta  luta, Sam, escute o que estou 
dizendo - falou Patterson sombriamente enquanto tomavam caf, e Sam sabia que o amigo 
tinha razo, mas estava desesperado para ficar com Solange agora. E no dia em que Bruxelas 
cara ante os ingleses, ele fora at o quarto dela, tirara com meiguice o velho vestido azul que 
fora da me dela e fizera amor com ela pela primeira vez. E, para seu espanto e encantamento, 
descobrira que ela era virgem. Depois ficara deitada nos braos dele com lgrimas de 
felicidade inundando-lhe as faces enquanto ele a beijava. E Sam ficara ainda mais 
desesperadamente apaixonado por ela.
       - Eu o amo tanto, Sam. A voz dela era rouca e meiga enquanto pronunciava 
cuidadosamente as palavras.
       - Eu tambm, Solange... eu tambm...-  No podia suportar a ideia de deix-la, e 
sabia que ela tambm detestava isso. Parecia to mais dependente dele agora, mais confiante e 
aberta. Duas semanas mais tarde, porm, ele recebeu as suas ordens. Iam seguir para a Frente 
Alem. Havia uma guerra em andamento, afinal, mas pelo menos o fim parecia prximo. 
Todos estavam certos de que, com o resto da Europa libertado, a Alemanha logo cairia - quem 
sabe at antes do Natal, prometeu-lhe ele certa noite, enquanto esculpia seu corpo extico 
com dedos famintos. Ela tinha a pele de um cetim que ele jamais tocara antes, e cabelos que 
lhe desciam pelos ombros e cobriam os seios como um fogo benigno enquanto ele a beijava.
       - Eu te amo, Solange... ah. Deus, como te amo. - Jamais conhecera algum como ela. 
Com certeza no em Boston, ou em outro lugar qualquer desde ento. - Quer se casar comigo 
quando a guerra tiver terminado? - Os olhos dela se encheram de lgrimas quando ele fez o 
pedido, e ela no respondeu. Ele obrigou-a a olhar para ele e as lgrimas foram escorrendo 
pelas suas faces, como se soubesse de algo que ele no sabia. - O que foi, querida?
       Ela mal se podia forar a pronunciar as palavras, e ainda era mais difcil em ingls.
       - Muitas coisas mudam na guerra, Sam... - Ele adorava o jeito com que ela dizia o 
nome dele, adorava o seu jeito de respirar e o seu cheiro. Adorava tudo nela com uma paixo 
que parecia aos cus. Nunca sentira antes qualquer das emoes que ela lhe proporcionava. - 
Voc vai para 'Arvard de novo... aprs... e... - de ombros, impotente - vai esquecer Paris.
       O que ela realmente queria dizer  que ele a esqueceria, e ele a fitou, assombrado.
       - Acha mesmo que eu poderia esquecer? Acha mesmo que isto  uma espcie de 
esporte de soldado? Droga, eu te amo! - Pela primeira vez ela o viu zangado, e Sam fez amor 
com ela, desta vez furiosamente. - Eu te amo. Est entendendo? Isto  que  importante! E, 
quando a guerra acabar, vou levar voc para casa comigo. Voc vai?
       Ela assentiu lentamente, ainda incapaz de crer que ele fosse de facto desej-la quando 
a guerra acabasse... se  que ele sobreviveria a ela. No pde suportar essa ideia. Perdera a 
famlia na guerra e se arriscava agora a perd-lo. Era o bastante para deix-la temerosa de 
am-lo e, no entanto, como ele, no podia deixar de faz-lo. Era uma paixo maior que eles 
dois.
       Sam sentia como se sua alma estivesse sendo arrancada da dela. No dia em que saiu 
de Paris Solange veio se despedir, e estavam ambos mudos e em lgrimas quando ele 
finalmente a deixou. Arthur nunca o vira daquele jeito enquanto as tropas marchavam pela 
Porte Saint-Cloud. Sam teve que se forar a no olhar para trs de novo, ou poderia ter 
desertado. No podia suportar v-la parada ali enquanto se afastava marchando. Ela soluava 
da ltima vez em que a vira.
       Quando chegaram s Ardenas, Sam lutou ainda mais furiosamente do que antes. Era 
como se, quanto mais se esforasse em combate, tanto mais cedo poderia voltar para Solange 
e lev-la para a Amrica. L pelo fim de setembro, porm, o sonho comeou a se desfazer; 
no o sonho de Solange, mas o sonho de ver a guerra terminar at o Natal. Os alemes no 
estavam to enfraquecidos como todos pensaram, e lutavam implacavelmente. Foi s no final 
de outubro que Aachen caiu, devolvendo alguma esperana para Sam e Arthur e seus 
companheiros. Em Arnhem eles no tiveram a mesma sorte, e a essa altura o inverno j tinha 
chegado. Os ventos cortantes e o frio enregelante comearam a lembrar Sam e Arthur do 
inverno anterior passado nas trincheiras italianas.
       De novembro a dezembro eles lutaram em meio ao frio cortante e  neve, e sentiam 
como se no estivessem chegado a parte alguma. Hitler havia acrescentado novas divises 
Panzer e os tanques pareciam continuar a vir interminavelmente. 
       - Cristo, d para acreditar nesta merda? 
       Sam parecia exausto enquanto ele e Arthur se sentavam no escuro certa noite, as 
mos congeladas, os ps entorpecidos, os rostos tinindo de frio, e era a primeira vez que 
Arthur o via to desanimado. S falava em passar o Natal com Solange, e era bem evidente 
para todos eles agora que isso no ia acontecer.
       No dia 16 de dezembro comeou a Batalha do Bolso e durante uma semana inteira 
os alemes surraram os Aliados. Foi s quando os cus clarearam, no dia 23, que os Aliados 
puderam comear a tentar faz-los recuar, e mesmo assim a vitria aliada era incerta. Foi 
ainda mais desalentador saber que, no dia 17 de dezembro, noventa prisioneiros de guerra 
tinham sido mortos plos alemes em Mamedy, num gesto singularmente cruel que violava 
toda a tica da guerra, se  que tal coisa ainda existia.
       E na vspera de Natal Arthur e Sam se sentavam lado a lado numa trincheira cheia de 
neve, tentando se aquecer e partilhando as suas raes.
       - No sei, Patterson... acho que o peru estava melhor no ano passado. Acha que 
devemos procurar um novo cozinheiro?
       Mas, a despeito dessas palavras to tpicas de Sam, os olhos dele estavam vidrados 
de exausto e tinha uma barba de uma semana nas faces magras. Parecia ter envelhecido dez 
anos desde que deixara Paris, talvez porque agora tivesse tanto em jogo. 
       O sargento morrera na travessia das Ardenas, e de repente Sam sentiu saudades 
dele... de Solange... at da irm em Boston, de quem ainda no tivera notcias.
       - O que ser que ela est fazendo em Paris? - Sam falou quase consigo mesmo, 
pensando em Solange, e, se Arthur no estivesse enregelado at os ossos, teria sorrido para 
ele.
       - Pensando em voc, provavelmente. Seu sacana sortudo. 
       Ainda recordava como ela era bonita, e desejou ter sido to insistente quanto Sam. 
Afinal de contas, ele falava francs, mas... isso era bobagem. Ela agora era a garota de Sam.
       - Quer um pouco de bolo de chocolate? - Sam estendeu um pedao de biscoito duro 
como pedra que levava no bolso h uma semana. Arthur recusou com uma careta de nojo. - 
Est esperando pelo sufl? No o culpo.
       - Pare com isso, est me dando fome.
       Mas, na verdade, eles estavam com frio demais para comer, com frio demais, 
cansados demais e assustados demais.
       Os alemes s comearam realmente a recuar dali a dois dias, e a Batalha do Bolso 
por fim acabou. Em maro eles tomaram a ponte em Remagen perto de Bonn, e em abril 
encontraram o IX Exrcito em Lippstadt e depois fizeram 325 mil prisioneiros alemes perto 
do Ruhr, e finalmente parecia que o fim estava chegando. E no dia 25 de abril, em Torgau, 
uniram foras com os russos. Roosevelt morrera duas semanas antes e a notcia deixara todos 
tristes, mas os homens na frente estavam preocupados em vencer e voltar para casa. A Batalha 
de Berlim comeara e, no dia 2 de maio, a capital finalmente caiu. No dia 7 de maio a 
Alemanha se rendeu e Arthur e Sam ficaram se olhando com as lgrimas escorrendo pelas 
faces. Tinha acabado? Era verdade? Da frica do Norte  Itlia,  Frana e agora  
Alemanha... parecia que tinham atravessado metade do mundo, e tinham. Tinham-na 
libertado.
       - Meu Deus, Sam... - sussurrou Arthur, quando ouviram a notcia. - Acabou... no 
acredito.
       Eles se abraaram como os irmos em que tinham se transformado. Sam teve uma 
estranha sensao de nostalgia de que aquele momento jamais voltaria, e um momento mais 
tarde ficou grato por isso. Jogou o capacete para o alto, soltou um berro tremendo, mas no 
era em Artur que estava pensando agora. Era em Solange. Ele ia para casa. E, como lhe 
prometera oito meses antes, ia lev-la.
       
       Captulo 3
       O Exrcito lhe dera uma licena de trs dias antes de mand-lo de volta aos Estados 
Unidos em maio de 1945, e Sam seguira directo para Paris, onde encontrara Solange como a 
tinha deixado. Havia um tal alvio no rosto dela quando o viu que era fcil ver quais eram os 
seus sentimentos, e os trs dias passaram voando, muito mais rpido do que qualquer um dos 
dois poderia sonhar.
       E desta vez ela chorou copiosamente quando ele a deixou na estao para retornar a 
Berlim, e dali para os Estados Unidos para dar baixa. Ele pensara em casar com Solange antes 
de deixar Paris, mas havia muita burocracia envolvida, e seria mais fcil casar com ela 
nos Estados Unidos. Prometera mandar busc-la at o final do vero. Mas precisava primeiro 
ganhar algum dinheiro. J decidira no voltar para Harvard, e queria tentar a sorte como actor. 
Mas estava disposto a fazer qualquer coisa para ganhar o necessrio para pagar a passagem de 
Solange. Ia mandar que ela viesse para os Estados Unidos como turista, e se casaria com ela 
no minuto em que chegasse. Mal podia pensar na ideia dos meses que o esperavam sem ela.
       Em Nova York, Arthur convencera Sam a ir morar com ele at que arranjasse um 
apartamento, e Sam s conseguia pensar em se instalar direito.
       - No chore, meu bem. Prometo... o mais tardar em setembro.
       Aquilo lhe dava quatro meses para organizar tudo e ter dinheiro Suficiente para 
sustenta-la. Estava com 23 anos, sobrevivera  guerra e era o dono do mundo agora.
       - Eu te amo, Sam! - ela gritou enquanto o trem se afastava, e ficou acenando at ele 
sumir de vista.
       - Que garota engraadinha a sua, soldado - comentou um sargento, cheio de 
admirao, enquanto se acomodavam no trem. Sam apenas assentiu. No tinha vontade de 
falar sobre Solange com ningum, e no gostava especialmente dos constantes olhares de 
admirao dos outros soldados. Ela era uma bela jovem, porm era mais que isto. Era dele, 
agora.
       O trem entrou na Estao de Berlim  meia-noite, e Sam voltou para seu alojamento 
a fim de procurar Arthur. Este ficara ocupado com as moas alems, e parecia ter uma 
preferncia declarada por louras altas. Estava no stimo cu na Alemanha, e Sam implicava 
com ele constantemente. Mas quando chegou, naquela noite, Arthur no estava. Sam foi para 
a cama, a cabea cheia de pensamentos sobre a futura esposa e a vida que teriam em Nova 
York. E, antes que se desse conta, eram oito horas da manh seguinte. Deixou a Alemanha 
dali a dois dias, com Arthur programando para regressar dentro de duas semanas.
       Sam voou at Fort Dix, Nova Jersey, para dar baixa, e tomou o trem para Nova York. 
Quando saltou do trem em Penin Station foi como se tivesse pousado na lua. Aps trs anos 
na Europa, lutando na imundcie e na lama e na chuva e na neve, parecia incrvel estar em 
casa e ver as pessoas levando vidas normais. No conseguia se adaptar a nada daquilo, nem ao 
hotelzinho em que se hospedara no West e sentia uma falta desesperada de Arthur e Solange 
enquanto ia percorrendo agentes e escolas de teatro, e procurando empregos para sobreviver 
nesse meio-tempo.
       O Exrcito lhe dera 154 dlares ao dar baixa, e seus fundos estavam acabando 
rapidamente. Foi um enorme alvio quando Arthur voltou para casa dali a duas semanas, e 
Sam pode se mudar para a casa dele e da me. No desejara incomod-la antes. Mas era uma 
alegria estar com ele de novo, no apenas por causa do dinheiro que estava economizando, 
mas porque, finalmente, tinha algum com quem conversar. Conversavam durante horas no 
quarto que partilhavam, como dois garotos. Embora a me de Arthur vivesse se queixando 
que no podia ouvi-los e ostentasse um ar de reprovao quando se dirigia a Sam, o que no 
era frequente. Era como se a guerra tivesse sido culpa de Sam, e as risadas deles e histrias 
lembradas s ajudavam a provar que eles tinham estado se divertindo, e que ficaram ausentes 
s para lhe causar angstia. Ela parecia encarar Sam como um lembrete constante e infeliz de 
uma poca difcil, e foi um alvio quando Arthur decidiu morar sozinho e deixou Sam ficar na 
sua casa. A essa altura, Sam arranjara um emprego como garom na P.J. Clarke's da 
Terceira Avenida, e se matriculara numa escola de teatro na rua 39, mas no recebera oferta 
de nenhum papel. J comeava a se perguntar se era tudo um sonho sem esperanas quando 
algum finalmente quis contrat-lo para uma pea off-Broadway. Fez o teste e no conseguiu 
o papel, mas  se sentia um pouco mais perto do que antes, e sabia onde errara. Discutiu o 
assunto com o seu professor de teatro e, quando fez um teste pela segunda vez, no final de 
julho, conseguiu um papel sem falas em outra pea off-Broadway. Escreveu para Solange 
contando, e era como se fosse uma grande vitria. Mas foi muito mais emocionante 
para ambos quando, em setembro, ele finalmente lhe mandou dinheiro suficiente para a 
viagem. O dinheiro era a conta para a passagem e para comprar umas roupinhas, e ele lhe 
explicara longamente que iriam viver do salrio dele como garom e das gorjetas, e que as 
coisas seriam difceis por um bom tempo. Mas ele no tinha dvidas de que a queria ao seu 
lado.
       Ela chegou no dia 26 de setembro, classe turstica, no De Grasse, que ainda era o 
nico navio que partia do Havre desde o termino da guerra. E Sam ficou olhando para os 
tombadilhos com o par de binculos que Arthur lhe dera. Vasculhou cada rosto que enxergava 
e por um momento entrou em pnico, temendo que ela no tivesse feito a viagem... e ento, 
num convs inferior, viu um vestido branco e um chapeuzinho branco, e por baixo dele o 
cabelo ruivo que tanto amava e o rosto pelo qual ansiava. Acenou freneticamente, mas havia 
gente demais no cais e sabia que ela no o havia visto.
       Solange levou horas para passar pela alfndega, enquanto ele esperava com 
impacincia. Era um dia de sol claro e fazia calor no cais, com uma leve brisa. Um dia 
perfeito para ela vir para ele. Ento ela ficou livre e voou para os braos dele, o chapu 
enviesado e as lgrimas escorrendo pelas faces enquanto ele a beijava e abraava com fora e 
chorava tambm. Era o momento que desejara to desesperadamente. Sam ria de alivio e 
alegria e a beijava.
       - Ah, Deus, Solange, como te amo! 
       Era uma paixo que quase transcendia a razo ou as medidas. No suportava se 
afastar dela, a ponto de perder a maior parte das aulas de teatro logo aps sua chegada. Mal 
aguentava ir trabalhar todos os dias as cinco horas. Achara um minsculo conjugado para eles 
no permetro das ruas 40, sob o metro de superfcie, e todas as tardes, no importava o frio 
que fizesse, ela caminhava com ele at o trabalho.
       E s duas e meia, quando voltava para casa, Sam trazia comida e a encontrava ainda 
esperando-o. Comiam depois de fazer amor, s vezes s quatro da manh. Por fim, na poca 
do Natal, ela insistiu que Sam devia comear a levar a sua carreira a srio, a pensar seriamente 
no teatro. Aquilo ainda lhe parecia um sonho remoto e Solange se mostrava bem mais realista, 
porm sabia que estava certa. s vezes acompanhava Sam s aulas de teatro e ficava 
impressionada com o talento dele, assim como ficavam todos na classe. Mas o professor era 
impiedoso e exigia cada vez mais. Na parte da manh ele lia peas e vasculhava os jornais em 
busca de papis.
       Viam Arthur de vez em quando, porm com menos frequncia do que Sam gostaria. 
Era difcil porque Sam trabalhava  noite, e agora Arthur tinha uma namorada firme. Uma 
moa que se formara em Vassar antes da guerra, com uma voz anasalada e cabelos louros 
macios que usava no estilo pajem. No se encantara particularmente por Sam, e sempre 
parecia procurar a chance de mencionar que Sam era um "garom". Ainda mais, deixava 
evidente para todos que detestava Solange, para grande embarao de Arthur. E, quando 
estavam a ss, sempre se referia a Sam e Solange como "os ciganos". Chamava-se Marjorie, e 
no se emocionava com as histrias de guerra que Arthur contava, ou com o facto de que 
Solange sobrevivera  ocupao da Frana e que perdera toda a sua famlia. Ela passara a 
guerra trabalhando como voluntria para a Cruz Vermelha e a Junior League, o que 
considerava certamente bem mais nobre. E era bvio que, aos 28 anos, estava receosa de 
nunca se casar. Havia muitas moas como ela depois da guerra, moas que teriam se casado 
anos antes se todos os melhores homens no estivessem alm-mar, como elas alegavam. E ela 
se esforava para Arthur mudar o seu estado civil. Mas Arthur tinha seus prprios problemas. 
A me no andava passando bem, confidenciara a Sam, e ficava preocupada em pensar nele se 
casando com Marjorie. Ele estava trabalhando na sua antiga firma de advocacia e se saindo 
bem, mas receava enervar a sua me, que achava que ele devia encontrar algum mais jovem - 
ou diferente - ou no encontrar ningum. Sam a a observava bem quando se hospedara com 
eles, e tinha pena de Arthur, das presses que permitia que todos exercessem sobre ele. A 
me queria solt-lo e queria viver indirectamente atravs dele. E via todas as mulheres na vida 
do filho, e at mesmo os seus amigos, como correntes. Queria Arthur para si e tentava faz-lo 
sentir-se culpado cada momento que no passava com ela.
       - Il manque de courage - dissera Solange sem rodeios sobre Arthur aps ter chegado 
aos Estados Unidos, agitando as mos enquanto conversavam certa noite, depois de um jantar 
s trs da madrugada. - Ele no tem... fibra... - Parecia vitoriosa ao encontrar a palavra certa. - 
No tem nimo... no tem... coragem.
       - Tem muito nimo, Solange. S que no  enrgico como devia ser.
       E a me o agarrava como um torno, mas isto Sam no disse.
       - Voil. - Ela concordou. - No tem coragem. Devia se casar com Marjorie, se quiser, 
ou dizer au revoir ou, quem sabe - falou maliciosamente -, devia bater nela. - Sam achara 
graa na ideia, mas no podia discordar dela. - E devia dizer para a me... merde! Sam riu 
ainda mais com essa. Eles se davam esplendidamente, dentro e fora da cama. Partilhavam a 
maioria dos pontos de vista e Solange tinha um corao de ouro, era dedicadssima a ele; e at 
mesmo gostava de Arthur, o que significava muito para Sam. Arthur fora o padrinho do 
casamento deles, realizado no civil trs dias depois da chegada no De Grasse, e cuidara de 
toda a documentao de Solange. Ela o chamava de "grand frre", irmo mais velho, e olhava 
para ele carinhosamente com seus imensos olhos verdes, e o rapaz sempre parecia disposto a 
morrer de bom grado por ela.
       No final das contas, porm, Marjorie conseguiu seu objetivo, e na primavera de 1946 
eles se casaram em Filadlfia, sua terra natal.
       Aos olhos de Sam, Arthur trocara uma mulher difcil por outra. Mas nada comentou. 
A me de Arthur estava doente demais para comparecer, alegando que seu corao 
simplesmente no era forte o bastante para lhe permitir viajar. Preferira ficar em casa 
seguindo os conselhos mdicos. Solange e Sam tambm no foram, mas no caso deles era 
porque no tinham sido convidados. Arthur explicara interminavelmente que era um 
casamento simples, restrito  famlia, aos amigos mais chegados de Marjorie. E era longe 
demais... complicado demais... eles no teriam gostado... ele dissertava todas as vezes em que 
via Sam, mas Solange leu o comunicado nos jornais. Era um casamento para quinhentos 
convidados na St. Peter's Episcopal Church em Filadlfia, com uma recepo no Philadelphia 
Club. Arthur tambm vira o comunicado e rezava para que os Walkers no o tivessem visto.
       - No foi nada simptico da parte dele, Sam.
       Solange estava magoada e desapontada por Sam, mas este parecia 
surpreendentemente compreensivo.
       -  culpa de Marjorie, no dele.
       - Quand mme... - Mesmo assim... isso s confirmava o que dissera anteriormente. 
Arthur no tinha fibra e Sam, desconfiava Marjorie iria atrapalhar seriamente a amizade deles.
       O tempo no provou que estava errado. Ele e Arthur se encontravam para almoar, s 
vezes com Solange, mas esses encontros no incluam a mulher de Arthur, que havia 
anunciado, agora que estava de aliana na mo esquerda, que queria cursar a faculdade de 
Direito, que pretendia ter filhos bem mais tarde. Arthur ainda se recuperava do golpe. 
Desejara ter filhos o mais cedo possvel, e Marjorie alimentara essas esperanas durante todo 
o perodo de namoro e noivado. 
       Mas Sam e Solange tinham o bastante para preencher suas prprias vidas, sem se 
preocupar com Arthur e Marjorie. Solange estava totalmente envolvida com Sam, noite e dia, 
e vivia encorajando-o a levar a srio sua carreira. No outono de 1947, ela conhecia todas as 
peas da Broadway, tinha penetrado nos ensaios sempre que possvel e lia todos os jornais de 
teatro e comunicados publicados, enquanto Sam ia  escola de teatro todos os dias e fazia 
testes para todos os papis que ela indicava. Foi um esforo comum que deu frutos, mais  
cedo que esperavam.
        A grande chance dele veio logo depois do Natal. Obteve o papel principal numa 
pea off-Broadway e conseguiu crticas ptimas e o respeito dos crticos. A pea saiu de 
cartaz aps quatro meses e meio, mas a experincia fora valiosssima. E naquele vero ele fez 
teatro de repertrio em Stockbridge, Massachusetts, e enquanto o grupo esteve ali ele resolveu 
procurar a irm. Era embaraoso se dar conta de que, nos trs anos desde que voltara da 
guerra, nunca tentara encontr-la, e Solange o censurava por sua falta de devoo familiar. 
Isto at conhecer Eileen e Jack Jones. Ento compreendeu um pouco melhor por que Sam 
preferia ignor-la. Ele conseguiu descobri-la a partir do antigo bairro onde moravam, e a 
encontrou casada com um ex-fuzileiro naval, que os recebeu com um fluxo constante de 
piadas obscenas. Eileen falou muito pouco e provavelmente estava mais do que um 
pouco bbada enquanto todos se sentavam na sua sala de visitas numa rua feia, num subrbio 
decrpito de Boston. O cabelo ainda era oxigenado, com razes escuras, e seu vestido era to 
justo que bem poderia no estar usando nada, o que sem dvida agradaria ao marido. Era 
difcil crer que ela e Sam fossem sequer remotamente aparentados, e foi um alvio quando 
finalmente foram embora. Sam inspirou fundo o ar puro e olhou para a mulher com um 
sorriso de pesar misturado com desapontamento.
       - Bem. querida. essa  a minha irm.
        - No entendo... o que aconteceu com ela? - Aquilo ainda espantava Solange, que 
ficava mais linda ao passar dos anos, e se vestia decentemente, apesar dos recursos limitados. 
Ela prpria parecia uma actriz, ou uma modelo bem-sucedida.
       - Ela foi sempre assim - explicou Sam. - Nunca nos demos. - Soltou um suspiro. - 
Para ser sincero com voc, jamais gostei dela. 
       - Que pena.
       Foi um alivio deix-los. E ambos sabiam que ela no faria falta na vida deles. Mas a 
perda de um contacto mais frequente com Arthur era o que ambos lamentavam. Ele veio ver 
Sam no teatro de repertrio naquele Vero, e ficou muito impressionado com o seu 
desempenho. E,  claro, deu todas as explicaes apropriadas para a ausncia de Marjorie, que 
sentia demais no ter podido acompanh-lo. Supostamente fora visitar os pais na casa de 
vero deles perto de Filadlfia. Ela ingressaria na Faculdade de Direito de Columbia no 
outono, e estava ansiosa para tirar umas frias antes de comear o ano lectivo. E, 
naturalmente, Sam e Solange no fizeram mais perguntas.
       Em setembro, porm, Arthur e Marjorie se tornaram bem menos importantes. Sam 
obteve seu primeiro grande papel, e Solange ficou to empolgada que comprou uma garrafa 
de champanha, que beberam juntos em total descontrao. Era o papel principal em 
Wilderness, que prometia ser uma das peas mais importantes da Broadway. Era um papel 
fabuloso para Sam, e ambos estavam histricos de excitao. Arthur tratou dos contratos, Sam 
avisou  P.J. Clarke's que no voltaria ao trabalho no outono e eles comearam a ensaiar 
quase que imediatamente. A pea tinha um bom apoio financeiro e era produzida por um dos 
mais bem-sucedidos produtores da Broadway. A carreira de Sam Walker deslanchou, e ele 
estaria em boa companhia naquele inverno. Rex Harrison ia trabalhar em Ana dos Mil Dias 
no Schubert, com Joyce Redman. Henry Fonda e David Wayne j estavam em Mister Roberts 
no Alvin, e Anne Jackson estrelava no dia 6 de outubro no Music Box, com Summer and 
Smoke, de Tennessee Williams. Este seria um ano de que sempre se lembrariam.
       Arthur os levou para almoar no "21" para comemorar. Explicou que Marjorie j 
estava ocupada com a faculdade e que no poderia lhes fazer companhia, e Solange tambm 
tinha um comunicado a fazer. J havia contado a Sam na vspera, e ele estava eufrico. 
De repente, tinham tudo o que desejavam. Ele e Solange iam ter um beb. Devia nascer em 
abril, e a essa altura Sam j estaria enfronhado na pea. Tudo era perfeito. Arthur olhou-os 
melanclico durante o almoo. Tinha apenas 32 anos, mas ultimamente parecia bem mais 
velho. Tambm queria filhos, mas quando Marjorie terminasse a faculdade de Direito, ela j 
estaria com 33 anos e ansiosa para comear sua carreira. Realisticamente, ele sabia agora que 
nunca teria um filho, o que pareceu tornar o beb de Solange e Sam ainda mais importante.
       - Invejo vocs dois.
        No apenas o beb, mas tudo o que tinham: o amor to evidente, a empolgao dela 
com a carreira de Sam. Tudo parecia estar comeando para eles. Sam tinha 26 anos, e Solange 
23. Parecia ter decorrido um sculo desde que se encontraram pela primeira vez, na 
Paris libertada. Solange era to elegante e charmosa! Estava ainda mais bonita e parecia 
estudante de vida e emoo.
       E a emoo no diminuiu naquele outono, enquanto Sam ensaiava a pea dia e noite, 
burilando seu papel at a perfeio. Ele chegava em casa exausto  noite, mas nunca demais 
para fazer amor com Solange, ou lhe falar do elenco ou das modificaes na pea. A 
atriz principal era Barbara George, uma grande estrela da Broadway, e estava aprendendo 
muito com ela. Contava tudo a Solange com olhar empolgado e uma risada que a fazia am-lo 
ainda mais.
       A pea estreou no dia 9 de dezembro, no dia seguinte  estria de Rex Harrison na 
pea de Anderson, e as crticas de Sam foram ainda melhores do que as recebidas 
anteriormente. Era difcil acreditar... mais do que isso... era incrvel... Ele chegara l! 
       
       Captulo 4 
       O beb nasceu enquanto ainda curtiam o enorme sucesso de Sam na Broadway. 
Solange calculou a hora  perfeio. Entrou em trabalho de parto aps o espetculo de sbado 
 noite, e o beb nasceu s dez horas da manh seguinte, no Doctors Hospital, na East End 
Avenue. 
       Foi uma menina, em parto normal. Estava aninhada nos braos da me, com os 
cabelos escuros do pai e os olhos verdes da me, da primeira vez em que Sam a viu. Ficou 
encantado com a beleza da filha e com Solange, que estava linda, cansada mas orgulhosa, 
como se soubesse agora um segredo importante, e tivesse dado duro para ficar sabendo. 
       Arthur foi o primeiro visitante no dia seguinte, e ficou de olhos hmidos ao olhar 
para o beb atravs do vidro. Tinham lhe dado o nome de Hilary, que Solange adorava, muito 
embora fosse difcil para ela pronunci-lo. Nunca aprendera a falar o "H" aspirado dos 
americanos e chamava o beb de "Ilary" e murmurou em francs para ela quando lhe 
trouxeram o beb para amamentar. Arthur foi convidado para padrinho e ficou profundamente 
emocionado. Mas, ao invs de Marjorie, Sam convidara a sua co-estrela, Barbara George, 
para ser a madrinha do beb. 
       O batizado realizou-se na Catedral de So Patrcio, com toda a pompa e cerimnia a 
que tinham direito. O beb usava uma bela camisola de renda que a madrinha comprara para 
ela na Bergdorf Goodman. E Solange usava um casaco novo de vison e um anel de 
brilhantes, presente de Sam. A situao financeira melhorara muito desde o papel dele em 
Wilderness. Tinham se mudado para um apartamento maior "a Lexington Avenue, no 
luxuoso, mas bem melhor do que o outro da Terceira Avenida. O beb tinha o prprio quarto, 
que dava para um jardinzinho de fundos, Sam e Solange ocupavam outro, muito 
aconchegante, e havia uma sala de visitas espaosa para receber os amigos. Agora havia um 
fluxo constante de gente no seu novo apartamento, novos amigos, actores, na sua maioria, e 
pessoas ligadas  pea de Sam. Solange no se importava de t-los por perto, ao contrrio, at 
que gostava. 
       A pea ficou um ano inteiro em cartaz e encerrou sua temporada depois do Natal de 
1949. Em um ms Sam j tinha recebido vrias ofertas, e quando finalmente escolheu a de sua 
preferncia, mal teve tempo de tomar flego com Solange e Hilary antes de comear os 
ensaios. A essa altura Hilary estava com nove meses de idade e engatinhando por toda parte. 
Aparecia junto aos ps de Sam no banheiro, quando estava fazendo a barba, e debaixo da 
mesa enquanto ele tomava o seu caf da manh, com um coro constante de "pa-pa-pa" que o 
encantava. Ele queria ter logo outro filho, de preferncia um menino, mas Solange preferia 
esperar. Estava satisfeita com a pequena Hilary e queria dedicar-lhe toda a sua ateno. Era 
me devotada e parecia ainda mais carinhosa com Sam desde o nascimento do beb. Era 
como se tivesse aumentado dez vezes o seu estoque de amor por ele. 
       E a maternidade no lhe prejudicara a beleza. Era uma moa incrivelmente bonita, 
agora mais do que nunca, e a imprensa j comeava a comentar sobre a esposa extremamente 
bonita de Sam Walker. Fora entrevistada mais de uma vez, mas sempre conduzia as atenes 
para Sam, realando o actor importante que ele era. E os crticos concordaram com ela mais 
do que nunca aps a estria da nova pea. Ela ficou dois anos em cartaz e, quando finalmente 
encerrou a temporada, Sam resolveu tirar umas frias. Solange engravidou quase que 
imediatamente. E dali a nove meses uma outra filha, ruiva desta vez, como a me, nasceu na 
noite de estria da nova pea de Sam. Solange teve de sair correndo para o hospital com 
Arthur ao comear a pea. Ela lamentava perder a noite de estria de Sam, porm mal teve 
tempo de chegar ao hospital, apertando a mo de Arthur enquanto ele pedia ao motorista para 
correr mais. Alexandra nasceu dez minutos depois que eles chegaram, numa padiola do lado 
de fora da sala de parto. O beb soltou um grito vigoroso e Solange se recostou com um dbil 
gemido, exausta pelo esforo. Arthur veio v-la to logo foi colocada num quarto, e implicou 
com ela sobre voltarem a tempo para o final da pea, junto com o beb. Solange adorou a 
ideia e desejou realmente poder fazer aquilo. Mas, em vez disso, pediu que ele trouxesse Sam, 
e Arthur partiu prometendo rev-la no dia seguinte. Sam s apareceu no hospital pela manh. 
Explicou que ficara retido em interminveis festas do elenco, fingindo no notar a mgoa nos 
olhos dela. Solange o esperara acordada a noite toda, e Sam nem sequer telefonara. Trouxe-
lhe uma pulseira de esmeraldas espetacular, mas mesmo assim ela perguntava em silncio 
onde ele estivera, to desesperadamente magoada porque no tinha vindo v-la. Sam 
desculpara sua falta de ateno ultimamente alegando que a pea exigia muito dele, e ela 
sabia que aquele papel era o mais difcil de todos. Mas, mesmo assim... para ela, o beb era 
mais importante. Contudo, ele s falava na sua co-estrela. Parecia obcecado por ela. E foi 
Arthur quem levou Solange e Alexandra do hospital para casa, enquanto Sam ensaiava. 
Parecia sair constantemente, e ela nada dizia quando ele chegava tarde em casa. Mas sempre 
reparava. Reparava especialmente no cheiro forte do perfume de outra mulher. Sabia que o 
casamento deles estava diferente. Sentia um vcuo na sua prpria vida como consequncia, 
um vazio que era uma dor constante, e apenas Arthur parecia entend-lo. Era a nica pessoa 
com quem podia falar. Ele tambm tinha seus prprios problemas. Ainda queria filhos, e 
Marjorie nem queria ouvir falar no assunto. Arthur, por sua vez, considerava Sam um 
tremendo idiota, mas nunca o expressava. Fazia apenas o mximo possvel para levantar o 
nimo de Solange durante os seus almoos frequentes. No era justo magoar uma mulher to 
apaixonada pelo marido. E muitas vezes ele se pegava desejando ter ganho de Sam anos atrs, 
mas agora era muito tarde. Solange estava casada com Sam, e adorava o marido. 
       - E voc, Arthur, e quanto a voc? Est feliz? No, claro que no. - Ela mesma 
respondeu por ele, e Arthur no discordou. Como algum poderia ser feliz com uma mulher 
como Marjorie? Era um iceberg egosta e ambicioso. - Voc devia for-la a ter bebs, se  
que os deseja mesmo. 
       Estava sria e ele achou graa. Era impossvel forar Marjorie a fazer qualquer coisa 
que no quisesse. Impossvel para ele, de qual- quer forma. No era esse tipo de pessoa. 
       - No se pode forar uma mulher a ter um beb. - Sorriu pesaroso. - Isso s 
acarretaria uma me infeliz e, futuramente, uma criana infeliz. No como as suas. - Eram uns 
querubins perfeitos, as meninas Hilary e Alexandra, e ele as adorava. Hilary era morena como 
Sam, de olhos verdes, e Alexandra tinha cabelos ruivos e grandes olhos azuis. 
       Ento ele sorriu para Solange e viu a tristeza em seu rosto. Sabia o que Sam estava 
aprontando, assim como todos em Nova York. Ouvira os boatos e havia notas constantes 
sobre ele nos jornais.
       - Ele  um tremendo idiota. Tem 31 anos e se acha o dono do mundo... e tem uma 
esposa pela qual a maioria dos homens daria o brao direito. 
       - O que eu iria fazer com um brao direito? - Sorriu para ele filosoficamente, 
parecendo muito gaulesa. - Quero o corao dele no o seu brao... ou todas aquelas jias 
caras. Sempre sei quando alguma coisa est errada... ele chega em casa com caixas cheias de 
diamantes. 
       - Eu sei. 
       Arthur franziu o cenho. Ainda aconselhava Sam sobre os seus negcios, e j h 
algum tempo vinha insistindo com ele para economizar dinheiro. Mas Sam ainda estava 
aproveitando o impacto inicial do seu sucesso. Comprava sem parar: brinquedos para as 
meninas, peles e jias para a esposa, roupas para si prprio e presentes caros para as mulheres 
com quem se envolvia. Arthur sabia de vrias e desaprovava todas elas, sempre esperando que 
Solange nada soubesse sobre elas. Mas pressentia que agora era diferente. Era a primeira vez 
que tinha a sensao de que Solange era realmente infeliz. 
       - No sei o que fazer, Arthur. No sei se fao um escndalo se conto a ele que sei o 
que est se passando, ou se fico sentada calmamente esperando que tudo acabe. Porque logo 
vai acabar. Sempre acaba, com Sam... e ento ele volta para casa, para mim. - Ela deu 
um sorriso que teria feito Arthur se ajoelhar caso estivesse de p, e se fosse dirigido a ele; mas 
no o fora. 
       - Voc  uma mulher muito sensata, Solange. A maioria das americanas no . A 
maioria das mulheres neste pas enlouquece se acha que o marido est tendo um caso. 
Contratam detetives, pedem divrcio, tiram dele tudo o que podem... 
       Ela era espantosa. 
       Mas ela limitou-se a sorrir para ele de novo, aquele sorriso sbio que dizia ter mil 
anos de idade, embora aparentasse apenas vinte.
       - Eu no quero "coisas", Arthur. Quero apenas o meu marido. 
       Era bvio que ela o adorava. E Arthur invejou o amigo, e no pela primeira vez. 
Sempre imaginara o que teria acontecido se tivesse ido atrs de Solange, se tivesse falado com 
ela naquele dia na rue d'Arcole. E se... era algo que ele se perguntaria tolamente a vida toda. 
Mas agora no importava. Sam era o sortudo. Mais sortudo do que se dava conta, o sacana. 
       - Acho que ele logo vai sossegar. - Solange soltou um suspiro e terminou seu vinho. - 
Sempre temos um probleminha com cada co-estrela, at que ele se cansa dela.  duro para ele, 
envolve-se tanto na pea... o teatro  uma vida dura para ele, exigente demais. 
       Ela parecia acreditar genuinamente no que dizia, mas Arthur sacudiu a cabea. 
       - No  to exigente assim. Ele  mimado. Mimado pelo sucesso, pelas mulheres que 
conhece... e por voc, Solange. Voc o trata como a um deus, faa-me o favor! 
       - Ele ... para mim. Ele significa tudo para mim. - Fitou Arthur com seus olhos 
imensos e as suas palavras o correram at o mago. 
       - Ento aguente firme. Ele vai voltar para casa. Est s se divertindo, Solange. 
Enquanto voc puder compreender, talvez no seja to importante. 
       Ela concordou. Era um bom conselho. E ela estava sempre preparada para esperar a 
coisa passar. Preferia morrer a perd-lo. 
       O caso continuou por seis meses, para terminar brutalmente com a tentativa de 
suicdio da sua co-estrela. Depois disso ela deixou a pea, por questes de "sade", e a vida de 
Sam voltou ao normal. Era desumano da parte dele, de certa forma, mas Solange ficou 
aliviada com isso. Pelo menos a ameaa acabara. A essa altura j estavam em 1954, e ele 
ficou com a pea mais um ano e, como sempre, retornou para a mulher e as filhas. Foi a pea 
de maior durao em que trabalhara at ento, e ambos ficaram tristes quando saiu de cartaz. 
Depois disso ele levou Solange e as meninas para a Europa, para um vero em Saint-Tropez. 
Era algo em que sempre falava. Estivera ali durante a guerra, embora somente por um dia, e 
sempre desejara voltar. 
       Mandaram a Arthur um postal de Saint-Tropez e outro de Cannes, e depois foram 
fazer uma pequena peregrinao a Paris, e Solange mostrou s filhas onde vivera em criana. 
Voltar a emocionava. Dez anos se passaram desde que se fora. Havia lembranas dolorosas 
para ela, mas lembranas felizes tambm. Hilary tinha apenas seis anos, mas Solange 
esperava que apreciasse a viagem. Alexandra no passava de um beb. Tinham trazido uma 
bab para ajudar com as crianas. Era bem diferente do modo como Solange deixara a Frana, 
com o bilhete do vapor na bolsa e dinheiro que mal dava para comer. Partira levando trs 
vestidos, dois pares de sapatos, o chapu na cabea e um casaco surrado que pertencera  me. 
E agora c estava ela com bas cheios de roupas. Tinham chegado viajando de primeira classe 
no Libert e se hospedaram no Ritz de Paris. Sam a levou  Givenchy, Chanel e Dior para 
comprar roupas, e  Cartier, onde insistiu em lhe comprar uma pulseira de brilhantes nova. 
       - Mas eu no preciso, Sam! - protestou ela, toda risonha, enquanto ele a colocava  
fora no seu brao. Estava to carinhoso como sempre fora, e a mimava como se fosse uma 
nova amante. Sam adquirira hbitos dispendiosos nos ltimos anos, e s vezes aquilo 
assustava Solange. Como Arthur, ela queria que ele comeasse a economizar para as meninas.
       - Toda moa precisa de uma pulseira de brilhantes, Solange.
       - Mas j tenho trs! - Ela retirou o brao com um sorriso e sacudiu a cabea. - Non, 
chri! Je ne veux pas ! Quero que economize o nosso dinheiro.
       Ele parecia irritado quando olhou para ela.
       - Voc est parecendo o Arthur!
       - Bem, ele tem razo. Temos que comear a pensar nas crianas.
       - ptimo. - Ele apontou para uma outra pulseira no estojo, indicando  vendedora 
que a pegasse. - Vamos levar duas delas.
       - Ah, non, Sam! Quand mme voyons!
       Desde que voltaram a Paris ela recomeara a falar francs, e ficava satisfeita ao ver 
Hilary conversando com as pessoas com facilidade. Ela falava somente em francs com as 
duas meninas, e Hilary era completamente bilngue. Alexandra ainda no falava, mas quando 
aprendesse, falaria francs tambm. De certa forma, Solange no renunciara totalmente  sua 
terra natal. E era gostoso estar de volta. Havia lugares e lembranas que ainda lhe aqueciam o 
corao, e enquanto caminhavam pela Place Vendome  noite, com as suas luzes e a esttua 
de Napoleo, ela sentiu o corao alar voo como nunca sentira desde que deixara Paris.
       Jantaram no Maxim's naquela noite, e no La Tour d'Argent na noite seguinte. E no 
dia da partida de Paris Sam lhe deu as duas pulseiras de brilhantes e um anel novo. Solange 
tentou desencoraj-lo, mas sabia que era intil, e quando retornaram de navio para os Estados 
Unidos ela achou que havia sido uma bela viagem. Fora gostoso voltar, e era gostoso voltar 
para casa. Nova York agora era o seu lar. H dez anos que morava ali e a cidade significava 
muito para ela. Agora tinham um apartamento em Sutton Place, com uma magnfica vista do 
rio e lindos quartos para as meninas. Era um apartamento de vrios nveis, que lhes permitia 
receber com exuberncia. Marilyn Monroe tinha um apartamento nas proximidades. Ela era 
uma boa amiga de Sam e sempre passava algum tempo com ele quando estava em Nova York, 
mas Solange sabia que eles nunca tinham tido um caso. E Solange gostava muito de Marilyn, 
uma moa divertida que vivia lhe dizendo que devia fazer cinema.
       - Um astro na famlia  suficiente! - dizia sempre Solange, com o seu sotaque francs 
ainda pronunciado.
       Ofereceram a Sam um papel numa nova pea naquele outono, mas ele o recusou. 
No achava que fosse desafio suficiente para ele. E surpreendeu a todos concordando em 
fazer um filme. Foram para Hollywood para as filmagens, e Solange achou o lugar 
completamente espantoso, cheio de gente admirvel que no conseguia distinguir entre a 
fantasia e a vida real. Eles foram morar num bangal no Beverly Hills Hotel, com outro 
menor para as crianas e a bab. Durante um ano viveram uma existncia totalmente irreal. 
Solange achou o filme muito bom, mas Sam no se satisfez e ficou aliviado em voltar para 
Nova York e comear os ensaios para uma nova pea em janeiro de 1956. Envolveu-se 
totalmente na sua arte, e dentro de dois meses tambm estava envolvido com a atriz principal. 
E, desta vez, Solange ficou seriamente aborrecida. Almoava regularmente com Arthur e, 
com mais frequncia do que lhe agradava, via-se chorando no ombro dele.
       O casamento de Arthur no passava de aparncia. Marjorie vivia ocupada noutra 
parte qualquer, e a me dele morrera no ano anterior, enquanto estavam na Califrnia. Ele 
parecia terrivelmente s, to s quanto Solange se sentia, a despeito das negativas de Sam e 
seus presentes constantes, mostrando-se sempre gentil para com as filhas quando se sentia 
culpado.
       - Por qu? Por que faz isso comigo? - Ela lhe mostrou a coluna de mexericos do 
jornal, certo dia no caf da manh.
       - Est imaginando coisas de novo, Solange. Voc faz isso sempre que comeo a 
trabalhar numa nova pea.
       - Ah... - Ela jogou o jornal na pia. -  porque voc dorme com a atriz principal todas 
as vezes em que comea a trabalhar numa pea nova! Tambm tem que trabalhar na atriz 
principal? Ser que um dos outros actores no poderia fazer isso? O seu substituto, quem 
sabe. Este no poderia ser um dos deveres dele?
       Sam riu e a puxou para junto de si, sentando-a no colo e enterrando o rosto na 
resplendente cabeleira ruiva que estava mais linda do que nunca.
       - Eu te amo, sua maluca.
       - No me chame de maluca. Conheo voc bem demais, Sr. Walker. No pode me 
enganar. De jeito nenhum!
       Apontava-lhe o dedo, mas acabava sempre perdoando. Sam andava bebendo demais, 
e s vezes ficava hostil e ameaador ao chegar em casa. Era impossvel para ela zangar-se 
com ele, pois o amava demais. Demais para o seu prprio bem, dizia Arthur, e talvez tivesse 
razo. Mas aquela era a nica coisa que teria modificado em Sam. As suas outras mulheres. O 
resto ela amava do jeito que era. Na primavera engravidou de novo e o beb nasceu pouco 
depois do Natal, quando
       Sam estava na Califrnia. Era outra menina, e recebeu o nome de Megan. Mais uma 
vez foi Arthur quem a conduziu at ao hospital e Solange levou dois dias para localizar Sam 
na Califrnia. Ouvira novos boatos e sabia o que ele andava fazendo em Hollywood. Agora 
ela estava farta, dizendo-lhe isto quando ele voltou para Nova York, quando o beb tinha trs 
semanas de vida. Chegou mesmo a ameaar divorciar-se dele, o que no era do seu feitio.
       - Voc me humilha na frente do mundo inteiro... me faz de idiota e espera que eu 
fique aqui sentada e aceite. Quero o divrcio, Sam.
       - Voc perdeu o juzo. Est imaginando coisas. Com quem andou conversando de 
novo? Com Arthur?
       Mas ele parecia preocupado.
       - Arthur no tem nada a ver com isso. E basta ler os jornais. Est em todas as colunas 
daqui at Los Angeles, Sam. Todos os anos, todos os meses, todos os filmes, todas as peas, e 
uma nova corista, uma nova co-estrela, uma nova mulher. Voc j fez isso tempo demais. No 
fez outra coisa a no ser aproveitar, e est to impressionado consigo mesmo que acha que se 
deve isso. Ento tudo bem, mas eu tambm me devo algo. Me devo um marido que me ame e 
que tambm esteja disposto a ser fiel.
       - E voc? - Ele tentou virar as coisas, embora soubesse como ela fora 
desesperadamente dedicada. - E todos aqueles seus malditos almoos com Arthur?
       - No tenho mais ningum com quem conversar, Sam. Pelo menos ele no vai 
telefonar para os jornais e contar o que eu digo. - Ambos sabiam que qualquer outra pessoa o 
faria. No estava errada. Afinal, era a mulher de Sam Walker. E ele agora era um astro. - Pelo 
menos posso chorar no ombro dele.
       - Enquanto ele deita na sua sopa. Vocs formam o par mais pattico que j vi. E 
lembre-se do que eu lhe disse, Solange. No lhe darei o divrcio. E saudaes. Portanto, no 
me pea de novo.
       - No tenho que lhe pedir. - Era a primeira vez que ela o ameaava abertamente.
       - Ah, no? - Havia um leve vestgio de medo na voz dele, cuidadosamente 
disfarado, mas ela sabia.
       - Basta que eu mande segui-lo. J poderia ter-me divorciado de voc umas cinquenta 
vezes, a essa altura.
       Sam sara de casa batendo a porta sem dizer mais uma palavra e partira de volta  
Califrnia no dia seguinte. Isto atrasara os ensaios da sua pea em um ms, mas eles sempre 
perdoavam Sam Walker.
       Quando voltou, as coisas com Solange continuaram tempestuosas. Ela sabia quem 
ele havia levado para a Costa Oeste e, finalmente estava farta dele. Certa noite, Sam chegou e 
a encontrou  sua espera. Quando Solange o confrontou, brigaram to violentamente que 
Hillary acordou. O quarto de Alexandra ficava um pouco mais longe, descendo o corredor, e 
Megan tinha s oito meses. Mas Hilary estava com oito anos. E se lembrava de tudo. Das 
ambulncias e da policia... das sirenes... e da me sendo levada embora envolta num lenol... 
ela se lembrava do que eles tinham dito... e do pai chorando enquanto o levavam. Ele nem 
mesmo a vira parada junto  porta, observando. E depois ela se lembrou da bab chamando o 
tio Arthur.
       Ele viera quase imediatamente, o rosto sombrio. No podia crer no que ouvia. Devia 
haver algum engano... tinha que haver... no era possvel. Sabia que Sam e Solange estavam 
tendo problemas h algum tempo, mas Sam a adorava, assim como ela o amava. Era um amor 
que muitas vezes transcendera a razo, um amor em que ela o perdoava de tudo, um amor que 
fizera com que ele a seguisse obstinadamente pela rue d'Arcole desde o comeo. Era um amor 
que tocava todos que se aproximavam deles. Um amor que... ele simplesmente no conseguia 
entender, sentado ali no apartamento enquanto o dia nascia e o porteiro trazia o jornal l para 
cima, batendo discretamente na porta da frente. Mas estava tudo ali, enquanto Arthur estendia 
a mo trmula e pegava o jornal. Estava tudo ali... o fim de um sonho... o fim de uma vida... 
Sam a matara.
       
       SEGUNDA PARTE
       ARTHUR
       Captulo 5
       A porta da cela de deteno bateu com fora nas costas de Arthur enquanto ele 
esperava para v-lo. Sam estava preso na 17 DP na rua 51 Leste e passava do meio-dia 
quando deixaram Arthur entrar para v-lo. O haviam interrogado at ento, durante horas e 
horas, embora no fosse necessrio. Ele admitira tudo. Soluara. Fitara-os de olhos vidrados... 
se lembrara de cada minuto daquelas primeiras horas em Paris. No compreendia por que o 
havia feito... sabia que estava bbado... ela o assustara dizendo que ia abandon-lo. Mas, 
mesmo assim... ele no podia entender por que o fizera, Excepto que no queria perd-la e ela 
dissera... ela dissera... Com uma expresso de desespero ele ergueu os olhos para Arthur 
quando o fizeram entrar. E Sam mal parecia v-lo. 
       - Sam... 
       A voz de Arthur estava rouca. Passara a manh toda chorando. Estendeu a mo para 
tocar o brao de Sam, como que para tir-lo da beira do abismo. Sam parecia querer morrer 
tambm. Ficou parado no centro do aposento depois que o deixaram ali, fitando Arthur. 
       - Eu a matei, Arthur... eu a matei. - Parecia quase no enxerg-lo, somente o rosto 
dela quando a estrangulara... o cabelo ruivo que tanto amava... por qu?... por que o fizera?... 
por que ela dissera todas aquelas coisas terrveis para ele? Olhou cegamente para o 
amigo enquanto, lgrimas voltavam a escorrer pelas suas faces. 
       - Sente-se, Sam... vamos. - Ajudou-o gentilmente a se sentar numa das duas cadeiras 
de espaldar reto da sala, uma de frente para a outra, separadas por uma mesa estreita e gasta. - 
Temos que conversar. - Sam mal parecia coerente, mas eles tinham que conversar. 
       - Quer conversar sobre o que aconteceu? 
       Sam apenas o fitava. Era tudo simples demais. 
       - Eu a matei. 
       - Sei disso, Sam. Mas o que aconteceu antes? Ela o provocou? - Precisava arranjar 
um bom advogado de defesa, mas antes de faz-lo, tinha de saber o que o esperava. Agora 
Sam no era apenas o seu melhor amigo, era indirectamente um cliente. - Ela bateu em voc?
       Sam sacudiu a cabea, o olhar distante e vago.
       - Ela falou um bocado de coisas terrveis... estava muito zangada.
       Arthur suspeitava do motivo, mas, mesmo assim, perguntou:
       - Por que estava zangada?
       Sam ficou olhando para o cho, recordando a fria de Solange. Nunca a vira daquele 
jeito. Sabia que tinha ido longe demais, desesperado para no perd-la. Mas a perdera, mesmo 
assim... a nica mulher que amara... Ergueu os olhos para Arthur, em desespero.
       - Ela sabia que eu estava tendo um caso de novo... no significava nada... nunca 
significava...
       - Excepto para Solange, Sam. - A voz dele era suave, e tinha que ficar se lembrando 
de que era Sam quem defendia agora, no Solange.
       Sam olhou-o de modo estranho, em resposta, e ficou calado por um longo tempo.
       - Ela o ameaou com o divrcio?
       Ele assentiu e ento teve que ir em frente. Teve que lhe perguntar. Teve que saber. 
Num certo sentido, fora por isso que a matara. Excepto que tambm estava bbado e perdera o 
controle. E as coisas que ela dissera eram to terrveis, e ele temia tanto que ela estivesse 
falando srio e que a perderia...
       - Solange falou que voc e ela estavam tendo um caso.  verdade?
       Os olhos dele penetravam nos do amigo, e Arthur olhou para ele cheio de tristeza.
       - O que voc acha?
       - Nunca pensei nisso antes. Sabia que voc era ligado a ela, costumavam almoar 
juntos muitas vezes...
       - Mas ela alguma vez procurou esconder isso? - Como todos os bons advogados, ele 
sabia a resposta antes de fazer a pergunta.
       - No... ela sempre me contou... pelo menos acho que sim...
       - No acha que ela s estava tentando lhe dar o troco dizendo isso, por toda a dor que 
voc lhe causava? De que outra maneira o faria?
       Agora,  luz do dia, ele sabia disso. Mas na noite anterior, no calor da paixo, Sam 
no acreditara nela... ficara maluco... e a matara. S de pensar nisso o pnico lhe subiu  
garganta como uma mo que vinha s entranhas para estrangul-lo, e ele sabia que merecia. 
Merecia morrer pelo que fizera a Solange. Recomeou a chorar e Arthur lhe segurou os 
ombros.
       - O que vai acontecer agora s meninas? - Olhou subitamente para Arthur com nova 
onda de pnico.
       Arthur estivera pensando naquilo a manh inteira.
       - Estou certo de que voc tem dinheiro bastante para cuidar delas enquanto tudo est 
pendente.
       E havia a bab e uma empregada no apartamento. Eles viviam extremamente bem no 
apartamento em Sutton Place.
       Sam parecia desolado enquanto fitava o amigo.
       - Quanto tudo isto vai me custar?
       Custara a vida de Solange, e agora... Arthur precisava combater os seus prprios 
sentimentos, repetidas vezes. Como Sam pudera fazer aquilo com ela! E, no entanto, Sam era 
seu amigo; mais do que isso, quase seu irmo. Tinham sobrevivido  guerra lado a lado, e 
Sam carregara-o pelas montanhas, levando-o at os mdicos quando fora ferido perto de 
Cassino. Tinham libertado Paris e Roma... Paris... e rue d'Arcole, onde a tinham visto pela 
primeira vez. Estava tudo to firmemente entrelaado, e agora no se tratava mais s de Sam e 
Solange, tambm havia as filhas deles a considerar. Hilary, Alexandra e Megan. Mas Arthur 
tentou forar seus pensamentos de volta para responder  pergunta de Sam. Este queria saber 
quanto lhe custaria sua defesa.
       - Depende de quem vai contratar para defend-lo. Quero pensar em algum para 
recomendar. Mas voc deve ter o melhor. Vai ser um julgamento de peso, e haver muita 
simpatia por Solange. Voc recebeu muita cobertura da imprensa com as suas amiguinhas nos 
ltimos anos, Sam, e isso no vai ajud-lo.
       Mas Sam estava sacudindo a cabea com determinao.
       - No quero outra pessoa. Quero que voc me defenda. - Ergueu os olhos para Arthur 
e este estremeceu quase visivelmente.
       - No posso fazer isso.
       A voz dele era um grasnido na sala cheia de ecos.
       - Por que no?
       - Por que sou seu amigo. E no sou advogado criminalista.
       - No me importa. Voc  o melhor. No quero outra pessoa. Quero voc. - Seus 
olhos se encheram de lgrimas. Era tudo to horrvel, era inacreditvel, mas estava 
acontecendo, era real. Ele o tornara real. Fizera de um pesadelo uma realidade.
       O rosto de Arthur ficou subitamente coberto por uma leve camada de suor. Tudo j 
era ruim o bastante, mas defend-lo, ainda por cima! No podia.
       - No creio que possa faz-lo, Sam. No tenho experincia nesse ramo. Seria uma 
tremenda desvantagem para voc. No pode fazer isso... - A nenhum de ns dois... Ah, Deus, 
por favor. Ele tinha vontade de chorar. Mas Sam estava inflexvel e olhava para ele com olhos 
splices.
       - Voc precisa. Por mim, pelas meninas... por Solange... por favor...
       Por Solange? Meu Deus, ele a matara! Mas o pior de tudo  que Arthur sabia que 
Solange desejaria que ele fizesse qualquer coisa que Sam quisesse. Ele sabia, melhor do que 
qualquer outra pessoa, quo desesperadamente ela o amara.
       - Ns dois vamos ter que pensar no assunto, mas estou convencido de que seria um 
erro terrvel. Voc precisa do melhor, Sam, no de um advogado fiscal que voc convocou 
por uma noo de lealdade mal orientada. Eu no posso fazer isso! Simplesmente no posso! - 
Sam nunca o vira assim to emotivo, mas mesmo assim queria que Arthur o defendesse. - 
Mas, o que  mais importante agora: existe algum que voc queira que eu chame para as 
meninas?
       Sam pensou no assunto, e sacudiu a cabea. No havia ningum a quem fossem 
chegados, excepto Arthur. e os milhares de conhecidos que tinham no teatro. Mas Solange 
no tinha amigos ntimos. Estivera totalmente envolvida com a vida de Sam, suas filhas e sua 
carreira. Nunca teve tempo para mais ningum, nem para algum interesse particular.
       - H algum membro da famlia para quem eu deva ligar? - Ele sabia que devia estar a 
par disso, depois dos anos que tinham passado na Europa juntos, mas de repente no 
conseguiu se lembrar. Sabia que os pais de Sam estavam mortos, mas no conseguia se 
lembrar se havia mais algum, algum parente remoto para quem devia telefonar, mas Sam 
limitou-se a sacudir a cabea.
       - Ningum que seria importante para as meninas. H a minha irm em Boston, mas, 
pelo amor de Deus, no ligue para ela.
       - Por que no?
       - H anos que no a vejo, desde antes do nascimento de Hilary. Ela  uma 
vagabunda. Esquea-a.
       Mas Arthur no podia se dar ao luxo de esquecer ningum. Talvez uma tia fosse 
exactamente o que as meninas iam precisar.
       - Como  o nome dela? Por via das dvidas. Nunca se sabe, numa situao destas.
       - Eileen. Eileen Jones.  casada com um ex-fuzileiro naval chamado Jack. E eles 
moram em Charlestown. Mas voc os detestaria, acredite. - Sam se levantou e caminhou pela 
cela a fim de olhar pela janela de grades.
       - No estou pretendendo convid-los para passar o fim de semana, pelo amor de 
Deus. Mas, a essa altura, um parente ou dois poderiam ser teis.
       Sam tinha trs filhas, duas delas praticamente bebs, e no havia ningum para tomar 
conta delas, excepto uma bab e uma empregada... e Arthur...
       E ento Sam se virou para Arthur de novo.
       - Posso v-las? - Ficou com os olhos cheios de lgrimas ao pensar nelas... os seus 
anjinhos... os seus bebs... como pudera fazer isso com elas? Ele lhes tirara a me, a me que 
lhes asseguraria uma infncia feliz e uma vida perfeita, a me que nunca lhes falhara sob 
aspecto algum, que estava sempre presente, que lhes dava cada beijo, cada abrao, cada 
banho, que brincava de cada jogo, lia cada histria e sussurrava junto com elas quando as 
punha na cama,  noite, com risadas, ccegas e abraos, e que agora... S de pensar nisso ele 
estremeceu. Ficou imaginando se saberia tomar conta delas quando sasse dali. Mas no fazia 
sentido pensar nisso. Teria que tomar conta delas.
       Arthur estava olhando para ele agora.
       - Voc quer mesmo v-las aqui?
       - Acho que no. - A voz de Sam no passava de um murmrio. - S pensei... queria 
tentar explicar... a Hilary, pelo menos...
       - Pode fazer isso mais tarde. Agora, temos que tir-lo dessa situao.
       - Acha que pode?
       Era a primeira vez que Sam lhe perguntava isso, e Arthur no gostava da ideia.
       - Acho que outra pessoa teria uma chance melhor de faz-lo do que eu.
       - No me importa. J lhe disse, Arthur. Quero somente voc para me defender.
       - Acho que vai ser uma briga difcil... para qualquer um... falando francamente, Sam. 
- Detestava dizer tais palavras, mas devia-lhe a verdade, afinal de contas. - Voc ter que 
alegar insanidade, crime passional... j admitiu tudo. Est tudo bastante claro, e nestes ltimos 
anos voc adquiriu uma tremenda reputao.
       Era verdade, ambos sabiam disso, e Arthur sempre desejara dizer-lhe que idiota ele 
era, mas por um motivo diferente. Ele o detestara por magoar Solange, e to 
desnecessariamente. Mas, por outro lado eram amigos e o sucesso de Sam chegara com tanta 
rapidez e fora que Arthur desconfiava que o amigo no soubera lidar com ele. Estava com 
apenas 35 anos agora, e se tornara um grande astro ainda na casa dos vinte. Era um bocado 
para digerir e um bocado para acompanhar, e ele pagara um preo por isso. Mas Solange 
tambm... mais do que Sam podia imaginar. Havia muita coisa em Solange que ele nem 
reparava. Andava to absorto em si mesmo e em sua carreira, que nos ltimos anos se tornara 
egocntrico e mimado. At mesmo as filhas pareciam saber disso. A pequena Alexandra 
dissera para Arthur, recentemente: "Temos que paparicar muito o papai quando ele est em 
casa, seno, ele fica muito zangado. Nosso papai precisa de muita ateno".
       Era verdade, e Solange lhes explicara isso, ensinando como ficar longe dele quando 
estava cansado, ou como lhe levar guloseimas, como os chocolates que adorava, ou um prato 
de frutas frescas, e uma bebida gelada, ou como cantar uma canozinha que ela lhes ensinara 
s para ele. A casa inteira fora treinada para girar em torno do papai.
       E agora elas tinham perdido tanto Solange quanto Sam. Arthur ficou pensando nisso 
enquanto voltava para o escritrio naquela tarde, aps deixar Sam. E, por sua prpria conta, 
resolveu telefonar para os padrinhos a fim de ver se despertava algum interesse. Com Sam na 
cadeia e Solange morta, elas agora no tinham mais ningum, excepto Arthur. Mas os 
padrinhos foram escolhidos pelos seus nomes importantes e belos rostos, a maioria actores 
famosos, e nenhum deles tinha um interesse real pelas crianas. Estavam muito mais 
interessados em discutir a notcia com Arthur, por que Sam fizera aquilo, se tinha 
enlouquecido, se Solange fizera alguma coisa para provoc-lo, o que ia acontecer agora, 
quando era o julgamento - mas nem uma palavra sobre as crianas, o que o deixava no ponto 
de partida como a nica pessoa de quem podiam depender, na ausncia de Sam. Por via das 
dvidas, decidiu anotar o nome da tia, mas, nesse meio-tempo, ia seguir as instrues de Sam 
e no telefonar para ela.
       A prxima coisa que fez foi verificar os extratos bancrios de Sam para poder cuidar 
dos negcios. E ficou horrorizado com o que encontrou. O saldo era infinitamente menor do 
que ele esperava. Sam gastava tudo o que ganhava, principalmente com o seu estilo de vida e 
as suas namoradas. Na verdade, fizera um emprstimo por conta do seu salrio na prxima 
pea e, tirando uma pequena quantia na sua conta corrente, estava endividado at  raiz dos 
cabelos. Mal havia para pagar os salrios da empregada e da bab pelos prximos meses, at o 
julgamento terminar. Era uma situao dificlima para as crianas, e Arthur se lembrou das 
reclamaes de Solange alguns anos antes. Ela sempre quisera que Sam pensasse nas 
meninas, que guardasse algum dinheiro. Mas em vez disso ele lhe comprava pulseiras de 
brilhantes e casacos de pele, e sabia l Deus quanto gastava com as suas outras mulheres. Era 
conhecido como um homem generoso e nunca regateara coisa alguma, depois que comeou a 
ganhar dinheiro. Mas agora isso o deixava com dez mil dlares no banco e dez vezes 
esta quantia em dvidas. Era espantoso o quo pouco se sabia sobre os amigos, e Arthur 
desejou ter falado com ele com mais severidade anos atrs. Nunca se dera conta de que Sam 
era irresponsvel at esse ponto, e agora isso representava um desastre para as suas filhas. 
       Arthur tentara conversar com Marjorie a respeito, lamentando o destino das crianas 
e esperando despertar a sua simpatia por elas. Mas ficou desapontado ao descobrir que sua 
mulher tinha somente palavras speras para as meninas, comentando que eram 
indubitavelmente ciganas, como os pais. Parecia no ter a menor compaixo por elas. 
       Nos dias que se seguiram, porm, ele mal viu a esposa. Estava atarefado com Sam e 
as meninas, a imprensa constantemente a aborrec-los, sem poupar sequer as crianas, alm 
de assumir as providncias para o enterro de Solange. No havia mais ningum para faz-lo. 
       O funeral foi marcado para trs dias aps a priso de Sam. Ela foi velada durante 
dois dias, e no terceiro eles realizaram a cerimnia. E Arthur ficou espantado com a 
quantidade de pessoas presentes, principalmente, em deferncia a Sam, mas havia muita gente 
que conhecera Solange e gostava dela. "Ela era uma linda moa...", ele ouviu inmeras 
pessoas dizerem. "Belssima... ele no sabia a sorte que tinha... ela tambm devia ter sido 
actriz... sempre quis que ela posasse para mim... maravilhosa com as filhas... uma garota e 
tanto... que homem de sorte em ter uma esposa como ela... era francesa at  alma... moa 
incrvel... no compreendo por que ele fez aquilo... ela era louca por ele." 
       Os comentrios se sucediam, e Arthur se sentava na primeira fila com as meninas e a 
bab, tentando no chorar quando fecharam a tampa do caixo. Hilary estava sentada muito 
rgida ao lado dele, e houve uma vez em que se levantou e se dirigiu ao caixo e ficou 
olhando para Solange, depois a beijou e voltou para o seu lugar com uma expresso fixa de 
dor, como se entorpecida pela imensido do seu sofrimento, mas no permitiu que Arthur a 
tocasse. Na verdade, no deixava ningum se aproximar dela. Ficava apenas segurando com 
fora a mo de Alexandra, respondendo a todas as suas perguntas sobre por que mame estava 
dormindo na caixa coberta com as rosas brancas. Arthur pagara todas as flores do prprio 
bolso, no quisera diminuir ainda mais os fundos das meninas, nem mesmo para o enterro da 
me.
       Alexandra achava que Solange estava parecendo a Branca de neve depois de comer a 
ma, e ficava perguntando a Hilary quando ela ia acordar... e se papai ia chegar e beij-la.
       - No, ela vai continuar dormindo desse jeito, Axie. - A sua voz era muito suave 
enquanto o organista tocava a Ave-Maria na igreja.
       - Por qu?
       - Porque sim. - Fez-lhe sinal para se calar. - Agora fique quieta. - Apertou com mais 
fora a mo da irm, e o seu rosto ficou mortalmente plido quando viu o caixo da me 
passar lentamente por ela. Ficou olhando, calada, depois estendeu a mo e retirou duas rosas 
brancas do pesado manto de flores que cobria o caixo, e entregou uma para Alexandra. A 
menina comeou a chorar e murmurar que queria que a mame acordasse e que ela no podia 
respirar daquele jeito, com a caixa fechada. Era como se soubesse que a me estava morta, 
mas nenhum deles conseguia enfrentar isso. At a pequena Megan comeara a chorar, como 
se tambm compreendesse, e a bab teve que lev-la para fora, onde poderia chorar sob o sol 
de inverno. Parecia incongruente enterr-la num dia to bonito, mas talvez no... tudo em 
Solange sempre fora cheio de luzes, flores e sol, desde o cabelo ruivo chamejante aos olhos 
verdes brilhantes, at o corpo flexvel sempre em movimento.
       Arthur levou as crianas de volta ao apartamento na limusine, depois foi ao cemitrio 
ver se tudo estava em ordem. A seguir visitou Sam em Rkers Island. Trouxe-lhe uma rosa 
branca do caixo, como a que Hilary dera a Axie.
       Arthur parecia muito alto e magro e plido ao entrar na cela de deteno, de terno 
escuro e chapu na mo. Parecia o mensageiro de morte, e de certa forma o era. Sam ergueu 
os olhos para ele e tremeu.
       - Achei que gostaria disto. - Estendeu a rosa branca e, com mo trmula, Sam a 
pegou.
       - Como esto as meninas?
       - Muito bem. Hilary est mantendo todas intactas.  como se tivesse assumido o 
papel de Solange, como me delas.
       Sam se largou numa cadeira e enterrou a cabea nas mos, ainda agarrando a rosa 
que Arthur lhe trouxera, mas a flor tinha cheiro de morte, de tristeza e de enterros. No 
sobrara alegria no seu amor por ela, ou a sua vida. Sentia-se como se tudo tivesse acabado. E, 
de uma maneira importante, estava. Ele ficava na sua cela dia e noite, pensando apenas em 
Solange. At mesmo as filhas pareciam remotas, agora. Ficou imaginando o quanto elas o 
odiariam no futuro, quando descobrissem que ele havia assassinado a me delas. Isso tornaria 
impossvel qualquer tipo de relacionamento com elas. Tudo era impossvel agora. E a vida 
no valia mais a pena ser vivida. J dissera isto a Arthur, que replicara que agora tinha de 
pensar nas meninas. Mas o que tinha para dar? Suas dvidas? Sua culpa? Seus maus hbitos? 
O seu remorso avassalador por ter matado a nica mulher que amava... tinha certeza de que 
elas jamais compreenderiam.
       - Tenho pensado nas meninas, Sam. - Arthur pigarreou, rezando para que Sam no 
ficasse contra ele. - Gostaria de vender todas as jias de Solange para que elas tenham um 
fundo de reserva, e voc vai precisar de muito dinheiro para os honorrios dos advogados, 
especialmente se eu puder convenc-lo a arranjar outro advogado. No meu caso, a nica coisa 
que precisamos fazer  compensar a firma pelo meu tempo. No quero ganhar nada com isso, 
pessoal ou directamente. - A ltima coisa que ele queria era ganhar dinheiro para defender 
Sam. Mas ainda no desejava faz-lo, de jeito algum. Sam havia matado a nica mulher que 
ele amara e admirara, na verdade quase adorara, e no importa o quanto fossem ligados, e 
quo grande fosse o elo, seria quase impossvel para Arthur defend-lo. Tentara explicar isso 
a Sam, mas este no queria nem ouvir. - O que acha de vendermos as jias?
       Olhou para Sam, que se voltou para ele com um rosto mortalmente plido com a 
barba por fazer.
       - ptimo. Se vai ajudar as meninas, livre-se das jias. Quer as chaves do cofre 
individual no banco?
       - J as encontrei. Solange mantinha tudo admiravelmente em ordem.
       Sam apenas assentiu, sem conseguir responder. No era de surpreender que fosse 
assim. Ela era uma mulher admirvel. Mas ambos sabiam disso, e no tinha importncia 
agora. Ela se fora... no caixo que Arthur vira baixar ao solo algumas horas antes. Ele ainda 
pensava nisso, e Sam podia senti-lo, assim como sentia a aura de tristeza que o cercava.
       - Vou cuidar disso ainda essa semana.
       Queria o mximo de dinheiro possvel  mo, para as meninas para o fundo de defesa 
de Sam.
       O julgamento fora marcado para junho prximo. Ainda faltavam alguns meses, e 
Arthur queria se certificar de que no haveria problemas para as meninas. E tambm, iam 
precisar de dinheiro para as extensas avaliaes psiquitricas de Sam. Arthur ia alegar 
insanidade temporria, que era a nica defesa possvel, dadas as circunstncias e a sua 
confisso.
       Foi um perodo de tempo interminvel. A bab que tinham no era especialmente 
agradvel para elas; Solange nunca escolhia as suas babs com muito cuidado porque estava 
por perto o tempo todo, de qualquer maneira, e era ela quem cuidava das meninas sempre que 
possvel, portanto o encanto e a habilidade da bab nunca eram muito importantes. O Natal foi 
um dia pavoroso. Com os dois pais ausentes, as meninas j pareciam umas orfzinhas.
       Arthur levou Alexandra e Hilary para almoar no Natal, mas foi mais deprimente do 
que alegre. E Alexandra percebeu. Seus olhinhos se moviam com seriedade de um para o 
outro, e depois fitaram Hilary com tristeza e confuso.
       - Por que est zangada com o tio Arthur?
       - No estou.
       Hilary manteve os olhos fitos no prato, depois lanou um breve olhar zangado  
irmzinha.
       - Est, sim, Voc tirou a mo quando ele quis segurar ela.
       - Coma o seu peru, Axie.
       Hilary parecia indiferente s canes de Natal tocadas pelos violinos na Palm Court 
do Plaza. Estava imersa em seus prprios pensamentos, e Arthur lamentou que Marjorie no 
tivesse vindo com ele. Ao invs disso, estava almoando no Colonv Club com outra 
advogada. E ele suplicara que ela viesse, mas ela se recusara, sem rodeios.
       - No estou interessada nessas crianas, e voc tambm no as devia estar 
convidando para sair. Voc no  a famlia delas, elas simplesmente tm que se adaptar  
realidade da sua situao.
       - Com oito e cinco anos de idade?  Natal, pelo amor de Deus! O mnimo que 
podemos fazer ...
       - No quero nem escutar. Se quer bancar o Nobre Salvador, no me arraste junto. - E 
com essas palavras ela sara do quarto. Ento ele viera sozinho, com Hilary e Alexandra.
       Na verdade, a postura inflexvel de Marjorie quanto s meninas era apenas uma 
extenso do seu desagrado pelos Walkers em geral, e mais especificamente da sua 
desaprovao por seus frequentes almoos com Solange. No que sentisse cimes. Era mais 
por desaprovar o jeitinho francs de Solange, e o facto de Sam ser um actor, no importa o 
quanto fosse bem-sucedido.
       Sam no teve o menor contacto com as meninas naquele Natal. No tinha permisso 
para ligar para elas, e nem o teria feito, de qualquer maneira; estava deprimido demais para 
pensar em qualquer pessoa, excepto em Solange e por que a matara. Nem suportava pensar 
nas meninas.
       Arthur tentara trazer fotos delas para Sam, mas ele andava totalmente retrado 
falando apenas em Solange e no passado, e recitando sem parar os seus pecados, erros e 
transgresses. Era como um velho, cuja vida inteira estava no passado. E Arthur tinha muita 
dificuldade em interess-lo no caso. Parecia no se empolgar com a sua defesa, e muitas vezes 
dizia que merecia ser punido, o que no era encorajador para Arthur.
       O resto do inverno passou de modo agoniante. Hilary parecia estar dirigindo a casa 
mais do que adequadamente, e as meninas mais novas iam bem, embora Hilary tivesse um ar 
de constante dor e angstia em torno dos olhos que assustava Arthur. Mas ela no queria 
consolo por parte dele, na verdade, desde a morte da me, no chegava perto dele. Ele lhe 
lembrava que era o seu padrinho e que a amava muito, ela escutava polidamente e no tinha 
reao. Era uma menina estranha, distante, invulgarmente quieta agora que Solange se fora, e 
falava no pai como se no mais o conhecesse, como se ele tivesse morrido anos antes da me. 
Era bvio que ficara profundamente abalada com o que acontecera, e era difcil lembrar que 
tinha apenas oito anos. Parecia marcada demais pela tragdia, e era doloroso perceber o 
quanto aquilo a envelhecera.
       Arthur tentava jantar com elas o maior nmero de vezes possvel e estava ficando 
preocupado com o pagamento das empregadas, da escola, da comida e do apartamento. A 
pequena Megan ficara doente vrias vezes, e havia contas de mdicos e sapatos novos. A 
maior parte da quantia arrecadada com as jias de Solange fora gasta na defesa de Sam, e o 
que sobrara mal dava para fazer diferena. E seus fundos escassos estavam minguando. Por 
vezes ele se perguntava se Hilary sabia disso. Ela forava todos a fazer economia e at 
aprendera a consertar as prprias roupas, para espanto de Arthur. Megan j comeava a 
encarar Hilary como a sua me.
       Na primavera Sam j emagrecera treze quilos e todas as avaliaes psiquitricas 
tinham sido completadas. Os mdicos que o examinavam foram unnimes em dizer que ele 
estava sofrendo de uma profunda depresso. Tambm estavam dispostos a dizer que ele agira 
na paixo do momento, ao matar Solange, e que talvez estivesse insano ao faz-lo, embora 
todos o achassem so, normal e inteligente. O seu nico problema era a depresso 
perfeitamente compreensvel. Arthur quase sentia que no podia alcan-lo, e Sam nada fazia 
para ajudar a preparar a prpria defesa. Parecia desinteressado em todos os esforos de 
Arthur, que trabalhava todas as noites na sua defesa durante meses, pesquisando casos 
semelhantes no passado, procurando detalhes tcnicos imprprios e buscando 
desesperadamente novos ngulos.
       O julgamento propriamente dito, porm, foi um pesadelo. O promotor era rpido e 
certeiro, e descobrira cada vagabunda, piranha e aspirante ao estrelato com quem Sam j 
dormira. Houve um desfile de mulheres, testemunhando que ele bebia demais, s vezes era 
violento quando estava bbado e no tinha moral alguma. E Arthur dificilmente poderia 
discordar do retrato de Solange pintado pela promotoria. Ele descrevia uma mulher 
inteligente, espirituosa e encantadora, com uma devoo quase de santa pelo marido, ansiosa 
por fazer todo possvel por ele, por ajud-lo a promover a sua carreira e mant-lo feliz, 
enquanto cuidava extraordinariamente bem das suas trs filhas. Dizia-se tambm que cuidava 
muito bem da casa e que se mantinha distante das trapalhadas em que a maioria das mulheres 
de astros da Broadway e Hollywood parecia se meter, e dizia-se francamente que, a despeito 
de ampla pesquisa a respeito, a promotoria fora incapaz de encontrar qualquer pessoa que 
pudesse dizer que achava que Solange alguma vez trara o marido. A opinio geral era de que 
ela fora inteiramente fiel a ele; na verdade, todos os consultados disseram que Solange Walker 
adorava o marido. A promotoria tambm ressaltara que ele no tinha motivo absolutamente 
algum para mat-la. No havia crime passional, no havia justificativa dada por ela para que 
ficasse enlouquecido ou temporariamente insano, ele simplesmente a matara, de modo 
caprichoso e leviano. Chegaram at a pedir uma acusao de assassinato em primeiro grau, 
sugerindo que fora premeditado, que ele queria se livrar dela para poder correr atrs de todas 
as suas piranhas. Enquanto Arthur, por sua vez, tentava conseguir uma acusao de homicdio 
involuntrio, indicando que tudo fora um infeliz acidente. No final, porm, depois de menos 
de um dia de deliberao, e mais de trs semanas de julgamento, o jri o condenou por 
assassinato. Arthur sentiu como se uma parede de pedra tivesse desabado sobre a sua cabea, 
e Sam foi levado para fora do tribunal com um olhar vidrado e vago. Era bvio que estava em 
estado de choque, e sua depresso piorara consideravelmente durante o julgamento. Fora 
difcil obter dele um sentimento real, quando estava depondo, ou acreditar que amara 
verdadeiramente a esposa. Ele estava to atolado na prpria culpa e depresso que no 
conseguia mais transmitir nada semelhante a uma emoo verdadeira, e Arthur temia que 
aquilo o prejudicasse terrivelmente com o jri.
       Arthur pediu para ver o seu cliente na cela de deteno logo aps o veredicto, mas 
Sam se recusara a v-lo. Arthur foi embora em total desespero e frustrao, achando que 
falhara terrivelmente. Contudo, tinha avisado a Sam, suplicara-lhe que arranjasse um 
advogado criminalista. Enquanto voltava para o seu apartamento, Arthur punia a si mesmo 
por ter permitido que Sam o forasse a defend-lo. Tomara dois drinques puros, pensara em ir 
ver as meninas, depois conclura que no estava em condies. Marjorie havia deixado um 
recado dizendo que no voltaria para o jantar. Sentado  sua escrivaninha, na escurido, ele 
conclua que era melhor assim. Ela jamais gostara mesmo de Sam, e o que Arthur estava 
precisando era do toque carinhoso e do amor incondicional de Solange. Era o que todos 
estavam precisando, e fora isso que Sam roubara deles. Por um longo momento Arthur se viu 
imaginando se o jri teria razo, e estremeceu ante seus prprios pensamentos. Foi ento que 
o telefone tocou. Era o sargento da cadeia, dizendo que tinha notcias do seu cliente. Talvez 
Sam estivesse pronto para v-lo, afinal de contas, pensou Arthur enquanto olhava o seu 
relgio de pulso ao crepsculo de vero. Eram 8:15, e ele estava exausto e mais do que um 
pouco bbado. Mas iria at l, por Sam.
       - O seu cliente se suicidou na cela h uma hora, Sr. Patterson. Acabamos de 
encontr-lo.
       Arthur sentiu o corao parar, depois o gosto de bilis na boca. Ia vomitar, ou 
desmaiar,.ou talvez morrer.
       - O qu? - Sua reao mal passava de um sussurro. O sargento repetiu as mesmas 
palavras enquanto Arthur desabava numa cadeira, estremecendo, o corpo inteiro tremendo.
       - Meu Deus, por que no o vigiaram?
       H meses que estava deprimido, deviam ter pensado nisso. Na verdade, um dos 
psiquiatras os prevenira. Mas ningum imaginou realmente... e agora estavam ambos mortos. 
Era insuportvel para Arthur... o seu nico amigo... e a nica mulher que ele amara 
realmente... e agora tinha que pensar nas meninas. Em nome de Deus, o que ia fazer com 
relao a elas? Teria que discutir isso seriamente com Marjorie quando ela chegasse em casa. 
Elas no tinham mais ningum. Sam e Solange estavam mortos, e as filhas deles agora eram 
verdadeiramente rfs.
       
       Captulo 6
       - Voc perdeu o juzo, Arthur? - Marjorie fitava-o, incrdula. Olhava-o como se ele 
tivesse acabado de se despir em pblico. Ele estava esperando por ela quando chegou em 
casa. E ela mal tivera uma reao ao saber do suicdio de Sam. O que a deixara atordoada fora 
a sugesto de Arthur para que acolhessem Hilary, Alexandra e Megan. Era a nica soluo em 
que ele podia pensar. Elas no tinham dinheiro e no tinham famlia, e com um apartamento 
maior e uma empregada permanente ele e Marjorie dariam conta de tudo facilmente... se ela 
permitisse que ele o fizesse. - Est maluco? Em nome de Deus, o que iramos fazer com trs 
crianas pequenas? Nem quisemos ter os nossos prprios filhos, por que iramos tumultuar as 
nossas vidas pelos filhos de estranhos?
       Ele engoliu em seco, tentando desanuviar a cabea e desejando ter esperado at de 
manh. J havia bebido demais quando ela chegou em casa, e receava que os seus argumentos 
no fossem convincentes.
       - Sam Walker era o meu melhor amigo. Salvou a minha vida durante a guerra... 
Aquelas crianas no so estranhas para ns, Marjorie, mesmo que voc queira pensar assim.
       - Mas voc nem tem ideia da responsabilidade de se cuidar de uma criana, que dir 
de trs!
       - Hilary  como a me delas. Tornaria tudo fcil para voc, Marjorie. De verdade. - 
Sentia-se como se tivesse dezesseis anos de novo, implorando  me por um carro, e perdendo 
a batalha. - E eu sempre quis ter filhos. Foi voc quem decidiu que no poderia ter filhos, para 
dar ateno  sua carreira...
       Tentou olhar para ela com ar de reprovao, mas ela parecia no se importar. No 
sentia culpa, apenas uma indignao justificada. 
       - No vou pegar trs crianas para criar. No temos espao, nem tempo, nem estilo 
de vida. Voc  to atarefado quanto eu. E, alm disso, criar trs meninas custaria uma 
fortuna. No! Pode se esquecer disso, Arthur. Coloque-as numa instituio. - E a tragdia, 
pensou Arthur enquanto a escutava preparar-se para ir dormir, era que falava srio.
       Ele tentou de novo, na manh seguinte, enquanto tomavam caf, mas em vo. Ela 
estava decidida, e ele no tinha nem foras nem engenhosidade para fazer com que mudasse 
de ideia.
       - No quero ter os meus prprios filhos, por que iria querer os de outra pessoa? E 
deles! Meu Deus, Arthur, sempre soube que voc era cego, mas nunca pensei que fosse burro. 
O homem era um assassino, sem falar no resto, voc pode imaginar as caractersticas que 
essas crianas vo herdar? E a me delas... - Arthur fez uma cara sinistra quando ela 
recomeou, mas Marjorie estava envolvida demais na sua fala para reparar. - Sempre me 
pareceu uma puta francesa. S Deus sabe o que ela fazia durante a guerra, antes de ter 
apanhado Sam Walker.
       - Agora chega, Marjorie. Voc no sabe do que est falando. Eu estava presente 
quando Sam a conheceu.
       - Num bordel? - ela perguntou maldosamente, e ele teve vontade de esbofete-la. 
Mas no adiantaria. Ela vencera. Ele no ia poder acolher as filhas de Sam.
       - No vou discutir bordis com voc, Marjorie, e posso lhe dizer com toda a certeza 
que Solange Walker nunca esteve num. S lamento que voc no esteja disposta a ser mais 
compassiva nesta situao, Marjorie. Fico muitssimo desapontado.
       Mas ela pouco estava ligando. Foi trabalhar sem dizer mais uma s palavra para 
Arthur.
       No que lhe dizia respeito, era problema dele. E era. Os pais das meninas tinham sido 
os seus maiores amigos. Ele era padrinho de Hilary. Aquelas crianas no eram estranhas para 
ele, no importa o que Marjorie desejasse. Eram de carne e osso, e ele as amava.
       E Sam e Solange tinham-nas amado tambm. Era desesperadamente importante para 
Arthur que elas no se esquecessem disso, ou achassem que estavam sendo abandonadas. A 
ideia de entreg-las para adoo lhe parecia brbara, mas no sabia o que poderia fazer. E as 
coisas se complicaram ainda mais na semana seguinte, quando a empregada e a bab 
anunciaram que iam embora. J tinham permanecido tempo suficiente, em condies terrveis. 
Queriam uma casa de verdade com pais para as crianas, e um casal em casa, no uma mulher 
assassinada e um marido que estivera na cadeia. Ambas pareciam ofendidas com o escndalo 
que acabara sobrando para elas, e tinham pouqussima compaixo pelas crianas. E para 
Arthur significava encontrar novas pessoas para cuidar delas, o que parecia ainda mais 
complicado agora. E ento, no fim de semana, ele pegou o nome da irm de Sam, Eileen 
Jones. Ficou imaginando se poderia encontr-la em Boston. Mas pensou que, se a encontrasse, 
talvez conseguisse induzi-la a cuidar delas por algum tempo. A ele poderia entregar o 
apartamento de Sutton Place, o que seria uma grande economia. J estavam praticamente sem 
fundos. Mas se elas ficassem com a tia, Arthur ganharia algum tempo para tomar outras 
providncias, ou convencer Marjorie mudar de ideia. Mais do que qualquer coisa, queria fazer 
Marjorie entender que o que desejava era certo, e no uma loucura, como ela ficava 
insistindo. Seria preciso fazer algumas adaptaes,  claro, mas elas eram trs seres humanos, 
e valiam a pena as adaptaes mesmo que ela no achasse. Mas, e depois? E se no ficassem 
com elas, quem ficaria? Era isso o que preocupava Arthur. 
       Mas primeiro era preciso encontrar a tia delas, e ver se ela as receberia, ao menos 
durante o vero. Ela no podia ser to ruim quanto Sam dissera. Era a irm dele, afinal, e a 
voz de sangue falava alto. Mandou a secretria ligar para o servio de informaes de Boston, 
e finalmente localizaram um Jack e uma Eileen Jones em Charlestown, um subrbio onde se 
situava um estaleiro e que, segundo a secretria, ficava  beira d'gua. Parecia perfeito para 
umas pequenas frias de vero, e Arthur ligara para ela, sem prembulos. Pareceu aturdida 
com o telefonema, e disse que tinha lido sobre o julgamento e o subsequente suicdio do 
irmo nos jornais. No parecia especialmente emocionada com a morte dele, e perguntou a 
Arthur, sem rodeios, se Sam deixara algum dinheiro.
       - No muito, infelizmente, e  por este motivo que estou telefonando. - Resolveu ir 
directo ao assunto e ver se ela o ajudaria. No tinha mais a quem apelar, agora. - Como a 
senhora talvez saiba, Sam e Solange tinham trs filhinhas, Hilary, Alexandra e Megan e, no 
momento, no h literalmente ningum para acolh-las. Quero lhe falar sobre a possibilidade 
de... de ver se estaria interessada em lhes dar um lar, temporria ou permanentemente, o que 
melhor lhe convier.
       Fez-se um silncio aturdido do outro lado. E ento soou a voz aguda, que no tinha 
nada do refinamento da do irmo.
       - Puta merda! Est brincando, moo? Trs crianas! Eu nem mesmo tenho filhos. Por 
que iria querer as trs pirralhas de Sam?
       - Porque elas precisam da senhora. Se ficasse com elas durante o vero, isso me daria 
tempo de achar um outro lar adequado para elas. Mas no momento elas no tm para onde ir. - 
Ele tentava conquistar a simpatia dela, mas outra ideia ocorrera a Eileen Jones.
       - O senhor me pagaria para ficar com elas?
       Arthur fez uma pausa, mas somente de um segundo.
       - Posso lhe dar dinheiro suficiente para atender s necessidades delas enquanto 
estiverem com a senhora.
       - No era o que eu queria dizer, mas aceito isso tambm.
       - Entendo. - Arthur podia ver por que Sam no gostava dela, mas no havia mais 
ningum a quem apelar. - Trezentos dlares serviriam como remunerao, Sra. Jones? Cem 
por cada criana?
       - Por quanto tempo?
       Ela parecia desconfiada. Desconfiada e gananciosa.
       - At eu achar uma casa para elas... algumas semanas, um ms, talvez o vero.
       - No mais do que isso. No estou dirigindo um orfanato aqui, o senhor sabe. E meu 
marido no vai gostar. 
       Mas ela sabia que ele ia gostar dos trezentos dlares e estava torcendo para poderem 
arrancar mais de Arthur.
       - Tem espao para elas, Sra. Jones?
       - Tenho um quarto de sobra. Duas delas podem dormir numa cama, e a gente arranja 
qualquer coisa para a outra.
       - Esta seria Megan. Vai precisar de um bero. Tem pouco mais de um ano. - Teve 
vontade de lhe perguntar se ela sabia como cuidar de um beb. Teve vontade de perguntar um 
bocado de coisas, mas faltou-lhe coragem. No tinha escolha. Teria de confiar que ela faria o 
melhor possvel, em nome de Sam. E as crianas eram to adorveis que tinha certeza de que 
se apaixonaria por elas no minuto em que as visse.
       Mas no foi exactamente amor  primeira vista quando Arthur levou as trs meninas 
para Charlestown. Ele explicara para Hilary, na vspera, que iam passar o vero com a sua tia 
Eileen. Mandou a empregada arrumar todas as coisas delas, e explicou em voz baixa que ela e 
a bab estariam livres para ir embora depois que as meninas partissem, na manh seguinte. 
Sugeriu que Hilary e Alexandra levassem os seus brinquedos favoritos. E no contou a 
ningum que ia fechar o apartamento e vender tudo, to logo as crianas o deixassem. Elas 
estariam mais bem servidas com qualquer quantia que ele conseguisse com a venda dos 
mveis, e sem ter os fundos reduzidos pelo pagamento do aluguel de um apartamento em 
Sutton Place. As dvidas de Sam ainda eram astronmicas e no havia dinheiro entrando de 
fonte alguma para elas. Ele ficou satisfeito por se livrar do apartamento e das duas 
empregadas.
       Hilary o fitara, desconfiada, quando ele lhes falara da viagem a Boston Muito da sua 
afeio por ele parecia ter diminudo desde a morte da me, mas era difcil dizer se esta era a 
sua maneira de expressar dor, ou se havia algum outro motivo.
       - Por que vai nos mandar embora?
       - Porque l vai ser melhor para vocs do que aqui. A sua tia mora perto do mar, em 
Boston. Ser mais fresco, pelo menos, e vocs no podem passar todo o vero aqui em Nova 
York, Hilary.
       - Mas vamos voltar, no e?
       - Claro que sim.
       Sentiu uma onda de culpa e terror inund-lo. E se ela percebesse que estava 
mentindo?
       - Ento por que mandou Millie arrumar todas as nossas coisas?
       - Porque achei que poderiam precisar delas. Vamos, Hilary, seja razovel. Vai ser 
bom para vocs todas ficarem conhecendo a irm do seu pai.
       Hilary estava parada, muito quieta, no centro da sala, num vestido de organdi 
amarelo debruado de pique branco, o cabelo preto lustroso - como o de Sam - perfeitamente 
penteado em duas tranas, os grandes olhos verdes to sbios quanto tinham sido os de 
Solange, as meias soquetes brancas imaculadas, os sapatos de verniz brilhando. E ela o 
estudava, como se soubesse que lhe estava escondendo alguma coisa. De certa forma, ela o 
assustava. Era sagaz e serena, e to ferozmente protectora das irms. Recebera com 
estoicismo a noticia do suicdio do pai. Mal tinha chorado e consolara Alexandra, explicando 
que papai fora para o cu para ficar com mame. Tudo parecia terrivelmente difcil para 
Alexandra entender, tinha apenas cinco anos, afinal, mas Hilary tornava tudo mais fcil para 
ela, como fazia para todas elas. Era como se Solange estivesse ali para cuidar de todas elas, na 
sua ausncia.
       - Por que nunca conhecemos a tia Eileen antes? Meu pai no gostava dela?
       Era perceptiva, exactamente como Solange o fora, e no engolia qualquer coisa. Os 
olhos dela que o percorriam, cintilando, faziam-no lembrar tanto da sua me.
       - Acho que no eram muito ligados, Hilary, mas isto no quer dizer que ela no seja 
simptica.
       		Hilary assentiu. Estava disposta a suspender o seu julgamento. Temporariamente. 
Mas era fcil ver o que pensava quando chegaram a Charlestown.
       Era uma casinha com vigamento de madeira numa rua escura, com persianas 
despencadas com os ventos fortes de invernos anteriores. A tinta descascava por toda parte, o 
jardim estava cheio de ervas daninhas, e havia dois degraus da frente quebrados. Era uma 
acolhida menos do que auspiciosa, enquanto Hilary subia a escada segurando a mo de 
Alexandra e Arthur carregava o beb. A bab viera com eles na viagem, mas voltaria para 
Nova York com Arthur.
       Ele tocou a campainha em vo, at se dar conta de que tambm estava quebrada. E 
ento bateu com fora na janela. Podia sentir os olhos de Hilary fitos nele, e a sua pergunta 
muda, indagando-lhe por que tinham vindo para c. No tinha coragem de olhar para ela 
agora, no suportaria ver os olhos de Hilary fitando-o, cheios de muda reprovao e de fria 
contida.
       - Sim? - A porta se abriu, afinal, e uma mulher de cabelos louros pegajosos a 
escancarou, usando um roupo de banho sujo e esgarado. - O que vocs querem?
       Ela fitou a turma nos degraus com irritao evidente, um cigarro pendendo do canto 
da boca, os olhos apertados para se defenderem da fumaa que subia, e ento percebeu quem 
eram. Sorriu meio sem graa e, por uma frao de segundo, pareceu-se com Sam, mas quase 
imperceptivelmente. Era preciso estar procurando a semelhana.
       - Sra. Jones?
       O corao de Arthur lhe caa lentamente aos ps, e no se sentiu melhor ao entrarem 
na sala de visitas. Havia um sof quebrado, trs cadeiras surradas com o estofo aparecendo, 
uma mesinha de centro que j conhecera dias melhores e um pequeno conjunto de jantar de 
frmica, com uma televiso a todo volume  distncia. Por dentro, a casa parecia ainda pior 
do que por fora. Aparentemente, Eileen Jones no passava muito tempo cuidando da casa para 
o marido.
       Era sbado  tarde, e o rdio transmitia em altos brados um jogo de beisebol, 
competindo com a voz de Gabby Hayes na TV. O barulho era ensurdecedor, e as crianas 
pareciam aturdidas. Todos estavam parados no meio da sala, constrangidos, entreolhando-se.
       - Quer uma cerveja? - Ela olhou para Arthur, ignorando as crianas. E era difcil 
acreditar que esta era a irm de Sam Walker. Ele sempre fora to arrumado, impecvel, um 
homem to bonito, tivera tanta presena, poder e magnetismo. As pessoas se sentiam 
instantaneamente atradas por Sam, ele e Solange haviam formado um casal estonteante. Mas 
esta mulher era uma pardia de tudo que era vulgar, surrado e feio. Parecia ter muito mais do 
que os seus 39 anos, e a bebida produzira seus estragos bem cedo. Talvez tivesse sido atraente 
no passado, mas qualquer coisa de agradvel na sua aparncia j no existia mais. Parecia 
apenas vulgar, amarga e feia. O seu cabelo tingido era ralo, sujo e malcuidado, cortado logo 
abaixo das orelhas, e pendendo mole e engordurado. Tinha os olhos azuis brilhantes de Sam, 
mas os dela eram meio embaados, com olheiras terrveis de tanto beber. A pele era sem vida, 
a cintura engrossada pela cerveja, enquanto as pernas pareciam dois palitinhos. Era totalmente 
estranha  realidade das meninas, e Arthur se deu conta de que Hilary a estava fitando, 
chocada e horrorizada.
       - Esta  Hilary. - Ele tentou encoraj-la a se adiantar para apertar a mo da mulher, 
mas ela nem se mexeu. - E Alexandra - que farejou a cerveja choca que parecia pairar no ar e 
fez uma careta, enquanto erguia os olhos para Hilary com reprovao evidente - e Megan.
       Apontou para o beb, que olhou para a loura fanada com seus olhos grandes. Era a 
nica que no parecia preocupada com a sua casa de veraneio ou a sua anfitri. As outras duas 
pareciam apavoradas, e Hilary teve que lutar contra as lgrimas quando viu o quarto que lhes 
tinha sido destinado. Eileen Jones levou-os at ele sem a menor cerimnia, fazendo um gesto 
na direco da cama estreita e bamba que ficava num canto, ainda por fazer. O quarto em si 
era uma cela estreita, sem janelas, no qual mal cabia a cama, com um bero dobrado de 
encontro a uma das paredes, dando a impresso de ter sido achado numa caamba de lixo que 
foi precisamente onde Eileen o encontrara, pouco depois de Arthur lhe telefonar.
       - A gente bota os lenis na cama mais tarde. - Sorriu artificialmente para a sobrinha 
mais velha. - Quem sabe voc pode me ajudar?- E ento, sem nenhum interesse especial, 
lanou um olhar para Arthur. - Ela tem os olhos da me.
       Arthur ficou intrigado.
       - Conhecia Solange?
       Solange jamais lhe mencionara esta mulher.
       - Eu a vi uma vez. Sam estava trabalhando numa pea aqui por perto ou coisa 
parecida.
       E ento Arthur se lembrou de repente. Solange a detestara. Mas Sam tambm a 
detestava. Eles tinham vindo visit-la quando ele estava trabalhando no teatro de repertrio 
em Stockbridge, depois da guerra. Parecia que sculos tinham decorrido, mas tudo aparecia 
agora. Arthur olhou  sua volta com um bolo na garganta, detestando deixar as meninas ali. E, 
por um momento, odiou Marjorie por condenar as meninas a tal destino. Como podia fazer 
uma coisa dessas? Mas ela no sabia, ele lembrou a si mesmo, enquanto abafava a prpria 
culpa e ressentimento. Teve que se forar a no pensar nisso e a se lembrar de que o arranjo 
era s para o vero. E depois... a  que estava o verdadeiro problema. E depois o qu? 
Marjorie continuava intransigente. E ele j procurara por toda a parte gente que podia ajudar, 
gente que podia acolh-las, gente com famlias grandes, ou gente sem filhos mas disposta a t-
los. Falara com todos os scios da sua firma de advocacia.
       Hilary permanecia parada, sem jeito,  porta do que seria o quarto delas, fitando com 
desalento onde iriam morar. No havia um armrio, nem uma cmoda para as coisas delas, 
no havia nem mesmo uma cadeira ou um abajur ou uma mesa. Havia uma lmpada nua 
pendurada no tecto, que se balanava nas proximidades da porta.
       - Trouxe o dinheiro? - Eileen voltou-se para ele. Sentindo-se constrangido em 
entregar-lhe o dinheiro na frente das meninas, ele meteu a mo no bolso para retirar um 
envelope.
       - Isto inclui uma quantia razovel para as despesas delas.
       Sendo bem menos sensvel do que Arthur, ela abriu o envelope e contou rapidamente 
o dinheiro. Ele lhe dera mil dlares, incluindo a remunerao, e se ela no bobeasse e lhes 
desse apenas macarro para comer durante os prximos dois meses, faria um bom p-de-meia. 
Sorriu feliz para as meninas, tomou um gole de cerveja e saudou Arthur enquanto jogava o 
cigarro na pia com mira perfeita. Fazia-o com frequncia.
       - Est ptimo, Sr. Patterson. Se tivermos algum problema, ligo para o senhor.
       - Pensei em dar um pulo at aqui dentro de algumas semanas se a senhora e seu 
marido no se importarem, para ver como elas esto passando. - Hilary fitou-o incrdula. Ele 
ia realmente deix-las neste lugar, com a sujeira, as garrafas de cerveja e a cama por fazer... e 
aquela mulher horrvel! E se fora retrada antes, agora estava glida, quando ele as deixou. - 
Vou ligar daqui a uns dias, Hilary, e no tenha medo de me ligar, se precisar.
       Ela s conseguiu assentir. No podia acreditar que ele estivesse fazendo isso com 
elas, depois de tudo que j fizera. Por um momento teve vontade de mat-lo. Em vez disso, 
porm, virou-se para fitar Alexandra, que estava chorando baixinho.
       - No seja boba, Axie. Vai ser divertido. Lembre-se de que o tio Arthur falou que 
poderamos ir at o oceano.
       -  mesmo! - Eileen riu asperamente enquanto ouviam o carro se afastar. - Onde vai 
fazer isso? No estaleiro? - Riu de novo. Mil pratas era um preo danado de bom para alguns 
meses de inconvenincia, e com sorte elas no seriam muito ruins. O beb podia ser um p no 
saco, e a de cinco parecia chorona, porm a mais velha aparentava ter tudo sob controle. Com 
sorte, cuidaria de tudo. Quem sabe at cozinharia e cuidaria da casa? Eileen desabou no sof 
em frente  TV com outra cerveja e acendeu um cigarro. Talvez ela e Jack sassem para jantar 
fora.
       - Com licena. - Hilary estava parada ao lado da televiso, sem jeito, segurando o 
beb. - Onde esto os lenis da nossa cama?
       - Na varanda do fundo, acho. Se voc puder achar eles.
       No falou mais uma nica palavra para elas, enquanto Hilary as organizava, em 
silncio. Encontrou lenis rasgados, mas pelo menos limpos, e colocou-os na cama. Mas no 
havia travesseiros nem cobertores. E ela colocou um lenol improvisado no bero do beb, 
encaixando-o entre a sua cama e a parede, com medo de que fosse cair, se no o fizesse. 
Como desconfiara, o bero estava quebrado.
       Lavou o rosto de Alexandra e levou-as ao banheiro, trocou a fralda de Megan e 
pegou gua para as trs, depois ficaram sentadas no seu novo quarto, olhando ao redor.
       - Aqui  to feio - sussurrou Axie, com medo que a senhora com o cigarro e a cerveja 
a escutasse. - Ela  mesmo irm do papai?
       Hilary fez que sim. Era difcil acreditar, e no muito agradvel de considerar, mas era 
tia delas e no havia outro jeito: tinham de passar o vero com ela. No havia lugar para botar 
os brinquedos, e os vestidos que a bab arrumara para elas e tinham que permanecer nas 
malas. J eram cinco horas quando Eileen tornou a v-las. Como imaginara, Hilary tinha tudo 
sob controle.
       - com licena. - Ela estava parada diante dela com o seu cabelo negro lustroso e os 
grandes olhos verdes, como uma porta-voz em miniatura. - Ser que podia-nos dar alguma 
coisa para as minhas irms comerem? As duas esto com fome.
       Eileen nem tinha pensado nisso. No havia nada na casa. Ela abriu a geladeira e l s 
havia cerveja, alguns limes apodrecidos e po velho. Eileen e Jack nunca comiam em casa, 
se podiam comer fora. S o que faziam era beber em casa.
       - Claro, garota. Qual delas  voc?
       - Hilary. - Havia algo de muito distante nos olhos dela, como se estes ltimos nove 
meses a tivessem quebrado. Tinha apenas nove anos e j suportara mais dor e sofrimento do 
que a maioria das pessoas suporta numa vida inteira.
       - Pode ir at  loja para mim, e comprar alguma coisa para vocs comerem? Umas 
duas latas de atum devem ser o bastante.
       - Atum? - Hilary parecia nunca ter ouvido a palavra antes. Estava acostumada com 
refeies quentes preparadas pela empregada em Sutton Place, e pela me, anteriormente. 
Sopas grossas, ensopado, bifes ao ponto, e bolo de chocolate com sorvete de baunilha. - 
Atum? - repetiu.
       - . Tome algum dinheiro. - Entregou-lhe alguns dlares como se esperasse que ela 
fosse criar um jantar inteiro com dois dlares. At mesmo Hilary sabia que era impossvel. A 
bab lhe dava mais do que isso quando ia comprar sorvete. - A loja fica na esquina, voc no 
pode errar. E me compre tambm outra cerveja, t?
       Estava sempre com medo da cerveja acabar, mesmo quando ainda tinha muito.
       Hilary levou as irms consigo, s porque tinha medo do que aconteceria se no 
levasse. E a loja parecia to desagradvel quanto todo o resto  volta delas. A maioria das 
casas era de tijolo caindo aos pedaos ou de madeira com tinta desbotada e descascada. E tudo 
no bairro parecia gasto, surrado e quebrado. Hilary comprou duas latas de atum, um vidro de 
comida de beb, um po de forma, um pouco de maionese, manteiga, meia dzia de ovos, um 
pacote de leite e uma lata de cerveja para a sua anfitri. Hilary achava que poderia fazer uma 
refeio quase decente de tudo aquilo, e poderia usar o resto dos ovos e o po para fazer o 
desjejum na manh seguinte. Mas quando entrou pela porta da frente, lutando para carregar a 
sacola e Megan e ainda segurar a mo de Axie, Eileen lhe perguntou:
       - Onde est minha cerveja?
       - Est na sacola.
       - Ento pegue - gritou ela para Hilary, e Axie comeou a choramingar. Detestava 
gente que gritava com ela, ou com as irms. A me jamais o fizera, e at mesmo a bab no 
gritava com elas, muito embora no a estimassem muito porque dizia coisas feias sobre seus 
pais.
       Hilary entregou a cerveja para Eileen o mais depressa que pde e Eileen olhou para 
ela com cara feia e fez a segunda pergunta.
       - Cad o troco?
       Hilary entregou-lhe trs cents e Eileen os jogou de volta, atingindo o beb perto do 
olho com uma das moedas.
       - O que foi que fez, comprou um fil? Isto aqui no  Park Avenue, voc sabe. Que 
diabo, onde est o resto do dinheiro?
       Parecia ter-se esquecido dos 1.000 dlares que Arthur lhe dera para este propsito.
       - Tive que comprar o jantar para elas - explicou Hilary. - E no tinha nada para o caf 
de amanh.
       - Quando eu quiser que voc compre coisas para o caf, eu aviso. Entendeu? E da 
prxima vez no gaste tanta grana.
       Hilary ficou aturdida com o que estava ouvindo, e as suas mos tremiam enquanto 
preparava o jantar. Com percia, colocou a comida diante delas em dez minutos. Um ovo 
quente, torrada e alimento infantil para Megan, e sanduches de atum com maionese para si e 
para Axie, e grandes copos de leite para as trs. Estavam famintas e exaustas depois da 
viagem desde Nova York e do choque emocional de Eileen e Charlestown.
       Hilary no ofereceu  tia nada para comer, e Eileen no demonstrou interesse no que 
estavam fazendo. Hilary levou-as para comer no quarto. O rudo alto e simultneo do rdio e 
da televiso tornava impossvel conversar, e Eileen amedrontava todas elas, at o beb. Mas 
quando Hilary colocava os pratos na pia e comeava a lav-los, o marido de Eileen chegou, e 
Hilary teve ainda mais medo quando o viu. Ele era um homem imenso, robusto, com braos 
enormes e ombros possantes, e usava calas de trabalho e uma camiseta sem mangas. A 
nuvem de bebida que o cercava chegou at ela, na cozinha. Ele comeou a gritar com Eileen 
quase no instante em que cruzou a porta, mas antes que pudesse bater nela, a mulher acenou 
com o envelope e mostrou-lhe o que ele imaginava ser todo o dinheiro. Quinhentos dlares. 
Ele abriu um grande sorriso idiota, sem desconfiar que a mulher tinha escondido uma quantia 
igual numa pilha de meias velhas onde guardava o seu dinheiro.
       - Puxa... benzinho! Olhe s para isso. No  bonito? - Hilary o observava, muito 
antes de ele enxerg-la. - Para que e isso?
       - Elas. - Apontou vagamente para os fundos da casa e Jack enxergou Hilary na 
cozinha.
       - Quem  aquela? - Parecia no estar entendendo nada. Hilary notou que ele tinha um 
rosto incrivelmente estpido e olhos que lembravam os de um porco. Ela o odiou  primeira 
vista. Era ainda pior do que Eileen, e parecia mais malvado.
       - Lembra-se das filhas do meu irmo de quem lhe falei?
       - Aquele que "apagou" a patroa?
       - . Ele. Pois e, elas chegaram hoje.
       - Quanto tempo vamos ter que ficar com elas?
       No parecia nem um pouco satisfeito, enquanto olhava para Hilary como se fosse um 
pedao de carne. No parecia encarar a chegada delas como uma boa notcia, a despeito do 
dinheiro inesperado.
       - Algumas semanas, at que o tal advogado encontre um lugar para elas morarem.
       Ento era isso. Hilary ouviu a noticia com um arrepio. Arthur nada explicara antes de 
partirem, e ela se perguntou de repente o que aconteceria ao apartamento delas.
       Eileen sorria para o marido, enquanto Hilary os observava. Estava completamente 
indiferente s crianas no quarto dos fundos, assim como ele. Era como se no existissem.
       - Ei, benzinho, vamos sair para danar hoje!
       Ambos estavam bbados demais aos olhos de Hilary, mas Jack Jones pareceu gostar 
da ideia. Ele tinha um rosto oleoso e cabelos ralos, e mos grossas que pareciam rosbifes.
       - A gente pode deixar as crianas?
       - Claro, por que no? A mais velha faz tudo.
       - Tudo? - Ele sorriu maliciosamente para a esposa e se aproximou mais dela. Hilary 
pressentiu, com um arrepio, que o que ele estava insinuando era imprprio, mas Eileen apenas 
achou graa e puxou-o mais para perto de si.
       - Qual , seu velho marujo tesudo... ela s tem nove. V se te manca... - Eileen ria 
para Jack, enquanto ele apertava com fora a boca contra a dela e enfiava a mo gorda pela 
abertura do roupo.
       - E voc, quantos tinha da primeira vez?
       - Treze - ela respondeu recatada, mas ambos sabiam que estava mentindo. E ento, 
com uma risada estridente, ela se levantou para ir buscar outra cerveja e viu que Hilary 
observava.
       - Que diabo est fazendo aqui? Espionando a gente, sua pirralha? 
       - Eu s estava... lavando a loua do jantar... desculpe... eu... 
       - V para o seu quarto! - berrou ela, batendo com fora a porta da geladeira. - 
Malditas crianas!
       Sabia que iriam ser um grande aborrecimento, antes que se livrasse delas. Mas, 
contanto que Jack no se importasse demais, elas valeriam pelo dinheiro.
       Os Jones saram s oito horas da noite. Megan e Alexandra j estavam dormindo no 
quarto estreito e abafado, mas Hilary permanecia deitada no escuro, pensando na me. Ela 
jamais teria deixado que algo assim lhes acontecesse. Jamais. Teria esbravejado com Eileen, 
levado as filhas e, de algum jeito, arrumaria um lar para elas. E era exactamente isto que 
Hilary tinha que fazer. E ela sabia. Tinha que arranjar um jeito, um lugar para ir... e dinheiro 
suficiente para isso. No permitiria que nada acontecesse s suas irmzinhas. Faria qualquer 
coisa para proteg-las. E, nesse meio-tempo, tinha que mant-las afastadas de Jack e Eileen, 
mant-las entretidas, l fora no quintal cheio de ervas daninhas, ou no quarto. Prepararia as 
suas refeies, lhes daria banho, cuidaria de suas roupas. Ficou deitada planejando tudo at 
que pegou no sono. S acordou de manhzinha, quando Megan a despertou s 6:15, com a 
fralda suja. Era uma criana de bom gnio, com os cabelos ruivos da me, que caiam em 
cachos acobreados; e tinha os grandes olhos azuis do pai, assim como Hilary tinha os cabelos 
escuros do pai e os olhos verdes da me. Mas era Alexandra quem se parecia realmente com a 
me, e s vezes Hilary ficava de corao partido ao ver como era to parecida com Solange, 
rindo igualzinho a ela.
       Ela preparou o desjejum das meninas antes de Jack e Eileen acordarem e as levou 
para brincar l fora, aps vesti-las com vestidinhos azuis riscadinhos. Ela usava um vestido 
vermelho com um aventalzinho. A me o comprara para ela antes de morrer, e era o seu 
preferido. E consolava-a vesti-lo agora, e pensar na me.
       Foi s ao meio-dia que Eileen Jones apareceu na porta, olhando-as com cara feia. 
Parecia doente e, se fossem mais velhas, saberiam que estava com uma tremenda ressaca.
       - No podem calar a boca, suas fedelhas? Fazem barulho por um bairro inteiro. 
Cristo!
       A porta de tela bateu e ela entrou. S tornaram a v-la depois do almoo. Ela ficava 
dentro de casa o dia todo, vendo televiso e bebendo cerveja. Jack aparentemente bebia em 
outra parte. A nica modificao durante a semana era que Jack saa mais cedo e usava roupas 
de trabalho. Raramente falava com elas, excepto que de vez em quando fazia uma pilhria 
com Hilary, dizendo que ela seria bonita algum dia, e ela nunca sabia o que responder. Eileen 
nem se dirigia a elas. E pareceu levar sculos at Arthur dar notcias. Ele ligou exactamente 
uma semana depois e perguntou como estava indo tudo. Hilary falou mecanicamente e disse 
que estavam bem, mas era bvio para qualquer um que no estavam. Axie comeara a ter 
pesadelos e Megan acordava durante a noite. O quarto era insuportavelmente quente e a 
alimentao inadequada. Hilary fazia o possvel para compens-las por tudo aquilo, mas havia 
um limite para o que podia fazer. Afinal de contas, era uma criana de nove anos e estava 
lentamente se afogando em guas profundas.
       Mas no contou nada disso para Arthur.
       - Estamos bem.
       - Telefono de novo daqui a alguns dias.
       Mas no telefonou. Estava ocupadssimo no escritrio com um caso difcil, e ainda 
tentava resolver os negcios de Sam e encontrar algum para ficar com as crianas, mas em 
Agosto ficou bem evidente que isso no ia acontecer. E ele desistira de tentar convencer a 
mulher. Ela lhe dissera, de uma vez por todas, que era ela ou as crianas. A sorte estava 
lanada. Arthur no ia ficar com elas.
       
       Captulo 7
       No final do vero dois dos scios de Arthur o procuraram, inesperadamente, e 
ofereceram-se para solucionar seu problema.
       O primeiro a faz-lo foi um dos scios mais antigos da firma. George Gorham estava 
quase se aposentando, mas no ano anterior se casara com uma jovem socialite extremamente 
atraente, de vinte e poucos anos. Margaret Millington fora uma das mais belas debutantes do 
seu ano, e depois disso impressionara a todos pelo seu belo desempenho em Vassar. Mas, 
ento, abandonara o invlucro costumeiro e, em vez de se casar com um dos jovens que seus 
pais aprovavam, envolveu-se com George Gorham. Vivo, ele era quarenta anos mais velho 
do que ela, e perfeito para ela de todas as maneiras. S que no podia ter filhos. Fora honesto 
com ela, e Margaret insistira que no tinha importncia. Mas ele temia que algum dia pudesse 
ter, e no queria perd-la. E a pequena Alexandra preencheria o nico vazio entre eles. Ele 
chegara a discutir com Margaret a adoo de todas as meninas Walker para manter a famlia 
intacta, mas, embora fosse um gesto nobre, parecia um pouco excessivo para eles. No se 
sentia jovem o bastante para acolher uma criancinha da idade de Megan, e uma criana da 
idade de Hilary, ao ser adotada, poderia apresentar problemas. Mas uma menina de cinco anos 
parecia o ideal para eles, e Margaret estava eufrica.
       No mesmo dia em que George procurara Arthur com a ideia de adotar Alexandra, 
David Abrams viera conversar com ele em particular. David tinha apenas 34 anos, e ele e a 
mulher, Rebecca, eram advogados, s que Rebecca trabalhava para outra firma com 
tendncias mais liberais. Estavam casados desde o seu ltimo ano de colgio e tentavam ter 
um beb desde o seu ltimo ano na faculdade, sem xito. Por fim disseram-lhe que o caso era 
sem esperanas. Rebecca no podia ter filhos. Fora um golpe tremendo para ambos, 
especialmente porque esperavam ter vrios filhos, mas agora achavam que j se dariam por 
satisfeitos com um, que era, na verdade, o que podiam sustentar no momento. Como os 
Gorhams, tinham pensado brevemente em adoptar todas as trs, mas no se sentIram capazes 
de assumir um compromisso to grande. O que eles queriam era adoptar Megan, o beb.
       O que deixava Hilary sobrando. E Arthur com uma enorme deciso a tomar. Deveria 
separar a famlia? Tinha o direito de fazer isso? Mas, afinal, Sam tinha assassinado Solange e, 
ao faz-lo, destrura a vida de todos eles. Quem sabe Arthur poderia salvar cada uma em 
separado? Os Gorhams eram gente maravilhosa, e os dois imensamente ricos. No havia 
dvidas na cabea de Arthur de que Alexandra teria tudo que precisasse. E pelo que George 
dizia, era bvio que a amariam profundamente. Ainda mais: estariam por perto, e Arthur 
poderia ficar de olho nas coisas - no que isso fosse necessrio com George e Margaret 
Gorham.
       E embora Rebecca e David Abrams no tivessem a mesma situao financeira de 
George, eram dois jovens esforados e trabalhadores, com carreiras promissoras pela frente, 
com famlias de Nova York, portanto era improvvel que se afastassem muito dali, e mais 
uma vez, Arthur poderia bancar o anjo da guarda de Megan.
       Mas era Hilary quem mais o preocupava. O que aconteceria com ela agora? Era uma 
pena que nem os Gorhams nem os Abrams estivessem dispostos a aceitar uma segunda 
criana, mas quando ele perguntou novamente, ambos foram enfticos na negativa. Ele tocou 
no assunto com Marjorie mais uma vez, e a resposta dela foi um "no" inflexvel. E sentia que 
o relacionamento deles corria um grande risco caso insistisse. Ele lhe prometera, semanas 
antes, no mencionar mais aquele tpico. Mas isso deixava Hilary sem ter para onde ir, 
excepto ficar onde estava, com os Jones em Boston, se eles quisessem ficar com ela. Depois 
de tudo liquidado, sobraria no esplio de Sam uns dez mil dlares, e Arthur pensou na 
possibilidade de oferec-los aos Jones para a manuteno de Hilary, enquanto o dinheiro 
durasse. Era melhor do que nada, porm no muito, e ele no estava feliz com a soluo 
enquanto tomava as providncias finais para as outras. Os papis de adoo ficaram prontos, 
com os dois casais loucamente excitados. Rebecca pretendia tirar um ms inteiro de frias e 
Margaret e George planejavam uma viagem  Europa no outono com a nova filha. George j 
vasculhara as lojas, e o novo quarto de Alexandra parecia uma casa de brinquedos, alm de 
Rebecca ter comprado suteres, macaces e roupa de baixo que dariam para quntuplos. Elas 
eram duas garotinhas de muita sorte, esperadas com emoo e entusiasmo. Mas era Hilary 
quem continuava a preocupar Arthur.
       Em meados de agosto, ele teve uma rpida conversa com Eileen Jones e lhe explicou 
a situao. E ela respondeu, francamente, que por dez mil dlares ficaria com a garota para 
sempre, mas no via motivos para adot-la. Hilary podia simplesmente morar com eles. E 
cozinhar e lavar, embora no desse esses detalhes para Arthur. Era como ter uma empregada 
permanente. A garota j estava fazendo tudo, e Hilary tinha tanto medo de Eileen que fazia 
tudo o que mandava. Uma vez ela esbofeteara Alexandra com fora, por uma pequena 
infrao que nunca explicou, e batera em Megan mais de uma vez, quando ela mexia na 
televiso ou no rdio ou saa do quarto delas, o que era difcil no fazer. Era um quarto 
minsculo para as trs, especialmente para um beb que ainda no tinha dois anos, e no 
compreendia porque devia ficar preso naquele cmodo.
       Eileen concordou em ficar com Hilary, contanto que recebesse os dez mil dlares em 
espcie. Ela estava se tornando um empreendimento muito lucrativo para Eileen. E, desta 
feita, ela falaria a Jack de dois mil e guardaria oito para si, contando-lhe uma histria 
fantasiosa de que estaria fazendo aquilo em memria do irmo.
       - Pensei que voc no gostava dele.
       - Ele ainda era meu irmo... e ela ainda  a filha dele. Alm disso,  uma criana 
legal, trabalhadeira.
       - As crianas so um p no saco. - Jake sabia disso por experincia prpria. A sua 
ltima mulher tinha trs, que quase o deixaram maluco. - Mas se quiser cuidar dela,  
problema seu, no meu. Desde que ela no me encha o saco.
       - Se encher, meta-lhe a mo.
       -  - Isto pareceu amolec-lo, e Jack concordou em deixar que Eileen ficasse com 
ela. E naquela noite ela se trancou no banheiro, verificou se o seu dinheiro estava todo ali e 
concluiu que, com os oito mil que guardaria do que ia receber por Hilary, teria perto de dez 
mil dlares escondidos entre as ligas e as meias. Aquilo a fazia sentir-se bem, para o caso de 
algum dia resolver abandonar o marido. E talvez levasse a garota junto, talvez no. Tudo ia 
depender se ela seria de alguma utilidade ou no, do contrrio Jack que se preocupasse em 
aliment-la, ou ento o advogado que a pegasse de volta. Ela no devia nada  garota. Mas a 
garota lhe devia. Afinal de contas, concordara em ficar com ela, no  mesmo? Ela lhe devia 
muito, do ponto de vista de Eileen. E Eileen nada lhe devia.
       Arthur apareceu com ar sombrio, trazendo uma bab que contratara para aquele dia, e 
ficou abismado ao constatar a magreza de Hilary e a palidez das outras, aps o tempo passado 
ali. Pareciam crianas abandonadas e ele pediu a Deus que estivessem com sade. Pediu a 
Hilary que fosse l para fora com ele, para conversarem um pouco. Queria saber como 
estavam realmente, mas ela nada lhe disse. Era como se tivesse colocado uma distncia ainda 
maior entre eles, e Arthur nem suspeitava o quanto ela o odiava por deix-las naquele inferno. 
Passara dois meses tentando arranjar sustento para as irms, mal conseguindo aliment-las, o 
que dir a ela mesma, com a quantia mnima que Eileen lhe dava. Ela lavara, esfregara, 
cozinhara e tomara conta das meninas, sempre as protegendo das ameaas de surra dos tios. E, 
 noite, cantava para elas dormirem e as abraava quando choravam pedindo a me. E Arthur 
no sabia de nada disso enquanto observava o rosto de Hilary e se perguntava por que estava 
to distante.
       E agora tinha que lhe dar a notcia para a qual ningum a preparara. As irms iam 
embora, mas ela no. Nunca mais ficariam juntas excepto em visitas, se os novos pais o 
permitissem, e Arthur j sabia que os Abrams no permitiriam. No queriam que Megan 
soubesse coisa alguma sobre a sua vida passada, os pais, ou at mesmo as irms. Ela ia 
desaparecer numa vida nova. Para sempre.
       - Hilary... - ele comeou, constrangido, sentado nos degraus dos fundos da casa dos 
Jones, junto  lavanderia, com as ervas daninhas arranhando as suas pernas e as moscas 
zumbindo ao redor. - Eu... eu pensei... eu tenho... umas coisas para lhe dizer.
       Gostaria de poder lhe dizer qualquer outra coisa, excepto o que era preciso. Sabia 
como era apegada s irms, mas no era culpa dele que as coisas tivessem dado nisso, ele 
ficava repetindo consigo mesmo. Fizera o mximo possvel... se Marjorie tivesse tido a boa 
vontade de acolh-las...
       - Algum problema, tio Arthur?
       Quem sabe ele ia lhe contar agora que no iam mais voltar para o apartamento, mas 
Eileen j lhes contara que ele no existia mais, e Hilary tinha se conformado. Contanto que 
estivessem juntas, era s o que importava, mesmo aqui. Virou para ele os grandes olhos 
verdes e ele sentiu como se Solange tivesse aparecido e tocado nele, mas agora isso s o fazia 
sentir-se pior.
       - Eu... as suas irms vo embora por algum tempo. - No havia outro modo de lhe 
dizer, excepto directamente.
       - Megan e Axie? - Ela pareceu espantada e confusa enquanto voltava para ele 
novamente o olhar de esmeraldas: familiar. - Por qu? Por que vo a alguma parte?
       - Porque sim. - Ah, Deus, por favor, no me deixe fazer isso com ela. Ele sentia um 
soluo de angstia preso no peito. Mas tinha que lhe dizer. - Porque, Hilary, no h mais jeito 
de manter vocs juntas. A sua tia acha que no pode e mais ningum achou que podia. Megan 
e Alexandra vo para duas famlias muito simpticas em Nova York, vo morar com elas. E 
voc vai ficar aqui com a sua tia em Boston. - Teria sido mais fcil enfiar uma faca no 
corao dela, e quando ele viu as lgrimas carem dos seus olhos, invejou Sam pela sada fcil 
que escolhera, e odiou-o por ela. - Hilary, por favor... querida, eu tentei, tentei de verdade...
       Estendeu a mo para ela, mas a menina lhe escapou, correndo por entre as ervas 
daninhas para a frente da casa, como se elas j pudessem ter ido embora, e gritando para ele.
       - No! No! Eu no vou deixar!
       Ela entrou correndo e, sem oferecer explicao, entrou logo no feio quarto e puxou 
as duas meninas para junto de si. Tinha deixado as duas brincando na cama, com Axie 
tomando conta de Megan. Apertou-as de encontro ao corpo com as lgrimas escorrendo pelas 
faces, sentindo-se desesperada e impotente, e sabendo que no havia como lutar contra ele. 
Ela no tinha para onde ir, no tinha dinheiro, ningum para ajud-la, e tinha apenas nove 
anos de idade. Mas no podiam fazer isso com ela... no podiam... as irms eram tudo o que 
tinha... a me e o pai a haviam atraioado... e o tio Arthur... e a tia e o tio a odiavam e ela os 
odiava... s tinha no mundo Megan e Axie.
       - O que foi, Hillie? - Alexandra a fitava com os seus grandes olhos azuis, e Megan 
chorou quando Hilary a apertou com muita fora. Ento, ela a soltou e se agarrou com Axie.
       - Eu amo vocs... s isso... eu amo vocs... de todo o corao. Vai sempre se lembrar 
disso, Axie?
       - Vou. - A pequena voz soou sria, como se soubesse que alguma coisa importante 
estava acontecendo. Elas haviam passado por muita coisa juntas, as trs, e tinham um elo 
invulgar em comum, como se pressentissem os estados de esprito de cada uma, e o possvel 
perigo. - Vai acontecer uma coisa ruim de novo, Hillie? Como a mame e o papai? Voc 
tambm vai embora numa caixa?
       Ela comeou a chorar e Hilary apressou-se a sacudir a cabea.
       - No, no. No tenha medo, Axie. Tio Arthur quer levar voc e Megan numa 
viagem de volta a Nova York, para visitar uns amigos dele. - Sabia que precisava tornar as 
coisas fceis para elas, no importa quanta dor lhe causasse. Mas podia tolerar qualquer coisa 
por elas. Mas, para Megan, seria mais fcil. Ela ia chorar quando a afastassem das irms, mas 
nunca se lembraria... nunca... e Hilary nunca as esqueceria. Iria carreg-las na lembrana pelo 
resto da vida, e algum dia as encontraria. Prometeu isso para si mesma enquanto abraava 
Alexandra e, dali a um momento, Arthur e a bab que contratara apareceram na soleira da 
porta.
       - Est quase na hora de irmos, Hilary.
       Ela assentiu, cega pelas lgrimas, e de repente Alexandra comeou a chorar.
       - No quero deixar a Hillie.
       Agarrou-se  mo dela e, enxugando as prprias lgrimas, Hilary a beijou 
suavemente.
       - Voc tem que ir para ajudar a tomar conta de Megan, se no ela vai ficar com 
medo. Est bem? Toma conta dela para mim?
       Alexandra anuiu, no meio das lgrimas. No importa o que lhe dissessem, sabia que 
algo terrvel ia acontecer, e enquanto Hilary arrumava suas coisas, ela teve a certeza. Eileen 
nem estava por perto. Ficara to empolgada com as verdinhas que Arthur lhe dera que se 
trancou no banheiro e as ficou contando. Ia esconder a maior parte delas de Jack, mas queria 
olhar para todas juntas primeiro. 
       Assim, Hilary ficou sozinha quando ajudou a pr Alexandra e Megan no carro. As 
meninas se sentaram no banco traseiro com a bab, Megan estendendo os bracinhos para 
Hilary, em prantos, e Alexandra soluando. Arthur se sentou ao volante com um ltimo olhar 
para Hilary.
       - Logo voltarei para v-la.
       Ela ficou calada. Ele a atraioara. E o choro vindo do banco de trs quase a derrubou, 
enquanto lutava para se controlar e se afastava, acenando para elas, gritando para o carro at 
quando elas a pudessem ouvir:
       - Amo voc, Axie... amo voc, Megan... amo vocs... - Sua voz se transformou num 
soluo enquanto ficava ali parada no meio da rua, acenando para o carro, at que ele dobrou 
uma esquina e desapareceu, levando toda a sua vida. E quando o carro sumiu ela caiu de 
joelhos, soluando o nome delas, desejando que algum a matasse. No teve conscincia de 
mais nada at que sentiu algum sacudi-la e dar-lhe uma bofetada. Ergueu os olhos, cega 
pelas lgrimas, e viu Eileen parada ao seu lado, segurando a bolsa gasta sob o brao com ar 
vitorioso.
       Ela falou com aspereza com a criana, como sempre o fazia.
       - Que porra est fazendo? - E ento percebeu que elas deviam ter ido embora. - 
Chorar no vai adiantar nada. Entre e v se arrumar, sua idiota. Os vizinhos vo pensar que 
estamos te maltratando.
       Puxou-a at coloc-la de p e empurrou-a para dentro de casa enquanto Hilary 
soluava incontrolavelmente, e outro tapa na cara no a ajudou em nada. Foi cambaleando at 
o quarto e se jogou sobre a cama, que ainda tinha o cheiro das duas meninas que acabavam de 
deix-la. Ainda podia sentir o cheiro do talco que usara h momentos em Megan quando 
mudara a sua fralda, e o xampu dos cachos ruivos de Axie. A agonia era insuportvel.
       Ela ficou ali deitada durante horas soluando, at que finalmente pegou no sono, 
exausta, esgotada, castigada pelas realidades da sua existncia. E caiu num sono profundo e 
inquieto onde estava correndo... correndo... correndo atrs de um carro... tentando encontr-
las... procurando em toda a parte... e s o que podia escutar  distncia era a risada de bbada 
de Eileen.
       
       Terceira Parte
       HILARY
       Captulo 8
       Naquele ano, depois de arrancar carne da carne, Arthur ligou para Hilary diversas 
vezes, mas ela se recusava a atender ao telefone e falar com ele, e a sua prpria culpa acabou 
fazendo com que ele telefonasse cada vez menos. Ele sabia que as outras meninas estavam 
bem. Os Gorhams estavam eufricos com Alexandra, ela era uma garotinha encantadora, e os 
Abrams estavam apaixonados pelo "seu" beb. Mas ele nada sabia de Hilary, no tinha noo 
de como ela estava. 
       Ele foi a Boston v-la uma vez, pouco antes do Dia de Ao de Graas. Mas Hilary 
ficou sentada na sala como se entorpecida. No tinha nada para dizer a ele, e Arthur foi 
embora com um sentimento de culpa e de desespero. Sentia-se como se tivesse destrudo a 
criana, no entanto, que outra opo tinha? E Eileen era tia dela, afinal de contas. Ele falou 
mil coisas para acalmar a sua conscincia enquanto guiava de volta para casa. No Natal 
tornou a ligar, mas desta vez ningum atendeu, e depois disso ele ficou ocupado com a sua 
prpria vida. George Gorham morrera de repente e, inesperadamente, David Abrams 
resolvera se mudar para a Califrnia, o que significava que uma parcela bem maior de 
trabalho coube a Arthur. Claro que havia vrios outros scios na firma, mas Arthur era dos 
mais antigos e muitas decises lhe cabiam, especialmente com relao ao esplio de George, 
com o qual se envolveu muito. Ele viu Margaret no enterro,  claro, mas resolvera no levar 
Alexandra. 
       J era primavera quando Arthur reviu Hilary. Achou-a ainda mais retrada, com uma 
expresso desolada de desespero. A casa estava impecvel, o que pelo menos causou-lhe um 
certo alvio; isso queria dizer que Eileen estava se esforando um pouco mais. Ele no tinha 
ideia de que ela estava usando Hilary como empregada em horrio integral. Aos dez anos de 
idade, fazia todo o servio, inclusive tirar as ervas daninhas do quintal, lavar e passar as 
roupas, arrumar, cozinhar e cuidar da prpria roupa. Era notvel que pudesse tirar notas 
decentes na escola, mas ela sempre dava um jeito, apesar de tudo. No tinha amigos, nem 
vontade de fazer amizade. O que tinha em comum com as outras crianas da escola? Elas 
viviam em lares normais, tinham mes, pais e irms. Hilary tinha uma tia e um tio que a 
detestavam e bebiam demais, e mil obrigaes a cumprir antes de terminar o dever de casa e ir 
dormir, l pela meia-noite. E, ultimamente, Eileen no estava se sentindo bem. Falava na sua 
sade o tempo todo, estava emagrecendo, mesmo com toda a cerveja que bebia, e j 
consultara diversos mdicos. Hilary ouvira Jack falar alguma coisa sobre a Flrida. Ele tinha 
amigos que trabalhavam num estaleiro ali e eles achavam que podiam lhe arranjar um 
emprego civil. Ele achava que o clima quente talvez fizesse bem a Eileen, e eles podiam se 
mudar antes do prximo inverno.
       Mas Hilary no mencionou nada disso a Arthur. Aquilo no lhe importava. E ela no 
ligava mais para ele, ou para coisa alguma. S se preocupava em reencontrar Axie e Megan, e 
sabia que algum dia isso aconteceria. S o que tinha a fazer era esperar at completar dezoito 
anos. Sonhava com isso  noite e ainda podia sentir os macios cachos ruivos de Axie na face, 
na cama ao seu lado, e o hlito suave de beb de Megan quando a punha no colo... e algum 
dia... algum dia... ela as encontraria.
       Mudaram-se para Jacksonville, Florida, no ms de outubro, e nessa altura Eileen 
estava muito doente. Mal podia comer ou caminhar e pelo Natal j estava presa ao leito, e 
Hilary soube, instintivamente que ela estava morrendo. Jack parecia no se interessar por ela e 
saa constantemente para beber e farrear, e s vezes ela o via pelas vizinhanas, saindo da casa 
de algum e beijando outra mulher. E cabia a ela cuidar de Eileen, fazer tudo o que devia ser 
feito por uma moribunda. Ela no queria ir para um hospital, e Jack falou que no tinham 
dinheiro, mesmo. E ento Hilary fazia tudo, desde a hora em que chegava da escola at a 
manh seguinte. s vezes nem mesmo dormia. Ficava deitada no cho ao lado da cama de 
Eileen e cuidava dela quando precisava. Jack j no dormia mais no quarto, de qualquer 
maneira. Ele agora dormia numa varanda fechada nos fundos da casa, e ia e vinha sempre que 
lhe dava na telha, sem sequer ver a mulher durante dias seguidos, s vezes. E Eileen chorava e 
perguntava onde ele estava  noite. Hilary mentia para ela e dizia que estava dormindo.
       Mas nem mesmo na doena Eileen demonstrou alguma bondade, alguma gratido 
pelas tarefas difceis que Hilary realizava. Esperava isso dela e, mesmo fraca como estava, se 
achasse que Hilary podia fazer mais, ameaava bater nela. Era uma ameaa v agora, mas 
Hilary ainda a odiava, tal como no primeiro dia em que a vira.
       Eileen ainda viveu por mais um ano e meio depois que chegaram  Flrida, morrendo 
quando Hilary estava com doze anos. Na hora da morte, fitou Hilary como se quisesse lhe 
dizer alguma coisa, mas a menina tinha a certeza de que no seria nada gentil.
       E a vida ficou mais simples de certas maneiras, depois disso, e mais complicada de 
outras. Ela no precisava mais fazer servios de enfermagem. Mas tinha que evitar Jack e as 
mulheres que ele trazia para casa. Ele lhe dissera, sem rodeios, no dia seguinte  morte de 
Eileen, que estava disposto a deixar que permanecesse sob o seu tecto enquanto no criasse 
problemas. Tambm mandara que ela arrumasse as coisas da tia, que guardasse o que quisesse 
e jogasse fora o resto. No parecia querer nada que lhe lembrasse a mulher. Ela fizera a tarefa 
devagar, achando que Eileen poderia voltar e castig-la por estar mexendo nas suas coisas, 
mas por fim arrumou tudo. Deu as roupas para um bazar de igreja e jogou fora toda a 
maquiagem barata. J ia jogar fora tambm as roupas ntimas quando percebeu uma sacolinha 
de pano numa das gavetas e abriu-a s para se certificar de que no era nada importante. 
Havia mais de dez mil dlares ali, a maioria em notas pequenas, e algumas de cinquenta, 
como se ela as tivesse reunido ao longo dos anos, ocultando-as de todos, e provavelmente 
tambm de Jack.
       Hilary ficou fitando a sacola por muito tempo, depois enfiou-a no bolso, e naquela 
noite escondeu-a no meio das suas prprias coisas. Era daquilo que precisava para fugir algum 
dia, e encontrar Megan e Alexandra.
       Durante o ano seguinte, Jack mal tomou conhecimento dela. Estava ocupado demais 
correndo atrs de todas as mulheres da vizinhana. A essa altura j havia perdido vrios 
empregos, mas sempre parecia capaz de arrumar outro. No ligava para o que fazia, contanto 
que tivesse um tecto em cima da cabea, uma mulher na cama  noite e meia dzia de garrafas 
de cerveja na geladeira. Mas quando Hilary fez treze anos, ele repentinamente se tornou mais 
exigente. Parecia se queixar o tempo todo e ficava lhe pedindo que fizesse as coisas para ele. 
No achava que a casa estava bastante limpa e quando vinha jantar em casa, o que era raro, 
reclamava que a comida estava horrvel. De repente, no havia jeito de agrad-lo, e ele agia 
como se ligasse para essas coisas. Agora at mesmo criticava o modo dela se vestir, dizendo 
que suas roupas eram muito folgadas e as saias compridas demais. Estavam em 1962, e as 
minissaias estavam na moda. Jack lhe disse que ela devia se vestir como as moas que via nas 
revistas ou na televiso.
       - No quer que os rapazes olhem para voc? - perguntou com voz pastosa, certa 
tarde. Tinha acabado de chegar de um jogo de softball com alguns amigos, a maioria ex-
fuzileiros como ele, mas estava com 45 anos e trs dcadas de bebida tinham feito os seus 
estragos nele. Tinha excesso de peso e um barrigo de cerveja que se projectava sobre o cs 
dos jeans. - No gosta de rapazes, Hilary?
       Ele a ficava perseguindo e ela estava farta. No tinha tempo de reparar nos rapazes. 
Estava ocupada demais indo  escola e cuidando da casa para ele. Ia para o nono ano no 
outono, estava um ano adiantada. E agora tinha dez mil dlares escondidos na gaveta. Tinha 
tudo de que precisava.
       - No especialmente - respondeu ela, por fim. - No tenho tempo para rapazes.
       - Ah, ? E quanto aos homens? Tem tempo para homens, Hillie?
       Ela no se deu ao trabalho de lhe responder. Em vez disso, foi para a cozinha 
preparar o jantar, pensando em como ele se tornara sulista, depois de poucos anos. Falava 
arrastado, e com um sotaque que o fazia parecer natural da Flrida. Ningum diria que era de 
Boston. E, ao pensar nisso, ela se lembrou da poca passada em Boston com eles - ainda se 
lembrava de l como o lugar em que perdera Megan e Axie. Nunca mais tivera notcias de 
Arthur Patterson, desde que se haviam mudado para a Flrida. No que ela estivesse se 
importando. Odiava-o. E nunca lhe ocorreu que o motivo de no ter telefonado era que Jack e 
Eileen no tinham deixado endereo, quando se mudaram. Haviam desaparecido sem deixar 
vestgios e Arthur no tinha como encontr-los. A essa altura tambm estava ocupado com 
seus prprios problemas. Mais ou menos na poca em que os Jones se mudaram para a 
Flrida, Marjorie o abandonara.
       - O que vamos ter para jantar? - Jack apareceu na cozinha com uma lata de cerveja na 
mo e um cigarro. Parecia estar olhando para ela com um maior interesse atualmente, e ela 
no estava gostando. Sentia-se constrangida, parecia que ele a estava despindo com os olhos.
       - Hambrgueres.
       - Que bom. - Mas estava fitando os seios firmes dela enquanto falava. Hilary tinha 
pernas longas e bem torneadas e uma cinturinha fina, e o cabelo negro e farto que herdara de 
Sam lhe caia numa camada negra at a cintura. Era uma bela mocinha, e estava ficando difcil 
esconder isso. Parecia mais velha do que era, e seus olhos continham a dor de uma vida 
inteira.
       Jack deu-lhe uma palmadinha no traseiro, roou nela sem necessidade, e pela 
primeira vez ficou ao seu lado enquanto preparava o jantar. Deixou-a to pouco  vontade que 
ela no conseguiu comer depois que os hambrgueres estavam prontos. Ela ficou brincando 
com a comida no prato e deixou a cozinha o mais rapidamente possvel, aps lavar a loua. 
Logo depois, ela o ouviu saindo de casa, e ela j estava dormindo na sua cama no quarto que 
dava para a cozinha muito antes dele voltar, l pela meia-noite. Chovia forte, uma chuva 
tropical, com relmpagos e troves, e ele cambaleou casa adentro, extremamente bbado, mas 
com a inteno de fazer alguma coisa, mas sem se lembrar o qu. Ainda estava praguejando 
quando passou pelo quarto dela, e ento se lembrou de repente. Soltou uma risada, parando 
diante da porta por um longo momento, no se deu ao trabalho de bater; em vez disso girou a 
maaneta e entrou no quarto, os sapatos molhados soltando gua no cho de linleo e a 
respirao pesada. Mas ela no o ouviu. A camada de cabelo negro estava espalhada sobre o 
rosto dela e um dos braos estava jogado sobre a cabea, enquanto ela dormia sobre as 
cobertas numa camisola de algodo infantil.
       - Liiiindaaa... - Ele ronronou e tossiu, o que quase a despertou. Ela se mexeu e se 
virou, revelando um quadril gracioso e uma longa perna, dormindo a curta distncia dele. E 
Jack comeou lentamente a desabotoar a camisa, at que ela caiu no cho e ficou ali num 
monte molhado. Abriu as calas e tirou-as juntamente com os sapatos, ficando ao lado dela 
apenas de cuecas e meias. Dali a um momento, elas jaziam com o resto das suas roupas junto 
 cama. E somente a vasta quantidade de lcool que ingerira o impedia de obter uma ereo 
maior. Ele se intumescia lentamente, observando-a, ardendo de desejo e da lascvia que 
escondera durante anos. Mas agora Hilary tinha idade bastante... porra, podia t-la por vrios 
anos, a sua trepada bem  mo, antes de ela crescer e sair de casa. E, quem sabe, depois disto 
talvez ela nunca quisesse sair. Gemeu enquanto se deitava na cama ao lado dela, e o hlito de 
bebida que exalava junto com o cheiro ftido de suor a despertou.
       - Hmmm...
       Ela abriu um dos olhos, sem ter muita certeza de onde estava, depois soltou uma 
exclamao abafada e saltou da cama. Jack foi mais rpido, porm, e agarrou-lhe com fora a 
camisola, que se rasgou nas mos dele, expondo o corpo alto, nu e trmulo. Jack jazia na 
cama e a observava.
       - Ora, ora... no  bonita, a pequena Hillie? - Ela tentou cobrir sua nudez e queria 
chorar, ou correr, mas no sabia ao certo o que fazer. Ficou parada ali, apavorada. Sabia que, 
se tentasse fugir, ele a agarraria. - Venha para a cama, ainda no  hora de levantar. Primeiro 
o tio Jack tem umas coisas para lhe mostrar.
       Ela podia v-lo, sinistro e excitado, onde ela estivera deitada. Tinha idade suficiente 
para saber o que ele pretendia, e preferia morrer antes de permiti-lo.
       - No me toque! - Ela correu pela porta aberta at  cozinha. Jack a seguiu na 
escurido, tropeando, escorregando nas peas que deixara no cho momentos antes.
       - Venha c, sua vagabundinha... voc sabe o que est querendo, e eu vou dar para 
voc.
       Enquanto falava, agarrou-lhe o brao e tentou arrast-la de volta para o quarto. Mas 
ela lutava como uma gata, arranhando-lhe o rosto e o brao, tentando chut-lo enquanto ele a 
arrastava.
       - Me solte! - Ela se libertou e quase alcanou a porta dos fundos antes que ele a 
alcanasse de novo, mas por um instante ela teve tempo de pegar uma coisa no escorredor. 
Escondeu-a com cuidado e, parecendo tornar-se dcil, deixou que ele a conduzisse de volta ao 
quarto. Era uma atitude audaciosa, mas preferia mat-lo a permitir que a estuprasse.
       - Que boa menina... agora voc quer o velho Tio Jack, no , Hillie...
       Ela no deu resposta e ele no pareceu reparar enquanto a empurrava rudemente de 
volta  cama e se preparava para mont-la. Mas com um sbito claro prateado, ele sentiu 
algo frio, pontudo e feio apontado para a sua barriga.
       - Se me tocar, corto fora os seus colhes... estou falando srio... - Tudo no seu tom de 
voz confirmava isto, e ele acreditou. Recuou e ela o acompanhou com a ponta da faca. - Saia 
do meu quarto.
       - Tudo bem, tudo bem... - ele resmungou, recuando para fora do quarto e quase 
tropeando na soleira. - Quer guardar essa coisa, por favor, porra?
       - S depois que sair daqui. - Ela o seguiu com a faca ainda apontada, o que parecia 
preocup-lo enormemente.
       - Sua putinha...  isso o que ensinam na escola hoje em dia? No meu tempo as 
meninas eram muito mais dadas. - Ela no respondeu e ele recuou. Ento, de repente, deu um 
tapa na mo dela, derrubando a faca, e esbofeteou-a com tanta fora que ela caiu de encontro 
 parede oposta. Ela no sabia ao certo o que doa mais: se o nariz sangrando profundamente 
pelo rosto todo, ou a parte de trs da cabea, que parecia estar esmagada. - Ento, sua putinha, 
como  que se sente?
       Ela gemeu e se ps de p, ainda decidida a proteger a sua virtude, mas ele no estava 
mais interessado nela, s queria puni-la por t-lo humilhado. Sabia que podia abusar dela a 
qualquer hora. Porra, ela no tinha para onde ir. Era dele, agora. Ele era praticamente o dono 
dela.
       - Como , vai se comportar para o tio Jack da prxima vez? - Ele a esbofeteou 
novamente, os olhos brilhando de perversidade, e desta vez ela caiu de encontro a uma 
cadeira, machucando as costelas, cortando profundamente um dos seios. Hilary pde sentir o 
sangue escorrendo ali, tambm. Os ouvidos zumbiam, o lbio estava partido. Achava que 
talvez tivesse quebrado o maxilar, e tinha ainda um corte imenso num dos seios. Ela se 
arrastou para longe de Jack, que j apagara no sof, ainda despido, totalmente bbado e 
satisfeito com seu trabalho. Ela no ia resistir na prxima vez, tinha certeza. Dera-lhe uma 
boa lio. To boa que ela foi se arrastando, nua sob a chuva torrencial, at desmaiar na porta 
da casa do vizinho. Ficou ali durante horas, inconsciente sob a chuva, sangrando dos diversos 
ferimentos at que a Sra. Archer a encontrou no dia seguinte, ao abrir a porta para pegar o 
jornal.
       - Ah, meu Deus!... ah, meu Deus! - gritou ela, recuando para dentro de casa e 
correndo  procura do marido. - Meu Deus... Bert, tem uma mulher morta na nossa porta, e 
est nua!
       Ele correu para a porta e a encontrou ali, metade para dentro e metade para fora da 
porta, ainda sangrando e inconsciente.
       - Meu Deus...  aquela garota do vizinho, aquela que a tia morreu... aquela que a 
gente nunca v. Temos de chamar a polcia. 
       Mas Mollie Archer j estava discando. A polcia chegou quase imediatamente aps a 
ambulncia. Levaram-na para o Brewster Hospital e ela acordou dali a meia-hora, com os 
Archers fitando-a na sala de emergncia. A Sra. Archer comeou a chorar. Hilary lembrava 
muito a sua filha. E era bvio que havia sido espancada, estuprada e depositada na porta deles. 
Mas um exame posterior mostrou que no fora estuprada, apenas espancada violentamente. 
Tinha pontos em vrios lugares e o corte exigia cuidados, mas o pior foi a concusso que 
sofrera quando lanada contra a parede, da primeira vez. Ela vomitou quase imediatamente 
depois de acordar e perdeu a conscincia vrias vezes, mas os mdicos asseguraram  Sra. 
Archer que ficaria boa. O casal s se retirou vrias horas mais tarde. Ela no quis contar quem 
a havia espancado, mas a polcia no conclura a investigao.
       - Quem voc acha que faria uma coisa dessas a ela? - perguntou a Sra. Archer ao 
marido enquanto voltavam para casa, mas s dias mais tarde  que a verdade veio  tona, e 
Hilary no lhes disse nada. Foi o prprio Jack quem deixou escapar a verdade na terceira vez 
em que prestou depoimento. Foi acusado formalmente, mas Hilary pediu que retirassem a 
acusao.
       - Ele vai me matar se fizerem isso. - Ela agora estava apavorada. Ele a mataria, sem 
dvida alguma, ou coisa pior.
       Mas a polcia mudou tudo.
       - Hilary, voc no precisa voltar, sabe. Poderia ir para um lar de adoo.
       - O que  isso?
       Seus olhos estavam arregalados de medo, mas o que podia ser pior do que o inferno 
em que estava vivendo?
       -  um lar temporrio, s vezes de longa durao, onde podem morar as crianas que 
no tm para onde ir.
       - Quer dizer... como uma instituio?
       O guarda sacudiu a cabea.
       - No,  gente de verdade que acolhe garotas como voc em casa. O que voc acha?
       - Acho que gostaria.
       Para que isso fosse arranjado, ela tinha de ser considerada pelos tribunais da Flrida 
como menor sem lar. E acabou sendo muito mais fcil do que se pensava, quando explicou 
que era rf e que jamais fora adotada pelos tios. Ela voltou a ver Jack s uma vez. Mollie 
Archer foi com ela e ficou parada, constrangida, na soleira da porta. Hilary queria pegar suas 
coisas e temia o encontro com Jack. Era a primeira vez que o via desde a noite do 
espancamento, e ela estava apavorada com o que ele lhe poderia fazer. Mas Jack limitou-se a 
fit-la com fria venenosa e pouco ousou dizer na presena da Archer.
       Ela arrumou os seus poucos pertences na nica mala que possua e meteu a sacolinha 
de pano com muito cuidado atrs do forro. Sabia que tinha de cuidar muito bem dela agora, 
pois era a nica amiga que tinha no mundo: continha o dinheiro que a ajudaria a encontrar as 
irms... os seus dez mil dlares. Se Jack soubesse daquele dinheiro que estava com ela, sem 
dvida a teria matado.
       Jack bateu a porta atrs dela e trancou-a ruidosamente. Hilary atravessou o quintal 
at a casa da Sra. Archer, onde ficou esperando que as autoridades do juizado de menores 
viessem busc-la. Tinham um Lar de adoo para ela e viriam busc-la esta manh. Fora bem 
simples, e por um momento ela se permitiu pensar que agora tudo seria fcil. Nenhum 
problema. Depois voltaria a Nova York para procurar Axie e Megan, e algum dia elas 
estariam morando juntas e cuidaria delas de novo. Poderia fazer isso, graas ao dinheiro que 
encontrara escondido entre as meias de Eileen. Fora a nica coisa boa que a tia fizera por ela 
na vida, e nem mesmo tivera esta inteno. Mas agora no importava. O dinheiro estava na 
mala e Hilary pretendia defend-lo com a prpria vida. Para ela, era uma verdadeira fortuna.
       A assistente social veio busc-la, como prometera, pela manh, e depois de uma 
breve apario no tribunal, levou-a at uma famlia numa casa muito maltratada, num 
subrbio pobre de Jacksonville. A mulher abriu a porta com um sorriso simptico e de 
avental, e havia cinco outros garotos l dentro, cujas idades variavam de dez a catorze anos, 
pelo que Hilary pode ver. O lugar lembrou-lhe instantaneamente a casa de Eileen e Jack em 
Boston. Tinha o mesmo cheiro ftido, a mesma moblia gasta e aparncia decrpita. Mas isso 
no era de surpreender, com meia dzia de garotos morando l.
       A mulher se chamava Louise, e levou Hilary ao quarto que dividiria com trs outras 
garotas, todas dormindo em camas de lona estreitas que Louise comprara na loja de 
excedentes do Exrcito. Havia uma garota negra sentada numa delas. Era alta e magra, com 
grandes olhos negros, e lanou um olhar curioso a Hilary quando ela entrou no quarto e largou 
as suas coisas, e a assistente social fez as apresentaes.
       - Hilary, esta  Maida. Est aqui h nove meses. - A assistente Social sorriu e 
desapareceu, voltando para Louise e o bando de crianas na cozinha. A casa parecia cheia e 
movimentada, mas no era acolhedora. Hilary teve a sensao de ter sido largada num 
canteiro de obras.
       - Hilary... que espcie de nome  esse? - Maida olhou-a com hostilidade, agora que a 
assistente social tinha ido embora, e a examinou da gola do vestido feio aos sapatos baratos 
que Eileen lhe comprara. No era uma roupa bonita, nada tinha a ver com os organdis e 
veludos da sua infncia, luxos j esquecidos a essa altura. E, com os seus olhos verdes 
compenetrados, ela olhou para a garota negra e imaginou como seria a vida ali. - De onde 
voc , garota? 
       - Nova York... Boston... estou aqui h dois anos. 
       A garota negra assentiu. Era magrrima, e Hilary podia ver que roia as unhas at o 
sabugo. Era alta, zangada e nervosa. 
       - ? Ento por que veio para c? Sua me e seu pai esto na cadeia? 
       Os dela estavam. A me era prostituta e o pai cafeto e traficante. 
       - Meus pais morreram. - A voz de Hilary estava sem vida quando falou, e seus olhos 
desconfiados enquanto se postava perto da porta. 
       - Tem irmos e irms? - Ela no percebia que diferena aquilo faria, e j ia dizer que 
sim, mas mudou de ideia e simplesmente balanou a cabea. Maida pareceu satisfeita com a 
resposta. - Voc vai penar com a Louise, queridinha.  uma parada trabalhar para ela. 
       No era uma informao inteiramente agradvel, mas Hilary j havia desconfiado, ao 
cruzar a porta, que no seria to fcil quanto lhe disseram. 
       - O que  que se tem para fazer? 
       - Arrumar a casa, cuidar dos filhos dela, do jardim, da horta l atrs... lavar e passar... 
tudo o que ela mandar voc fazer.  como a escravido, s que voc dorme na casa principal e 
ela deixa voc comer aqui. - Havia um sorriso perverso nos olhos de Maia e Hilary no soube 
se devia rir ou no. - Mas ainda  melhor do que o centro. 
       - O que  isso? 
       Era uma nefita nesse assunto de lares de adoo, juizados de menores e pais que 
estavam na cadeia, muito embora o seu pai tivesse morrido numa. Era difcil absorver as 
modificaes que Sam provocara em sua vida numa noite de fria incontida. Muitas vezes, 
tarde da noite, Hilary pensava - quando se permitia pensar nisto - que seria melhor se ele a 
tivesse matado juntamente com a me. Teria sido bastante mais simples, em vez desta morte 
lenta a que ele a condenara, longe de casa e daqueles a quem amava, abandonada entre 
estranhos. 
        - Por onde tem andado, garota? - Maida parecia aborrecida. - Voc sabe, o centro de 
deteno juvenil... - Pronunciou as palavras pausadamente, enquanto Hilary anua. -  a 
cadeia para os menores. Se no te encontram um lar de adoo, voc vai para l, eles te 
trancam l e te tratam como merda. Prefiro trabalhar feito um burro de carga para Louise at a 
minha me ser solta de novo. Ela no demora a ser solta e a eu posso ir pra casa. - Na 
ltima vez ela fora presa numa batida antidrogas, junto com o "marido". 
       - E voc? Quanto tempo acha que vai ficar aqui? Vai para a casa de parentes? 
       Ela imaginava que os pais de Hilary tinham acabado de morrer e que este talvez 
fosse um arranjo temporrio. Havia algo de diferente em Hilary, o jeito como falava, o modo 
como se movia, a maneira silenciosa como examinava tudo, como se ali no fosse realmente 
o seu lugar. Mas ela sacudiu a cabea em resposta  pergunta de Maida, bem na hora em que a 
assistente social entrava. 
       - Ento fazendo amizade, meninas? - A mulher sorriu, como que totalmente alheia a 
selva em que trabalhava. Para ela, era uma garotada simptica, e ela estava encontrando 
ptimos lares para eles e todo mundo estava feliz. 
       As duas garotas fitaram-na como se fosse maluca. Maida foi a primeira a falar. 
       - .  o que a gente est fazendo... fazendo amizade. No  Hilary? 
       Hilary assentiu, imaginando o que deveria dizer. Ficou aliviada quando a assistente 
social a levou de volta para a cozinha. Havia algo em Maida que lhe provocava medo. 
       - Maida est se saindo muito bem aqui - confidenciou-lhe a assistente social, 
enquanto desciam por um corredor lgubre at  cozinha. 
       As crianas j tinham ido para fora, e Louise esperava por elas, mas qualquer sinal de 
alimento que estivessem comendo havia desaparecido. Hilary sentiu o estmago roncar, 
perguntando-se se haveria algo para comer, ou se teria que esperar at a hora do jantar. 
       - Pronta para o trabalho? - perguntou Louise e Hilary assentiu, tendo recebido a 
resposta  sua pergunta. A assistente social pareceu desaparecer, e Louise mostrou-lhe uma p 
e alguns ancinhos, do lado de fora. Mandou que Hilary cavasse um fosso e prometeu 
que alguns dos meninos a ajudariam, mas eles no apareceram. Estavam fumando, atrs do 
celeiro, e Hilary teve de manejar sozinha a p, gemendo e suando. Ela dera duro nos ltimos 
quatro anos, mas nunca fizera este tipo de trabalho braal. Limpara a faia de Eileen e Jack, e 
passara a roupa deles, preparara as refeies e cuidara de Eileen at ela morrer, mas isto era 
pior do que qualquer coisa que j fizera antes. Havia lgrimas de exausto nos olhos dela 
quando Louise finalmente os chamou, mandando que sassem do calor trrido e fossem jantar. 
Encontrou Maida ali, com um ar vitorioso junto ao fogo. A ela coubera a tarefa refinada de 
preparar o jantar, se  que se podia dar este nome. No passava de pedaos de carne e sebo 
boiando num mar de gordura aguada, que Louise alegremente chamava de ensopado, 
enquanto servia pequenas pores para cada um deles e se sentava para dar graas pela 
comida. E, apesar das pontadas de fome que sentia e sede da tonteira por estar debaixo do sol 
quente o dia todo, Hilary no conseguiu se forar a comer.
       - Vamos, coma, precisa conservar as foras. - Louise sorria horrivelmente para ela. 
Parecia um terrvel conto de fadas sobre uma bruxa que ia comer as crianas. Hilary se 
lembrava de histrias assim da sua infncia, mas elas nunca pareceram to reais, e a bruxa 
sempre morria e as crianas voltavam a ser prncipes e princesas.
       - Desculpe... no estou com muita fome...
       Hilary se desculpou debilmente enquanto os garotos riam dela.
       - Voc est doente? - Louise parecia aborrecida. - No me disseram que estava 
doente.
       Parecia prestes a mand-la de volta para um destino desconhecido, e Hilary se 
lembrou da descrio desagradvel que Maida fizera do centro. Cadeia para menores. Era s o 
que lhe faltava. Mas agora no tinha mais para onde ir. No podia voltar para Jack. Sabia o 
que ele faria com ela desta vez. Ento, era Louise ou o centro.
       - No, no, no estou doente... foi o sol... estava quente l fora
       - Ahhh... - Os outros garotos logo debocharam dela e Maida beliscou-a com 
violncia enquanto ela ajudava a lavar a loua. Era um arranjo estranho, Hilary percebeu 
novamente. No eram como amigos ou uma famlia, Louise no fingia bancar a mezinha 
para eles, eram apenas como um grupo contratado para fazer o trabalho dela, e era assim que 
eles tambm a tratavam. Tudo parecia muito temporrio e muito distante. O marido de Louise 
parecia ir e vir. Perdera uma das pernas na guerra e a outra era aleijada. Consequentemente, 
no podia trabalhar, e Louise acolhia aquelas crianas para fazer a parte do trabalho dele, e a 
sua prpria, e pelo dinheiro que entrava. O Estado lhe pagava por cada criana que acolhia. 
Ela no ficava rica, mas recebia o seu bom dinheirinho. O mximo que podia acolher eram 
sete, e eles sabiam que em breve viria mais uma, j que com Hilary formavam apenas seis. 
Havia uma loura plida de quinze anos chamada Georgine, alm de Maida, e trs garotos 
arruaceiros no comeo da adolescncia. Dois deles fitavam Hilary maliciosamente desde a 
hora do jantar. Nenhuma das crianas era bonita, e poucas pareciam sadias. Seria difcil, com 
o regime de fome que passavam. Louise economizava em tudo o que podia, mas Hilary j se 
acostumara com isso na sua vida com Eileen e Jack, embora Louise parecesse ter 
aperfeioado ainda mais essa arte.
       s sete e meia ela gritou para as crianas se prepararem para dormir. Elas estavam 
sentadas nos quartos, conversando, reclamando, trocando histrias sobre pais na cadeia, e as 
suas prprias experincias no centro. Tudo aquilo era totalmente estranho para Hilary, que se 
sentava na sua cama num silncio amedrontado. Os meninos ocupavam um quarto ao lado. 
Georgine e Maida conversavam como se Hilary no estivesse presente. Depois passaram por 
ela de camisola, e bateram a porta na sua cara quando foram ao banheiro.
       Eu posso aguentar, disse consigo mesma...  melhor do que Jack... no  to ruim 
assim... Lembrou-se do dinheiro escondido na mala e rezou para que ningum o encontrasse. 
Ela s precisava aguentar mais cinco anos disso... cinco anos de lares de adoo ou cadeia 
para menores... ou Jack. Sentiu as lgrimas ardendo nos olhos quando por fim fechou a porta 
do banheiro, e se sentou e soluou silenciosamente na toalha rasgada e spera que Louise lhe 
dera pela manh. Era impossvel acreditar que a sua vida tivesse chegado a esse ponto. E dali 
a minutos os meninos estavam socando a porta e ela teve de sair do banheiro, quando uma fila 
de baratas corria pela banheira.
       - O que est fazendo a, dona? Quer uma mozinha? - perguntou um dos meninos 
negros, e os outros riram do seu encantador senso de humor. Hilary passou por eles e voltou 
para o seu quarto, bem na hora em que Maida estava apagando a luz. E, dali a um momento, 
Hilary ficou aturdida quando Louise apareceu no vo da porta, com um molho de chaves 
numa das mos. Tinha um jeito de quem ia tranc-las no quarto, mas Hilary sabia que era 
impossvel, pelo menos era o que pensava. Podia ouvir risadas estridentes vindas do quarto 
dos meninos.
       - Hora do trancamento. - Maida ofereceu a informao e, diante dessas palavras, 
Louise bateu a porta e elas ouviram a chave girando na fechadura. As duas outras garotas 
pareciam achar tudo perfeitamente normal, e Hilary as fitou na penumbra do quarto iluminado 
pela luz que vinha de fora.
       - Por que ela fez isso?
       - Para a gente no ir se encontrar com os meninos. Ela gosta de tudo legal, limpo e 
sadio. - E ento Maida comeou a rir como se aquilo fosse uma piada muito engraada, e 
Georgine tambm. Pareciam rir interminavelmente, enquanto Hilary as observava.
       - E se a gente tiver que ir ao banheiro?
       - Voc mija na cama - falou Georgine.
       - Mas voc limpa tudo amanh de manh - acrescentou Maida, e as duas soltaram 
uma risada abafada.
       - E se houver um incndio?
       Hilary estava apavorada, mas Maida riu de novo.
       - Ento voc frita, benzinho. Como uma batatinha frita, com a sua pele branquinha 
ficando marrom como a minha.
       Na verdade, elas podiam quebrar a janela e escapar, mas Hilary no pensou nisso, 
enquanto sentia as ondas crescentes de pnico. Deitou-se na cama e cobriu-se, tentando no 
pensar em todas as coisas terrveis que podiam acontecer. Ningum jamais a trancara num 
quarto antes, e a experincia era mais aterradora do que qualquer outra coisa que tivesse 
imaginado.
       Ficou deitada, em silncio, fitando o tecto, a respirao irregular. Sentia-se como se 
algum a estivesse sufocando com um travesseiro. Ouvia as duas outras garotas sussurrando e 
depois o barulho dos lenis e uma srie de risadinhas. Virou-se para ver o que acontecia, mas 
no estava absolutamente preparada para o que viu. Maida estava nua na cama de Georgine, e 
esta tinha jogado ao cho a sua camisola gasta, e elas estavam acariciando o corpo uma da 
outra ao luar, beijando-se e bolinando-se, enquanto Maida gemia e revirava os olhos. Hilary 
queria desviar os olhos, mas estava to apavorada que nem se mexeu. A garota mais velha a 
viu e falou bruscamente:
       - O que foi meu bem? Nunca viu duas garotas transando antes? - Hilary sacudiu a 
cabea, em silncio, e enquanto Maida aninhava a cabea entre suas pernas, Georgine ria 
roucamente. E ento afastou-a com nova risada. - Espere um minuto. - Voltou-se para Hilary. 
- Quer experimentar? - Hilary sacudiu a cabea de novo, apavorada. No havia como escapar 
delas. A porta estava trancada, e tinha de ficar ali escutando, mesmo que no olhasse para 
elas. - Pode gostar.
       - No... no... - Na verdade, fora isso o que a trouxera para c, excepto que fora o 
Jack e no duas garotas. Hilary nem podia imaginar o que iriam fazer com ela, mas as duas 
logo a esqueceram e continuaram com o seu prazer de todas as noites. Elas gemiam e 
contorciam, e Maida gritou uma vez, to alto que Hilary temeu que Louise viesse e batesse 
nas trs, mas no havia sons no silncio, excepto os de Maida e Georgine, o som de respirao 
entrecortada e arquejos e gemidos. Finalmente, enquanto Hilary chorava baixinho na cama, 
elas acabaram e pegaram no sono uma nos braos da outra. Hilary ficou acordada at de 
manh.
       No dia seguinte, trabalharam muito. Hilary voltou a cavar no jardim e recebeu ordem 
de limpar a parte de dentro de um barraco. Os meninos a perturbaram, como da outra vez, e 
agora coube a ela preparar o almoo. Tentou fazer algo decente para todos, mas era 
impossvel com os escassos suprimentos que Louise separara. Comeram fatias finas de 
presunto e sobras de batatas fritas congeladas. Mal dava para sobreviver, trabalhando ao sol 
quente do vero, e  noite ela teve de escutar Maida e Georgine gemendo e arquejando. Desta 
vez ela virou as costas, puxou as cobertas sobre a cabea e tentou fingir que no ouvia. 
Porm, dali a dois dias, Georgine se meteu na cama dela e comeou a acariciar-lhe as costas 
suavemente, por baixo da camisola. Era o primeiro toque gentil que recebia desde a morte da 
me, mas isso era diferente, Hilary sabia, e no era bem-vindo.
       - No, por favor... - Hilary se afastou dela, quase caindo da cama, mas a garota a 
segurou com fora, passando um brao parecendo ao ao redor da sua cintura e apertando-a 
contra si, deitada atrs dela. Hilary podia sentir os seios da garota mais velha contra as costas, 
e depois a sua mo livre acariciando-lhe os mamilos.
       - Como , querida, isso no  bom... ... no  bom... Maida e eu estamos cansadas de 
nos divertir s uma com a outra, queremos que voc tambm participe... voc podia ser nossa 
amiga, agora.
       E, com essas palavras, a mo que acariciava os seios firmes e jovens de Hilary 
comeou a descer para as suas coxas, apertadas com fora uma contra a outra, de terror.
       - Ah, por favor... por favor... no!
       Ela estava choramingando e chorando, e de certa forma aquilo era pior do que Jack. 
E no tinha como fugir, nenhuma faca, no tinha para onde correr. No podia escapar dessas 
garotas, trancada num quarto com elas, e Georgine a segurava com tanta fora que ela no 
conseguia se libertar. E enquanto a mantinha presa, com as pernas envolvendo as de Hilary 
como cobras de ao, Maida veio se esgueirando da outra cama e comeou a alis-la, enquanto 
Georgine forava as suas pernas a se abrirem o mximo que os esforos desesperados de 
Hilary permitiam.
       - Assim... est vendo? - Maida lhe mostrava coisas que ela no queria saber e tocava 
em lugares em que a prpria Hilary jamais tocara, e ela comeou a gritar de terror. Mas 
Georgine tapou a sua boca com firmeza e deixou que Maida a ficasse acariciando. Parecia que 
a alisavam interminavelmente, e com suavidade a princpio, depois com mais fora e 
brutalidade, enquanto ela soluava sem parar. Por fim cansaram-se dela, mas quando 
Georgine saiu da cama, Hilary sangrava profundamente.
       - Merda, est incomodada? - Parecia aborrecida ao ver a sujeira na cama e nas pernas 
dela. Dava para se perceber, mesmo  luz da lua. Mas Maida sabia o que era, pois tinha feito 
tudo o que gostava de fazer. Sorriu para Georgine e para a menina arrasada.
       - No... ela era virgem.
       Georgine abriu um sorriso perverso. Ela cederia, sabia. Todas cediam. Depois da 
primeira vez. E, se no cedesse, elas engrossariam um pouco e ela ficaria com medo de no 
ceder.
       No dia seguinte, Hilary lavou os seus lenis to logo Louise destrancou a porta e 
pediu desculpas quando a mulher gritou com ela por causa da sujeira. Os meninos riram 
quando a viram esfregando a roupa. Era como se toda a dor e humilhao do mundo 
estivessem acumuladas sobre a sua cabea, como se algum, em algum lugar, a quisesse 
destruir. Ficou imaginando onde estariam as irms, e rezou para que nada disso estivesse 
acontecendo com elas. Mas sabia que no estava. Elas tinham ido para a casa de amigos de 
Arthur Patterson, e pessoas assim no faziam essas coisas... no conheciam as torturas que 
gente como Eileen e Jack, e Louise, Maida e Georgine era capaz de infligir. Enquanto lavava 
os lenis e cavava o fosso que Louise queria mais fundo, Hilary rezava para que a sua tortura 
fosse suficiente, para que Axie e Megan estivessem a salvo deste tipo de vida. Prometeu a 
Deus que Ele podia fazer o que quisesse com ela, contanto que as outras estivessem a salvo. 
Por favor, Deus... por favor... murmurava ao sol escaldante quando Georgine se aproximou.
       - Oi, benzinho, falando sozinha?
       - Eu... no... - Virou o rosto depressa para que Georgine no a visse enrubescer.
       - Ontem foi gostoso... voc vai gostar mais da prxima vez.
       Mas Hilary virou-se violentamente para ela e, embora no o soubesse, parecia 
igualzinha  me.
       - No! No vou! No me toque de novo, est ouvindo? - Agarrou a p, ameaadora. 
Georgine riu e se afastou. Sabia que Hilary no teria armas no quarto,  noite. Elas fizeram a 
mesma coisa, e no dia seguinte Hilary estava com o olhar vidrado. No havia como fugir 
delas, e quando a assistente social voltou, dali a uma semana, olhou para Hilary e perguntou 
se estava trabalhando demais. Hilary hesitou e depois sacudiu a cabea. Georgine lhe dissera 
que, caso se queixasse, iria terminar na cadeia para menores, onde todo mundo fazia aquilo, s 
vezes at usando canos de chumbo e garrafas de soda. E Hilary acreditou nelas. Tudo era 
possvel agora. Qualquer angstia. Qualquer tortura. Ela apenas assentiu e disse para a 
assistente social que tudo estava bem, e continuou a viver seu pesadelo silencioso.
       Aquilo continuou por sete meses, at que Georgine fez dezesseis anos e foi solta 
como menor emancipada, e a me de Maida obteve liberdade condicional e a levou, o que 
deixou Hilary como a nica garota com trs garotos, enquanto esperavam duas novas garotas 
para substituir as outras. Durante vrios dias, Hilary ficou sozinha com os garotos no quarto 
ao lado, mas Louise calculou que uma garota e trs garotos no era uma combinao perigosa, 
portanto no se deu ao trabalho de trancar a porta de Hilary, o que a deixou sem proteo. Os 
garotos vieram sorrateiramente, certa noite. Hilary estava totalmente desperta, apavorada, 
quando os viu entrar no seu quarto e fechar a porta s suas costas, sem rudo. Ela lutou como 
uma gata, mas perdeu para a fora deles, que fizeram exactamente o que tinham vindo fazer.
       Na manh seguinte, Hilary ligou para a assistente social e pediu para ser transferida 
para o centro de deteno juvenil. No deu explicao e Louise pareceu no ligar quando a 
levaram embora, dali a dois dias. Hilary havia roubado uma faca e um garfo da mesa de jantar 
e, na segunda vez, estava bem preparada para os seus visitantes noturnos. Um dos garotos 
quase perdeu a mo, e eles fugiram, aterrorizados. Mas ela ficou feliz por sair da casa de 
Louise e no contou nada do que acontecera  assistente social.
       No centro de deteno juvenil foi posta na solitria, porque estava aptica e no 
respondia a nenhuma pergunta. Levaram duas semanas para concluir que no estava doente. 
Estava magrrima, e fraca por se recusar a se levantar, mas eles achavam que, to logo fosse 
colocada junto com as outras meninas, poderia se reanimar. E sua "doena" foi rotulada de 
"psicose adolescente".
       Ela foi designada para trabalhar na lavanderia e colocada num dormitrio com 
quinze garotas, e  noite ouviu os mesmos gemidos e gritos que aprendera com Maida. Porm, 
desta vez, ningum a incomodou, ningum falou com ela, ningum a tocou. E. dali a um ms, 
foi colocada num outro lar de adoo com trs outras garotas. A dona da casa era agradvel, 
desta vez; no carinhosa, mas educada, religiosa num estilo srio e sem alegria, e falava 
frequentemente de um Deus que as castigaria se no o abraassem. Esforaram-se para 
romper a sua concha protectora, e sabiam que era uma menina inteligente, porm os seus 
silncios glidos acabaram por desencoraj-los. Ela no conseguia se dar para ningum. E, 
depois de dois meses, mandaram-na de volta para o centro e a "trocaram" por outra garota, 
uma simptica menina de onze anos que batia papo e sorria e fazia todas as coisas que Hilary 
no fazia.
       Hilary voltou para o centro de deteno juvenil, desta vez definitivamente, e no fez 
amizades ali. Estudava, trabalhava, e lia tudo em que podia pr as mos. J chegara a uma 
concluso. Ia sair dali e se instruir, e quanto mais se esforava, mais sabia que aquela seria a 
sua nica salvao. Entregou-se aos estudos e se formou aos dezessete anos, com distino, e 
no dia seguinte a assistente social encarregada do seu caso a chamou ao seu escritrio.
       - Parabns, Hilary, soubemos como se saiu bem.
       Mas ningum estivera presente. Ningum estivera presente para Hilary, no em nove 
anos, e agora ela sabia que jamais algum estaria. Este era o seu destino, e ela o aceitava. 
Excepto se pudesse encontrar Megan e Alexandra... mas at mesmo essa esperana agora era 
vaga. Ela ainda tinha os dez mil dlares, escondidos no forro da sua mala, mas a sua 
esperana de encontr-las era muito dbil... a no ser que fosse procurar Arthur. Mas ser que 
ainda se lembrariam dela. Alexandra estaria com doze anos, e Megan s com nove; seria uma 
estranha para elas. S lhe restava mesmo ela prpria. Sabia disso agora, enquanto olhava para 
a assistente social encarregada do seu caso sem demonstrar a menor emoo.
       - Obrigada.
       - Agora voc tem uma escolha a fazer.
       - Tenho?
       Sem dvida nada agradvel. Hilary j aprendera isso, ao menos, e estava sempre 
pronta para se defender contra os sofrimentos que algum pretendia infligir-lhe. Tinha 
aprendido muito desde o seu primeiro lar de adoo, e seus primeiros dias no centro.
       - Normalmente, nossos tutelados ficam aqui at atingirem os dezoito anos, como 
voc sabe, mas num caso como o seu, quando elas se formam na escola secundria antes 
dessa idade, tm a opo de sair daqui como menor emancipada.
       - O que quer dizer isso? - Hilary olhava para ela, desconfiada, por trs de muros de 
ao.
       - Quer dizer que voc est livre, Hilary, se quiser. Ou que pode ficar aqui at decidir 
o que quer fazer depois de sair. J pensou nisso?
       Somente durante quatro anos.
       - Um pouco.
       - E a? - Conversar com ela era como arrancar dentes, mas muitos deles eram assim, 
machucados demais pela vida para confiar em qualquer pessoa. Era uma tragdia, mas no 
havia como modificar isso. - Quer me contar os seus planos?
       - Tenho que lhe contar, para poder sair?
       Era como a tal liberdade condicional de que tanto tinha ouvido falar. Todo mundo 
que conhecia no centro tinha pais na cadeia, esperando para serem soltos sob liberdade 
condicional. Isso no era diferente. Mas a assistente social sacudiu a cabea.
       - No, no tem, Hilary. Mas eu gostaria de ajudar, se pudesse.
       - Vou ficar bem.
       - Para onde quer ir?
       - Nova York, provavelmente.  de onde sou.  o que conheo. - Embora estivesse 
ausente de l por mais de metade da sua vida, ainda parecia ser a sua casa. E,  claro, havia as 
irms...
       -  uma cidade grande. Tem amigos l?
       Ela sacudiu a cabea. Se tivesse, teria passado quatro anos no centro de deteno 
juvenil de Jacksonville? Que pergunta burra. E, pelo menos, ainda tinha os seus dez mil 
dlares. Aquilo ia ser a sua salvao. No precisava de amigos. Precisava apenas de um 
emprego, e um lugar para ficar. Mas uma coisa era certa, no ia ficar aqui.
       - Acho que vou embora logo. Quando posso ir? - Seus olhos se iluminaram pela 
primeira vez, ante a perspectiva de partir.
       - Podemos ter os seus papis de soltura prontos na semana que vem. Est bom para 
voc? - A assistente social sorriu com pesar. Tinham falhado lamentavelmente com ela. 
Aquilo ocorria s vezes, era um azar tremendo quando acontecia, mas era difcil dizer quem 
sobreviveria ao sistema, quem no. Ela ficou de p e estendeu a mo, que Hilary apertou 
cautelosamente. No confiava em nada e em ningum. - Ns a avisaremos logo que possa 
partir.
       - Obrigada.
       Ela saiu da sala suavemente e foi para o quarto em que morava, sozinha. No 
precisava mais ficar num dormitrio ou dividir o quarto com ningum. Conquistara 
antiguidade, e dentro de alguns dias estaria indo embora. Deitou-se na cama com um sorriso e 
fitou o teto. Estava tudo acabado, a agonia, a dor, a humilhao, o horror da sua vida nos 
ltimos nove anos. Agora seria dona do seu nariz. Ficou deitada ali, sorrindo como no sorria 
h anos. E, exactamente uma semana depois, ela estava num nibus, sem arrependimentos, 
sem tristeza, sem amigos deixados para trs. Seus olhos eram frios, duros e verdes, sonhando 
com um mundo que ainda no conhecia. E o passado era um pesadelo que ficava para trs. 
       
       Captulo 9
       O nibus parou em Savannah, Raleigh, Richmond, Washington e Baltimore, e levou 
dois dias para chegar a Nova York. Hilary olhava pela janela o tempo todo, silenciosamente. 
Outros passageiros disseram uma ou duas palavras quando pararam para almoar, ou quando 
esticaram as pernas  noite, dois marinheiros at tentaram paquer-la, mas ela os tratou 
rispidamente, e depois disso ningum mais se aproximou dela. Era uma figura solitria ao 
saltar do nibus em Nova York, e tremia toda por dentro. Estava em casa... depois de nove 
anos... partira dali em criana, uma semana aps o pai cometer suicdio, para ir ficar com a tia 
em Boston. E levara todos aqueles anos at voltar para casa, mas voltara.
        O juizado de menores da Flrida lhe dera 287 dlares para comear a vida, e tinha 
os dez mil dlares de Eileen. A primeira coisa que fez foi ir a um banco na rua 42. A segunda 
foi ir para um quarto de hotel. Hospedou-se num hotel pequeno e surrado nas ruas 30 
Leste, mas seu quarto era simples e despretensioso e ningum a incomodava quando entrava 
ou saa. Comia numa lanchonete da esquina e lia os classificados  procura de emprego. 
Tomara aulas de datilografia na escola secundria, mas no possua outras habilidades e no 
tinha iluses sobre o que a esperava. Teria de comear por baixo. Mas tambm tinha outros 
planos. No ia parar ali. Os espectros das mulheres que conhecera nos ltimos nove anos a 
marcaram. No ia ser como elas. Trabalharia e faria faculdade  noite, e faria tudo que fosse 
preciso. E algum dia seria importante, prometeu a si mesma. Algum dia seria algum.
        No seu segundo dia em Nova York ela foi  loja de departamentos Alexander, na 
Lexington Avenue, e gastou quinhentos dlares em roupas. Parecia uma poro aterradora da 
sua fortuna, mas ela sabia que teria de se apresentar bem para conseguir um emprego. 
Escolheu cores escuras, estilos simples, saias e blusas e scarpins de verniz e bolsa 
combinando. Parecia uma mocinha bonita enquanto experimentava as suas coisas no seu 
quartinho no centro, e ningum jamais desconfiaria dos horrores por que passara desde a 
morte dos pais.
       Ela foi  sua primeira entrevista de emprego e lhe disseram que era jovem demais; e 
depois mais trs que exigiam estenografia, coisa que no sabia, e por fim foi ver um emprego 
num escritrio de contabilidade, onde foi entrevistada por um homem calvo e obeso que suava 
profundamente e segurava um leno mido numa das mos.
        - Bate  mquina? - Olhava para ela maliciosamente, enquanto ela o observava. J 
lidara com tipos piores, e ele no a assustava. E tambm precisava do emprego. No poderia 
seguir vivendo para sempre dos seus fundos cada vez menores. Precisava achar emprego logo, 
e estaria at mesmo disposta a trabalhar para ele, se soubesse se comportar. - Tambm  
estenografa? - Ela fez que no, e ele pareceu no se importar. - Quantos anos tem? 
       - Dezenove - mentiu. Aprendera ao menos isto, na sua primeira entrevista. Ningum 
queria contratar uma garota de dezessete anos. Ento mentia para eles.
       - Fez curso de secretariado? - Ela fez que no de novo e ele deu de ombros, depois se 
levantou com uma pequena pilha de papis numa das mos e rodeou a mesa, como se fosse 
mostr-la para a moa, quando chegou junto dela acariciou-lhe o seio. Ela se ps de p com a 
velocidade de um raio, esbofeteando-o antes mesmo de se dar conta. Ambos soltaram uma 
exclamao abafada, simultaneamente, e dum canto ele a fitava.
       - Se me tocar de novo, grito to alto que a polcia vir at aqui - ela avisou, os olhos 
verdes faiscando, todo o corpo tenso, as mos trmulas enquanto olhava para ele. - Como 
ousa fazer uma coisa dessas?
       Por que todos eles faziam essas coisas com ela? O seu tio Jack. e as meninas no lar 
de adoo... e os meninos na casa de Louise... aquilo vivia acontecendo com ela. No entendia 
que era porque era bonita, Achava que era alguma espcie de castigo, algo que fizera em 
criana e pelo qual estava sendo torturada agora. No parecia justo que vivesse lhe 
acontecendo, e ela recuou lentamente para a porta, sem desviar os olhos do rosto dele.
       - Escute, desculpe... no foi nada demais. Senhorita... com se chama? Vamos... - Ele 
se dirigiu desajeitado para ela, que bateu a porta na cara dele e desceu as escadas o mais 
rpido que pde e caminhou at o seu hotel, sentindo-se suja e deprimida, e imaginando se 
iria conseguir um emprego.
       Mas por fim conseguiu, como recepcionista de uma agncia de empregos. Gostaram 
da sua aparncia, desconfiavam de que tinha menos idade do que dizia, mas era inteligente, 
limpa e arrumada, batia  mquina regularmente e sabia atender ao telefone, e aquilo era o 
suficiente para eles. Ofereceram-lhe 95 dlares por semana, o que lhe pareceu uma fortuna. 
Aceitou o emprego e voou para o hotel a fim de se preparar para o trabalho no dia seguinte. 
Conseguira o seu primeiro emprego! E dali por diante seria uma ascenso rpida. Ainda no 
sabia o que queria fazer, mas j decidira onde queria estudar. Estivera lendo todos os anncios 
de jornal e dera alguns telefonemas. J fizera a sua inscrio e aguardava noticias, e a ento o 
futuro estaria  sua espera.
       Agora s restava fazer uma coisa, e ela resolveu tratar dela naquela mesma tarde. 
Depois, no sabia quando ia ter tempo, e no queria ligar para ele. Queria v-lo pessoalmente. 
S uma vez. Obteria dele a informao e ento s precisaria telefonar. S de pensar nisso 
ficou toda trmula, enquanto trocava de roupa de novo. Ps um vestido azul-marinho simples, 
meias escuras e sapatos de verniz. O vestido era curto, como estava na moda, mas era 
respeitvel. E prendeu o cabelo num coque simples que fazia com que parecesse mais velha. 
Lavou o rosto, secou-o numa das toalhinhas speras do hotel e desceu novamente. Desta vez 
no tomou nibus. No queria perder tempo. Pegou um txi, e ficou parada olhando para cima 
quando chegou  rua 48 com Park Avenue. Era um prdio de vidro enfeitado com cromados, e 
parecia subir at os cus, enquanto olhava para ele.
       O elevador estremeceu enquanto subia at o 38 andar, e ela prendeu a respirao, 
imaginando se enguiaria. Jamais estivera num lugar assim antes, pelo menos no que se 
lembrasse. Mas havia outras coisas de que se lembrava: uma viagem a Paris com os pais no 
Libert... o apartamento em Sutton Place... ch no Plaza com Solange, com bolinhos e 
chocolate quente com montanhas de creme chantilly... e se lembrava da noite em que a me 
morrera e das coisas que ela e Sam tinham dito...
       As portas do elevador se abriram suavemente e ela se viu numa ante-sala com 
carpete verde e espesso e uma jovem  escrivaninha. Ela usava um costume de linho rosa e 
tinha cabelos louros e curtos, e ostentava o ar eficiente que se supunha que todas as 
recepcionistas deviam ter. Aquilo lembrou a Hilary o emprego em que ia comear no dia 
seguinte. Mas sabia que jamais teria aquele jeito. No era "engraadinha", no era loura, e no 
parecia pronta a saltar da cadeira se algum mandasse. Em vez disso, Hilary parecia quieta e 
sria ao se aproximar e fitar directamente os olhos da moa.
       - Quero falar com o Sr. Patterson.
       - Ele a est esperando? - A moa sorriu, mas Hilary no sorriu de volta. Sacudiu a 
cabea com sinceridade e falou com voz contida. No fundo, estava intimidada por aquele 
ambiente, mas externamente nada demonstrava. Parecia bem  vontade e totalmente 
controlada.
       - No, no est. Mas gostaria de falar com ele agora.
       - Seu nome? - refulgiu a Senhorita Sorriso.
       - Hilary Walker. - E depois acrescentou, como se fosse fazer alguma diferena: - Ele 
 meu padrinho.
       - Ah.  claro - disse a lourinha e depois apertou uma srie de botes e pegou no 
telefone, falando nele inaudivelmente. Aquilo fazia parte do servio, falar ao telefone para 
que ningum mais pudesse escutar: O Sr. Fulano est aqui para falar com o senhor... ah, no 
est?... dizer-lhe o qu?... Era uma arte que Hilary teria de aperfeioar na agncia de 
empregos. E ento a garota deixou Hilary atnita. Olhou para ela com aquele sorriso perfeito 
e indicou uma porta  sua direita. - Pode entrar. A secretria do Sr. Patterson ir receb-la e 
lev-la ao escritrio dele.
       Parecia impressionada. No era fcil falar com Arthur Patterson, mas a moa era a 
afilhada dele, afinal de contas.
       Hilary entrou e olhou para um longo corredor acarpetado. A firma ocupava o andar 
inteiro e ela enxergava, do outro lado do corredor, uma sala de canto a uma quadra de 
distncia. Era um corredor impressionante, forrado de livros de direito encadernados em 
couro, e povoado por secretrias nas suas mesas diante das salas dos advogados. Ela nunca 
estivera ali, nem em criana.
       - Senhorita Walker? - Uma mulher idosa, de cabelos curtos e grisalhos e sorriso 
bondoso se adiantou e apontou para a distncia, corredor abaixo.
       - Sim.
       - O Sr. Patterson est  espera.
       Como se tudo tivesse sido planejado, como se ele soubesse que ela viria, como se 
estivesse esperando h nove anos. Mas o que ele podia saber, sentado ali? O que podia saber 
de vidas como as de Eileen e Jack, de cuidar dela enquanto estava morrendo, de se defender 
dele com uma faca, de quase morrer de fome na casa deles durante todos aqueles anos, e do 
lar de adoo em Jacksonvlle, e de Maida e Georgine... e do centro de deteno juvenil e at 
do homenzinho suarento que a "entrevistara" h dias? O que ele sabia de tudo aquilo? E s o 
que ela sabia era que ele matara sua me, to seguramente quanto se o tivesse feito com as 
prprias mos, e o pai tambm, finalmente. E agora ele estava ali, e Hilary s queria uma 
coisa dele, depois o deixaria e jamais tornaria a v-lo. Nunca mais queria pr os olhos nele, 
depois de hoje.
       A secretria parou diante da porta e bateu. Uma placa discreta em lato e couro na 
porta dizia Arthur Patterson. Ento ela ouviu a voz dele. Ainda lhe era familiar. Ainda podia 
lembrar-se dele mentindo para ela h oito anos: "Vou lev-las s por pouco tempo, Hilary... 
volto para buscar voc." Nunca voltou, mas ela no se importava, ela o odiava, de qualquer 
maneira. Ainda podia se lembrar de ficar ajoelhada na rua depois que ele se foi, chamando os 
nomes das irms, e teve que lutar contra as lgrimas de novo, mas agora estava quase tudo 
acabado... quase. Fazia quase exactamente oito anos desde que o vira pela ltima vez.
       - Pode entrar. - A secretria sorriu e se afastou ao abrir a porta. Hilary entrou 
suavemente. A princpio no notou a escrivaninha, e ento a viu, um bloco simples de vidro e 
cromado, na frente de uma janela que oferecia uma vista plena de Nova York, e l se sentava 
ele, incongruente na decorao moderna. Tinha cinquenta anos e parecia ter no mnimo mais 
dez, alto, magro, calvo, de olhos tristes e rosto plido. Contudo, estava mais plido do que de 
costume quando se levantou e olhou para Hilary. Era como se tivesse visto um fantasma 
parado na sua frente. Ela era bela e alta, com os cabelos negros e brilhantes de Sam. Mas a a 
semelhana com ele terminava. Hilary tinha os olhos de Solange, e o mesmo jeito de mexer a 
cabea. Estava parada diante dele do mesmo modo orgulhoso com que Solange caminhara 
pela rue d'Arcole, em Paris, 22 anos atrs. Era como enxergar um fantasma, se pudesse mudar 
o cabelo preto para ruivo. Era Solange de novo, mas com olhos irados e amargos, com algo 
feroz no rosto que Solange jamais tivera, algo que dizia: se chegar perto de mim, eu o mato 
antes que me toque. Arthur temeu instantaneamente o que podia ter acontecido a ela, o que 
causara tal agressividade. E, no entanto, estava s e salva, obviamente, e parada diante dele no 
seu escritrio, crescida e muito linda. Era um milagre e ele se dirigiu lentamente para ela, 
estendendo a mo, sonhando em recapturar o passado. Era um modo de ter Sam e Solange de 
volta, de soltar a partilhar a magia deles. Hilary ia trazer tudo de volta para ele. Mas, ao se 
aproximar, pde sentir o muro erguido em torno da moa. Hilary comeou a recuar quando 
ele se aproximou e, instintivamente, ele parou.
       - Hilary, voc est bem? - Era um pouco tarde para perguntar, e ela odiou a fraqueza 
que viu nos olhos dele. No compreendera at ento como ele fora totalmente sem coragem. 
No tinha colhes, ela se deu conta ento. Por este motivo as abandonara, depois de 
atraio-las. No tinha fibra, algo de que Solange o acusara toda uma vida atrs, embora 
Hilary no o soubesse.
       - Estou bem. - No perdeu tempo com ele. No viera participar de uma reunio clida 
com um amigo de famlia, viera perguntar-lhe a nica coisa que lhe interessava, a nica coisa 
que lhe interessara durante oito anos. - Quero saber onde esto minhas irms.
       Os olhos dela estavam glidos e nenhum dos dois se mexeu enquanto ela observava o 
rosto dele, sem ter certeza do que via, terror ou sofrimento. E ela esperou, a respirao presa, 
pelo que ele diria.
       Mas, se estava plido antes, agora ficara fantasmagrico. Ele percebeu que no 
poderia iludi-la, que ela no queria nada, nada dele, excepto saber onde as irms estavam. Ela 
as queria e ele no as poderia dar, no importava o quanto desejasse faz-lo.
       - Hilary... por que no nos sentamos...
       Ele apontou uma cadeira e ela sacudiu a cabea, os olhos fitos nos dele.
       - No estou interessada em me sentar com voc. Voc matou meus pais, destruiu 
minha famlia. No tenho nada a lhe dizer. Mas quero saber onde esto Alexandra e Megan.  
s o que quero. Quando me disser eu vou embora. - Ela esperou pacientemente, a mesma 
inclinao orgulhosa da cabea que fizera Solange to nica... to extraordinria. Ele fitou-a, 
enxergando outra pessoa, mas no havia como fugir de Hilary. Ela era uma fora que teria de 
enfrentar, e entendia isso inteiramente agora. Tambm pressentia que ela sabia mais do que 
ele imaginara, no passado, mas no lhe fez nenhuma pergunta. Contou-lhe a verdade, os olhos 
cheios de pesar, midos de lgrimas pelo que fora e no era mais. Uma famlia morrera pelas 
suas mos: Hilary tinha razo. E ele nunca superara o facto. No tivera sua prpria famlia, e 
Marjorie o abandonara anos atrs. A mulher que amara estava morta, suas filhas lanadas aos 
ventos. E ele se considerava responsvel pelo que acontecera a todos, at mesmo a Sam. Mas 
no havia como explicar isto a essa garota, ou como se desculpar. S Deus sabia o que ela 
havia passado nos ltimos oito anos.
       - No sei onde elas esto, Hilary. No sei nem onde voc estava. Quando fui a 
Boston para v-la, h sete anos, vocs tinham sumido... os Jones no deixaram o novo 
endereo com ningum. No consegui encontr-la. - A voz dele foi sumindo, cheia de pesar, 
porque a sua prpria culpa fora to grande, que ficara secretamente aliviado por no ter que 
enfrent-la de novo, e desconfiava agora que ela estava ciente disso. Tinha olhos que tudo 
viam, e parecia ter tambm um corao que no perdoava. No havia nada de clido nessa 
moa, nada de meigo ou bondoso. Era feita inteiramente de granito e arame farpado, lminas 
de ao e vidro partido. Havia coisas feias dentro da moa, ele podia enxergar nos seus olhos, e 
por um instante teve medo dela, como se, tendo oportunidade, ela pudesse lhe fazer mal. E, 
dadas as circunstncias, no estava certo de culp-la.
       - No precisava ter se esforado muito para me achar. - A voz dela era dura. No 
estava interessada em suas explicaes ou suas desculpas. - Fomos para a Flrida.
       - E depois? - Precisava saber o que lhe tinha acontecido, por que estava daquele jeito. 
Tinha que saber. Sentiu um soluo preso na garganta e rezou para no chorar na frente dela. - 
O que lhe aconteceu? - Queria que ela se sentasse, que pudessem conversar, que ela o 
escutasse. Podia conversar com ela, agora. Podia explicar sobre Marjorie, que agora era juza 
do Supremo Tribunal. Podia contar por que no pudera lev-las para morar com ele... por que 
ningum queria as trs juntas... por que fizera o que fizera. - Jack e Eileen, ao menos... foram 
bons para voc?
       Ela soltou uma risada amarga, parecendo muito velha, e seus olhos ficaram mais 
verdes. Estava pensando em Jack e naquela noite... e no fiapo de gente pattico em que Eileen 
se transformara antes de morrer.
       - Eileen morreu e fui tutelada do juizado de menores nestes ltimos quatro anos. 
Estive em lares de adoo e no centro de deteno juvenil e agora estou livre, Sr. Patterson. 
No devo nada a ningum, e muito menos a voc. Agora s quero minhas irms. - Seu 
corao batia com fora ao perceber que ele as perdera.
       - Por que no ligou para mim quando ela morreu? - Parecia horrorizado. -  claro que 
no precisaria ir para lares de adoo ou centros de deteno juvenis. - Aqueles eram lugares 
em que ele nunca pensava, no suportava pensar neles agora. - Hilary, lamento...
       Mas os olhos dela faiscaram com um fogo verde de novo, e ela fez um gesto com a 
mo.
       - No me venha com essa merda. Voc nunca ligou a mnima.  fcil para voc 
bancar o santinho e me dizer o quanto lamenta. Para dizer a verdade, estou me lixando. Isso 
no muda nada do que me aconteceu. O que quero de voc so os endereos de minhas irms, 
e voc vem me dizer que no sabe. Mas tem que saber. Levou-as para l!
       Nunca lhe ocorrera que ele poderia perd-las de vista, assim como perdera Hilary. 
Isso era impossvel. Ele tinha de saber, e ela perscrutou-lhe os olhos, mas o que viu ali foi 
assustador. Viu remorso e culpa e um homem que tinha medo dela, de verdade.
       Ele se sentou numa cadeira e sacudiu a cabea em desespero, e depois ergueu para 
ela os olhos tristes e vazios.
       - Alexandra ficou com um dos meus scios aqui na firma. Tinha uma esposa bela e 
jovem, de boa famlia, que era muito mais moa do que ele. No tinha filhos e estavam loucos 
para adotar Alexandra quando lhes falei sobre ela. E adotaram... eles a adoravam. - Olhou 
para Hilary como se esperasse amolec-la um pouco, mas no adiantava, os olhos dela eram 
como fogo verde e suas mos tremiam enquanto se sentava silenciosamente numa cadeira e 
ouvia o que ele tinha a dizer. - Levaram-na para a Europa, iam com ela a toda parte... mas 
depois de seis meses George teve um enfarte e morreu. Margaret ficou em estado de choque e 
levou Alexandra embora com ela. A ltima notcia que tive delas era que estavam no sul da 
Frana. Mandamos os papis do esplio para ela em Paris h anos... e no soube de nada 
depois disso. Acho que ela ficou por l, mas no tenho certeza. No havia motivo para 
ficarmos em contacto com ela, e... - a voz dele foi; sumindo, enquanto duas lgrimas 
escorriam pelas suas faces.
       - Ento quer dizer que no sabe onde Alexandra est. - Hilary parecia entorpecida. - 
E o nome da mulher?
       - Gorham. Margaret Gorham. Mas ela podia ter-se casado novamente a esta altura... 
diversas coisas podiam ter acontecido com ela, Poderia estar de volta, em algum lugar dos 
Estados Unidos. No creio que esteja de volta a Nova York, acho que eu ficaria sabendo se 
estivesse.
       Olhou sem jeito para ela.
       - E Megan?
       - Foi adotada por David e Rebecca Abrams, logo depois que eu... depois que ela... - 
Mal conseguia se controlar, e Hilary tremia da cabea aos ps. -... depois que a trouxe de volta 
a Nova York. Ele no tinha sociedade na firma, simplesmente trabalhava para ns, e alguns 
meses mais tarde eles foram embora. Ela tambm era advogada e receberam uma oferta de 
uma firma de Los Angeles que queria os dois. Estavam ansiosos para comear uma nova vida, 
e foram enfticos ao me dizer que no queriam ficar em contacto. Queriam dar a Megan uma 
nova vida, longe de tudo que lhe acontecera. No tive notcias deles desde que se mudaram. 
Se ele pertencer  Ordem dos Advogados da Califrnia eu talvez possa localiz-lo, se ainda 
estiver l... no sei...
       - Seu filho da puta. - Ela o fitou cheia de dio no rosto. - Nos deixou todas  deriva. 
Nos botou  deriva como se livrar-se de ns fosse livr-lo de sua prpria culpa, mas no 
livrou, no ? - Ela percebera tudo nitidamente. - Destruiu a sua vida tambm, e voc merece 
isso. Voc merece tudo o que lhe aconteceu. Que voc apodrea no inferno, Arthur Patterson. 
Vai viver com isso pelo resto da sua vida. Voc matou duas pessoas e destruiu outras trs 
vidas. So cinco pessoas na sua conscincia. D para viver com isso? Caminhou at onde ele 
se sentava e olhou para ele com um desprezo geralmente s encontrado em pessoas mais 
velhas. - Voc consegue dormir  noite? Acho que no consegue... e s Deus sabe o que 
aconteceu s outras duas. S Deus sabe a que tipo de vida voc as condenou. Eu sei como foi 
a minha. Mas ela ainda no acabou. No vou deixar que estrague a minha vida. Ainda vou ser 
algum... e quem sabe algum dia eu encontre as minhas irms... quem sabe... Mas, nesse meio 
tempo - ela se dirigiu lentamente at  porta, com as lgrimas escorrendo pelas faces; tinha 
esperado tanto dele, e o seu desapontamento agora era to grande -, nunca mais quero v-lo, 
Arthur Patterson. Nunca. No vai acalmar a sua conscincia comigo. No vamos ser "amigos" 
de novo, caro padrinho. - Ficou olhando para ele por muito, muito tempo, antes das suas 
palavras finais, e pronunciou-as num sussurro que o perseguiu pelo resto da vida. - Nunca o 
perdoarei pelo que nos fez... nunca... e o odiarei pelo resto da minha vida. Lembre-se disso... 
lembre-se do que fez e de quanto o odeio.
       E ento, como o fantasma do Natal passado, fechou a porta da sala e se foi, e ele no 
teve coragem de segui-la. Ficou desabado na cadeira, como um velho, lembrando-se de 
Solange e chorando pelo que lhe fizera. Hilary tinha razo, ele no seria absolvido pelo que 
fizera a todos eles. No podia se perdoar e, como Hilary, ficou se perguntando onde estariam 
as outras duas.
       Mas no havia respostas. Hilary saiu do escritrio da Park Avenue para a Biblioteca 
Pblica e fez a nica coisa que podia fazer. Abriu a lista telefnica de Manhattan e no 
encontrou ali nenhum George ou Margaret Gorham. Encontrou apenas cinco Gorhams, e 
quando telefonou, nenhum deles sabia coisa alguma sobre Margaret ou Alexandra, e era bvio 
que nunca tinham ouvido falar nelas. E uma listagem da Ordem dos Advogados da Califrnia 
foi igualmente desencorajadora. No havia nenhum David Abrams nela, o que significava que 
ele devia ter deixado a Califrnia h muito tempo, e s Deus sabia para onde tinha ido. Ela 
no tinha recursos para fazer mais do que aquilo, no podia ca-las. No podia fazer nada. 
Esperara que Arthur soubesse, e ele no sabia de nada. As.suas irms tinham sumido. E, desta 
feita, para sempre. E o sonho que a mantivera viva deslizou suavemente do seu corao, como 
uma rocha caindo aos seus ps. Caminhou de volta ao hotel, as lgrimas correndo pelas faces. 
Era como se elas tivessem finalmente morrido, pensou, lembrando-se das rosas brancas no 
enterro da me. Elas no mais existiam na sua vida, h anos, no existiam... e rever Arthur a 
fizera lembrar-se daquele dia terrvel quando as meninas foram tiradas dela. Axie, eu a amo! - 
ainda podia se lembrar de gritar as palavras enquanto o carro se afastava, e de cair de joelhos 
na poeira. Parecia-lhe que nunca mais se poderia levantar. Mas agora se levantaria, tinha que 
faz-lo. Venceria sozinha, como tinha sobrevivido todos esses anos... mas sempre se 
lembraria delas. Sempre.
       Sentiu que as irms fugiam dela, enquanto entrava no seu hotel, como pessoas que 
amara, e que tinham finalmente morrido. Estava sozinha, como sempre estivera.
       
       Quarta Parte
       ALEXANDRA
       Captulo 10
       A casa da Avenue Foch era protegida por uma sebe alta, impecavelmente cortada, 
que protegia tudo o que ficava por trs dela das vistas dos pedestres. Havia jardins 
perfeitamente tratados e um hotel particulier de tijolos construdo no sculo XVIII, com 
portas lindamente entalhadas, maanetas e aldravas de bronze, belas persianas pintadas de 
verde-escuro, com cortinas de seda e damasco pendendo das janelas. 
       Era uma casa isolada do mundo mais pblico, protegida de toda a publicidade, uma 
casa na qual reinava a perfeio, cheia de objetos de Faberg e lustres de cristal e antiguidades 
impecveis. Era a casa do baro e baronesa Henri de Morigny, uma das famlias mais 
antigas da Frana. A sua casa era de grande nobreza e fortuna reduzida, at que ele se casou 
com a linda filha do velho conde de Borne, catorze anos atrs. A casa da Avenue Foch fora 
presente de npcias do conde e, como presente para Henri, Alexandra restaurara a casa de sua 
famlia, um belo chteau em Dordogne, assim como o seu pavilho de caa em Sologne. E, 
desde ento, tinham comprado uma casa de vero em Saint-Jean-Cap-Ferrat, para onde iam 
todos os anos com as filhas. Era uma vida de luxo considervel e graa interminvel. Era a 
nica vida que Alexandra de Morigny conhecera, e ela desempenhava o papel de esposa 
perfeita para o marido, a todas as horas. Dirigia a casa dele, planejava seus jantares, recebia 
seus amigos, obedecia s suas instrues e criava as duas filhas, Axelle e Marie Louise,  
perfeio. As meninas eram a maior alegria da sua vida, e ela estava sentada  
sua escrivaninha com um sorriso sereno, pensando nelas aquela tarde. Logo chegariam da 
escola, e ela levaria os cachorros para passear com elas no Bois. Era uma boa oportunidade de 
conversar, de descobrir O que se estava passando, de quem elas gostavam, a quem 
"detestavam" quem estaria em dificuldades na escola, e depois voltariam para casa para as 
meninas fazerem os seus devoirs, tornarem banho, jantarem, brincarem e irem para a cama. 
Alexandra sempre ficava com elas at a sua hora de jantar com Henri. Elas tinham seis e doze 
anos, diferentes como a noite e o dia, e eram a alegria e os risos da vida dela. Mane-Louise 
era sria e muito parecida com Henri, mas Axelle era exactamente como ela fora em criana, 
um pouquinho tmida, totalmente confiante e enormemente afetiva. Era simplesmente 
maravilhoso estar cem ela, acariciando os cabelos ruivos claros e fitando aqueles imensos 
olhos azuis. O corao de Alexandra cantava s de pensar nisso. E ela se sentava sorrindo, 
fitando o espao, e no ouviu os passos dele no piso de paquete muito bem encerado quando 
ele entrou na sala e a observou. Estava quase diante dela quando acordou do seu devaneio. 
Ergueu os olhos para deparar com o homem alto e bonito com quem se casara. Ele tinha 59 
anos e um fsico vigoroso, com linhas definidas no rosto e olhos duros que a fitavam, como 
sempre o faziam, como se ele estivesse prestes a lhe fazer uma pergunta muito importante. 
Era um rosto que no se descontraa com frequncia, mas ele era um homem em quem podia 
confiar e de quem podia depender. E ela o respeitava. Tinha se apaixonado por ele aos 
dezenove anos, e foram noivos durante dois anos. O pai dela queria se certificar de que ela 
no estava cometendo um erro ou agindo por impulso. Afinal, Henri era 25 anos mais velho 
do que ela, mas ela estava absolutamente certa. Queria algum igualzinho ao pai, o velho 
conde de Borne. Ele estava com sessenta anos quando ela nasceu, ou estaria. Ele a adotara 
quando tinha seis anos, e ele a adorava. Nunca tivera filhos, e acabava de perder a esposa de 
quarenta anos de casados quando se casou com a mo dela. Ele fora para o Sul da Frana 
chorar suas mgoas e, ao invs disso, encontrara Margaret Gorham, que fazia precisamente a 
mesma coisa, depois da morte do seu marido. Tinha 27 anos e fora um romance rapidssimo. 
Dali a seis meses estavam casados e Pierre de Borne adotou Alexandra. E apenas ele e 
Margaret partilhavam o segredo de que ela j fora adotada uma vez, quando veio para 
Margaret e George Gorham aos cinco anos, em Nova York. No era algo que todo o mundo 
precisasse saber, e no era mais importante. Ela era Alexandra de Borne, e to cara ao corao 
do conde como se fosse sua filha natural Talvez ainda mais. Ela cresceu protegida, mimada e 
adorada como poucas crianas o so, e em troca idolatrava o homem que conhecia como pai. 
Era para Pierre que se voltava com todo pesar, ou desejo, ou sonho, partilhando com ele todos 
os seus segredos, confessando as suas ms aes, que eram bem poucas, enquanto Margaret 
os observava, satisfeita de todas as maneiras, cheia de amor pelo marido e filha, e muito 
brincalhona. Margaret era, na verdade, a criana da famlia, pregando peas nos outros dois, 
escondendo-se inesperadamente, vestindo fantasias ridculas para os fazer rir. Ela era uma 
criana grande que gostava de rir e de aproveitar cada minuto. E Alexandra, estranhamente, 
era mais parecida com Pierre, afetuosa, tmida, e cheia de admirao pelos planos malucos e 
risada irresistvel de Margaret. Alexandra era protegida e muito amada, e todos se 
surpreenderam quando ela se apaixonou aos dezenove anos e disse que queria se casar. Pierre 
de Borne no ficou satisfeito com a ideia da filha se casar com Henri de Morigny, 
principalmente porque ele era to mais velho. Tambm o achava srio demais e um homem 
difcil, ainda por cima. Morigny nunca se casara antes e o velho conde sabia que estivera 
esperando pela garota certa, com uma famlia importante, uma fortuna igualmente importante 
e, se possvel, um ttulo. E Alexandra, sem dvida, tinha tudo isso a lhe oferecer. Porm o que 
ele oferecia para ela? Quis saber o pai. Era suficientemente carinhoso, seria bom para ela? 
Pierre falava nisso constantemente com Margaret, e ela estava to preocupada quanto ele. Mas 
Alexandra tinha certeza de que queria Henri, e nunca vacilou. Casou-se aos 21 anos na igreja 
da propriedade rural deles, em Rambouillet. Havia setecentas pessoas presentes, de todas as 
melhores famlias da Europa. E passaram a lua-de-mel no Taiti, tomando ponches exticos e 
fazendo amor na praia particular da casa que Henri alugara para ela. E quando voltaram para 
Paris, Alexandra o amava com uma paixo ainda maior do que antes, e s o que queria era ter 
os seus filhos. Ela levou mais de um ano para conceber, a despeito dos esforos mais 
romnticos de Henri. Pierre viveu o bastante para pr no colo a primeira neta, dois anos 
depois do casamento de Alexandra. E ento morreu serenamente durante o sono, aos 83 anos 
de idade. Margaret ficou desolada e Alexandra aturdida. No podia imaginar uma vida sem 
ele, no podia imaginar no ter a sua mo para segurar, seus olhos sbios para fitar. Aquilo a 
tornou, de sbito, extremamente dependente de Henri, a quem adorava, e tambm a deixou 
com um pouco de medo dele. De repente, ele se tornou de total importncia para ela, e ficou 
obcecada por seus temores de perd-lo tambm, pois sabia que no o suportaria. Alexandra 
sempre tivera um medo irracional de perder as pessoas que amava e que a amavam. E aquilo 
preocupava Margaret consideravelmente, porque ela achava que Henri se aproveitava disso 
para control-la. E, de certa forma, ele tratava Alexandra como se fosse uma criana, algum 
com quem se devia ralhar, falar com firmeza e ensinar o que fazer, como se ela prpria no 
soubesse. Aos olhos de Margaret ele era mais um pai do que um marido, e Alexandra tudo 
fazia para agrad-lo, no importa o quo trivial e tolo fosse. Ele tinha aspiraes polticas, o 
que o tornava manaco por aparncias. Tudo tinha de ser perfeito, constantemente 
circunspetos, Alexandra devia ser impecvel em todas as horas, as meninas tinham que ser 
dez vezes mais educadas do que as outras crianas. Margaret achava exaustivo at tomar ch 
com eles, e ficava preocupada ao ver que Alexandra parecia achar tudo aquilo normal. Tudo 
estava certo, desde que agradasse o marido.
       -  o jeito dele, mam. No tem m inteno.  um homem srio e quer que tudo seja 
perfeito.
        O pai de Alexandra nunca fora to exigente com a filha, ou com a mulher, e possua 
um senso de humor maravilhoso. Margaret achava Henri um chato de galochas, em 
comparao com o seu falecido marido, mas nunca verbalizou isso. Desejava apenas a 
felicidade de Alexandra, e era s o que Pierre tambm quisera para ela. E lhe deixara a maior 
parte da sua fortuna ao morrer, legando a Margaret mais
       do que o suficiente para continuar se divertindo por mais uns quarenta anos. Ela 
estava apenas com 45 anos quando ele morreu, e parecia bem, - mais jovem, principalmente 
porque curtia tanto a vida. E ainda era, muito atraente. Era trs anos mais moa do que o 
marido de Alexandra.
       Margaret de Borne sempre se divertia, sempre tinha algo engraado para dizer, algo 
extico e fascinante para fazer. Todos os homens casadouros da Europa a disputavam, e ela 
no tinha o menor desejo de voltar a se casar. Fora feliz com George anos atrs, e tivera tudo 
o que queria com Pierre. No fazia sentido tentar superar aquilo. Ela sabia que jamais 
conseguiria e nem queria tentar. Mas Alexandra  outra histria, e Margaret se preocupava 
com ela mais do que a filha imaginava. 
       Henri esperava demais dela. Tanto que Pierre e Margaret haviam decidido nada lhe 
contar das origens de Alexandra, de que ela mesma nem se lembrava. Ela somente se 
lembrava de "papa", como chamava Pierre, embora Margaret soubesse que tinha tambm 
outras lembranas vagas, mas estavam enterradas h muito tempo. Ela no parecia guardar a 
menor lembrana de George Gorham. Profundamente enterrado na sua memria, estava o 
facto de ter sido adotada por Pierre depois que seu pai morrera, um homem de quem no mais 
se lembrava. E jamais lhe ocorrera, nem eles lhe tinham contado, que ela nascera de outros 
pais, e que Margaret no era sua me, que j havia sido adotada uma vez, aps a morte trgica 
dos prprios pais. Pierre fora inflexvel com Margaret antes de morrer. No queria que o 
marido de Alexandra soubesse coisa alguma de quaisquer das suas adoes. Mas nada falara a 
respeito para Alexandra, no querendo despertar as lembranas ou a sua conscincia. Era uma 
moa to honesta que poderia se sentir na obrigao de contar ao marido. Seria muito mais 
fcil se no se lembrasse. O pai conhecia Henri o suficiente para saber que era um manaco 
sobre a sua linhagem.
       E Margaret no discordava do marido com relao ao genro, assim, pelo bem de 
Alexandra, tambm ficou calada. E, depois de tantos anos, ningum sequer se lembrava de 
que Alexandra era adotada. E Margaret se regozijou quando Marie-Louise nasceu, e depois 
chorou quando Alexandra perdeu um menino, um ano mais tarde. E depois veio Axelle, aps 
uma gravidez cruciante e um trabalho de parto interminvel. Depois disso, o seu mdico 
insistiu com ela para que no tentasse de novo. Disse-lhe que no poderia ter mais filhos sem 
pr em risco a prpria vida. E ela ficou satisfeita com as duas meninas que tinham. Somente 
Henri ficou amargamente desapontado, e rancoroso por muito tempo, por que ela no lhe dera 
um filho. E por vrios anos, depois do nascimento de Axelle, ele lhe dizia isso quando estava 
zangado. E sempre fazia com que ela se sentisse vagamente culpada com relao ao marido, 
como se, de alguma forma, o tivesse ludibriado e lhe devesse algo mais pelo seu fracasso.
       A perda de um filho era uma cruz que Henri tinha de carregar, e ter Margaret de 
Borne como sogra era outra. Ela o enfurecia com as suas compridas pernas americanas, as 
suas passadas interminveis, que ele considerava pouco femininas, e sua risada ruidosa (alta 
demais), seu sotaque terrvel em francs, que, para ele, era como unhas riscando um quadro-
negro. Odiava as peas que pregava, detestava o seu senso de humor, e se crispava quase 
visivelmente quando ela chegava, trazendo pistolas d'gua sob a forma de batom para as 
meninas, brinquedos baratos que elas adoravam ou, no extremo oposto, caixas e caixas e 
caixas de roupas de Nova York, inclusive casacos azul-marinhas combinando, com pequenos 
regalos cor-de-rosa, que ele dizia para Alexandra serem extremamente vulgares. Detestava 
tudo o que ela trazia e tudo o que dizia, e dava graas por Alexandra no se parecer em nada 
com ela. No podia imaginar por que o velho conde se casara com uma mulher daquelas. E 
agradecia a Deus diariamente por Alexandra ser muito mais contida do que a me. Alexandra 
era inteligente, bondosa e discreta, e ainda muito tmida, e obediente, uma das qualidades que 
mais apreciava nela.
       Olhou para ela, sentada ali  escrivaninha, e sorriu-lhe de um jeito sereno, distante. 
No era homem de demonstrar suas emoes, mas embora esperasse muito de Alexandra e 
no se mostrasse romntico, tinha profundos sentimentos por ela. Sabia que, sem ela, sua vida 
no seria mais a mesma, no apenas financeiramente, mas de modos sutis ainda mais 
importantes. Dirigia a casa muito bem, tinha elegncia e classe, e sua origem impecvel se 
revelava de inmeras maneiras. Alexandra de Borne de Morigny era uma verdadeira dama.
       - Parece estar sonhando, Alexandra. - Falou com ela suavemente, com apenas uma 
leve reprovao. Nunca erguia a voz para ela ou qualquer outra pessoa, no precisava. As 
pessoas corriam a obedecer s suas ordens com um nico olhar, como fazia Alexandra. Era 
distinto e vigoroso, com olhos escuros e cabelos grisalhos. Fora extremamente bonito e viril e 
atltico na juventude, e envelhecera de modo admirvel. Ainda tinha um corpo vigoroso e um 
belo rosto, e no aparentava os seus 59 anos, assim como Alexandra no aparentava os seus 
35 com os seus grandes e inocentes olhos azuis e o cabelo louroa-vermelhado sedoso que 
geralmente usava preso em coques elegantes. - J organizou tudo para o jantar da semana que 
vem?
       Entregou-lhe uma lista de coisas para ela voltara examinar. Alexandra tinha uma 
secretria para ajud-la com essas coisas, porm preferia faz-las pessoalmente.
       - Est tudo providenciado.
       Sorriu para ele com olhos respeitosos cheios de admirao, e ele parecia srio, como 
sempre, e um pouco distante.
       - Por favor, certifique-se disso. - Olhou para ela com uma advertncia, como se faria 
com uma criana, e ela sorriu com ele. s vezes ele a assustava, mas no com frequncia. Ela 
sabia como tinha corao bondoso, por sob as constantes exigncias de perfeio. - Vamos 
jantar no Elyse amanh  noite - ele informou.
       - Que bom. Algum motivo particular? - Sorriu para ele, sem se impressionar. 
Jantavam ali com frequncia.
       - Vo anunciar o novo ministro da Defesa. - Aquilo no pareceu fascinante, mas os 
jantares no Elyse nunca eram. Mas Henri os achava extremamente importantes. Ainda 
considerava a possibilidade de uma carreira poltica ao se aposentar do banco, o gire s daria 
dali a alguns anos.
       - Vou almoar na casa de mame amanh. Mas chegarei em casa com tempo de sobra 
para me aprontar. - Ela desviou o olhar, fitando os papis sobre a mesa, sem querer enxergar a 
reprovao nos olhos dele. Detestava isto, sempre detestara. Sempre torcera para ele aprender 
a gostar da me dela, mas desistira nos ltimos anos, e era um segredo aberto que Henri no 
aprovava Margaret.
       Quase como uma vingana, a voz dele pareceu ficar fria quando voltou a falar.
       - Vou jantar fora hoje. - No ofereceu motivo ou desculpa, nem ela lhe pediria, de 
qualquer maneira. - Suponho que vai querer jantar com as crianas.
       Ela assentiu, voltando a fitar-lhe os olhos, imaginando aonde iria. Sabia que ele 
tivera uma amante h alguns anos, e torcia para que no estivesse comeando um novo caso. 
Era algo que aceitava nele. No era incomum, na Frana.
       - Vou avisar a cozinheira. - Adorava comer com as meninas, contanto que no 
significasse problemas entre eles, e desta feita no tinha muita certeza - Jantar de negcios, 
querido?
       Tentou manter a voz despreocupada, observando-o.
       Ele fechou a cara, com reprovao. A pergunta era imprpria, e ele fez que sim com 
a cabea, enquanto as filhas irrompiam sala adentro, sem esperar encontr-lo. Houve gritinhos 
de prazer. Marie-Louise, as pernas longas e flexveis na sua curta saia azul-marinho, os olhos 
tmidos e cheios de admirao na presena de Henri, foi dar um abrao carinhoso na me, 
enquanto ele as observava. Jamais demonstrava afeio por Alexandra na frente delas. Mas 
Axelle era a me escrita, parecia uma miniatura, sentando-se toda feliz no colo da me, 
brincando com as coisas sobre a escrivaninha, e quase derrubando um vidro de tinta enquanto 
Henri se crispava na expectativa do desastre.
       - Axelle! - falou com severidade, enquanto ela o fitava, despreocupada, sem medo, os 
olhos prometendo travessuras. s vezes ele temia que puxasse  av materna, e era rgido 
com ela por causa disso. - Tome cuidado com o que faz no gabinete da sua me.
       - Estou tomando, papa. - Sorriu para ele com seus angelicais olhos azuis. Sua boca 
formava um "biquinho" natural, as bochechas ainda eram redondinhas, e ainda era 
gorduchinha como uma criana ao contrrio de Marie-Louise, que era longilnea, alta e 
elegante, e j se parecia mais com o pai. - Hoje me mandaram para fora da sala, na escola - 
anunciou Axelle com orgulho para todos na sala, e Alexandra riu. Lamentava que o pai no 
estivesse vivo para v-las, sabia que ele ficaria totalmente apaixonado por Axelle e,  claro, 
teria muito orgulho de Marie-Louise, tambm. Ambas eram lindas meninas, e Alexandra tinha 
muito orgulho delas.
       - Isso no  motivo para contar vantagem, senhorita. O que foi? Que fez? - indagou 
Henri, observando-as com orgulho oculto. Ele amava as duas, embora nunca o dissesse e 
ainda lamentasse no ter tido um filho para levar seu nome. Muitas vezes pensava que fora 
uma pena Alexandra no ter podido lhe dar um, considerando-o o nico fracasso importante 
dela. E ela sentia isto.
       - Posso mascar chiclete? - sussurrou Axelle audivelmente, e Alexandra enrubesceu. 
Era uma gulodice que, s vezes, dava s meninas quando Henri no estava por perto, porque o 
pai a proibia. Mas Axelle sempre a entregava. Marie-Louise preferia alcauz e chocolates, 
mas Axelle adorava soprar bolas imensas com grandes pedaos de goma cor-de-rosa.
       - Claro que no.
       Henri fechou a cara para as trs, lembrou a Alexandra a lista que deixara sobre a sua 
escrivaninha e foi para o seu prprio gabinete adjacente, fechando com firmeza a porta atrs 
de si. Depois, abrindo-a s uma frestinha, observou com um largo sorriso a mulher dando 
doces e chiclete de bola para as meninas. Adorava ver Axelle com a cara toda besuntada com 
aquela massa pegajosa, mas achava que no ficava bem para ele admiti-lo. Fechou a porta em 
silncio e foi para a sua escrivaninha com um suspiro, enquanto as meninas se divertiam com 
a me.
       - Papa chegou em casa cedo - observou Marie-Louise enquanto afundava 
graciosamente num fauteil Lus XV perto da escrivaninha da me, mordiscando um pedao de 
alcauz. Tinha olhos grandes, escuros, expressivos e uma elegncia natural. Ia ser uma bela 
moa dali a alguns anos, e j o era, de muitas maneiras. Mas Axelle era a mais impressionante 
das duas, e seu cabelo tinha a cor ruiva natural da me, embora Alexandra usasse uma 
rinsagem para atenuar o vermelho e o tivesse usado louro por muitos anos porque Henri assim 
o preferia. Achava o cabelo ruivo "imprprio", mesmo sendo natural, como era o caso dela. 
Mas ela o usava louro, para agradar ao marido.
       - Ele vai sair hoje - falou Alexandra com naturalidade, entregando a Axelle um outro 
pedao de chiclete e a Marie-Louise um chocolate.
       - Voc tambm?
       Os olhos de Axelle se encheram instantaneamente de lgrimas, embora se apressasse 
a tirar o chiclete da mo da me. Alexandra riu e sacudiu a cabea, em resposta.
       - No, eu no. Ele vai a um jantar de negcios hoje e vou jantar com vocs hoje.
       - Oba! - exultou Axelle, com a boca cheia de chiclete, e Marie-Louise sorriu. 
Adorava quando a me comia com elas, especialmente quando o pai saa. Elas sempre riam 
muito e ela lhes contava histrias de quando era garotinha, e das peas maravilhosas que a av 
a ajudava a pregar no pai.
       - A bab sabe que vocs esto em casa? - perguntou s meninas, mas podia ver pelas 
mos e rostinho sujo de Axelle que tinham vindo procur-la sem o conhecimento da 
governanta. A bab sempre as mandava entrar imaculadamente vestidas e impecavelmente 
arrumadas, e ela as preferia como estavam agora, um pouco mais naturais, bem descontradas 
na sua presena.
       - Acho que esquecemos de dizer  bab que chegamos em casa - confessou Marie-
Louise enquanto Axelle soprava uma bola fantstica com o chiclete cor-de-rosa e as trs riram 
juntas.
       -  melhor no deixar que ela veja isso - sorriu Alexandra, tirando Axelle do colo. - 
 melhor avisar a ela que j chegaram. - O chofer geralmente as trazia da escola no Citron, 
embora Alexandra gostasse de ir busc-las sempre que podia. - Agora tenho umas coisinhas 
para fazer.
       Queria verificar as listas de Henri para se certificar de que no tinha esquecido nada 
para o jantar na semana seguinte. J sabia quem seriam os convidados. Tinha convidado todos 
eles trs semanas antes, nos seus cartons formais, e lembretes tinham sido enviados, gravados 
e margeados em ouro, avisando aos convidados que o baro e a baronesa de Morigny os 
estavam esperando no n.o 14 Avenue Foch, para um jantar a rigor, s oito horas. Ela j sabia o 
que ia usar, as flores tinham sido encomendadas, o cardpio escolhido. Tudo estava em 
ordem, verificou ela, quando as meninas saram do quarto e ela leu a lista cuidadosamente. E 
sabia que Henri ofereceria os seus melhores vinhos nessa oportunidade. Provavelmente um 
Chteau Margaux 61, ou um Lafite-Rothschild 45. Haveria champanha Cristalle e Chteau 
d'Yquem depois e, finalmente, poire e uma variedade de outros licores. As senhoras se 
retirariam para outra sala reservada, enquanto os cavalheiros curtiriam seus charutos e 
conhaque e contariam histrias supostamente vulgares. Era um costume que pouca gente 
ainda usava, mas Henri gostava de velhos costumes. Alexandra sempre fazia as coisas do jeito 
que Henri gostava. Nunca lhe ocorreria sugerir-lhe algo diferente. Sempre fizera as coisas  
moda dele. Sempre. E  perfeio.
       Ficou sentada no seu gabinete, depois que as meninas saram, pensando no marido e 
imaginando aonde iria naquela noite, e depois pensando nas filhas. Ouviu as vozes no jardim 
e soube que estavam brincando com a bab. As aulas logo acabariam e elas iriam para Cap 
Ferrat passar o vero. Ali era bom para as crianas e Henri se reuniria a elas dentro de 
algumas semanas, aps acertar seus negcios no escritrio de Paris. Sem dvida se reuniriam 
a amigos no seu iate, e talvez fosse  Itlia ou Grcia por alguns dias, deixando as crianas 
com a bab e os outros empregados. Era uma vida dourada, a nica que Alexandra conhecera 
e, no entanto, s vezes, l uma vez ou outra, Alexandra se permitia imaginar como teria sido a 
sua vida caso tivesse se casado com um homem diferente, algum mais fcil, ou talvez mais 
moo. E ento, sentindo-se culpada por aquele pensamento, ela o afastava da cabea e sedava 
conta de como fora afortunada em casar-se com Henri.
       Quando reviu Henri aquela noite, pouco antes de ele sair, parecia bonito e 
impecvel num terno muito bem cortado, com uma camisa branca perfeitamente engomada e 
gravata azul escura, com abotoaduras de safira cintilando discretamente nos punhos, seus 
olhos brilhantes e cheios de vida. Sempre parecia cheio de energia, de alguma reserva e fora 
secretas que negavam os seus quase sessenta anos, fazendo com que parecesse muito mais 
moo.
       - Est bonito, como sempre - sorriu ela para ele. Vestira u robe de cetim cor-de-rosa 
com chinelos de salto alto da mesma cor com o cabelo preso no alto da cabea com uma 
cascata de cachos frouxos. Estava linda, mas era evidente pela expresso de seus olhos que 
era totalmente inconsciente disso.
       - Obrigado, querida. No volto tarde. - As palavras eram banais, mas a expresso de 
seus olhos parecia meiga e carinhosa. Sabia que ela o esperaria acordada, como sempre fazia, 
no seu prprio quarto, de luz acesa, e se ele quisesse poderia ir v-la. Na maioria das vezes ele 
batia de leve  porta e vinha lhe fazer uma visita antes de ir se deitar, no seu prprio quarto 
contguo ao dela. Ele preferia quartos separados. Insistira nesse ponto quando se casaram. Ela 
chorara por causa disso durante semanas, a princpio, e tentou faz-lo mudar de ideia nos 
primeiros meses, se no anos. Mas Henri foi firme. Precisava do seu prprio espao, da sua 
privacidade, e assegurava-lhe que ela tambm viria a precisar dos dela. E falava srio. Era s 
um hbito que tinha, como tantos outros. Com o tempo, ela acabara se acostumando. Tinham 
portas de ligao que davam fcil acesso aos quartos e a porta entre eles no o impedia de 
aparecer no quarto dela, de robe, tarde da noite, com uma frequncia que sempre a agradava. 
E ainda sentia desejo ao olhar para ela, como agora. Mas havia outras mulheres que tambm o 
atraam. Sempre tentava ser discreto, mas desconfiava que ocasionalmente ela sabia, nem que 
fosse apenas por instinto. As mulheres tinham uma queda incrvel para esse tipo de coisa. 
Descobrira-o na sua juventude e tinha um grande respeito por isso.
       - Divirta-se. - Ela o beijou de leve no rosto, e desceu  sala de jantar menor para 
comer com as meninas. Escutou o carro dele se afastar dali a momentos e se virou para ajudar 
Axelle a cortar a carne, tentando no pensar no que ele ia fazer.
       - Por que o papai sai sozinho? - perguntou Axelle com naturalidade, e boca cheia, e 
Marie-Louise franziu a testa, reprovadora.
       -  falta de educao perguntar - repreendeu, mas Alexandra sorriu.
       - Tudo bem. s vezes ele tem uns jantares de negcios, e prefere ir sozinho.
       - Eles so muito chatos?
       Interessava-se por tudo.
       - s vezes. - Alexandra riu. - Prefiro estar aqui com vocs duas.
       - Que bom.
       Axelle abriu um sorriso e anunciou que estava com um dente mole. Marie-Louise 
fazia uma careta de nojo para a irm mais moa. J havia passado por tudo aquilo, e a oferta 
de Axelle de mexer com o dente para todas verem a revoltou ainda mais.
       - Pare com isso! Est me deixando enjoada! - Fez uma careta e Alexandra sorriu para 
elas. Nunca se sentia mais feliz do que quando estava com as filhas. Passou algum tempo no 
quarto de Marie-Louise aquela noite e descobriu que ela tinha uma nova amiga na escola, 
depois leu histrias para Axelle, beijou as duas e rezou com elas antes de se retirar para o seu 
prprio quarto. Era estranho. s vezes Marie-Louise lhe lembrava outra pessoa, mas ela 
nunca tinha certeza de quem. Henri, talvez... , quem sabe era isso. Depois afastou o 
pensamento da cabea e tirou o penhoar. Tomou um banho quente e depois foi para a cama 
com um livro.
       Passava da meia-noite quando Henri afinal chegou em casa. Ela o escutou no seu 
quarto antes que ele viesse lhe dar boa-noite.
       - Ainda est acordada? Ela assentiu, com um sorriso. Gostava de esperar por ele. Ele 
costumava ser mais descontrado  noite, mais propenso a se abrir com ela sobre as suas 
ideias, planos ou problemas. 
       - A noite foi agradvel? - Correu tudo bem. - Os olhos dele pareciam perscrutar os 
dela, e ento falou algo que no era comum, algo que a deixou mais aliviada do que ele 
poderia imaginar. Talvez ele no tivesse uma nova amante, afinal de contas, pensou com 
imenso alvio. - Devia ter levado voc junto. Fiquei entediado sem voc. 
       No era do feitio dele fazer-lhe um elogio assim. Ela sorriu e deu uma palmadinha na 
cama para que ele se sentasse e, quando ele o fez ela se inclinou e o beijou. 
       - Obrigada, Henri. Tambm senti saudades suas... - Sua voz era meiga e o seu 
sorriso, aquele sorriso particular que sempre o excitava. - Eu me diverti com as meninas hoje. 
Marie-Louise  to Sria e to crescida, e Axelle ainda ... bem, ainda  um beb. 
       Ele sorriu. Tambm tinha orgulho delas, embora no o demonstrasse. 
       - So boas meninas. - Henri se inclinou e beijou-lhe o pescoo. - Como a mam 
delas... voc tambm  uma boa menina, minha querida. - Eram palavras meigas que ela 
adorava ouvir, e lhe fizera bem. 
       - Sou? - Sorriu maliciosamente para ele. - Que pena... 
       Ela riu e ele se deitou ao seu lado, tocando-lhe o seio com uma das mos, e beijando-
a com toda a medida do seu desejo. No tencionava fazer amor com ela aquela noite, mas ela 
estava to linda, deitada na cama com a camisola de cetim rosa... s vezes era bem difcil para 
ele dizer o quanto gostava dela. Era mais fcil mostrar-lhe aqui, na penumbra do seu boudoir. 
Ele adorava as suas horas na cama, as suas noites lado a lado at que ele ia p ante p para o 
seu quarto, de manhzinha. Gostava profundamente dela e das meninas, mas sempre era 
difcil para ele demonstr-lo. E esperava tanto dela... de si mesmo... queria que ela fosse tudo 
aquilo com que sonhara, e de certa forma tinha sido por isso que se casara com ela. Jamais 
poderia ter se casado com algum que fosse menos do que Alexandra. Mas a filha do conde 
de Borne era de uma linhagem digna da dele, sua criao a adequava perfeitamente para se 
tornar esposa dele e, nestes ltimos catorze anos, ela provara que tinha razo. Orgulhava-se de 
quem ela era e de tudo que ele lhe havia ensinado. Era perfeita sob todos os aspectos, e ele 
jamais se contentaria com algo menos que Alexandra. Ele a queria num pedestal... excepto 
por estas raras vezes... nos seus braos... na cama dela... ento ele podia permitir-lhe ser outra 
pessoa, ao menos por alguns momentos. E com um suspiro satisfeito e um ltimo olhar para 
ela depois, sorrindo feliz para ele, virou-se para o outro lado e pegou no sono, totalmente 
saciado. 
       
        Captulo 11
       O chofer guiou o Citroen pela Ponte Alexandre III at a Rive Gauche e dali a 
momentos, passando pelos Invalides, chegou  rue de Varenne. Ela sempre se sentia como se 
estivesse indo para casa. To linda quanto o hotel particulier na avenue Foch, to 
faustosamente decorada, depois de todos esses anos a manso dos pais na rue de Varenne 
ainda era como se fosse a sua casa, para Alexandra.
       O seu corao sempre parecia dar um salto feliz quando ela via a casa e o caseiro 
abria os portes para que pudessem entrar no ptio. E ento ainda havia aquele momento de 
tristeza, aquela pequena pontada, quando ela percebia que o pai jamais estaria presente de 
novo. Depois de todos esses anos, ainda sentia muito a ausncia dele. Mas a perspectiva de 
ver a me era um consolo e uma alegria, uma volta ao lar cada vez que a via.
       O velho mordomo sorria ao lado da porta da frente, escancarando-a num gesto de 
boas-vindas. E, para alm dele, Alexandra podia ver as peas de valor inestimvel que os pais 
tinham colecionado. Mveis lindamente marchetados, arcas Lus XV cobertas com mrmore 
rosado e ornamentadas com belos bronzes. Umas que haviam comprado nos leiles de 
Londres. E os Renoirs, Degas, Turners e Van Coghs e Cassats de que a me tanto gostava. Era 
uma casa cheia de coisas belas, que seriam todas suas algum dia, uma perspectiva que ela nem 
sonhava pensar, mas a nica que consolava Henri pela exasperao de ser aparentado com 
Margaret.
       - Querida, j chegou? - A voz familiar chamou, vinda do andar de cima, da sala de 
estar que dava para o jardim, de que tanto gostava. Alexandra subiu rapidamente a escadaria 
de mrmore, sentindo-se de novo como uma criana, com um sorriso feliz, ansiosa para ver a 
me. Encontrou-a sentada num sof, bordando com os culos na ponta do nariz, e um copo de 
vinho na mesa ao lado, a cadela Lavrador estendida na frente do fogo. Axelle e Marie-Louise 
adoravam a cadela, que era velha e simptica, mas Henri sempre se crispava quando, ela 
babava, lambia e beijava e soltava plo em cima de todas as pessoas que a tocavam. - 
Querida! - Margaret largou o bordado e ficou de p, com toda a sua altura, uma bonita mulher 
de cabelos louros e olhos azuis que no diferiam muito dos de Alexandra, num costume V de 
Chanel rosa-vivo com blusa azul-marinho e sapatos combinando, e brincos de rubi do 
tamanho de maanetas. - Meu Deus, quem morreu?
       Ela recuou de repente, aps beijar Alexandra. Olhou para a filha de cenho franzido e 
Alexandra abriu um sorriso. A me sempre usava roupas alegres, vistosas, de estilistas 
maravilhosos - Chanel, Givenchy, Dior e de Ribes - e quase sempre em cores vivas. Tambm 
combinavam com ela, mas Henri preferia Alexandra de preto, azul-marinho e bege e, no 
campo, de flanela cinza. Ela fora  casa da me num novo pretinho de Dior, com casaco da 
mesma cor.
       - Ora, pare com isso. Esta roupa  nova e Henri a adora. - Ao contrrio dos seus 
dilogos com o marido e as filhas, Alexandra sempre falava com a me em ingls e, embora 
falasse bem, tinha um sotaque francs pronunciado.
       - Est horrvel, voc devia queim-la. - Margaret de Borne sentou-se de novo no 
sof, fez um sinal para o mordomo servir um copo de vinho a Alexandra e retomou o seu 
bordado, enquanto sorria contente para a filha. Sempre adorava as visitas dela e as 
conversinhas particulares que tinham. Tambm gostava de sair com ela, mas isto sempre era 
um pouco mais especial. As duas saam mais do que precisavam, portanto no precisavam 
uma da outra como desculpa para frequentar os lugares da moda. Em vez disso, preferiam 
uma refeio simples de salada e queijo e frutas em bandejas na sala de estar de Margaret, que 
dava para o jardim. Ela olhou para a filha e sacudiu a caa com pesar evidente. - Gostaria que 
voc parasse de pintar o cabelo nesse tom, meu bem. Parece uma daquelas louras desbotadas 
da Califrnia. Se eu tivesse essa cor de cabelo, eu a exibiria. Ficaria ainda mais ruiva! - 
Sacudiu os culos para enfatizar as palavras, antes de coloc-los para bebericar seu vinho. 
Sempre adorava o ruivo do cabelo de Alexandra antes que ela comeasse a usar a rinsagem 
loura. Parecia um desperdcio enorme de um dos grandes dons da natureza. Ela prpria tinha 
de retocar o cabelo duas vezes por ms no Alexandre's.
       - Sabe que Henri detesta esse ruivo.  espalhafatoso demais. E acha que assim  mais 
refinado.
       - Henri... o pobre homem tem pavor de fugir um pouco ao comum. At me 
surpreende que ele no a mande usar uma peruca preta para cobrir tudo. Falando srio, 
querida, Deus lhe deu cabelos ruivos, e voc devia curti-los.
       - Para mim est bom assim.
       Sorriu serenamente e sorveu o vinho. Estava acostumada com as queixas da me 
sobre o marido. As dele eram bem piores, sobre Margaret. E, Alexandra vivia com aquilo h 
catorze anos. S lamentava que eles no gostassem um do outro, mas j desistira dessa ideia 
h muito tempo. Era bvio que no iam se apaixonar um pelo outro.
       - Voc  acomodada demais. A propsito, o que achou destes? - Sorriu satisfeita, 
apontando para os novos brincos de rubi que usava. Podia se dar ao luxo dessas 
extravagncias, em parte graas  generosidade de Pierre quando morreu, em parte graas  
sua prpria fortuna considervel. - Acabo de compr-los.
       - Foi o que imaginei. - Alexandra achou graa. A me estava sempre comprando 
belas roupas e jias fabulosas. Aquilo lhe fazia bem, ela ficava bonita com o que comprava, e 
feliz, a despeito do que Henri dizia sobre uma mulher gastar "tanto dinheiro". - So lindos, e 
lhe ficam muitssimo bem.
       - Van Cleef. - Margaret parecia satisfeita consigo mesma. - E uma grande pechincha.
       Alexandra riu gostosamente ante essas palavras, enquanto deixava de lado o copo de 
vinho.
       - Posso imaginar.
       - No, na verdade! Custaram menos de cem mil.
       - Dlares ou francos?
       - Est brincando? Dlares,  claro.
       Margaret sorriu sem o menor vestgio de culpa, enquanto Alexandra ria dela.
       - Foi o que pensei. - Alexandra sorriu. No era exactamente o tipo de pechincha que 
Henri aprovaria. E depois de mais de trinta anos na Frana, a me ainda falava mais ingls do 
que francs, e calculava tudo em dlares. - O que mais andou aprontando?
       - O de sempre. Almocei com Mimi de Saint Br ontem. - Era outra americana que se 
casara com um nobre francs e, como Margaret, era inteligente e tinha um senso de humor 
maluco. - Vamos juntas para Nova York na semana que vem. 
       - Para qu? 
       - Para fazer o cabelo e fazer umas comprinhas. H meses que no vou l, e achei que 
seria divertido, antes do vero. Depois, vou me encontrar com alguns amigos em Roma, e 
pensei em passar algumas semanas em San Remo. Ainda no resolvi.
       - Por que no passa umas semanas com a gente, depois disso?
       Alexandra parecia encantada com a ideia, mas a me fez um ar cauteloso.
       - No quero deixar o seu marido nervoso.
       - Basta no trazer para as meninas almofadas que gemem e cigarras de mo e tudo 
dar certo.
       As duas riram. Henri quase tinha desmaiado ao se sentar na sala com visitas, indo 
parar bem em cima de uma das almofadas que gemiam que Margaret e as crianas tinham 
colocado ali.
       - Lembra como foi horrvel? - Margaret no conseguia parar de rir ante a lembrana e 
havia lgrimas nos olhos de Alexandra de tanto rir. Fora horrvel para Henri, mas na verdade 
engraado, e elas tinham sido todas mandadas para o quarto mais tarde, inclusive Margaret, 
que ensinara Marie-Louise a arrumar a cama dobrando o lenol, de tal forma que o ocupante 
no pudesse esticar as pernas, o que complicara ainda mais as coisas. Ningum duvidava de 
que ela no era a hspede favorita de Henri. - Na verdade, pensei em procurar alguma 
novidade para elas em Nova York... nada to escandaloso,  claro...
       Mas os olhos dela cintilaram maliciosamente ante a ideia. Costumava comprar 
aqueles brinquedos tolos para o seu falecido marido, e ele sempre os adorava. Para ele, estar 
casado com Margaret era como ter uma outra filha. Alexandra sempre fora um pouco mais 
sria, mesmo em criana, e especialmente depois que se casou.
       - Vou avisar a Henri que voc vir.
       Margaret abriu um sorriso.
       -Espere at eu estar com vontade de aborrec-lo de verdade.
       - Mame! -Alexandra achou graa. A me tinha to poucas iluses. - Voc faz com 
que ele parea horrvel, mas ele no !
       Sempre defendia o marido, mas diante de Henri defendia a me. Era leal a ambos.
       - Ele no  horrvel, querida, a besta.
       A tarde passou voando, como sempre acontecia quando estavam juntas. s quatro e 
meia Alexandra olhou para o relgio de pulso e se espreguiou, pesarosa. Sentia-se  vontade 
na sala aconchegante, olhando para o jardim, e na companhia da me. Sempre se divertiam - 
sorriu Margaret. - S metido muito juntas. Margaret ainda era a sua amiga mais intima, e 
sempre fora.
       - Tenho de ir... embora sem vontade. - Alexandra se levantou com pesar evidente, 
enquanto Margaret a observava.
       - Por qu? Vai dar uma festa esta noite?
       - No, na semana que vem. Hoje vamos jantar no Elyse, e Henri vai ficar nervoso se 
eu no voltar para casa cedo e comear a me aprontar.
       - Voc devia fazer alguma coisa maravilhosa para surpreend-lo, tal como botar um 
vestido grudado na pele coberto de lantejoulas, e eriar todo o cabelo. Isso lhes faria bem, no 
Elyse. - Soltou uma risadinha abafada ante a ideia e Alexandra sorriu. A me provavelmente 
eria feito algo assim, e Henri estaria ligando para os seus advogados na manh seguinte. Com 
ele, sempre havia essa implicao.  s sair da linha e... Alexandra nunca o punha  prova 
naquele sentido. Amava-o demais para arriscar tudo em peas como as que a me pregava. E, 
alm disso, no era do seu feitio.
       - Voc  muito mais corajosa do que eu, mam.
       -  s porque no sou casada com o seu marido. Posso fazer exactamente o que 
quero, agora. E, antes disso, seu pai sempre me deixava aprontar o que eu quisesse. Tive 
muita sorte. - Sorriu com meiguice para a filha.
       - Papa tambm tinha sorte. E sabia disso - lembrou-lhe Alexandra. As duas se 
abraaram e desceram devagar as escadas, enquanto o mordomo esperava para abrir a porta 
com o seu sorriso clido habitual. Estava com eles desde que ela era menininha e chamava-a 
de "Madame Alexandra" enquanto a ajudava a entrar no carro e fechava a porta com firmeza. 
Acenou para a me enquanto o chofer a levava para casa no Cirtron, e sentiu a mesma tristeza 
que sempre sentia ao se apartar da me. A vida era to simples na rue de Varenne, morando 
com os pais... antes... mas isso tambm no era justo. Amava Henri e,  claro, as crianas. 
Eram a fora vital da sua existncia. Mas ver a me sempre a fazia ansiar por uma vida 
simples, e uma poca em que no precisava corresponder a tantas expectativas.
       Ainda pensava naquilo enquanto tirava o vestido e corria para o banho, e pegava um 
traje de noite preto, sbrio e sem decotes para o jantar daquela noite no Elyse Palace.
       As meninas vieram cumpriment-la na banheira, e ela ouviu Henri entrando no seu 
gabinete na hora em que se vestia. Mas ele no veio falar com ela, e no o viu at que se 
encontraram no saguo de entrada, prontos para sair. O vestido dela tinha mangas compridas e 
gola alta, e uma saia longa e estreita bordada de dourado. Era muitssimo bem-feito e fazia 
parte de uma antiga coleo de Saint Laurent. Usava-a com uma jaqueta curta de zibelina e 
um par de fabulosos brincos de brilhante que o pai lhe dera.
       - Est linda hoje. - Os olhos dele expressavam admirao, a voz era contida e os 
modos impecavelmente formais.
       - Obrigada. - Voltou-se para ele com a sua beleza loura, o cabelo preso num coque 
retorcido igual ao que Grace Kelly usara anos antes. Ficava bem em Alexandra, e Henri o 
aprovava. - Passou um bom dia?
       Os olhos dela pareciam solitrios, e ela desejou de repente que ele a beijasse, mas ele 
no o fez.
       - Muito agradvel, obrigado - respondeu ele. Havia ocasies em que pareciam dois 
estranhos, e as intimidades da vspera pareciam quase inteiramente esquecidas na formalidade 
do momento. Ele a ajudou a entrar no carro e o chofer arrancou, com os dois imersos em 
pensamentos, em mundos separados no banco de trs, e duas garotinhas de camisola espiando 
da janela do andar de cima.
       
       Captulo 12
       No dia seguinte ao encontro com Arthur Patterson, quando ele lhe dissera no saber 
como localizar suas irms, Hilary sentiu como se o mundo tivesse acabado. Tinha dezessete 
anos e sentia como se a sua vida chegasse ao fim. H anos que s vivia para encontrar Megan 
e Axie. E agora no havia esperanas. Elas estavam perdidas para sempre.
       Comeou no primeiro emprego no dia seguinte, com um vazio doloroso no peito, 
mas seu rosto estava calmo, os olhos tranquilos, e ningum adivinharia a agonia de desespero 
que sentia. A nica coisa que a impulsionava era a sua determinao de sobreviver a despeito 
de tudo, e seu dio por Arthur.
       Sentia-se como uma mquina enquanto passava pelos dias e noites, mas fazia o seu 
servio bem. Melhorou a sua datilografia, estudou estenografia num livro, e cursava a 
faculdade  noite, como prometera fazer anos atrs. Fez tudo que dissera que faria, mas o 
tempo todo no havia uma sensao de realizao, mas sim de determinao implacvel. Ia 
vencer a todo custo, mas nem ela mesmo sabia por que queria vencer. No havia ningum a 
quem gravar alguma coisa. Ningum que se importasse. Ningum para amar ou que a amasse.
       Ficou no emprego um ano, depois conseguiu um melhor. Soubera dele antes de 
qualquer outra pessoa, na agncia de empregos onde trabalhava, e foi  entrevista antes que 
qualquer outra pessoa ficasse sabendo dele. Era como recepcionista da CBA-News. Era um 
emprego fabuloso que pagava quase o dobro do atual. E tinha de ser rpida, esperta e 
eficiente, trs qualidades que possua. A mulher que a entrevistou ficou muito impressionada 
com ela. Conseguiu o emprego e ainda continuou estudando. E obteve aumentos constantes 
dali em diante. Acabou virando secretria, depois assistente de produo e, dentro de cinco 
anos, produtora. Era incrivelmente inteligente, e a essa altura j se formara na faculdade. 
Tinha 23 anos e estava embalada para seguir uma carreira de verdade. Era respeitada por seus 
superiores, temida por alguns dos subordinados (a maioria, na verdade), e parecia ter poucos 
amigos no trabalho. Mantinha-se distante e trabalhava muito, ficando depois da hora na maior 
parte do tempo e apresentando projetos merecedores dos elogios que ganhava. Era uma moa 
admirvel, e quando se tornou uma das principais produtoras do noticirio da noite, aos 25 
anos, Adam Kane, o encarregado dos noticirios da rede, convidou-a para sair para 
comemorar. Ela hesitou, depois decidiu que no seria sensato, politicamente falando, recusar 
o convite. Aceitou graciosamente e foi jantar com ele no Brussels, bebendo champanha e 
falando de negcios, discutindo a importncia da rede e at onde pretendia chegar. Ele ficou 
surpreso ao ver que tinha metas de longo alcance, especialmente porque eram mais 
ambiciosas do que os seus prprios planos para o futuro.
       - Ei, calma a... o que  isso?... reunio de equipe para o Movimento de Libertao da 
Mulher? - Ele era um homem atraente, de cabelos e meigos olhos castanhos e um jeito 
filosfico de encarar a vida. - Por que planos to grandes? - Ela era a primeira mulher que 
conhecia que admitia suas ambies para ele, e revelou a ela que achava aquilo assustador. 
Ele e a mulher tinham acabado de se divorciar porque ela achava que no queria "mais ser 
uma esposa", o que o abalara at o mago. Tinham dois filhinhos e uma casa em Darien, e 
agora, de repente, ele se viu morando sozinho no West Side, e as mulheres vinham lhe falar 
sobre "metas dentro da administrao da companhia". Riu baixinho enquanto olhava para ela. 
Era to bela, jovem e intensa e, no entanto, faltava alguma coisa. - O que aconteceu s 
mulheres que querem ter filhos e morar longe do centro? Isto est totalmente fora de moda?
       Ela sorriu para ele, consciente de que podia ter sido enftica demais, mas  que 
raramente saa com homens. Esquecia de que era preciso ser discreta, e este homem era 
simptico. Gostava de trabalhar para ele.
       - Acho que isso nada tem a ver com algumas de ns.
       No se desculpou pelo seu modo de ser. Sabia onde queria chegar e nada a deteria. 
Ainda fugia dos demnios do passado, depois de dezesseis anos, e sabia que provavelmente 
fugiria para sempre. Aceitava isto agora, embora no o explicasse para ele. No contava nada 
a ningum. Morava sozinha e ia trabalhar e, fora isso, no tinha interesse em nada. Ele o 
pressentiu e temeu por ela. Sabia o quanto mais existia na vida. Tinha 38 anos e se casara aos 
23. E agora estava descobrindo interminveis novos horizontes.
       - No quer um marido e filhos, algum dia?
       Ela sacudiu a cabea. Achava que podia ser sincera com ele.
       - Isso no  muito importante para mim. - Era mais do que isto, ela no queria 
ningum que pudesse perder... ainda mais duas menininhas... duas criancinhas que algum 
podia tirar dela... Sabia que nunca deixaria que tal lhe acontecesse. Queria ficar sozinha, e 
ficava. S doa ocasionalmente, como agora, enquanto olhava para esse homem e imaginava 
como seria ficar junto dele. Ou quem sabe era s o champanha?
       - Meus filhos so a melhor coisa na minha vida, Hilary. No se prive disso.
       Ela no podia dizer-lhe que, de certa forma, j tivera filhos. Jamais contava a 
ningum, e sabia que jamais contaria. Jamais.
       - Por que todo mundo pensa que  preciso ter filhos para se completar?
       - Hoje em dia no pensam. A maioria das mulheres pensa como voc, mas esto 
erradas. Hilary, as mulheres que no tm filhos agora vo entrar em pnico daqui a dez ou 
quinze anos, escute o que estou dizendo, vamos ver toda uma gerao de mulheres lutando 
contra a sua biologia antes que seja tarde demais. Mas agora esto tranquilas, acham que tm 
anos pela frente. Mas  um erro pr isso de lado. - Voc nunca se casou?
       Fitou-a nos olhos e gostou do que viu: coragem, honestidade, integridade e 
inteligncia. Mas tambm percebeu o medo. Ela estava fugindo de alguma coisa e ele no 
conseguia adivinhar o que a magoara. Talvez tivesse tido uma experincia ruim com algum... 
parecida com a dele com Barb. Ainda no conseguia acreditar que ela o deixara e levara os 
filhos.
       Hilary sacudiu a cabea em resposta.
       - No, nunca me casei. - E ento soltou uma risada. - Tenho s vinte e cinco anos. 
Para qu a pressa?
       - Hoje em dia no h nenhuma. S estava curioso. Eu tinha vinte e trs anos quando 
me casei, e minha mulher, vinte e um. Era um bocado importante para a gente. Mas isso faz 
quinze anos, as coisas mudaram  bea desde ento. Estamos em 1974. Ns nos casamos em 
59. - E ento sorriu para ela enquanto tomavam o resto do champanha. - O que fazia nessa 
poca? Provavelmente no passava de uma criana.
       Os olhos dela se turvaram, recordando. 1959... ela estava em Boston, com Eileen e 
Jack... ou ser que estavam em Jacksonville, quela altura?... s de pensar nisso quase se 
sentiu mal. Axie e Megan j tinham partido.
       - Ah, nada de importante. Eu morava com uma tia em Boston, nessa poca.
       Tentou fazer com que parecesse normal, quase divertido.
       - E os seus pais?
       - Morreram quando eu tinha oito... nove anos...
       - Separadamente? - Ela fez que sim, ansiosa para voltar a falar de trabalho. No 
queria falar sobre isso com ele. Com ele ou com qualquer outra pessoa. - Que terrvel. Em 
acidentes? - Ela assentiu displicentemente e terminou o seu champanha de um gole s. - Voc 
era filha nica?
       Ela o olhou nos olhos, ento, com uma dureza que ele no compreendia, fez que sim.
       - Era, sim.
       - No me parece muito divertido.
       Sentiu pena dela, e Hilary detestava isso. No queria a piedade dele ou de outra 
pessoa qualquer. Tentou sorrir para ele a fim de modificar o ambiente, mas ele a fitava com 
tanta intensidade que a deixava nervosa.
       - Talvez seja por isso que amo tanto o meu trabalho.  o meu lar.
       Aquilo lhe pareceu pattico, mas ele ficou calado.
       - Onde estudou?
       - Universidade de Nova York. - Mas no lhe contou que estudara  noite, enquanto 
trabalhava de dia.
       Ele assentiu.
       - Barb e eu estudamos em Berkeley.
       - Deve ter sido divertido.
       Sorriu e ele mudou de assunto, sem querer mais falar na ex-mulher, mas s nela.
       - Que bom que viemos jantar juntos hoje. H muito tempo que quero conversar com 
voc. Faz um trabalho danado de bom na rede.
       - E devia fazer. - Abriu um sorriso. - J estou na CBA h muito tempo. Anos.
       Seis anos de abrir caminho e empurrar at subir a produtora. Tinha o direito de sentir 
orgulho de si mesma, e sentia. Percorrera um longo caminho desde a casa para menores de 
Jacksonville, ou dos lares de adoo em que estivera, ou mesmo da sua vida com Jack e 
Eileen, em Boston.
       - Acha que vai ficar?
       - Na CBA? Por que iria para outro lugar?
       - Porque, nesse ramo, as pessoas circulam um bocado. - Fora o que acontecera com 
ele.
       Ela sacudiu a cabea, com uma expresso de determinao nos olhos que o espantou.
       - No vou a lugar algum, meu amigo. Estou de olho num gabinete beeeem l em 
cima.
       E ele sentiu que falava srio, mais srio do que falara a noite toda.
       - Por qu? - Aquele tipo de ambio o intrigava. Era bem sucedido e gostava do seu 
trabalho, mas nunca aspirara a grandes voos, e no conseguia imaginar algum desejando 
isso, especialmente uma bela jovem.
       - Porque  importante para mim. - Estava sendo sincera com ele. - Significa 
segurana. E realizao. E  algo tangvel que posso levar para casa  noite.
       Mas ele no tinha iluses.
       - At que a despeam e contratem outra pessoa. No se entregue exclusivamente ao 
trabalho, Hilary. Vai acabar sozinha algum dia, e desapontada.
       - Isso no me assusta. - Estivera sozinha a vida toda. Estava acostumada. Na verdade, 
preferia que fosse assim. Ningum podia mago-la, desapont-la ou atraio-la daquele jeito.
       Era uma garota estranha, ele pensou, e nunca conhecera algum to independente. 
Levou-a em casa no fim da noite e esperou que o convidasse a subir, mas ela apertou-lhe a 
mo com um sorriso clido e agradeceu pela noite agradvel. E ele foi para casa to excitado, 
que ligou para ela logo ao chegar. Nem se importava se ia acord-la, e duvidava que j 
estivesse dormindo.
       A voz dela estava rouca quando atendeu e ele fechou os olhos, escutando-a. Era um 
bom sujeito, e detestava morar sozinho. E ela era to linda... sabia que os filhos tambm iam 
gostar dela...
       - Al?
       - Oi, Hilary... s queria lhe dizer como a noite de hoje foi gostosa.
       Ela riu baixinho, e ele gostou do som da risada.
       - Para mim tambm. Mas no tente me distrair durante o trabalho, Sr. Kane. No 
pretendo perder o emprego por causa de ningum. Nem mesmo de voc.
       - Entendido. Quer almoar comigo essa semana?
       - Claro. Se no estiver muito cheia de trabalho.
       - Que tal amanh?
       Ela riu de novo, uma deliciosa mistura de clido e frio.
       - Por que no relaxa, Adam? J lhe disse, no vou a lugar nenhum.
       - ptimo. Ento vamos aproveitar isso. Pego voc na sua sala ao meio-dia e quinze, 
t? - Ele parecia um garotinho e ela sorria na escurido, deitada na cama, e por mais que 
detestasse admiti-lo, at para si mesma, ele mexia com ela como nenhum outro homem at 
ento. E confiava nele. Talvez no fizesse mal... s um ou dois almoos... que mal haveria 
nisso? No se permitira mais do que isso desde a sua vinda para Nova York e, estranhamente, 
nunca desejara ningum. Outras pessoas tinham namorados, casos, e coraes partidos. E 
Hilary s queria promoes, aumentos, e trabalho. Este era o seu amante, o trabalho, e at 
agora a tratara bem. - Meio-dia e quinze? - repetiu ele, diante do silncio dela.
       - Mimo. - A voz dela fluiu pela nica palavra e ele se sentiu flutuando, quando 
desligou.
       Havia uma nica rosa na mesa dela no dia seguinte. Eles almoaram no Veau d'Or e 
ela s voltou  sua sala s trs horas.
       - isto  terrvel, Adam. Nunca fao essas coisas. - Jogou o longo cabelo negro por 
sobre o ombro e enrolou as mangas da blusa. Era um dia belo e quente e ela no sentia 
vontade de voltar ao trabalho. - Voc  uma pssima influncia. Acabo de ser promovida e 
voc vai fazer com que me botem no olho da rua.
       - ptimo. Ento voc casa comigo? Podemos nos mudar para Nova Jersey e ter dez 
filhos.
       - Que deprimente. - Ela o fitou com seus glidos olhos verdes e ele sentiu algo que 
jamais sentira antes. Ela se tornou um desafio. Havia um muro  sua volta que ele teria feito 
tudo para escalar, mas ainda no tinha certeza at onde ela o permitiria chegar. Ainda estavam 
se rodeando cautelosamente, mas ele tinha muito a lhe dizer, e Hilary era uma 
companhia.inteligente. E ele a atraa como ningum antes dele. Era uma combinao 
perigosa, e s vezes a assustava, especialmente quando atrapalhava o seu trabalho. Mas, afinal 
de contas, ele era o seu chefe.
       Adam a convidou para jantar no sbado, mas ela recusou, como recusou tambm os 
dois convites seguintes para almoar, mas ele parecia to infeliz quando parou para conversar 
com ela que Hilary finalmente cedeu e concordou em sair com ele na sexta-feira  noite. 
Foram comer um hambrguer no P.J. Clarke's, depois subiram a Terceira Avenida at o novo 
apartamento dela na rua 59.
       - Por que mantm tanta distncia entre ns? - Ele parecia sinceramente infeliz. 
Estava louco por ela, e morrendo de vontade que ela o deixasse se aproximar mais.
       - No tenho certeza se  uma boa ideia. Poderia tornar as coisas muito complicadas 
no trabalho. Voc  meu chefe, Adam.
       Sorriu para ele e, embora muito atrada por ele, receava as repercusses no escritrio.
       E ento ele sorriu, pesaroso.
       - No por muito tempo mais, se  que faz alguma diferena para voc. Vou ser 
transferido para Vendas dentro de duas semanas. Soube hoje.
       - E como est se sentindo?
       Estava preocupada por ele. No era exactamente uma promoo e, no lugar dele, 
ficaria arrasada, mas ele no parecia muito perturbado enquanto dava de ombros e sorria para 
ela.
       - No  nada de especial. Posso at gostar mais do que de onde estou... excepto por 
voc,  claro. Voc vai me ver mais vezes, depois?
       As coisas certamente ficariam mais fceis para ela, mas ainda no tinha certeza se 
devia se envolver com ele. A vida era muito mais fcil vivida como celibatria.
       O celibato se tornara um meio de vida para ela, e desistir dele significava arriscar 
uma parte de si mesma.
       - Hilary? - Olhava para ela enquanto caminhavam, e tomou-lhe a mo com meiguice. 
Parecia muito jovem, sorrindo para ela, e ainda o era, de algumas maneiras. - Quero ficar com 
voc... significa muito para mim...
       - Adam, voc nem sabe quem sou... eu podia ser qualquer pessoa... La femme aux 
yeux verts... - As palavras lhe escaparam, e ela riu.
       - O que quer dizer isso?
       -  francs. - Ela recordara o seu francs na faculdade, e ficara surpresa ao descobrir 
que ainda existia, adormecido mas no morto, um presente final da me. - Quer dizer a mulher 
de olhos verdes.
       - Como aprendeu a falar francs?
       Ele queria saber tudo a seu respeito, e havia to pouco que ela lhe queria contar
       - Eu falava h muito tempo... quando era criana. Depois estudei de novo na 
faculdade.
       - Os seus pais falavam francs?
       Ela poderia ter-lhe dito, ento, poderia ter comeado a se abrir, poderia ter dito algo 
sobre Solange, mas decidiu que era melhor no o fazer.
       - No, aprendi na escola, acho.
       Ele assentiu, satisfeito com a resposta. Quando chegaram ao seu apartamento, depois 
de um momento de hesitao, ela o convidou a subir. Escutaram Roberta Flack na vitrola, 
conversaram horas enquanto tomavam uma garrafa de vinho. Ele se levantou pesaroso por 
volta de uma hora e olhou para ela com um sorriso melanclico.
       - Gostaria de passar a noite com voc, Hilary, mas tenho a impresso de que ainda 
no est pronta para isso... est? - Ela sacudiu a cabea, sem ter certeza se algum dia estaria. 
As pessoas tinham tentado se aproximar dela, mas ela no se sentira tentada, nem de longe. - 
Voc est envolvida com algum? - J h algum tempo que pretendia fazer essa pergunta, mas 
ficava protelando. Ela sacudiu a cabea em resposta, olhando para ele de modo estranho.
       - No, no estou... h muito tempo... que no estou...
       - Por algum motivo especial?
       - Por muitos. A maioria complicada demais para explicar.
       Ele se sentou no sof e olhou para ela suavemente.
       - Por que no experimenta me explicar? - Ela deu de ombros outra vez. No queria 
lhe contar pelo que passara. No era da conta de ningum. Agora levava uma vida diferente, 
em outro lugar, outro mundo. No queria arrastar essas coisas consigo, no entanto arrastava-
as, a despeito de todos os seus esforos para neg-las.
       - Desculpe, Adam... no posso...
       - Por que no? - Estendeu a mo e tomou a dela na sua. No confia em mim?
       - No  isso. - Sentiu que estava com os olhos rasos de lgrimas e se detestou por 
isso. - No quero falar sobre isso... verdade... - Ficou de p e se afastou, os ombros orgulhosos 
empertigados contra o mundo e tudo o que ele lhe fizera. E, sem saber, ela parecia 
exactamente a me.
       - Hilary... - Ele se aproximou dela por trs e a abraou. - Por que no se solta? Sei 
como voc  forte, j vi no trabalho, mas isto  diferente... isto  a gente... isto no  uma zona 
de guerra.
       A voz dela soou cansada quando falou com ele, de cabea baixa:
       - A vida  uma zona de guerra, Adam.
       - No precisa ser. - Ele era to meigo, to inocente. Ela lhe invejava a vida simples. 
A coisa mais difcil que j lhe acontecera fora a mulher decidir que queria ser livre e 
abandon-lo. Mas ele nada sabia das agonias que Hilary suportara. Nem podia comear a 
entend-las. - A vida pode ser to doce... se voc deixar...
       - No  to fcil assim. - Ela soltou um suspiro e olhou para ele. - Acho que voc no 
compreende a vida que tive e acho que eu no poderia explic-la.
       - Ento por que no recomear daqui? No  possvel fazer isso, e deixar o passado 
para trs?
       - Talvez.
       Ela no tinha certeza se podia ser feito, mas estava disposta a tentar. Ele a tomou nos 
braos e a beijou, docemente a princpio, depois com mais paixo. H semanas, meses, que 
ele a desejava, desde a primeira vez em que a vira, e agora no conseguia se conter. Despiu-a, 
tirou as prprias roupas e levou-a para a cama, onde comeou a fazer amor com ela. Contudo, 
ela jazia distante e fria, e secretamente amedrontada. Algumas das coisas que ele fazia com 
ela eram as mesmas coisas que Maida e Georgine tinham feito... e algumas das outras coisas 
lembravam-lhe os garotos que a tinham estuprado no dia seguinte  partida de Maida e 
Georgine. Era coisa demais para superar, mesmo com um homem bom como.Adam. E ele no 
demorou a perceber que ela no queria continuar. Afastou-se, ainda ardendo de desejo por ela 
e sem conseguir entender o que tinha acontecido.
       - O que foi? - A voz dele estava rouca, os olhos turvos de paixo no consumada. - 
Eu a quero tanto.
       - Desculpe... - sussurrou ela, e se deitou de lado, fitando a parede oposta, 
perguntando-se se algum dia seria normal. Talvez nunca conseguisse superar o passado. 
)estava com 25 anos, e comeava a desconfiar disso. Havia gente demais a quem odiava... 
Arthur Patterson... Jack Jones... os garotos que a estupraram... Maida e Georgine... Eileen... as 
pessoas no centro de deteno juvenil... e, na distncia, at mesmo o pai. Era um fardo grande 
demais para carregar e ainda permitir que funcionasse como mulher. - No  voc - tentou 
explicar. - S que no posso.
       - Por qu? Tem de me contar. - Ele procurava se sentar calmamente na beira da 
cama, tentando aceitar, compreender. E ela se sentou e se virou. Talvez fosse melhor choc-lo 
do que mago-lo.
       - Fui estuprada h muito tempo... - No queria dizer mais, e esperava que aquilo 
fosse o suficiente, mas claro que no era.
       - Como?... por quem?
       -  uma longa histria. - E qual delas devia lhe contar? Maida e Georgne, que foram 
as primeiras, ou os garotos que as sucederam? Ou Jack, que se esforara ao mximo para 
preced-los e depois a espancara violentamente, quando no conseguira o seu intento? Todos 
eram possveis candidatos ao papel, mas ela no podia imaginar Adam capaz de suportar a 
verdade que ela lhe dissesse.
       - Quando aconteceu?
       - Quando eu tinha treze anos... - Pelo menos isso era verdade. - Tudo acontecera 
antes de fazer catorze anos. - Ela respirou fundo. - E nunca mais houve ningum, desde ento 
- .Acho que devia ter-lhe contado.
       - Cristo! - Ele parecia profundamente abalado pelo que acabava de ouvir. - Teria 
ajudado, sem dvida. Como  que eu podia saber de uma coisa dessas?
       - No pensei que tivesse importncia.
       - Ah, verdade? Voc foi estuprada h doze anos, nunca mais teve relaes com 
ningum, e pensou mesmo que no faria diferena? Como pode fazer isso a voc, e a mim, 
pelo amor de Deus? E quanto  terapia? Fez muita, desde ento? - Imaginava que sim,  claro, 
todo mundo que conhecia fazia terapia. Ele prprio voltara ao seu psiquiatra to logo a mulher 
o abandonara.
       - No. - Ela falou muito calmamente, e se levantou para vestir um roupo de banho. 
Tinha um corpo longo e lnguido, e pernas belas e graciosas que o faziam doer de desejo, mas 
tentou se forar a no pensar em sexo.
       - O que quer dizer com "no"? Voc obteve ajuda depois do estupro, no? Sim? 
Certo?
       Ela sorriu para ele. Pois sim.
       - No. Errado. Achei que no precisava.
       - Est maluca?
       - Est bem, digamos que no estava ao meu alcance na poca.
       - Onde estava? No Plo Norte? Em que lugar no mundo moderno a terapia no est 
ao nosso alcance?
       Ah, Deus, ele no entendia nada do que fora a vida dela. Terapia? Onde? Na casa de 
Louise ou no centro?
       - J lhe disse, Adam. - Ela estava ficando irritada, mas ele se desesperava. - No 
quero discutir o assunto.  complicado demais.
       - Complicado demais ou doloroso demais?
       Ela desviou os olhos para ele no enxergar a dor que j lhe infligira.
       - Por que simplesmente no esquecemos isso?
       - Isso o qu? O relacionamento? Por qu? Voc no  mulher de desistir, Hilary.
       Agora ele estava sinceramente zangado. Ela teria feito qualquer coisa pelo seu 
emprego, Mas no por ele, ou pelo relacionamento que poderiam ter, se estivesse disposta.
       - Por que no esquecemos o problema, Adam? Ele passar, com o tempo.
       - Verdade? Quanto tempo faz? Doze anos, voc falou, e eu no diria exactamente que 
est curada. Quanto tempo quer esperar para que "passe"? Trinta anos, quem sabe? Ou que tal 
50? Voc deve estar se sentindo muito melhor, a essa altura e, Cristo!, estar apenas com 63 
anos, poder ter uma ptima vida sexual. Hilary, fale srio! - Tomou a mo dela e a fez sentar 
na cama ao lado dele, mas queria demais dela, e Hilary j sabia que no lhe poderia dar. Ele 
queria tudo: corao e alma, compromisso, casamento e filhos. Podia sentir isso nele, queria 
tudo o que a esposa tinha levado e ainda mais. E ela sabia, com toda a segurana, que no 
tinha. No sobrara nada para dar a ele. S podia aceitar, ou talvez se estender por algum 
tempo, se ningum pedisse demais, porm o resto no existia. Todo o seu amor fora dado h 
muito tempo, e todas as suas energias eram reservadas para o seu futuro na rede. - Quero que 
faa terapia.
       Ele a fitava, como que anunciando que queria que ela fizesse uma cirurgia no 
crebro, e ela no pretendia fazer o que pedia. S Deus sabia o que iriam encontrar.
       - No posso.
       - Besteira. Por que no?
       - No tenho tempo.
       - Voc est com vinte e cinco anos e tem um problema.
       - No  um com que no possa viver.
       - Voc no est vivendo, est existindo.
       Aos poucos, ela tambm estava ficando zangada. Ele no tinha o direito de ficar 
julgando o seu modo de vida, s porque no quisera fazer amor com ele.
       - Talvez melhore. - Mas ela no parecia se importar, e aquilo o deixou perturbado.
       - Por si s? - Ela fez que sim. - Duvido.
       - Me d um tempo, Adam. Esta  s a primeira vez.
       Ele ficou calado por um longo tempo, observando-a. Enxergou mais do que ela 
queria.
       - Tem muita coisa que no est me dizendo, no ?
       Ela deu um sorriso de esfinge.
       - No  assim to importante, Adam.
       - No acredito. Acho que voc vive a sua vida toda por trs dos muros de uma 
fortaleza.
       - Costumava viver... h muito tempo...
       - Por qu?
       - Porque havia muita gente disposta a me magoar.
       - E agora?
       - Eu no permito.
       Ele parecia penalizado e se inclinou para beij-la com a mo pousada de leve no seu 
ombro, os dois sentados na beira da cama desfeita, onde a sua paixo fora to malsucedida.
       - No vou mago-la, Hil... juro... - Havia lgrimas nos olhos dele e ela desejou poder 
sentir alguma coisa por ele, mas no podia. No podia sentir nada por ningum, e agora sabia 
disso, excepto se talvez ele despertasse nela alguma paixo desconhecida, mas tambm no 
podia imaginar isso. - Eu te amo...
       Ela no tinha resposta para essas palavras e apenas olhava-o com tristeza. E ento ele 
sorriu e a beijou de novo. Ele compreendia, e aquilo a emocionava.
       - Tudo bem... no precisa dizer nada... apenas deixe que eu a ame... - Ele a deitou nos 
travesseiros e esculpiu suavemente o seu corpo com um dedo, levando-o para perto do seu 
centro, e depois afastando-o, rodeando os seios e descendo pela barriga, e subindo de novo, 
tocando-a com a lngua, o corao e os dedos, nada mais, e depois de horas desse exerccio, 
ela se contorcia e implorava algo mais, porm ele no o fez. Em vez disso, deixou que ela o 
sentisse, e tocou-a de leve com o seu membro latejante. Percorreu-lhe o corpo com ele, como 
uma mo de cetim, e ela se inclinou e comeou a beij-lo, e a toc-lo suavemente at que ele 
tambm se contorcia como ela, e ento, com os lbios e depois com os dedos, ele a tocou e 
sentiu que ficava assustada e rgida. - Est tudo bem, Hil... tudo bem... no vou machucar 
voc... eu... por favor, meu bem... me deixe, por favor... por favor... Ah, Deus, voc  to 
linda... - Falava com ela como a me com um beb, e lentamente a penetrou e a tranquilizou 
at gozar, mas sabia que ela no havia acompanhado, mas, pelo menos, j era um pouco 
melhor. - Sinto muito, Hil...
       Queria mais para ela, queria tudo o que ele prprio sentia, mas era pedir demais.
       - No sinta. Foi lindo. - Ela ficou deitada ao lado dele e Adam acabou dormindo. Ela 
o observava, imaginando se algum dia sentiria por ele o que ele desejava, se seria capaz de 
senti-lo por algum, ou se seu corpo estava cheio demais de dio.
       Ele foi embora na manh seguinte, antes de Hilary se vestir para ir trabalhar, e a 
convidou para almoar, mas ela alegou estar muito ocupada. Quis se encontrar com ela  
noite, mas Hilary tinha uma reunio. Desesperado, pediu que ela sasse com ele e os filhos, no 
domingo. Ela pareceu estranhamente hesitante ante o convite, como se prestes a dizer no, 
mas Adam parecia to magoado que acabou concordando.
       - So uns garotos ptimos, voc vai adorar.
       - Estou certa que sim.
       Ela sorriu, mas estava com receio. H anos que evitava crianas e no ansiava 
conhecer as dele, ou se apegar a elas. H muito tempo que se fartara de crianas. As duas 
nicas que amara lhe tinham sido tiradas.
       Marcaram o encontro no Central Park e, no domingo de manh, ela vestiu jeans e 
uma camiseta e foi se encontrar com ele. Adam prometera trazer as bolas de beisebol, a cesta 
de piquenique e as crianas. E quando ela os enxergou debaixo de uma rvore, o menorzinho 
no colo e o de seis anos sentado ao seu lado, sentiu algo se agitar no seu corao, que estava 
to entorpecido que ela quase no conseguiu suportar. Parou de chofre e teve vontade de sair 
correndo, mas no podia fazer isso com ele. Mas,  medida que se aproximava, a coisa s 
piorava. O que viu nos olhos dele foi o tipo de amor que tivera por Megan e Axie.
       No aguentou at  hora do almoo. Ficou vendo os trs arremessando bolas de 
beisebol por meia hora, depois alegou que estava com uma tremenda dor de cabea. Saiu 
correndo do parque em lgrimas e voltou ao seu apartamento sem parar para um sinal, carro 
ou pessoa.
       Ela ficou na cama o dia todo, soluando; depois forou-se a aceitar novamente que 
Megan e Alexandra tinham sado da sua vida para sempre. Precisava forar-se a entender isso. 
No fazia sentido continuar apegando-se s irms. Ningum sabia onde estavam, de qualquer 
maneira, e teria sido praticamente impossvel encontr-las. No fazia sentido torturar-se 
agora. E elas no eram mais crianas, eram mulheres. Alexandra estaria com 22 anos a essa 
altura, e Megan com 18. Mas no adiantava pensar mais nelas. No eram mais crianas 
perdidas e ela jamais voltaria a v-las. Mas tambm no queria ver outras crianas. No 
suportava.
       E quando o telefone comeou a tocar naquela noite, ela o tirou do gancho e assim o 
deixou. No dia seguinte, agiu como se nada tivesse acontecido. Foi agradvel, formal, amvel 
e distante, e Adam nem soube direito o que acontecera. Como previsto, ele foi transferido 
para Vendas na semana seguinte e nunca mais saiu com Hilary. Ela providenciou para que 
nunca mais se encontrassem casualmente. E nunca atendia aos telefonemas dele. Foi como se 
nada daquilo tivesse acontecido. E o que ela no sabia era que ele sentia pena dela. Mas, 
finalmente, se deu conta de que no a podia ajudar.
       Nos anos que se seguiram, Hilary se concentrou ainda mais na sua carreira. Tinha 
sido alada a uma posio mais elevada ainda na produo. Estava com 27 anos e evitava 
cuidadosamente todo tipo de ligao desde o seu caso com Adam. Ocupava-se demais 
subindo na vida e no queria qualquer outra coisa a perturb-la, e todos os homens que 
conhecia pareciam ser divorciados e ter filhos. At que conheceu William Brock, o novo 
noticiarista da CBA. Alto, louro e bonito, fora um importante astro de futebol americano e 
tinha sido contratado recentemente pela rede. Divorciado duas vezes, no tinha filhos, nem 
vontade de t-los. Saa com todo mundo que podia na estao, at que ficou conhecendo 
Hilary, e seus olhos verdes glidos o fascinaram. Tratou-a com cautela e respeito, e 
enviou-lhe desde flores a um casaco de pele.
       - Que gracinha, Bill. - Ela o largou na mesa dele, com caixa e tudo, enquanto se 
dirigia para a sua prpria sala.
       - No  o seu tamanho, querida?
       - No  o meu estilo, Sr. Brock, de todas as maneiras possveis. - Ela no era dada a 
romances no escritrio, ou em qualquer outro lugar, diga-se de passagem, e virar mais uma 
marca no cinto de Bill Brock era a ltima coisa que desejava. Ele a convidou para passar uma 
semana em Honolulu, um fim de semana na Jamaica, para esquiar em Vermont, jantar no 
Cte Basque e qualquer outra coisa em que pudesse pensar. Mas no teve a menor chance, at 
que numa noite em que nevava, quando ela no conseguia pegar um txi para ir embora, ele 
lhe deu uma carona na sua Ferrari. Comeou a se dirigir para o centro e Hilary deu-lhe uma 
palmadinha no ombro.
       - Foi uma boa tentativa, Bill. Moro na rua 59.
       - Moro na Quinta Avenida com a 11.
       - Parabns. Agora me leve para casa, ou ser que tenho que saltar e ir a p?
       Ela no estava brincando e ele freou o carro, mas antes que ela pudesse dizer alguma 
coisa, beijou-a.
       - A sua casa ou a minha, Madame Produtora, ou ser que devemos fazer uma 
maluquice e ir ao Plaza? - Ela riu do seu humor chocante e exigiu que a levasse para casa, 
porm no ficou mais surpresa quando ele parou para comer hambrguer num dos seus locais 
prediletos, e ela se surpreendeu ao ver como ele era inteligente por baixo do verniz de playboy 
e do corpo msculo e superdesenvolvido. - E voc, linda senhorita? O que a motiva, por trs 
desses olhos verdes que parecem esmeraldas?
       - A ambio. - Era a primeira pessoa com quem era assim to franca, mas imaginou 
que ele seria capaz de compreender.
       - Eu tambm j provei isso. E vicia com facilidade.
       - Eu sei. - Mas era s o que tinha para impulsion-la... chegar ao topo para que nada 
pudesse afet-la. S se sentiria segura quando chegasse l. Mas isso ela no lhe explicou. - 
No h nada parecido, no ? Voc lamentou ter largado o futebol, Bill?
       - Mais ou menos.  um jogo e tanto, mas me cansei de me chutarem os joelhos e 
quebrarem o nariz. A gente no aguenta esse tipo de abuso para sempre. - Sorriu para ela 
daquele jeito que derretia os coraes da maioria das mulheres, pagou a conta e 
acompanhou-a de volta  Ferrari. Deixou-a em casa sem discutir, e ela quase o lamentou, 
enquanto entrava no apartamento. Tinha esperado um pouco mais do que isso, pelo menos 
uma tentativa. J estava de camisola, dali a meia hora, quando tocou a campainha.
       - Quem ? - perguntou pelo interfone.
       - Bill. Esqueci de lhe perguntar uma coisa sobre o programa de amanh,
       Ela franziu o cenho, depois achou graa. Ele parecia sincero, mas era provavelmente 
um truque. Decidiu deix-lo parado na neve enquanto falava com ela.
       - O que ?
       - O qu?
       - Eu falei o que .
       - No consigo ouvir. - Ele comeou a apertar o interfone freneticamente e ela tentou 
gritar mais alto, mas por fim desistiu e o deixou entrar. Se fosse um truque, ela o poria no seu 
lugar, e bem rapidinho. Estava esperando na porta quando ele subiu, o rosto vermelho, 
sorridente, e coberto com a neve que ainda caa. - Tem alguma coisa errada com o seu 
interfone. - Ele estava sem flego e devastadoramente bonito.
       - No diga! Que gentileza sua aparecer. Nunca ouviu falar em telefone, Sr. Brock?
       - No, minha senhora, no ouvi. - Sem mais delongas ele a tomou nos braos como 
se fosse uma boneca de pano, entrou no apartamento e fechou a porta com um chute. Ela ria 
dele enquanto Bill agia. Era uma cena to incongruente e havia nele algo de infantil e 
maravilhoso, mas no to maravilhoso que ela fosse querer se envolver com ele, no importa 
o quanto fosse bonito e atraente. - Onde fica o seu quarto, Senhorita Walker? - Ele era toda 
inocncia enquanto ela ria dele. Parecia um garotinho lhe pregando uma pea. Mas tambm 
era extremamente sensual.
       - Ali. Por qu?
       - Vai ver num minuto.
       Depositou-a sobre a cama, entrou no banheiro enquanto ela o fitava e saiu dali a 
cinco segundos, nu em plo. Ela ficou to aturdida que apenas o fitou. Era o homem mais 
abusado que j conhecera, mas tambm o mais atraente. E, sem perda de tempo, comeou a 
fazer amor com ela. Apesar da sua resistncia inicial, a percia de Bill derreteu qualquer 
reserva que tivesse, e logo estava gemendo, querendo-o, e dentro em pouco ele a atendeu. 
Ficou sem flego nos braos dela, e depois rolou para o lado e sorriu enquanto ela fitava-o, 
espantada. Tivera sensaes que sequer soubera que existiam, e antes que pudesse dizer 
alguma coisa, ele recomeou a fazer amor com ela. Hilary pensou que enlouqueceria enquanto 
ele fazia amor com ela sem parar, at de manh. Era uma experincia que ela nunca tivera 
antes e tinha certeza de que jamais voltaria a ter, mas convenceu-a de que nem tudo dentro 
dela estava inteiramente morto, e quem sabe algum dia o homem certo podia aparecer e 
encontr-lo. Porm, nesse meio tempo, Bill Brock fizera algo com ela que jamais esqueceria. 
E, quando foi embora na manh seguinte, ela ficou olhando pela janela, melanclica, 
enquanto ele se afastava na sua Ferrari vermelha.
       Ela soube ento que se lembraria de Bill pelo resto da vida, mas no esperava nada 
mais dele. Ele no estava procurando um relacionamento, ou uma namorada, ou uma amante 
ou uma esposa, ou at mesmo uma amizade. A vida para ele era um fluxo constante de moas 
bonitas, e fazer amor era para ele algo como comer, dormir e beber. Pouco se importava com 
quem o fazia, ou com que frequncia, ou se o fazia de novo com a mesma pessoa. S queria 
poder fazer quando, onde e com quem desejasse.
       Quando enviou a Hilary no dia seguinte um enorme ramo de rosas e uma pulseira de 
brilhantes de Harry Winston, ela devolveu a pulseira com um sorriso e Bill no pareceu ficar 
surpreso. Mas tambm no a convidou para sair de novo. Tinha outras coisas em que pensar, e 
ela era apenas uma num universo de mulheres bonitas. Hilary ficou desapontada, mas no 
surpresa. A nica surpresa que teve foi quando visitou o mdico dali a dois meses. Estava 
gripada h semanas, e em vez de melhorar, piorava. E sentia-se completamente exausta. S 
queria dormir, pensar em comida lhe dava nuseas, nem conseguia suportar o cheiro do caf 
quando chegava ao escritrio, de manh. Ento, depois de seis semanas, ligou para o mdico e 
marcou uma consulta. Ele sugeriu uma srie de exames de sangue, um exame fsico completo 
e, depois dos exames de sangue, estava pensando em lhe dar antibiticos.
       - Pode ser algum tipo de vrus estomacal, Senhorita Walker. Esteve em algum lugar 
extico recentemente?
       Ela sacudiu a cabea, deprimida por estar se sentindo to mal. Sentia como se tivesse 
duzentos anos de idade e s o que desejava era deitar a cabea e dormir o dia todo. Era 
deprimente se sentir to mal. Porm, dali a dois dias, ficou sabendo a razo. Os resultados dos 
exames chegaram e o mdico no sugeriu antibiticos. Estava grvida. Ele fizera um teste de 
rotina de gravidez e um de sfilis, tambm. Quando soube a notcia, achou que teria preferido 
ter a ltima do que a primeira. Largou o telefone em estado de choque, correndo os olhos pelo 
seu escritrio. Sabia exactamente de quem era. Era o nico homem com quem tinha dormido 
em dois anos, e ela no tomara nenhuma precauo, e nem ele. Aquilo nunca lhe ocorrera, ela 
nem tinha o que usar. Ele era o segundo homem com quem dormira na sua vida adulta, desde 
as tragdias da sua juventude. E agora estava grvida.
       S havia uma soluo para o problema. E ela ligou para o mdico dali a uma hora e 
marcou a consulta. Saiu do escritrio na hora do almoo em estado de choque, e foi para casa 
pensar sobre a situao em que se encontrava. Devia contar a ele? No devia? Ele acharia 
graa? Acharia que era exclusivamente problema dela? E quanto ao aborto? Era errado? Era 
pecado? Uma parte dela queria livrar-se disso instantaneamente, e outra parte se lembrava de 
Axie quando beb, e da pequena Megan... aquele cheiro doce de talco e do cabelo sedoso 
aninhado nos seus braos  noite. Lembrou-se dos barulhinhos que fazia antes de pegar no 
sono e, de repente, Hilary achou que no poderia faz-lo. J tinha perdido duas crianas que 
amara, como poderia matar esta? Talvez esta fosse o meio de Deus recompens-la pelo que 
sofrera, de acertar as coisas de novo, de devolver-lhe um dos bebs que perdera, de preencher 
os anos vazios  sua frente com algo mais do que trabalho... e o beb seria lindo com um pai 
como Bill Brock, e ele no precisava saber... podia ser todo dela... s dela... e de repente, com 
cada parcela do seu ser, teve vontade de proteg-lo.
       Compreendeu de repente por que as suas saias estavam ficando apertadas, muito 
embora estivesse perdendo peso. A sua cintura estava crescendo, e ela sentiu uma pequena 
salincia no estmago. O mdico lhe dissera que estava grvida de oito semanas. Oito 
semanas... dois meses... e dentro dela havia um bebezinho. No podia se permitir mat-lo. No 
entanto era preciso. Que espcie de carreira poderia ter com um beb para atrapalhar, quem a 
ajudaria? Mas aquele cheiro... e o doce grito... ainda se lembrava da primeira vez em que vira 
Axie... Mas e se algum tambm tirasse este beb dela, como tinham tirado Axie e Megan, e 
se Bill Brock descobrisse e quisesse o seu filho? Durante o restante da semana Hilary ficou 
dilacerada pelo pnico crescente. No tinha com quem falar, para onde se voltar. Ficava s 
com a sua culpa, confuso e pnico. Queria desesperadamente ficar com o beb, mas no 
conseguia imaginar como poderia e, o que era mais importante, estava apavorada de perd-lo 
algum dia, de que algum, de alguma forma, viesse tir-lo dela, e ela nunca mais queria amar 
algum tanto assim. Esse medo foi o factor de deciso. Era demais para se pedir dela. Do 
resto podia dar conta, mas no do medo terrvel da perda, sabia muito bem a agonia que 
aquilo lhe causaria. No podia correr aquele risco outra vez, quer com seus prprios filhos, 
quer com os de outra pessoa. Sacrificaria esta criana em memria de Megan e Axie. Nunca 
mais haveria crianas na sua vida e seu corao. E quando entrou no consultrio do mdico 
naquela sexta  tarde, pensou que ia desmaiar ao cruzar o vo da porta.
       Deu o nome  enfermeira e assinou um formulrio com mos trmulas. A seguir 
ficou sentada na sala de espera por uma hora. Tirara a tarde de folga no escritrio e passara 
acordada a noite anterior. Uma parte dela lhe gritava para salvar a vida do beb. Mas a voz do 
passado era importante demais para ela. Abafava todo o resto e lembrava-lhe da dor terrvel 
da perda de Megan e Alexandra. Ficava pensando no dia em que foram afastadas dela, da 
agonia insuportvel... Mas a agonia de arrancar esta criana de dentro de si no era menor.
       Quando a enfermeira a levou pelo corredor at um quarto pequeno, ela sentiu os 
joelhos amolecerem. Recebeu ordens de tirar a roupa, vestir uma camisola e chinelos de papel 
e se apresentar  enfermeira do outro lado do corredor.
       - Obrigada - sussurrou Hilary quase inaudivelmente, desejando que algum a 
detivesse antes que fosse tarde demais. Mas no havia ningum para faz-lo.
       A enfermeira do outro lado do corredor olhou para ela como se tivesse cometido um 
delito federal e entregou-lhe uma prancheta com mais formulrios para assinar. S de olhar 
para eles, Hilary se sentiu mal e desabou num banco estreito de madeira.
       - Voc est bem? - a mulher perguntou, desinteressada.
       - Estou um pouco tonta.
       Ela assentiu, despreocupada, e mandou que se deitasse na mesa.
       - O mdico dever chegar daqui a alguns minutos.
       Uma hora e meia mais tarde, porm, Hilary ainda estava esperando. Comeara a 
tremer da cabea aos ps mais de uma hora antes, e por fim vomitara de puro nervosismo. 
No comia nada desde de manh. A enfermeira com a prancheta finalmente voltou, olhou 
para ela, cheirou o ar e Hilary corou.
       - Desculpe, eu... no me sinto bem.
       - Provavelmente vai acontecer de novo depois - disse ela, com naturalidade. - Ele no 
demora. Tivemos um probleminha num outro quarto.
       Hilary s podia pensar no beb ainda vivo dentro dela. Quanto mais demorassem 
mais ele viveria, e logo teriam que mat-lo. Sentiu o desespero sufoc-la, mas no havia sada, 
ela no se podia permitir amar este beb, no podia passar por tudo outra vez. Uma parte dela 
tentava dizer-lhe que isso era diferente, mas o resto sabia que no era. Amara Megan e 
Alexandra como se fossem suas filhas... e as perdera. E algum dia algum tambm lhe tomaria 
este beb. No podia deixar que isso acontecesse. Tinha que impedilo agora... antes que a 
destrusse.
       - Pronta, mocinha?
       O mdico invadiu o quarto como um furaco, vestido para a cirurgia, com um gorro 
verde cobrindo o cabelo e uma pequena mscara pendendo do pescoo. Ela quase podia sentir 
o sangue pingando dele do seu ltimo aborto.
       - Eu... estou... - A voz dela era um grasnido que mal se ouvia, e ela sentia como se 
fosse vomitar de novo ou comear a chorar. - Vai me dar alguma coisa para me fazer dormir?
       No lhe tinham dito nada a respeito.
       - No vai precisar de nada disso. Tudo estar terminado dentro de alguns minutos.
       Quantos? Quanto tempo vai demorar? O que iam fazer com o seu beb?
       Ela estava deitada na mesa e a enfermeira colocou os seus ps nos suportes. Eram 
mais largos que de costume, e a enfermeira os amarrou. Hilary no podia mex-los e sentiu 
uma sbita onda de pnico.
       - Por que est fazendo isso?
       -  para voc no se machucar.
       J ia amarrar tambm as mos de Hilary, mas ela suplicou que no o fizesse.
       - Prometo que no vou tocar em nada... juro... por favor...
       Era como uma tortura medieval e a enfermeira se virou para o mdico e ele assentiu 
enquanto colocava uma mscara nova.
       - Relaxe. No vai demorar muito, e ento voc estar livre disso.
       Livre disso... tentou achar conforto nas palavras, mas no achou. Disse a si mesma 
que estava fazendo a coisa certa, mas tudo dentro de si gritava que estava matando um beb. 
Eles apenas tinham levado Megan e Axie embora, ningum as matara. Era errado, era um 
pecado, era terrvel... ela queria... sentiu a picada da anestesia local e teve vontade de chorar e 
de pedir  enfermeira que lhe segurasse a mo, mas ela parecia desinteressada. E de repente 
Hilary ouviu uma mquina terrvel, parecia que ia derrubar as paredes. Era o aparelho de 
suco.
       - O que  isso?
       Deu um salto e ficou meio sentada, sem conseguir mexer as pernas, e ainda sentia 
uma dor aguda onde tinham enfiado a agulha no colo do tero.
       -  o que parece ser. Um aparelho de suco. Agora deite-se. Estaremos prontos num 
minuto. Conte at dez. - Ela sentiu uma dor incrvel quando uma coisa pontuda e metlica 
abriu caminho por dentro dela. Nenhuma tortura imaginada por Maida e Georgine se igualava 
a isso... nem mesmo os garotos com seus corpos rijos apertados contra o dela... isto era 
terrvel, era insuportvel, era... Ela soltou um grito e a pea de metal dentro dela parecia estar 
fazendo-a em pedaos. Estava forando o seu tero a se abrir, dilatando-o para poderem 
retirar o beb. - Voc est mais adiantada do que imaginvamos, Senhorita Walter. Vamos ter 
de abrir um pouco mais. - A anestesia local parecia no ter feito nada por ela e a dor era 
cruciante enquanto as pernas tremiam violentamente. O mdico soltou um resmungo de 
satisfao.
       - Pronto.
       Ele falou qualquer coisa para a enfermeira enquanto Hilary se vomitava toda, mas a 
enfermeira estava ocupada demais auxiliando o mdico para reparar ou ajud-la. E ento, de 
repente, Hilary soube que esta era a coisa errada... no podia faz-la... tinha que ficar com o 
beb, e levantou a cabea outra vez, tentando no vomitar para poder dizer a ele.
       - No, por favor... no... por favor... Pare!
       Mas ele falou tranquilizadoramente com ela. Era tarde demais para parar agora. 
Tinham de terminar o que haviam comeado.
       - Est quase acabado, Hilary. S mais um pouquinho.
       - No, por favor... no aguento... no quero... o beb... - Estava se sentindo tonta de 
novo, e o seu corpo todo tremia convulsivamente.
       - Haver muitos outros bebs na sua vida... voc  jovem, e algum dia ser o beb 
certo. - Ele soltou outro resmungo sinistro, que, ela sabia agora, significava que ia lhe infligir 
mais dor. De repente, introduziu o aparelho de suco. Ela sentia como se cada parcela do seu 
corpo estivesse sendo sugada por aquela mquina e vomitou de novo enquanto a mquina 
continuava interminavelmente, e afinal fez-se o silncio.
       - Agora vamos fazer uma pequena raspagem - explicou ele, e ela viu o quarto girar 
enquanto o sentia raspar o que sobrara, mas o beb j estava morto... ela perdera as outras 
crianas e agora matara esta. S conseguia pensar nisso enquanto jazia ali, querendo morrer 
como o seu filho. Agora era uma assassina, como o pai. O pai matara a mulher, e agora ela 
matara o prprio filho.
       - Pronto. - Escutou a voz que aprendera a detestar, e eles retiraram todos os seus 
instrumentos e a deixaram deitada ali, ainda tremendo e amarrada  mesa. Podia sentir algo 
quente e molhado escorrendo de dentro de si e soube que estava sangrando profusamente, mas 
no ligava mais para o que fizessem com ela. No se importava de morrer. Na verdade, torcia 
para que isso acontecesse. - Descanse um pouquinho, Hilary. - Olhou para o rosto dela, deu 
uma palmadinha no seu ombro e deixou o quarto batendo a porta, enquanto ela jazia amarrada 
 mesa, soluando numa poa do prprio vmito.
       Eles voltaram dali a uma hora, entregaram-lhe um pano mido e uma folha com 
instrues. Ela devia ligar para eles se o sangramento parecesse forte demais; tirando isso, 
devia permanecer de cama por 24 horas e ficaria boa. Pronto. Tudo terminado. Ela cambaleou 
porta afora logo que se vestiu, ainda tremendo violentamente e chamou um txi e deu o 
endereo. E ficou chocada ao perceber que j eram seis horas. Estivera no consultrio por 
quase seis horas.
       - O que  que h, moa, est doente? - perguntou o chofer. Ela parecia terrvel 
mesmo aos olhos dele, mesmo na escurido. Estava com olheiras, o rosto esverdeado, e tremia 
tanto que mal conseguia falar. E apenas assentiu, em resposta:
       - ... estou... gripada... - Batia os dentes e ele assentiu.
       - Todo mundo est. - Abriu um sorriso para ela, provavelmente era bonita quando 
no estava doente. -  s no me beijar.
       Ela tentou sorrir para ele, mas no pde. Sentia como se jamais fosse sorrir de novo, 
para ningum. Como poderia? Como poderia fitar-se nos olhos de novo? Matara um beb.
       Meteu-se na cama quando chegou em casa, sem sequer se despir, e dormiu at as 
quatro horas no sbado de manh. Acordou com clicas, mas quando foi verificar, nada 
parecia fora de ordem. Sobrevivera. Fizera aquilo. E sabia que nunca o esqueceria.
       Na segunda-feira foi trabalhar, plida e abatida, e fez o seu trabalho. Voltou para 
casa com uma pilha de papis. Ia se atolar no trabalho, ia fazer qualquer coisa para se 
entorpecer, e fez. Trabalhou feito mquina pelos seis meses seguintes, e por mais um ano 
depois disso. Tornou-se a menina-prodgio da rede CBA. Tornou-se o tipo de mulher que as 
pessoas admiravam e todos temiam, o tipo de pessoa com quem ningum queria se parecer.
       - Apavorante, no ? - disse uma das secretrias no dia em que Hilary fez trinta anos. 
- Ela vive e respira exclusivamente essa rede, e Deus a ajude se a contrariar. Pelo menos,  o 
que dizem. Pessoalmente, ela me mete medo.
       A outra moa concordou e elas foram para o banheiro discutir os dois novos 
funcionrios da casa. Mas Hilary tambm era imune a isso. No parecia se interessar por 
ningum, s pelo trabalho, pela carreira e pela rede.
       Aos 32 anos se tornou vice-presidente, e dois anos mais tarde recebeu outra 
promoo. Aos 36 anos era a mulher de posio mais elevada na administrao e aos 38 era a 
nmero trs de toda a rede, e no havia dvidas para ningum que algum dia iria dirigi-la. E 
provavelmente mais cedo do que se esperava. The New York Times publicou um grande 
artigo sobre ela pouco depois, discutindo a sua poltica de trabalho e seus planos, e The Wall 
Street Journal publicou outro artigo logo a seguir. Hilary Walker chegara l.
       
       Captulo 13
       O ar da Park Avenue parecia esmag-lo quando deixou o consultrio do seu mdico, 
duas horas depois. No estava surpreso. J estava esperando e, no entanto... Secretamente, 
Arthur Partterson esperava algo diferente. Mas a dor era muito grande. Os comprimidos mal 
ajudavam, neste ltimo ms e, no entanto ele tentara se iludir que era outra coisa. Parou para 
recobrar o flego quando chegou  esquina. Eram quatro e meia e estava totalmente exausto 
enquanto a dor lhe rasgava o peito de novo, e ele tossia pateticamente. Um transeunte parou 
para olhar, perguntando-se se devia ajudar, mas Arthur recobrou o flego e entrou no carro, 
mal falando com o motorista.
       Ainda estava pensando nas palavras do mdico e da sua previso nefasta. No tinha o 
direito de pedir mais, racionalmente falando. Tinha quase 72 anos, e tivera uma vida cheia... 
mais ou menos. Casara-se uma vez - Marjorie morrera trs anos antes e ele fora ao seu 
enterro, surpreso ao descobrir que ela voltara a se casar, com um deputado aposentado. Ele se 
perguntara, parado ali na penumbra de St. James, se ela se sentira satisfeita com a sua vida, se 
fora verdadeiramente feliz.
       E agora ele tambm ia morrer. Era estranho que aquilo no o assustasse mais. S 
tinha pena. Tinha to pouco para deixar ao mundo, uma clientela que ficara bem menor nos 
ltimos anos, embora ele ainda fosse ao escritrio todos os dias, ou quando se sentia 
suficientemente bem. Ficou imaginando se os scios sentiriam sua falta quando morresse. 
Ningum mais repararia na sua ausncia, excepto possivelmente a sua secretria, que passaria 
simplesmente a trabalhar para um dos outros advogados.
       O porteiro ajudou-o a sair do txi e ele tomou o elevador, conversando fiado, como 
sempre fazia, com o ascensorista de servio. Discutiram o calor prematuro e os resultados do 
beisebol, e ele entrou no seu apartamento com um suspiro de exausto. Era to estranho 
pensar nisso agora. Logo tudo deixaria de existir... e ento, quando entrou na sala de visitas, 
comeou a chorar. Sem motivo aparente, pensara em Solange... Solange com os seus cabelos 
ruivos e olhos de esmeralda. Amara-a tanto, h tanto tempo. Perguntou-se se a veria agora, 
quando morresse, se havia uma vida alm da morte... um cu e um inferno, como aprendera 
em criana. Fechou os olhos e desabou pesadamente numa cadeira. Solange... sussurrou o 
nome dela enquanto as lgrimas lhe rolavam pelas faces, e quando reabriu os olhos sentiu um 
sbito desespero. Desapontara-a to desesperadamente, e Sam... as filhas que tinham amado 
tanto foram lanadas aos ventos e desapareceram totalmente. Ele deixara que desaparecessem. 
Fora tudo culpa sua. Poderia t-las acolhido, se tivesse tido coragem. Mas agora era muito 
tarde. Tarde demais. Solange morrera h mais de trinta anos... e Sam. E, no entanto, ele sabia 
sem dvida alguma o que tinha de fazer agora. Tinha de fazer uma ltima coisa. Precisava 
encontr-las.
       Ficou sentado na mesma cadeira at que o quarto escureceu, recordando o passado, 
at as trincheiras perto de Cassino, o seu ferimento e aquela vez em que Sam o salvara... e a 
libertao de Paris e a primeira vez em que a vira. No havia como voltar atrs. Nem como 
modificar o que acontecera. E talvez no fizesse diferena alguma agora. Mas ele sabia que, 
antes de morrer, precisava encontr-las, explicar a elas... reuni-las de novo, pela ltima vez, e 
com a agonia esmagadora da lembrana, recordou aquele dia em Charlestown em que fora 
buscar Megan e Alexandra, e Hilary suplicara to penosamente que no as levasse.
       Passou a maior parte da noite acordado na cama, pensando nas garotinhas, 
imaginando como as encontraria, ou se poderiam ser encontradas a tempo. Havia s uma 
coisa que poderia deixar para elas. O resto era s aes e aplices. Mas talvez a casa em 
Connecticut pudesse significar algo para elas. Ele a comprara h alguns anos, como casa de 
vero, mas raramente a usava. Era uma casa vitoriana antiga, grande, espaosa, e ele gostava 
de ir para l, porm conservara-a mais como uma casa para os seus anos crepusculares. E 
agora o crepsculo estava chegando. No haveria tempo para a aposentadoria, para a 
jardinagem, para longas caminhadas  beira-mar. Para ele, estava tudo acabado. O mdico 
dissera que era tarde demais para operar. Os raios X contavam a sua prpria histria. O cncer 
se espalhara, e ele estava doente demais para suportar qualquer tratamento de choque. Era 
difcil calcular quanto tempo tinha. Trs meses, talvez seis, ou menos, se a doena se 
espalhasse muito depressa.
       Levantou-se  meia-noite para tomar uma plula para dormir, mas j era dia quando 
pegou no sono, um sono inquieto, cheio dos soluos de Hilary enquanto ele guiava o carro 
para longe dela, agarrado a alguma coisa, ele no tinha certeza do qu, e ento, de repente, o 
rosto de Hilary se transformou no de sua me, e era Solange chorando nos braos dele, 
perguntando-lhe por que a matara.
       
       Captulo 14
       Arthur Patterson saiu do escritrio ao meio-dia do dia seguinte, exausto pela noite 
insone, mas determinado a ir ao escritrio. Conversara com um dos seus scios s onze horas 
e obtivera o nome de um homem considerado o melhor no ramo. No explicou por que 
precisava dele, e o scio no fez perguntas.
       Arthur deu o telefonema pessoalmente, e ficou surpreso por John Chapman estar 
disposto a receb-lo naquele mesmo dia, quando explicou que era urgente. Mas Chapman 
sabia quem ele era, e era raro o scio mais antigo de uma importante firma de advocacia 
telefonar pessoalmente, e com um desespero to evidente. Disse que o receberia logo depois 
do meio-dia, embora tivesse apenas uma hora  disposio. 
       E Arthur lhe agradeceu profusamente e saiu s pressas do escritrio, dando uma 
palmadinha no bolso para se certificar de que estava levando os seus comprimidos. No podia 
se dar ao luxo de andar sem eles.
       - O senhor vai voltar depois do almoo, Sr. Patterson? - indagou a secretria quando 
passou por ela, tossindo, como agora era o seu hbito.
       - Acho que no - disse numa voz que mal se ouvia, e ela sacudiu a cabea quando ele 
entrou no elevador. Estava com uma aparncia terrvel e velho demais para vir trabalhar todos 
os dias. Desejou que algum o forasse a se aposentar.
       Era uma viagem curta de txi do escritrio de Arthur ao de Chapman, e ele ficou 
impressionado ao ver como Chapman estava bem instalado nas suas salas da rua 57, perto da 
Quinta Avenida. Era um prdio menor do que aqueles em que funcionava Brokaw, Miller e 
Patterson, mas era respeitvel e bem-tratado, e Chapman ocupava a maior parte de um andar, 
com uma placa discreta na porta que dizia apenas JOHN CHAPMAN. Uma recepcionista 
anotou o nome dele, e havia outras pessoas que pareciam esperar pelos scios de Chapman. A 
maioria das pessoas na sala de espera parecia ser formada de advogados.
       - O Sr. Chapman o receber agora - disse a jovem, fazendo-o entrar na outra sala. 
Chapman tinha seu escritrio bem acima da rua 57, com carpetes espessos e antiguidades 
inglesas e, como o escritrio de Arthur, estava cheio de livros de direito. Era reconfortante 
estar num ambiente que lhe parecia to familiar. A princpio receara que o lugar para onde 
estava sendo mandado fosse meio vulgar, e foi um alivio ver que no o era.
       A porta se abriu para revelar um homem louro e bem-apessoado de palet de tweed e 
calas cinzentas, com olhos cinzentos vivazes e o ar de quem cursara Princeton ou Harvard. 
Na verdade, cursara os dois. Estudara primeiro em Princeton e cursara a faculdade de direito 
em Harvard.
       - Sr. Patterson? - Ele rodeou a mesa com naturalidade e veio apertar a mo de Arthur, 
espantado ao ver como parecia frgil em contacto com a sua. Ele jogara futebol na faculdade 
e, embora sendo alto, Arthur ficava pequeno em comparao com o jovem advogado que era 
trinta anos mais moo do que ele. - Sente-se, por favor. - Apontou para uma cadeira com um 
sorriso simptico, e sentou-se na cadeira ao lado de Arthur.
       - Sou-lhe muito agradecido... - Arthur tossiu, tentando recobrar o flego -... por me 
receber assim to em cima da hora.  um assunto de urgncia e importncia, e infelizmente 
eu... no tenho muito tempo. - Ele estava falando literalmente, enquanto tossia de novo, mas 
John Chapman sups que estivesse se referindo a um prazo a vencer numa ao judicial.
       - Fiquei impressionado ao saber que estava cuidando do caso pessoalmente, senhor.
       - Obrigado.
       Era muito incomum que o scio mais antigo da firma contactasse pessoalmente um 
servio de investigaes, no importa o quanto este fosse ilustre, e o de John Chapman era um 
dos mais famosos do pas. Funcionava mais como uma firma de advocacia do que apenas um 
escritrio de investigaes, e a formao universitria dele fazia com que fosse extremamente 
til. Ele pegou um bloco e uma caneta enquanto Arthur tossia de novo, e se preparou para 
tomar notas sobre o que Arthur desejava.
       - Quer me explicar agora, Sr. Patterson, para eu poder ter uma ideia de como posso 
ajud-lo? - Ele era discreto e profissional e tinha a dico precisa das classes superiores e, no 
entanto parecia estranhamente despretensioso, quase despreocupado, e Patterson se sentiu 
curioso a seu respeito. Por que no fora trabalhar na firma do pai? O pai era chefe da firma de 
advocacia mais importante de Boston, e dois dos seus irmos eram advogados de destaque em 
Nova York. E, no entanto, ele optara por essa carreira pouco ortodoxa. Era curioso, mas 
Arthur no tinha tempo para pensar naquilo agora. Tinha que poupar as foras para lhe dizer o 
que queria.
       -  um assunto... pessoal. - Ele resfolegou e depois tomou um gole da gua que 
Chapman lhe servira enquanto esperava. - Do mximo sigilo e importncia. No deve discutir 
isso com ningum.
       Os olhos de Arthur faiscaram, mas isso no impressionou Chapman.
       - No discuto os meus casos com ningum, Sr. Patterson. Ponto final. 
       - Tambm gostaria que cuidasse disso pessoalmente, se possvel. Um dos meus 
scios me disse que  o melhor no seu ramo. Quero contratar esse talento, e o de mais 
ningum.
       Chapman franziu os lbios, querendo escutar o resto, sem assumir nenhum 
compromisso com Arthur.
       - Isso vai depender do que o caso envolve. Eu tento me envolver em todos os nossos 
casos, at o mximo que posso.
       - Quero que faa isso pessoalmente. E no temos muito tempo. - Tossiu e tomou 
mais um gole d'gua. - Estou morrendo.
       Chapman observou-o atentamente, curioso agora. O velho tremia de expectativa e 
agarrava uma pasta que retirara da maleta. Talvez fosse um velho caso sem soluo que 
estava determinado a resolver antes de morrer. As pessoas faziam coisas estranhas quando 
estavam morrendo.
       - O mdico acha que posso ter trs meses, talvez seis, talvez menos. Acho que trs 
meses  o mais provvel. Quero encontrar trs moas. - Chapman pareceu surpreso. Era um 
pedido estranho da parte de um velho, a no ser que fossem suas filhas. - Eram as filhas de 
amigos ntimos meus, e os meus amigos mais ntimos. Os pais morreram h trinta anos, e duas 
delas foram adotadas logo depois, a terceira ficou com os tios. Tinham respectivamente um, 
cinco e nove anos quando perdi contacto com elas, e no tenho a menor ideia de onde esto 
agora. Sei quem adotou as duas mais moas, e sei que a mais velha acabou em Jacksonville, 
Flrida, e depois veio para Nova York, h 21 anos, mas  s o que sei. Nesta pasta esto todas 
as informaes que tenho, inclusive recortes sobre os pais delas. O pai era um actor de 
renome da Broadway.
       - Os pais morreram simultaneamente, num acidente?
       Era apenas curiosidade da parte dele. At agora era uma histria interessante.
       - No. - Arthur inspirou penosamente e continuou: - Ele matou a me delas, ningum 
soube ao certo por qu, excepto que discutiram e ele pareceu enlouquecer. Eu o defendi em 
1958. - O rosto de Arthur ficou um pouco mais cinzento enquanto Chapman o observava, 
surpreso por ele ter aceitado um caso criminal. Ali havia mais do que ele estava contando. - 
Ele foi condenado e se matou na sua cela na noite da condenao. Eu tentei achar um lugar 
para as meninas ficarem juntas. - Parecia prestes a desabar, enquanto John Chapman o 
observava, sentindo pena dele. Era obviamente doloroso para ele se lembrar disso, e pior 
ainda ter que discuti-lo com um estranho. Qualquer advogado teria se sentido responsvel... 
mas no responsvel bastante para sair em busca das crianas trinta anos mais tarde. Ou ser 
que se sentia culpado? - Mas ningum quis ficar com as trs. Tive que coloc-las em lares 
separados e deixar a menina mais velha com os tios. - No contou que pensara em ficar, ele 
mesmo, com as meninas, mas que no o fizera porque a sua esposa no permitira. - Tambm 
tenho um recorte recente sobre uma moa na CBA - prosseguiu ele -,com o mesmo nome da 
menina mais velha. Acho que existe uma possibilidade de vir a ser ela, mas podia ser apenas 
coincidncia. Inclu o recorte, e acho que voc deve investigar. - Chapman assentiu. Arthur 
lembrou-se de quando encontrou o artigo no The Times, semanas atrs, e de como rezou para 
que fosse a Hilary Walker certa. Sua mo tremera ao segurar o artigo que recortara e fitara a 
foto. Ela no se parecia com ningum que ele conhecia, mas isso no precisava significar 
nada. As fotos de jornal costumavam ser assim. -  s, Chapman. Quero que encontre essas 
trs moas. - Moas para ele, pensou Chapman consigo mesmo. Calculou rapidamente e se 
deu conta de que deviam estar com 38, 34 e 30 anos de idade. No ia ser fcil encontr-las. E 
Arthur confirmou: - Os pais adotivos das duas mais moas se mudaram h anos, e no sei para 
onde foram... s espero que possa ach-las.
       - Eu tambm. - Chapman segurou a pasta e pareceu sombrio ao indagar de Arthur: - 
E quando achar?
       - Primeiro, quero que as localize e que depois venha me procurar avisando que as 
encontrou. Depois quero que explique a elas quem so, quem eu sou, que sou um velho amigo 
da famlia e que quero promover a reunio delas com as irms. Gostaria que ela ocorresse na 
minha casa em Connecticut, se possvel. Infelizmente no posso mais viajar... elas tero que 
vir para c.
       - E se recusarem? - Era possvel. Qualquer coisa era possvel. Chapman j tinha visto 
de tudo nos dezessete anos em que exercia essa actividade.
       - No pode deixar que isso acontea.
       - Elas podem nem se lembrar de que tm irms, duas delas, pelo menos, e pode ser 
um choque e uma perturbao muito grande para elas. - Ficou imaginando se havia uma 
herana considervel ligada ao caso, mas no queria forar Arthur a falar.
       - Devo a elas reuni-las novamente. Foi culpa minha a sua separao... que no 
consegui arrumar uma casa para as trs juntas. Quero saber que esto bem, que no precisam 
de nada... devo isso pelo menos aos seus pais.
       John ficou tentado a dizer-lhe que agora era um pouco tarde, mas no quis ser 
desrespeitoso. Aos 38, 34 e 30 anos, no podia importar muito para elas por que tinham sido 
separadas, se  que se lembravam de ter irms. Mas no cabia a ele questionar a sabedoria dos 
desejos finais de Arthur Patterson. Arthur fitava-o com um desespero quieto.
       - Voc o far? - Era um sussurro que mal se ouvia.
       - Vou tentar.
       - Mas o far pessoalmente?
       - Na maior parte, se for possvel. Quero ler a pasta primeiro, antes de me 
comprometer. Posso ter agentes j operando no campo, nas reas que nos interessam e que 
podero fazer o servio com mais rapidez e melhor do que eu poderia. - Arthur assentiu. 
Aquilo fazia sentido para ele. - Vou ler a pasta o mais rapidamente que puder, e ligarei para o 
senhor depois de avaliar a situao.
       Arthur foi penosamente sincero com ele:
       - No h muita coisa a, Chapman. No muito mais do que eu j lhe disse.
       - Tudo bem. Posso enxergar alguma coisa que tenha passado despercebida. - Olhou 
discretamente para o relgio que podia ver por sobre o ombro esquerdo de Arthur. Era quase 
uma e quinze, e ele detestava fazer Sasha esperar. - Ligarei para o senhor dentro de um ou 
dois dias.
       Ficou de p e Arthur o acompanhou, trpego. 
       - Sou-lhe profundamente agradecido, Chapman.
       - Tudo bem, Sr. Patterson. Espero que no fique desapontado. - Arthur assentiu, 
pensativo, no querendo levar em conta essa possibilidade. Chapman tinha de encontr-las. - 
Devo avis-lo, tambm por que este poder ser um projeto dispendioso.
       Arthur ergueu os olhos para ele com um sorriso sem vida.
       - No tenho mais com que gastar dinheiro agora, no ?
       Chapman sorriu para ele. Era uma pergunta difcil de responder, Ele acompanhou 
Arthur gentilmente at a ante-sala, apertou-lhe a mo, agradeceu-lhe por ter vindo e depois 
voltou rapidamente para o escritrio para trancar a pasta fina no cofre e correr porta afora. 
Sasha ia mat-lo.
       
       Captulo 15
       John Chapman saiu voando do prdio do seu escritrio na rua 57 e correu as duas 
longas quadras para oeste, olhando o relgio e enxergando o seu reflexo nas vitrines das lojas. 
Tiffany... I. Miller... Henri Bendel... parecia levar horas para chegar l, e ele sabia como ela 
detestava quando ele se atrasava, mas no podia enxotar Arthur Patterson para fora do 
escritrio, afinal de contas. O homem era velhssimo e estava morrendo, e o caso despertara a 
curiosidade de Chapman. Mas tambm sabia que Sasha no compreenderia.
       Tinha 28 anos, vigor da cabea aos ps, e cada parcela da sua pessoa era disciplinada 
at a perfeio. Usava o cabelo louro to repuxado para trs que parecia pintado na cabea, 
seus olhos verdes tinham um toque eslavo, e os lbios viviam num "biquinho" constante que o 
seduzira desde a primeira vez em que a vira. Tinham se conhecido na casa de um amigo 
comum, um f de bal que tecera os maiores elogios ao seu talento, contando como fora 
extraordinria em criana, e como o era ainda mais como adulta. Filha de refugiados russos, 
estudara durante anos no Ballet Russe de Monte Carlo e depois fora para Juilliard em 
mocinha, onde j era uma estrela no comeo da adolescncia. Aos vinte anos fora convidada 
para ingressar no American Ballet Theatre. E, aos 28, no era a primeira bailarina, mas uma 
excelente danarina com uma slida carreira da qual podia se orgulhar. Regalava-se com os 
cimes de sua trupe e aborrecia-se por no ser uma prima bailarina. Mas na verdade era 
pequena demais para ser mais do que um membro do corpo de danarinas. Tinha o consolo de 
ser muito boa, e dizia isso a John todas as vezes que podia, quando no estava se queixando 
dos ps ou do facto de ele estar atrasado para o encontro. Mas embora no fosse uma pessoa 
de fcil convivncia, h meses que John Chapman a achava encantadora - a sua disciplina, a 
sua rotina intensa, o seu talento junto com o rostinho mido, os ps que pareciam se mover 
sobre asas de borboleta quando danava, os imensos olhos verdes -, havia algo de muito 
especial nela.
       - Voc est meia hora atrasado. - Ela olhou para ele com cara feia enquanto tomava 
uma xcara de borche, quando ele chegou, sem flego,  mesa dela no Russian Tea Room. A 
atmosfera era precisamente a mesma h cinquenta anos, e os dois adoravam blinis e o caviar. 
Alm disso, ficava perto do local de ensaios dela, e eles se encontravam ali uma meia dzia de 
vezes por semana, para almoar ou depois dos ensaios, ou mesmo depois das apresentaes, 
tarde da noite, para comer alguma coisa antes de irem para o apartamento dele. Ela morava 
com quatro outras danarinas e era impossvel conversar, que dir fazer amor, no apartamento 
sem elevador do West Side que estava sempre sujo e cheio de correntes de ar. Porm os olhos 
dela se erguiam para ele reprovadoramente quando pediu desculpas e se sentou. - J estava 
pensando em ir embora.
       Ela parecia uma criancinha irada e ele se deu conta, como sempre o fazia, de quanto 
a amava.
       - Ainda bem que no foi.
       Ele tocou-lhe na mo com meiguice e sorriu para o garom conhecido. Era um velho 
russo que batia papo com Sasha na sua lngua materna. Ela nascera em Paris, mas ainda falava 
russo com os pais.
       - Eu estava com fome. - Seus olhos fitavam os dele, penetrante e impiedosamente. - 
Foi s por isso que esperei.
       - Desculpe. Tive um caso importante. O chefe de uma grande firma de advocacia 
precisava de ajuda. No podia enxot-lo porta afora. - Sorriu apaziguador para ela, 
imaginando quanto tempo levaria para voltar s suas boas graas. Geralmente no era muito... 
a raiva explodia violentamente, mas em geral diminua com bastante rapidez. - Desculpe, 
querida.
       Tocou-lhe a mo novamente, e ela pareceu apenas ligeiramente abrandada pela 
contrio dele.
       - Tive uma manh muito difcil. - Parecia petulante, e mais mal humorada do que 
nunca.
       - Algum problema? - Sabia como ela se preocupava com os ps, as pernas e os 
braos... no era fcil ser danarina. Uma distenso, um ligamento rompido, e a sua vida 
podia se modificar para sempre.
       - Estavam tentando apresentar um novo coregrafo, e ele  impossvel. Faz com que 
Balanchine parea preguioso, em comparao. O homem  maluco. No se pode danar do 
jeito que ele pede.
       - Voc pode. - Chapman sorriu para ela com orgulho. Considerava-a uma danarina 
notvel. Desta vez, ela sorriu para ele. Estava quase perdoado.
       - Estou tentando. Mas acho que ele est tentando nos matar. - Ela soltou um suspiro e 
terminou o seu borche. No queria comer muito antes dos ensaios da tarde, mas ainda estava 
com fome. Ele pedira blinis e ela se sentiu tentada, mas era pesado demais para ela quando 
estava danando. - Talvez eu coma uma salada.
       Disse ao garom em russo o que queria, e ele assentiu e desapareceu enquanto ela 
contava a John as suas aflies matinais. No lhe perguntou nada sobre o seu caso. Nunca 
perguntava. S o que lhe interessava era a sua dana.
       - Vai ensaiar hoje  noite? - perguntou ele, com os olhos cheios de compreenso. Era 
um homem bondoso, e no se importava que a vida deles girasse em torno do trabalho dela. 
Estava acostumado. A sua ex-mulher era escritora, e ele se sentara pacientemente por sete 
anos enquanto ela produzia mistrios que acabaram se tornando grandes bestsellers. Ele a 
respeitara como mulher e como amiga, mas o casamento no fora l grande coisa. Tudo vinha 
em segundo plano ao trabalho dela, at mesmo o marido. Ela era uma mulher difcil. O mundo 
inteiro tinha que parar de chofre quando comeava um livro, e esperava que John a protegesse 
de qualquer interrupo possvel. E ele se sara bem, at que a solido da sua vida com ela o 
dominara. Os nicos amigos eram os seus personagens, cada enredo que escrevia se tornava 
real para ela, e nem mesmo falava com ele quando estava trabalhando. Trabalhava das oito da 
manh  meia-noite todos os dias, e depois caa na cama, muda de exausto. De manh 
recomeava tudo, mas no falava com ele durante o caf porque j estava pensando no livro. 
Estar casado com Eloise fora uma coisa muito solitria. Ela escrevia sob o nome de Eloise 
Vharton. E quando no estava trabalhando num livro, estava sofrendo de depresso por no 
estar trabalhando, ou estava viajando por vrias cidades em 45 dias, em turns publicitrias 
para o seu ltimo trabalho. Antes de pedir o divrcio, ele calculou que eles se falavam, em 
mdia, umas trinta horas por ano, o que era bem menos do que se necessitava para um 
casamento feliz. Eles se amavam, porm ela amava mais o seu trabalho. E ele nem teve 
certeza se ela compreendeu direito quando a deixou. Estava entretida com um livro e dera 
apenas a mais vaga das respostas quando ele se despediu e fechou a porta atrs de si. Foi um 
alvio, e ele descobriu que se sentia menos solitrio sozinho do que com ela. Podia ouvir 
discos, cantar quando tinha vontade, receber amigos que podiam fazer o barulho que 
quisessem. Ele saa com outras mulheres. A vida era boa. E a nica coisa que lamentava era 
que no tinham tido filhos. H cinco anos que ele e Eloise estavam divorciados e s agora 
estava pensando em se casar de novo. Na verdade, pensava muito nisso, ultimamente. 
       Sacha tinha assentido em resposta  pergunta dele sobre o ensaio.
       - Vamos ensaiar at s onze. - Ainda falava ingls como algum que o aprendera 
como estrangeira e, no entanto no tinha sotaque claramente perceptvel.
       - Posso ir peg-la? - Os olhos dele se encheram de esperar e disse a si mesmo que 
no estava repetindo o mesmo padro. No estava conduzindo a sua vida inteiramente de 
acordo com Sacha. Alm disso, ela tinha muito mais vida do que Eloise. Era to vital e 
excitante. Eloise vivia num quarto escuro com uma lmpada ardendo sobre a cabea, 
atormentada por pessoas imaginrias. E no tinha mudado nos ltimos cinco anos. Tivera 
apenas mais sucesso. Era uma das escritoras de mistrio mais bem-sucedidas do pas. A nova 
Agatha Christie. The New York Times a aclamara, e Publishers Wee concordara. Eloise tinha 
41 anos de idade e vivia num mundo de fantasia. No era como Sasha... de jeito algum.
       - Obrigada. Estarei na sada dos artistas s onze e dez. - E ele sabia que estava 
falando srio. Tinha a preciso de um cirurgio. - No se atrase. - Ela franziu a testa e abanou 
um dedo gracioso.
       Ele sorriu e tocou-lhe o joelho por baixo da mesa.
       - No vou. No vou trabalhar hoje  noite. - S o que ele queria era ler a pasta que 
Arthur Patterson lhe deixara, e aquilo no levar mais do que uma hora, possivelmente at 
menos. Na verdade era isso que ele temia, que no houvesse nada de real substncia. - S vou 
dar uma olhada nas pastas deste novo caso.
       - No fique interessado demais.
       Ela franziu a testa. Ele j fizera isso antes, e chegara atrasado uma hora, depois de 
uma apresentao. No ia tolerar isso dele, ou de qualquer outra pessoa, para falar a verdade. 
No precisava. Como salientava para ele regularmente, era uma artista de verdade.
       - Quer que eu a leve de volta? - Parecia esperanoso, como um colegial ansioso para 
agrad-la. Era um jeito que ele tinha que agradara a todas as mulheres com quem estivera 
envolvido, at mesmo Sasha, embora no o admitisse para ele. Nunca lhe dizia o quanto o 
amava, o quanto apreciava a sua companhia. No ficava bem para ela dizer essas coisas, e ele 
no precisava sab-las.
       - Vou me encontrar com alguns colegas em cinco minutos, John. Na esquina. Vejo 
voc logo mais? - Ela se ps de p, miudinha e muito ereta, as costas como um bloco de 
mrmore lindamente esculpido, e uma sobrancelha erguida sobre os olhos verde-oliva. - Na 
hora, sim?
       - Voc  uma tirana. - Ele se levantou para beij-la e ficou olhando enquanto se 
afastava, tomando o seu ch. Depois pagou a conta. Havia nela algo que sempre o deixava 
enervado e excitado. Como se quisesse mais, como se nunca obtivesse o bastante, como se ela 
jamais permitisse que ele a possusse. Era como se ela danasse e se afastasse dele cada vez 
que estendia a mo para ela, mas, de certa forma, gostava daquilo. Gostava de correr atrs 
dela. Gostava de tudo nela. Era to mais cheia de vida que Eloise e que as inmeras 
advogadas e executivas com que sara nos cinco anos desde que se divorciara. Sacha era 
inteiramente diferente.
       Voltou para o escritrio, desta vez mais devagar, pensando primeiro em Sacha, 
depois em Arthur Patterson e nas trs mulheres que ele queria que encontrasse. Era uma 
histria estranha, e no podia deixar de se perguntar se Arthur estava escondendo alguma 
coisa. Faltava uma pea para o quebra-cabea, talvez vrias. Por que queria que elas 
voltassem? Que importncia tinha se se encontrassem agora? Eram mulheres adultas, tinham 
levado vidas separadas, o que poderiam ter em comum? E por que Arthur Patterson se sentia 
to culpado? O que fizera? Ou deixara de fazer? E quem eram os pais daquelas mulheres? A 
cabea de John fervilhava de perguntas enquanto caminhava. Era bom no seu servio porque 
tinha uma queda invulgar para enxergar os pedaos que estavam faltando e para encontr-los, 
como a proverbial agulha no palheiro. Ele encontrara mais do que alguns, e fora crucial em 
diversos casos importantes. O seu trabalho mais impressionante fora feito no campo do direito 
criminal, e ele era respeitado por advogados e tribunais do pas todo. Arthur Patterson viera ao 
lugar certo. Porm John Chapman se perguntava se poderia encontrar as mulheres 
desaparecidas.
       Ele levou a pasta consigo naquela noite e examinou o pouco que ali havia. Era 
pattico ver o quo pouco havia, contudo. Arthur tinha razo. Ali no havia muito para 
ajud-lo. Apenas o que ele dissera no escritrio. Havia todos os recortes do julgamento, que 
John leu em primeiro lugar, intrigado pelos elementos ocultos da histria. Por que Sam 
Walker realmente matara a mulher? Fora premeditado, como alguns pensavam, ou um crime 
passional? O que a mulher lhe fizera, e quem ela era? De uma certa forma, no precisava 
saber dessas coisas, no entanto as perguntas despertaram a sua curiosidade. Leu crticas de 
vrias peas de Walker e lembrava-se de t-lo visto, certa vez, quando era menino. S o que 
se lembrava era que fora uma atuao impressionante e que ele era muito bonito. Mais do que 
isso, no se lembrava.
        Havia um bilhete curto na caligrafia trmula de Arthur explicando que ele e Sam 
Walker tinham sido amigos no Exrcito. Havia uma lista dos lugares em que tinham estado e 
uma descrio do primeiro encontro deles com Solange, que era surpreendentemente lrica 
para um homem da idade dele ,que escrevera apenas documentos legais e citaes a vida toda. 
E John se perguntou se ali no estavam algumas das respostas. Talvez Arthur estivesse 
apaixonado por ela. Ou talvez no tivesse importncia. Os factos ainda eram os mesmos. Sam 
tinha matado Solange, fosse por que motivo fosse, deixando as trs meninas rfs.
        Amais velha fora para a casa de parentes num endereo em Charlestown, 
Massachusetts, uns tais de Eileen e Jack Jones, e Arthur sabia que dali fora para Jacksonville, 
porque ela lhe contara quando o procurara no seu escritrio em 1966, atrs dos endereos das 
irms, Arthur mencionava num ps-escrito que ela fora menos do que cordial. Dizia tambm 
que ela mencionara ter estado no centro de deteno juvenil em Jacksonville, e John se 
perguntava se tinha infringido alguma lei quando adolescente. Se assim fosse, talvez tivesse 
reincidido, e ele talvez pudesse encontrar alguma ficha criminal dela. Pelo menos isso faria 
com que ela fosse mais fcil de achar, especialmente se estivesse cumprindo pena em alguma 
priso. Pelo menos poderia dizer a Patterson que a achara.
        A segunda fora entregue a um dos scios de Arthur, que veio a morrer, e a viva 
estava, sabe l Deus onde, casada outra vez sabe l Deus com quem. Este era um projeto e 
tanto. Ele teria que comear com os arquivos sobre Gorham na firma, e rezar para que 
tivessem tido de entrar em contacto com ela por algum motivo nos ltimos anos. quem sabe 
um fundo ou outro detalhe qualquer do esplio que Arthur ignorava, j que no era um dos 
fideicomissrios. E depois havia o beb.
        A criana mais jovem tambm tinha virtualmente desaparecido mas no sem um 
aviso prvio. Arthur lhe contara que David Abrams insistira para que Patterson no 
mantivesse contacto com a criana, pois queriam que ela tivesse uma nova vida, totalmente 
divorciada do seu passado, e queriam se certificar de que assim fosse. John at se pegou 
imaginando se esse no fora parte do motivo deles para mudarem para a Califrnia, para 
comearem vida nova, onde ningum sequer sabia que a criana era adotada.
       E depois disso, nada mais havia. Somente um recorte no fundo da pasta, aquele que 
Arthur mencionara, mas, a despeito da semelhana do nome, como Arthur, John achava que 
era uma tentativa com pouca possibilidade de xito. Era o artigo do The New York Times 
sobre a promoo de uma tal Hilary Walker na rede CBA, e era altamente improvvel que 
fosse a mesma moa. At mesmo Arthur no a reconheceu, era fcil e gostoso demais 
encontr-la assim to  mo, e ainda por cima bem-sucedida. John estava no ramo de achar 
pessoas h tempo suficiente para reconhecer uma esperana falsa quando a via.  claro que 
investigaria a possibilidade, mas tinha certeza de que seria uma outra Hilary Walker.
       E era s isso. No havia nada mais. Recostou-se na cadeira e pensou nas trs. Como 
encontr-las, por onde comear. As engrenagens j estavam funcionando. E ento, com um 
sobressalto, olhou para o relgio.
       - Puta que pariu... - resmungou. Passava das dez e meia. Pegou o palet que estava 
nas costas da cadeira e desceu os trs lances de escada do seu prdio. Morava no ltimo andar 
de uma bela casa na rua 69 Leste. E teve sorte bastante para encontrar um txi quase 
imediatamente, mas com o trnsito lento por causa da sada dos teatros, mal chegou  porta 
dos artistas a tempo de encontrar Sasha.
       Ela apareceu exactamente s onze e dez, como ele sabia que apareceria, com ar 
cansado, usando jeans e tnis e carregando a sacola com o material de dana.
       - Como foi?
       Sempre havia a tenso de algum que realizou uma grande cirurgia, que no diferia 
muito das lutas de Eloise com os desfechos difceis do enredo. Mas isso parecia ser mais 
emocionante.
       - Foi horrvel.
       Ele sabia que no devia acreditar nela, e envolveu-a com um brao protector 
enquanto tirava a sacola de suas mos.
       - Voc espera demais de si mesma, pequenina.
       Ela era to miudinha que ele sempre se sentia protector com relao a ela e, de 
qualquer forma, ele era esse tipo de pessoa.
       - No, foi terrvel. Meus ps estavam me matando. Vai chover hoje  noite. Eu 
sempre sei.
       John aprendera que os ps dos bailarinos eram uma fonte constante de agonia, e um 
tpico constante de conversao.
       - Eu os massageio para voc quando chegarmos em casa - prometeu ele enquanto 
entravam num txi e voltavam para a rua 69 Leste. 
       O apartamento estava sereno e quieto quando eles chegaram. S havia dois outros 
inquilinos no prdio, um deles um mdico que nunca parecia presente. Era mais moo do que 
John, e quando no estava de planto, ajudando os bebs a virem  luz no New York Hospital 
parecia ficar na casa de mulheres diversas. O outro inquilino era uma mulher que trabalhava 
para a IBM e que viajava de oito a dez meses por ano. Portanto, a maior parte do tempo ele 
ocupava sozinho o prdio. Tinha uma vista do jardinzinho l fora e dos jardins maiores das 
outras casas da rua 68.
        - Quer beber alguma coisa? - perguntou ele, metendo a cabea pela porta da sua 
cozinha bem-organizada. 
       - S um pouco de ch, obrigada. - Ela se sentou no sof com um suspiro e esticou os 
braos, as costas e as pernas. Jamais preparava alguma coisa na pequena cozinha dele. Nunca 
lhe passou pela cabea fazer essas coisas para ele ou para si mesma. John sempre as fazia por 
ela.
       Ele apareceu dali a alguns minutos, trazendo-lhe ch num copo, do jeito que ela 
gostava. Era uma tradio russa que ele passara a apreciar, e havia comprado canecas de vidro 
especiais para este fim. Era igualmente habilidoso no preparo de refeies ligeiras para Eloise 
quando ela estava trabalhando. Porm, em troca, ela preparara alguns jantares maravilhosos, 
entre um livro e outro. Adorava fazer bolos e torta e tinha uma queda toda especial para a 
cozinha francesa. Ao contrrio de Sasha, que achava que esperarem que ela fizesse uma 
torrada era uma afronta ao seu talento artstico.
       - Vai assistir ao espetculo amanh? - indagou ela, tirando devagar os grampos do 
cabelo, que comeou a cascatear em longas camadas louras pelos seus ombros.
       John olhou para ela com pesar. Detestava ter que lembrar-lhe. Sabia que, sempre que 
o fazia, criava atritos. Ela ficava irritada quando ele tinha de ir a qualquer parte. Esperava que 
sempre estivesse por perto. E, na tarde seguinte, ele estaria voando para Boston.
       - Vou passar o fim de semana em Cape, Sasha. Eu lhe disse isso h algumas 
semanas, mas voc deve ter-se esquecido.  o aniversrio da minha me. Tentei escapulir, 
mas no houve jeito. Ela faz setenta anos,  importante. - Os seus dois irmos estariam 
presentes, com as mulheres e filhos. Ele sempre se sentia um tanto inadequado comparecendo 
sem uma comitiva para exibir pelos seus anos de casamento e diversos romances. Tudo o que 
eles tinham era tangvel e bvio: esposas com safiras ou brilhantes em anis de noivado ou 
presentes de aniversrio de casamento; crianas com joelhos arranhados e dentes de leite 
perdidos e, no caso do seu sobrinho mais velho, at um diploma da escola secundria. Ia ser 
um fim de semana comprido. Mas sabia que tambm ia ser divertido. Ele gostava dos irmos, 
um mais velho, o outro mais moo. As cunhadas eram um tanto difceis, mas as crianas eram 
fantsticas. E no havia jeito de poder levar Sasha. Mesmo na sua idade, os pais teriam 
achado ruim se ele levasse uma mulher consigo para uma reunio de famlia. - Volto para casa 
no domingo.
       - No precisa se incomodar. - Ela endireitou as costas e pousou os ps no cho 
graciosamente. - Tenho ensaio no domingo  tarde. E no estou interessada em migalhas que 
sobram da mesa dos seus pais.
       Ela parecia to ofendida que ele pde apenas rir da sua escolha de palavras. s vezes 
o ingls dela era bizarro.
       -  isso o que eu sou, Sasha? Uma migalha?
       Estava mais do que evidente que ela pensava que sim.
       - No entendo o que  to sagrado sobre a sua famlia. Voc j conheceu meus pais, 
minha tia, minha av. Os seus pais so assim to melhores que os meus? Desaprovariam 
porque sou bailarina?
       Ela parecia terrivelmente russa e extremamente dramtica enquanto andava de um 
lado para o outro da sala, o cabelo esvoaando e as mos enfiadas nos bolsos de trs dos 
jeans, o corpinho tenso de emoo.
       - Eles so muito reservados, s isso. - E muito bostonianos. Uma escritora j fora 
difcil de aceitar. Uma bailarina deixaria a me dele totalmente louca. Tinha respeito pelas 
artes, mas de preferncia num palco, no no quarto do filho. - Eles no compreendem 
relacionamentos como os nossos.
       - Nem eu. Estamos juntos ou no estamos? - Ficou parada diante dele parecendo um 
elfo encantador, mas um elfo que estava extremamente zangado. Sentia-se discriminada pela 
famlia a que ele nunca a apresentava, e sem que ele nunca o dissesse, tinha conscincia de 
que no a aprovavam.
       - Claro que estamos juntos. Mas, no que diz respeito a eles, a gente no admite tal 
coisa at estar casado, ou pelo menos noivo.
       E era ela quem resistia a isso. No via necessidade de uma afirmao de 
permanncia.
       - Acham que somos imorais?
       - Talvez. Preferem no pensar no assunto. No querem ter que se confrontar com 
esse tipo de coisa, ento no se confrontam. E, como filho deles, tenho de respeitar o seu 
modo de ser. So bem velhos, Sasha; Minha me vai fazer setenta anos no sbado, meu pai 
tem setenta e nove.  um pouco tarde para for-los a aceitar os arranjos modernos.
       - Isso  ridculo. - Atravessou raivosamente a sala de novo, depois ficou olhando para 
ele com cara feia da porta da cozinha. - E se voc fosse realmente homem, me levaria de 
qualquer jeito, e os foraria a aceitar a minha existncia.
       - Prefiro convid-los para v-la danar da prxima vez em que estiverem aqui. Isso 
seria uma apresentao melhor. No acha?
       Sasha pensou no assunto enquanto cruzava a sala outra vez, apenas um pouco 
abrandada; depois sentou no sof e comeou a calar os tnis. Ele sabia que isso era um mau 
sinal. Ela sempre estava saindo de l intempestivamente s duas da manh e voltando para o 
seu apartamento.
       - O que est fazendo?
       - Vou para casa. Que  o meu lugar. - Olhou para ele malvola e John soltou um 
suspiro. Detestava cenas, e ela as curtia. Parecia fazer parte do seu feitio artstico.
       - No seja boba. - Estendeu a mo e tocou-lhe o ombro. Parecia uma pedra ao seu 
toque. - Ns dois temos coisas na vida que devemos fazer por conta prpria. Voc tem o seu 
trabalho, seus amigos do bal e seus ensaios. Eu tenho o meu trabalho e algumas outras 
obrigaes.
       - No quero nem saber. A verdade, Sr. Chapman - ela ficou de p e olhou furiosa 
para ele, jogando a sacola com os apetrechos de dana sobre o ombro -,  que o senhor  um 
esnobe, e tem medo que os seus pais achem que no sou boa o bastante. E sabe duma coisa? 
No me importo. Pode ficar com o seu Mayflower, sua Plymouth Rock e sua Boston. No 
preciso fazer parte do cadastro social, vou aparecer no Quem  Quem, algum dia. E se isso 
no basta... - ela fez um gesto que dizia tudo, e se dirigiu a passos largos para a porta. E dessa 
vez ele no a deteve. Sabia que no domingo ela estaria calma e ele no poderia abrand-la 
deixando de ir.
       - Lamento que pense assim, Sasha.
       Ela bateu a porta em resposta, e ele se sentou com um suspiro. s vezes ela era to 
incrivelmente infantil. E to egocntrica. Ele no se permitia pensar nisso com frequncia, 
mas ela no lhe perguntou sobre o seu novo caso nem uma vez. A nica vez em que reparava 
na vida dele era quando, por algum motivo, ele a enfurecia.
       Apagou as luzes da sala e foi se deitar sem guardar os copos na pia. A faxineira o 
faria, pela manh. E, deitado na cama, pensou nas acusaes dela: de que era um esnobe, e de 
que seus pais no a aprovariam. Sob certos aspectos, tinha razo. Os pais dele no se 
encantariam com Sasha Riva. Achariam que era limitada demais e extremamente difcil, 
inadequadamente instruda e mal-informada e,  verdade, teria importncia para eles que no 
fosse "da sociedade". No era algo que lhe importasse muito, mas ele sabia que, para eles, era 
importante. Eloise fora uma outra histria. Ela e a me dele nunca se tinham dado bem, e 
achava as cunhadas dele incrivelmente chatas. Mas era de uma excelente famlia e tinha se 
formado em Yale summa cum lande. No se podia criticar as origens de Eloise, ou a sua 
instruo. E ela era inteligente e espantosamente espirituosa, nada do que fizera dela uma boa 
esposa. Longe disso. No que Sasha prometesse ser melhor. Pensou em ligar para Sasha 
depois que ela chegasse em casa, mas estava cansado demais para ir atrs dela, acordar as 
suas companheiras de quarto e suplicar o seu perdo porque ia a Cape Cod ver a me. Em vez 
disso, enterrou a cara no travesseiro e pegou no sono, s acordando quando o despertador 
tocou na manh seguinte.
       Tomou banho e fez a barba, preparou o caf e saiu para o trabalho. Reparou, quando 
leu o jornal no metr, que Eloise estava com um novo bestseller na praa. Que bom. Era s o 
que tinha na vida, e ele sabia como aquilo a deixava feliz. s vezes a invejava. Gostaria de ser 
igualmente realizado, igualmente obcecado, igualmente to fascinado com o que fazia que 
no importasse o que mais lhe acontecia na vida. Adorava o seu trabalho, mas queria muito 
mais do que isso. E, at agora, no havia encontrado. Era um dos motivos por que estava 
empolgado com o caso Patterson. Havia algo nele que o empolgava, e h sculos que no se 
entusiasmava assim com seu trabalho. A Primeira coisa que queria fazer era encontrar a mais 
velha, Hilary. Havia algo nela que o obcecava. E s Deus sabia o que lhe acontecera depois 
que Arthur a abandonara em Charlestown. Sabia, pela sua visita posterior ao escritrio de 
Arthur, que ela acabara indo para Jacksonville, Flrida, porm como ou quando ou porqu 
nenhum dos dois sabia e talvez no fosse importante. E o que lhe acontecera depois tambm 
era um mistrio. Nunca mais entrara em contacto com Arthur. Simplesmente desaparecera. E 
depois havia o recorte do The New York Times que Arthur lhe dera da mulher chamada 
Hilary Walker da rede CBA. Mas seria a mesma mulher? Duvidava. Parecia extremamente 
improvvel.
       
       Captulo 16
       John chegou ao escritrio antes das nove. Tinha muito o que fazer antes de sair cedo 
para o fim de semana, havia algo que queria fazer antes de viajar. Queria tentar ligar para a 
Hilary Walker do recorte de Arthur. Provavelmente no era a mulher que ele queria, mas valia 
a tentativa. Era uma pista, e ele no podia se dar ao luxo de ignor-la. Ela poderia estar na 
CBA, bem debaixo do nariz dele, trabalhando numa posio de destaque numa rede 
importante.
       Deu uma olhada no relgio. Eram nove e quinze, e ele mesmo pegou o telefone. 
Ligou para informaes e depois discou o nmero.
       - Hilary Walker, por favor. - Sentiu a boca um pouco seca, e ficou surpreso. No 
sabia por que estava se interessando tanto pelo caso Walker, excepto que algo lhe acontecera 
quando vira a casa em Charlestown.
       Uma secretria atendeu e ele pediu novamente para falar com ela.
       - Posso saber quem deseja falar? - perguntou uma voz.
       - John Chapman, de Chapman Associates. Ela no me conhece,  um assunto de certa 
urgncia, se puder fazer o favor de dizer-lhe isso.
       - S um momento, por favor. - A moa do outro lado no deixou transparecer nada. 
Tinha falado com Hilary pelo intercomunicador e ela no fazia a menor ideia de quem era 
John Chapman, e por que estava telefonando. Presidiria a uma importante reunio de 
produo s dez horas e no tinha tempo a perder com telefonemas fajutos.
       - Pergunte se posso ligar para ele mais tarde - disse  secretria, depois modificou as 
prprias ordens. - Ah, deixe para l, eu falo logo com ele. - Apertou o boto com a luz que 
piscava e a sua voz profunda e serena se fez ouvir. - Sim? Aqui  Hilary Walker.
       E, por um estranho momento, John se lembrou da voz profunda de sua me. Era a 
nica outra mulher que conhecia com uma voz to profunda, mas ele passou logo a tratar do 
assunto com esta. Quer fosse a Hilary Walker certa ou no, era uma mulher muito ocupada.
       - Obrigado por ter me atendido. Vou falar sem rodeios para no perdermos tempo. 
Meu nome  John Chapman, dirijo a Chapman Associates, e estou procurando uma mulher 
chamada Hilary Walker. O pai dela chamava-se Sam, a me Solange, e ela morou com um 
casal chamado Jack e Eileen Jones em Boston. A senhora  essa mulher?
       Foi sorte ele no poder ver o rosto dela, na outra extremidade. Estava branca como 
cal, e tremendo da cabea aos ps enquanto se agarrava  escrivaninha com uma das mos, 
mas a voz nada deixou transparecer.
       - No, no sou. Do que se trata? - O seu primeiro instinto fora negar, mas precisava 
saber por que ele estava procurando por ela. Seria por causa das outras? No que tivesse mais 
importncia. H muito que tinham desaparecido e provavelmente nem se lembravam dela. J 
desistira da ideia h muitos anos. S o que tinha agora era a rede. E o mais provvel  que 
fosse Arthur. O canalha.
       - Faz parte de uma investigao para um cliente. Ele estava esperando encontrar essa 
Senhorita Walker. E viu os artigos sobre a senhora no The Times e The Wall Street Journal e 
estava torcendo para que fosse a pessoa certa. Foi apenas uma tentativa, lamento t-la 
incomodado.
       Podia perceber pela voz dela que ela no era a mulher certa, e teve de admitir que 
estava desapontado.
       - Lamento muito no poder ajud-lo, Sr. Chapman. - A voz dela era suave e serena,
       mas definitivamente no se comovera com a investigao dele. Teria sido simples 
demais se fosse a mulher certa.
       - Obrigado pela sua ateno, Senhorita Walker.
       - No h de qu. - E ento ela desligou e ele fez o mesmo. Dera um fora. E no podia 
ver a mulher que se sentava  escrivaninha, plida e abalada, do outro lado da cidade. Era 
como receber um telefonema de um fantasma. Tinha certeza de que era Arthur procurando por 
ela, o velho filho da puta, bem, jamais a encontraria. No havia motivos para estender-lhe a 
mo, para aliviar a sua conscincia. Nunca fizera nada por ela ou pelas irms. Ele que fosse 
para o inferno. E John Chapman tambm. E todos eles tambm. No precisava deles.
       Ela foi para a reunio s dez horas e decepou cabeas pelo resto do dia. Mas ainda 
estava abalada quando saiu da reunio, e o restante do pessoal tambm. Ela despedira trs 
produtores e ameaara todos os outros na reunio. Era implacvel, mas tinha mesmo essa 
fama. Fora apenas ligeiramente pior depois do telefonema de John Chapman.
       
       Captulo 17
       No seu escritrio, John Chapman ficou sentado fitando o espao, desapontado. A 
mulher no artigo no era a Hilary Walker que eles queriam... que ele queria... Soltou um 
profundo suspiro e devolveu o recorte  pasta, com uma anotao. Mais tarde teria de ligar 
para Arthur e contar-lhe. Nesse meio tempo, porm, dois de seus associados estavam ansiosos 
para falar com ele.
       Trs dos seus maiores casos iam ser julgados e eles tinham conseguido as provas em 
todos os trs. Era muito compensador. Ao meio-dia, John olhou para o relgio e tomou uma 
deciso. Tinha cuidado de quase tudo que pretendia cuidar, o resto podia esperar at segunda. 
Os pais s o esperavam na hora do jantar. E se ele pegasse a ponte area de duas horas em La 
Guardia, estaria em Boston s trs. A poderia passar em Charlestown no caminho para a casa 
dos pais. Ainda chegaria com tempo de sobra, e queria ver se descobria alguma coisa sobre 
Hilary Walker. Ele j tinha o que precisava para ir directo para Jacksonville, mas gostava de 
ser bem meticuloso nas suas investigaes. E uma viagem a Charlestown poderia revelar 
alguma coisa sobre as outras duas. De qualquer maneira, valia dar uma olhada, e ele ia mesmo 
naquela direo.
       Disse  secretria onde estaria para o caso de precisar dele e tomou um txi para o 
seu apartamento. Levou dez minutos para fazer a mala. Sabia exactamente o que precisava 
para um fim de semana na casa da fazenda. E  uma hora j estava a caminho de La Guardia. 
Comprou uma passagem na ponte area, chegou s 3:10 e alugou um carro no aeroporto. E 
dali a Charlestown era uma viagem de meia hora.
       Verificou novamente a informao na pasta e se certificou de que tinha o endereo 
certo, e se crispou intimamente ao comear a percorrer as ruas de Charlestown. Era uma das 
reas que j eram feias quarenta anos antes, e no tinha melhorado com o passar do tempo. 
Havia outros bairros que tiveram sorte nos ltimos anos e estavam sendo reformados por 
mos carinhosas, mas estas casas no se incluam entre eles. E se j eram teias quando Hilary 
morava ali, agora deviam ser piores. Eram verdadeiramente horrveis. Imundas, 
desconjuntadas, com a tinta descascando por toda a parte, e muitas das casas estavam 
fechadas, portas e janelas presas com tbuas, e desmoronando. Aqui e ali havia cartazes de 
casas que tinham sido condenadas pela cidade e John quase que podia sentir os ratos 
esperando para aparecer sorrateiramente ao cair da noite. Era um lugar horrvel e a casa onde 
parou, uma das piores. Ficou parado por um momento, olhando para ela da calada. As ervas 
daninhas chegavam  altura dos ombros no quintal e o cheiro de lixo pairava forte no ar. A 
porta da frente estava quase saindo das dobradias.
       Ansioso, ele subiu os degraus da frente, tentando se desviar de dois quebrados para 
no cair no buraco, e bateu  porta com fora. A campainha pendia por um fio e estava 
obviamente quebrada. E embora ele escutasse rudos vindos l de dentro, ningum veio 
atender por muito tempo; depois, por fim, apareceu uma velha desdentada. Fitou-o, confusa, 
depois perguntou o que queria.
       - Eu estava procurando Eileen e Jack Jones. Eles moraram aqui h muito tempo. A 
senhora os conhece? - Falou em voz alta, para o caso de ela ser surda. Mas ela no parecia ser 
surda, e sim burra.
       - Nunca ouvi falar. Por que no pergunta a Charlie, do outro lado da rua? Ele mora 
aqui desde a poca da guerra. Quem sabe ele os conhecia.
       - Obrigado. - Um olhar lanado ao interior da casa mostrou a John que ela era 
incrivelmente deprimente, e ele esperava que tivesse sido mais agradvel quando Hilary e as 
irms moravam ali Embora fosse difcil imagin-la muito melhor. A rua se tornara uma 
favela, mas no tinha cara de que algum dia tivesse sido bonita. - Muito obrigado.
       Ele sorriu amavelmente e ela bateu-lhe com a porta na cara, no porque estivesse 
aborrecida, mas apenas porque no sabia que havia outro modo de agir.
       Ele correu os olhos para baixo e para cima da rua, e pensou em conversar com alguns 
dos outros moradores. Mas primeiro foi at  casa que ela indicara. Perguntou-se se algum 
estaria em casa s quatro horas de uma tarde de sexta-feira, mas o velho a quem ela chamara 
de "Charlie" estava se balanando na varanda da frente, fumando um cachimbo e conversando 
com um velho co sarnento que se deitava ao seu lado.
       - Oi. - Ele parecia amistoso e sorriu para John quando ele subiu a escada.
       - Al. O senhor  Charlie? - John sorriu amavelmente. Fora bom nesse tipo de 
servio, na poca em que lhe coubera os contactos directos nas investigaes. Agora s os 
determinava da sua escrivaninha na rua 57, mas havia uma certa emoo em voltar a fazer 
esta parte. Certa vez ele tentara explicar a Sasha o quanto gostava disso, mas ela no 
conseguia compreender. Para ela havia apenas a dana... e o Lincoln Center... e os ensaios. 
Nada mais importava. s vezes John at se perguntava se ela se importava de saber?
       - Sim, sou Charlie - respondeu o velho. - Quem  que quer saber?
       John estendeu a mo.
       - Meu nome  John Chapman. Estou procurando umas pessoas que moraram aqui h 
anos. Naquela casa. - Indicou-a. - Eileen e Jack Jones. Por acaso o senhor se lembra delas?
       Ele era sempre corts, amistoso, simptico, o tipo do sujeito com quem todo mundo 
tem vontade de falar.
       - Claro que sim. Certa vez arrumei um emprego para o Jack. Mas ele no ficou muito 
tempo nele, naturalmente. Bebia feito um filho da puta, e ela tambm. Ouvi dizer que ela 
finalmente morreu disso. - John assentiu, como se aquilo fosse algo que j soubesse. Fazia 
parte do esquema. - Eu trabalhava no estaleiro. Foi um trabalho danado de bom, durante a 
guerra. Fui dispensado do servio militar porque tive febre reumtica em menino. Passei a 
guerra toda aqui, perto de casa, com a minha mulher e meus filhos. Agora parece pouco 
patritico, mas tive sorte.
       - Quer dizer que teve filhos? - John olhou para ele com interesse.
       - J esto todos crescidos. - Ele se balanava para diante e para trs e uma expresso 
triste lhe surgiu nos olhos enquanto mordiscava o seu cachimbo. - E a minha mulher morreu, 
est fazendo catorze anos este vero. Era uma boa mulher. - John assentiu de novo, deixando 
o velho continuar tagarelando. - Os meus filhos vm me ver de vez em quando, quando 
podem. A filha mora em Chicago. Fui visit-la no ano passado, pelo Natal. Lugar mais frio do 
que uma teta de bruxa. Ela tem seis filhos. O marido  pregador.
       Era uma histria interessante e John deu uma palmadinha no cachorro enquanto a 
escutava.
       - Lembra-se de trs garotinhas que vieram morar com os Jones h uns trinta anos... 
mais ou menos nesta poca do ano... no vero de 58, para ser preciso. Trs garotinhas. Uma 
com uns nove anos, a outra de cinco, e a menorzinha era um beb. Devia estar com um ano.
       - No... acho que no me lembro... nunca tiveram filhos, Jack e Eileen. Menos mal. 
No eram gente muito boa. Costumavam ter brigas feias, aqueles dois. Uma noite eu quase 
chamei a polcia. Pensei que ele ia mat-la.
       Parecia uma casa encantadora na qual deixara trs crianas.
       - Eram as filhas do irmo dela. Vieram s passar o vero, mas uma delas ainda ficou 
depois... - Ele foi deixando a voz sumir, esperando despertar a memria de Charlie, e de 
repente o velho olhou para ele com o cenho franzido e apontou o cachimbo para o rosto de 
John com um lampejo de reconhecimento.
       - Agora que voc est dizendo tudo isso, estou lembrando... uma coisa terrvel... ele 
matou a mulher e as garotinhas eram rfs. Eu s as vi uma ou duas vezes, mas lembro de 
Ruth, a minha mulher, me dizendo como eram engraadinhas e como Eileen era terrvel para 
elas, que era um crime deixar aquelas crianas com ela. Quase as matava de fome, Ruth falou, 
ela levou jantar para elas uma ou duas vezes, mas tinha certeza de que Jack e Eileen comeram 
tudo e no deram nada para as crianas. Mas eu nunca soube o que aconteceu com elas. Pouco 
depois eles foram embora. Eileen ficou doente e eles foram para um outro lugar. Arizona, eu 
acho... Califrnia... algum lugar quente. Mas ela morreu, de qualquer maneira. Morreu de 
tanto beber, se quer minha opinio. Mas no sei o que aconteceu com as garotinhas. Acho que 
Jack deve ter ficado com elas.
       - S com uma delas. As outras foram embora naquele vero. Eles s ficaram com a 
mais velha.
       - Acho que Ruth devia saber disso. Eu esqueci. - Ele se recostou na cadeira, como 
que se lembrando de mais do que Jack e Eileen. Fazia tanto tempo, e a mulher dele estava 
viva na poca - era agridoce recordar aquele tempo. Ele pareceu se esquecer de John enquanto 
se balanava para trs e para diante na sua cadeira de balano, e ele dera a John aquilo que 
viera buscar. No soubera de nada que precisasse saber desesperadamente, mas era um 
pedacinho do quebra-cabea. Explicava um pouco da culpa de Arthur. Ele deve ter sabido 
como eles eram terrveis E, no entanto deixara-as ali... e deixara Hilary com eles... na verdade 
abandonara-a com eles. Ele mal comeava a imaginar o que tinha sido a vida dela naquela 
casa do outro lado da rua, com o tipo de gente que Charlie lhe descrevera. S de pensar nisso 
John estremeceu.
       - Acha que mais algum por aqui se lembraria delas? - perguntou John, mas Charlie 
sacudiu a cabea, ainda perdido nos seus devaneios, e depois ergueu os olhos para John e 
respondeu.
       - Ningum mora aqui h tanto tempo, excepto eu. Os outros esto aqui h dez, quinze 
anos... a maioria ainda menos. Eles ficam um ano ou dois, depois se mudam. - Era fcil ver 
por qu. - Meu filho mais velho quer que eu v morar com ele, mas eu gosto daqui... morei 
aqui com a me dele... vou morrer aqui algum dia. - Falou filosoficamente, para ele estava 
tudo bem. - Eu no vou.
       - Obrigado pelo tempo que me dispensou. O senhor me ajudou muito. - Sorriu para 
Charlie, que ergueu os olhos para ele com curiosidade indisfarvel pela primeira vez.
       - Por que quer encontrar Eileen e Jack? Algum deixou dinheiro para eles? - No 
parecia provvel, at mesmo para ele, mas era uma ideia interessante, porm John se apressou 
em sacudir a cabea.
       - No. Na verdade, estou procurando as trs garotas. Um amigo dos pais dela quer 
ach-las.
       -  um bocado de tempo para se perder algum e depois sair  procura delas.
       John sabia muito bem como aquilo era verdadeiro.
       - Eu sei.  por isso que o senhor ajudou tanto. A gente compe a imagem com 
pedacinhos do que as pessoas se lembram, e de vez em quando tem sorte, como eu tive com o 
senhor. Obrigado, Charlie.
       Ele apertou a mo do velho e Charlie acenou para ele com o cachimbo.
       - Eles lhe pagam bem por um servio desses? Para mim parece um monte de 
tentativas inteis.
       - E s vezes .
       Deixou sem resposta a pergunta anterior e acenou ao descer da varanda e voltar para 
o seu carro. Era deprimente rodar pela rua, e era como se sentisse os olhos de Hilary pousados 
nele, como se ele fosse Arthur deixando-a ali, e no pde deixar de perguntar como Arthur 
fora capaz daquilo.
       A viagem posterior  casa dos pais durou menos de uma hora, e o seu irmo mais 
velho j estava l quando ele chegou, tomando um gim-tnico no terrao junto com o pai.
       - Oi, papai. Est com ptima aparncia.
       O velho parecia mais ter sessenta anos do que quase oitenta. No havia nenhum 
tremor na voz dele, ainda tinha todo o seu cabelo e as mesmas pernas longas e magras de 
John, enquanto cruzava o terrao para rodear-lhe os ombros com o brao.
       - Bem, e como vai o meu filho ovelha-negra? - Sempre implicavam com John, mas 
orgulhavam-se dele tambm. Era bem-sucedido, atraente, tinha uma vida interessante. A nica 
coisa que os pais lamentavam  que tivesse se divorciado de Eloise, pois sempre tiveram 
esperanas de que os dois ficassem juntos e tivessem filhos. - Ficando longe das encrencas?
       - No se eu puder evitar. Al, Charles. - Apertou a mo do irmo e os dois sorriram. 
Sempre havia uma certa distncia entre eles e, no entanto John o estimava. Era scio de uma 
importante firma de advocacia em Nova York, e se sara bem na vida. Estava com 46 anos de 
idade, era destacado no campo do direito internacional, possua uma esposa atraente que era 
presidente da Junior League e tinham trs filhos simpticos. Pelos padres da famlia de John, 
Charles era o que mais realizara. Mas John sempre sentia que faltava algo na vida de Charles. 
Emoo, talvez, ou simplesmente romance.
       E nesse momento Lesley, a mulher dele, saa da casa com a sogra, que deu um 
gritinho de alegria ao ver John conversando com o irmo e o pai.
       - Chegou o filho prdigo - falou na sua voz rouca, apertando-o contra si. Ainda era 
uma mulher atraente aos setenta anos, e mesmo no seu vestido de linho amarelo simples 
possua uma elegncia inata. Usava o cabelo preso num coque elegante, um colar de prolas 
ao redor do pescoo, presente do marido no dia do casamento, e os anis que estavam na sua 
famlia h cinco geraes. - Como est bem, querido! O que andou fazendo?
       - Um trabalhinho quando vinha para c. Acabei de comear uma nova investigao.
       Ela pareceu satisfeita. Apreciava os filhos. Eram todos bonitos, diferentes e 
inteligentes, e ela os amava a todos, mas secretamente sempre amara John um pouquinho 
mais do que os outros.
       - Ouvi dizer que andou se metendo com o bal - disse Lesley calmamente, fitando 
John com ateno por sobre a beirada do copo de bloody mary. Havia algo de mesquinho nela 
que sempre irritava John, mas ele ficava espantado por ningum mais reparar nisso. Ela era 
uma dessas mulheres que possuam tudo e que devia apreciar o que tinha - duas lindas filhas, 
um filho encantador, um marido bonito e bem-sucedido - e, no entanto parecia invejar tudo 
que os outros tinham, especialmente John. De certa forma, ela sempre achara que ele se sara 
melhor do que Charles, u que a irritava. - No fazia ideia de que se interessava pela dana, 
John.
       - Nunca se sabe, no  mesmo? - Ele sorriu com naturalidade, espantado que ela 
tivesse ficado sabendo de Sasha. Depois riu consigo mesmo, pensando que talvez ela estivesse 
se encontrando com um amante no Russian Tea Rucan.
       Dali a momentos, Philip apareceu, muito bronzeado aps as suas frias na Europa. 
Ele e a famlia moravam em Connecticut, e ele jogava tnis constantemente. Tinha um filho e 
uma filha e uma esposa de cabelos louros, olhos azuis e sardas. Ela parecia ser exactamente o 
que era, a namorada de infncia com quem se casara na faculdade. Ele tinha 38 anos, e ela 
tambm, e vencera todos os torneios de tnis em Greenwich. Eram verdadeiramente a famlia 
perfeita, excepto por John, que nunca se encaixara direito na forma, e nunca fizera o que se 
esperava dele.
       E trazer Sasha para c teria complicado as coisas ainda mais. Eloise j fora 
suficientemente difcil. Quando ela queria ser socivel, era ptima, mas quando no queria 
trazia a mquina de escrever e insistia em trabalhar at  hora do almoo, u que deixava 
Lesley maluca e fazia a me achar que no estivesse se divertindo. Eloise no era nada fcil. 
Mas Sasha teria sido realmente um choque para eles com as suas malhas e os blue jeans 
grudados na pele, os seus ataques de petulncia e as cenas de desafio. S de pensar nela 
soaria, fitando o oceano.
       - O que  to engraado, irmozo? - Philip bateu-lhe nas costas e John perguntou 
sobre a Europa. O mais difcil de tudo era serem todos pessoas to simpticas. Ele os amava, 
mas enchiam-no de tdio, e quando chegou o domingo  tarde foi um alvio estar guiando para 
o aeroporto. Sentia-se culpado por pensar assim, mas eles todos levavam umas vidas to 
normais, to rotineiras. No final de um fim de semana ele sempre se sentia um desajustado. 
Pelo menos a me se divertira. Cada um dos filhos lhe dera algo especial que era importante 
para ela. John lhe comprara um belo broche antigo de brilhantes com uma pulseira 
combinando, e era exactamente o tipo de coisa que ele sabia que a me adorava. Charles lhe 
dera aes, que John achou um presente estranho, mas ela pareceu satisfeita com ele, e Philip 
lhe dera algo que ela dizia que queria h anos, mas jamais comprara para si mesma. Um piano 
de cauda seria entregue na casa em Boston na segunda-feira. Era bem tpico dele fazer uma 
coisa dessas. John achou que era um presente fantstico e desejou ter tido a ideia. Mas ela 
pareceu feliz com o broche e o bracelete.
       Ele devolveu o carro alugado no aeroporto e voltou na ponte area com um monte de 
gente que retornava do fim de semana, e s oito horas j estava no seu apartamento, 
preparando um sanduche para o jantar e revendo a pasta de Arthur Patterson. No sabia nada 
mais que no soubesse antes, excepto o tipo de lar em que Hilary fora deixada. E sabia 
exactamente o que faria na manh seguinte.
       Mas Sasha no ficou nem um pouco satisfeita quando ele lhe cantou, na hora em que 
veio ao seu apartamento, mais para o fim da noite.
       - O qu? Voc vai viajar de novo? - Ela estava furiosa. - O que  desta vez?
       John tentou pacific-la da melhor maneira que pde. Estavam indo para a cama 
quando ele tocara no assunto com ela, o que fora um erro, ele o reconhecia agora. Mas ainda 
estava esperando fazer amor com ela naquela noite. Fazia dias, e com Sasha era preciso 
escolher o momento certo, quando ela no estava cansada demais, quando os seus msculos 
no estavam doloridos, quando no tinha um espetculo importante no dia seguinte. Era um 
feito e tanto conseguir lev-la para a cama, e ele no ia pr tudo a perder por causa da 
investigao de Arthur.
       - J lhe disse, meu bem,  um caso grande e eu mesmo estou cuidando dele.
       - Pensei que voc fosse o patro. O coregrafo, digamos assim.
       Ele sorriu ante a comparao e assentiu.
       - E sou. Mas essa  uma exceo. Concordei em fazer as pesquisas e contactos 
pessoalmente, se pudesse.  um caso muito importante para o meu cliente.
       - Do que se trata? - Ela o olhou com desconfiana, enquanto se deitava na cama, 
totalmente vestida.
       - Estou procurando trs meninas... trs mulheres, na verdade. Ele perdeu o contacto 
com elas h trinta anos e tem de encontr-las rapidamente. Est morrendo.
       No podia contar-lhe mais. At mesmo isso era uma espcie de violao da 
confiana de Arthur, mas ele queria despertar o interesse e a dedicao de Sasha.
       - Elas so filhas dele? - Ele sacudiu a cabea enquanto desabotoava a camisa. - 
Ex-mulheres? - Ele sacudiu a cabea de novo - Namoradas? - ele sorriu e sacudiu a cabea de 
novo. - Ento, o que so?
       - So irms.
       - E esto na Flrida? - Ela estava achando aquilo tudo muito chato.
       - Uma delas esteve, h muito tempo. Tenho que comear de l. Pensei que ela estava 
aqui em Nova York, mas no estava. Ento agora temos de voltar ao comeo.
       - Quanto tempo vai ficar fora?
       - Alguns dias. Devo estar de volta at sexta-feira. Pudemos fazer alguma coisa 
agradvel no fim de semana.
       - No, no podemos. Tenho ensaios.
       No havia como negar, os horrios dela no eram fceis.
       - Tudo bem, a gente faz o programa de acordo com eles.
       J estava acostumado com isso.
       - Tem certeza de que no est indo para a Flrida de frias?
       - Absoluta. Posso pensar em muitos lugares melhores para ir com voc, minha linda. 
- Ele deslizou pela cama, pegou-a de surpresa e a beijou, e desta vez ela riu. Deixou que ele a 
despisse e envolveu-lhe o corpo com as pernas vigorosas de um jeito que o deixava louco. 
Ento quando comearam a fazer amor, ela se afastou de repente, e ele receou t-la 
machucado. Olhou-a atravs do vu do seu desejo e sussurrou com voz rouca: - Voc est 
bem?
       Ela fez que sim, mas parecia preocupada.
       - Sabe o que eu podia fazer a mim mesma nessas posies?
       Mas pareceu se esquecer disso enquanto o ardor dele aumentava e, junto com ele, a 
sua prpria paixo. Mas estava sempre pensando em si mesma, na sua dana, seus msculos, 
seus ps, seu corpo.
       - Eu te amo, Sasha - murmurou ele, enquanto jaziam nos braos um do outro depois, 
mas ela estava estranhamente calada. Tinha os olhos abertos e olhava para a parede oposta e 
parecia perturbada, sob o olhar dele. - O que foi, corao?
       - Aquele filho da puta gritou comigo a tarde toda, hoje, como se eu estivesse fazendo 
alguma coisa errada... e eu sei que no estava...
       Por um momento ele se sentiu deprimido. J trilhara aquele caminho antes, s que a 
ltima vez tinham sido os malditos personagens e os livros, e o enredo que ela no conseguia 
definir. Mulheres assim eram exaustivas. Preferia que Sasha fosse diferente, no entanto queria 
que gostasse dele, e nos momentos em que era sincero consigo mesmo, no tinha certeza se 
gostava. Nem mesmo tinha certeza se era capaz de gostar. Ela estava totalmente envolvida 
consigo mesma. E quando ele se levantou para ir buscar uma bebida na cozinha ela nem 
pareceu reparar na sua ausncia. Ele ficou sentado por muito tempo no sof, na escurido, 
escutando os rudos que vinham da rua, e se perguntou se algum dia encontraria uma mulher 
que gostasse dele, uma mulher que se importasse com o seu trabalho, sua vida, seus amigos, 
suas necessidades, e que apreciasse sua companhia.
        - O que est fazendo aqui? - Ela estava parada no vo da porta, a silhueta recortada 
graciosamente ao luar, a voz um sussurro no quarto s escuras, e no podia enxergar a tristeza 
nos olhos dele enquanto a observava.
        - Pensando.
        - Em qu? - Ela veio se sentar ao lado dele e, por um momento, quase pareceu que 
se importava, e ento olhou para os ps e gemeu.
       - Deus, eu devia voltar ao mdico.
        - Por qu?
        - Eles agora doem o tempo todo.
        - J pensou em desistir da dana, Sasha?
        Ela o fitou como a um louco.
        - Est maluco? Prefiro morrer. Se me dissessem que no podia mais danar, eu me 
mataria. - E parecia falar srio.
        - E quanto aos filhos? No quer filhos?
        Devia ter-lhe feito essas perguntas h muito tempo, mas era difcil desviar a ateno 
dela da dana.
        - Quem sabe mais tarde. - Falou sem convico. Eloise costumava dizer o mesmo 
tipo de coisa para ele. At fazer 36 anos e concluir que interferiria demais com a carreira dela 
e mandar ligar as trompas quando ele estava viajando a negcios. E ela provavelmente tinha 
razo. Era mais feliz sozinha.
        - s vezes, se voc fica adiando, o "mais tarde" no acontece.
        - Ento  porque no era para ser. No preciso de filhos para me sentir realizada - 
disse com orgulho.
        - Do que voc precisa, Sasha? Precisa de um marido? - Ou precisava apenas do 
bal? Esta era a verdadeira questo.
        - Nunca pensei que tinha idade para me preocupar em casar. - Ela falou com 
sinceridade, erguendo os olhos para ele  luz da lua.
        Mas ele estava com 42 anos, e pensava em todas essas coisas j h algum tempo. 
No queria ficar sozinho para sempre. Queria algum que o amasse e que ele pudesse amar, 
no apenas no intervalo de livros, bals e ensaios.
        - Voc est com vinte e oito anos. Deve comear a pensar no seu futuro.
       - Penso nele todos os dias, com aquele velho manaco berrando comigo.
       - No estou me referindo ao seu futuro profissional, e sim  sua vida real.
       - Esta  a minha vida real, John.
       Mas era precisamente isto que ele temia.
       - E onde eu me encaixo em tudo isso?
       Era uma noite para questionamentos, e ele no tinha certeza se devia ter dado inicio 
quilo. Mas no se podia evitar. Mais cedo ou mais tarde teriam de falar em outras coisas que 
no os ps e os ensaios dela.
       - Cabe a voc decidir. No posso lhe oferecer mais do que isso, no momento. Se  o 
bastante, maravilha. Se no ... - Ela deu de ombros. Pelo menos, era sincera. E ele se 
perguntou se podia fazer com que ela mudasse de ideia, se podia induzi-la a se casar com 
ele... a querer um filho... mas era loucura fazer isso de novo. Ele parecia ter uma queda 
incrvel para desafios e causas perdidas. "Voc devia tentar escalar o Everest uma hora 
dessas", o seu irmo mais moo lhe dissera, certa vez. "Podia aliviar algumas das tenses". 
Ele vira Sasha duas vezes e achava que John era maluco. - Quer que eu fique aqui esta noite? 
- ela lhe perguntava agora. Estava perfeitamente disposta a ir embora. No se importava com 
o caos do seu apartamento no West Side com os oito milhes de companheiras de quarto e os 
catorze milhes de sacolas com o material de dana.
       - Gostaria que ficasse - Na verdade, gostaria de muito mais da parte dela. Mais do 
que tinha para dar, e ele comeava a compreender.
       - Ento vou me deitar agora. - Levantou-se displicentemente e voltou para o quarto 
dele. - Tenho ensaio amanh cedo.
       E ele tinha que voar at Jacksonvlle. E, mais do que tudo queria fazer amor com ela 
de novo, mas ela falou que estava cansada demais e com os msculos doloridos, quando ele 
entrou na cama com ela e fez uma tentativa.
       
       Captulo 18
       O voo at Jacksonville foi curto e deu tempo a Chapman de ler alguns de seus papis. 
Assinou uma meia-dzia de coisas que tinha de ler, mas seu pensamento ficava voltando para 
Hilary... e a vida que devia ter levado com Eileen e Jack Jones, segundo a descrio daquele 
velho em Charlestown.
       Em Jacksonville, ele foi directo para o centro de deteno juvenil, perguntou pelo 
administrador-chefe e explicou sua investigao. No era comum em casos como esse abrir os 
arquivos para qualquer um, mas muitos anos tinham se passado e a menina agora estaria com 
38 anos. No podia haver mal em dar uma olhada no passado, agora. E John assegurou-lhe a 
sua discrio total.
       A assinatura do juiz encarregado do juizado de menores tinha que ser obtida, e 
mandaram que John voltasse na manh seguinte. Nesse meio tempo, ele se registrou num 
hotelzinho do centro e percorreu as ruas da cidade, sem destino. Gastou algum tempo 
folheando a lista telefnica e encontrou cinco Jack Jones e, num impulso, decidiu ligar para 
eles. Trs deles eram negros, e o quarto no atendeu. Mas o quinto disse que o pai crescera em 
Boston e que ele achava que tinha sido casado com uma mulher chamada Eileen, que morrera 
antes do pai se casar com a me. Disse que tinha dezoito anos e que o pai morrera de cirrose 
h dez anos, mas que teria prazer em lhe dar as informaes que pudesse. John lhe perguntou 
se ele sabia onde o pai morava antes, h uns 25 anos. Talvez a me soubesse, mas a resposta 
para isso era simples.
       - Ele sempre morou na mesma casa. Ainda moramos aqui. 
       O interesse de Chapman aumentou consideravelmente e ele perguntou se podia ir at 
l dar uma olhada. 
       - Claro.
       Ele deu o endereo e John no ficou surpreso ao descobrir que dava a mesma 
sensao que o bairro deles em Charlestown, era o mesmo tipo de rea gasta, deprimente, 
perto de um estaleiro, s que era predominantemente negra, e havia rapazes de moto 
passeando pela vizinhana, o que deixou Chapman nervoso.
       No era um lugar agradvel para se estar e, como o local em Charlestown, parecia 
nunca ter sido.
       Jack Jones Jr. estava  sua espera, com uma motocicleta estacionada no seu prprio 
jardim, e parecia sentir que a visita de Chapman o tornava importante. Tagarelou um pouco 
sobre o pai, mostrou-lhe algumas fotos, e convidou-o a entrar e conhecer sua me. Dentro da 
casa havia um fedor terrvel de urina, bebida, a sujeira de toda uma vida. A casa era mais do 
que sombria, e a mulher que Jack Jr. apresentou como sua me era pattica. Estava 
provavelmente com quarenta e tantos anos, mas j era desdentada e parecia trinta anos mais 
velha.
       Era impossvel para John determinar se o seu estado provinha de abusos ou molstia. 
Sorriu vagamente para ele e fitou o espao s suas costas, enquanto Jack Jr. se desculpava por 
ela. Mas ela nada se lembrava de uma sobrinha da antiga mulher de Jack. Na verdade, por 
vrias vezes ela pareceu no saber quem era o prprio filho. John acabou desistindo e j 
estava de sada quando Jack Jr. sugeriu que ele talvez quisesse falar com os vizinhos. H anos 
que moravam ali e at mesmo conheciam Jack Jr, quando era casado com a falecida esposa. 
John lhe agradeceu e bateu  porta, e uma mulher idosa veio at  porta cuidadosamente.
       - Sim?
       - Posso lhe falar por um momento, senhora?
       H anos que no fazia pessoalmente este tipo de servio e lembrou-se de repente 
como era difcil ganhar a confiana das pessoas. Recordou de repente quantas portas tinham 
batido na sua cara nos velhos tempos.
       - Voc  tira? - Era uma pergunta familiar.
       - No, no sou. Estou procurando uma mulher chamada Hilary Walker. Ela morou 
aqui faz muito tempo, quando era garotinha. A senhora tem ideia de onde poderia estar hoje?
       A mulher sacudiu a cabea e pareceu examinar John.
       - O que quer com ela?
       - Um amigo dos pais dela quer encontr-la.
       - Deviam ter procurado por ela h vinte e cinco anos. Pobre garota... - Ela sacudiu a 
cabea, recordando, e John soube que tinha acertado em cheio. Ainda estava falando com ele 
atravs da porta de tela, mas esta se abriu lentamente, e ela ficou parada ali, de vestido de 
andar em cana e chinelos, fitando John, mas sem convid-lo a entrar. - Aquele tio dela deu-lhe 
uma surra que quase a matou. Ela saiu se arrastando daquela casa debaixo de um temporal e 
quase morreu na soleira da minha porta. Meu marido e eu a levamos ao hospital e ela quase 
que no escapava. Eles disseram que ele tentou violent-la.
       - Algum o acusou formalmente? - Chapman a fitava, horrorizado. A histria estava 
ficando pior. O destino de Hilary fora verdadeiramente um pesadelo.
       Mas ela sacudiu a cabea.
       - Ela estava com muito medo... a pequena Hilary. - Sacudiu a cabea. - Eu at tinha 
me esquecido dela.
       - O que aconteceu depois?
       - Ela foi para uns dois lares de adoo, e acho que depois ficou no centro. Fomos 
visit-la umas duas vezes, acho, mas era como se... bem, tinha alguma coisa faltando naquela 
menina, no que a gente pudesse culp-la. Ela no se abria com ningum.
       O que era fcil de entender, dado o que estava ouvindo.
       - Obrigado. Muito obrigado.
       Ento aquele era o motivo para o centro de deteno juvenil, no que ela prpria 
tivesse infringido a lei. Ou quem sabe tambm acabara por faz-lo. s vezes era assim que 
acontecia.
       Mas no caso dela, no acontecera. Eles lhe entregaram os arquivos logo na manh 
seguinte. O juiz assinara a ordem sem problemas. Mas os arquivos sobre Hilary Walker nada 
tinham de emocionantes. Fora uma estudante modelo, no causara problemas para o Estado, 
estivera em dois lares de adoo, cujos endereos eram dados, e depois passara trs anos no 
centro juvenil, sem nenhuma ocorrncia digna de nota. Recebera 287 dlares ao terminar o 
seu ltimo ano na escola secundria e fora embora dali a cinco dias, sem nunca mais dar sinal 
de vida. Era um arquivo sucinto, que pouco lhe dissera sobre a garota, excepto que os 
relatrios das assistentes sociais encarregadas do seu caso diziam que era retrada, no tinha 
amigos, mas tambm no causava nenhum problema disciplinar. As assistentes sociais que a 
tinham conhecido j no trabalhavam ali h muito tempo, e ele imaginava que os dois lares de 
adoo tambm haviam desaparecido. Mas, s para se certificar, foi aos endereos que 
constavam do arquivo. O que o espantou foi encontrar a primeira mulher, ainda viva e no 
mesmo endereo, e ela achava que se lembrava dela, embora no tivesse muita certeza.
       - Ela era aquela to metida  besta. Tambm no ficou muito tempo. No me lembro 
de como era no trabalho. Comeou a definhar e eles a mandaram de volta para o centro.  s 
o que me lembro dela agora.
       Mas era o bastante, as palavras speras da mulher sobre outras meninas, e a casa em 
si, contavam a sua prpria histria. E o segundo lar de adoo fora derrubado para erguerem 
um prdio anos antes. No  de admirar que a mulher na CBA nada soubesse a respeito dela. 
A garota que estivera aqui fora Deus sabe para onde, para terminar a sua vida, sua mesma 
espcie de misria e sordidez em que comeara ou a que fora condenada aos oito anos, 
quando o pai matara a me e depois cometera suicdio, e o melhor amigo deles a abandonara, 
depois de tirar-lhe as irms. De certa forma, John sentia como se Arthur a tivesse levado para 
o matadouro. E era fcil compreender por que ela fora ao escritrio de Arthur 21 anos atrs, 
para destilar seu dio. A questo era: para onde fora, saindo de l? A pista estava 
completamente fria e ele no tinha ideia de que rumo tomar. Onde se comeava a procurar 
uma moa que conhecera tanta dor e sofrimento to cedo na vida? Ele verificara se tinha ficha 
criminal em vrios estados e FBI, e no encontrara, mas isso no queria dizer nada. Ela podia 
ter mudado de nome, ter-se casado diversas vezes. Podia ter morrido nos ltimos 21 anos. 
Podia ter feito vrias coisas. Mas se ainda estivesse em Nova York, John prometeu a si 
mesmo que a encontraria.
       Partiu de Jacksonville sem pesar, e com uma sensao de alvio por estar escapando  
umidade e sordidez que ali encontrara. Podia imaginar como Hilary se sentira a caminho de 
Nova York para encontrar as irms, e acabando por descobrir que Arthur no mantivera 
contacto com elas, assim como no mantivera com Hilary. Que amargo desapontamento devia 
ter sentido.
       Chegou em casa na quinta  noite e deixou recado na secretria eletrnica de Sasha. 
Sabia que era a noite do seu grande espetculo, mas eram dez horas quando afinal chegou em 
casa, e estava exausto.
       E no dia seguinte, no escritrio, relatou a Arthur o que descobrira, e fez-se um 
silncio longo e triste do outro lado. John no pde ver as lgrimas silenciosas escorrendo 
pelas faces de Arthur, enquanto ouvia.
       - Depois que ela o visitou, a pista est fria. No tenho ideia para onde foi, saindo de 
l, mas estou trabalhando nisso. - J tinha dado a um dos seus assistentes uma lista de tarefas: 
queria que ele verificasse as escolas, hospitais, agncias de emprego, albergues para a 
juventude, hotis, at 1966. No era uma tarefa fcil, mas em algum lugar alguma coisa 
surgiria, e eles poderiam tom-la como ponto de partida. Nesse meio tempo, ele ia comear a 
procurar Alexandra. - Precisarei ir at o seu escritrio na segunda-feira. Quero examinar os 
arquivos do esplio de George Gorham. Quero ver se entraram em contacto com a sua viva, 
recentemente.
       Arthur assentiu e limpou as lgrimas que tinha derramado por Hilary. John Chapman 
era verdadeiramente meticuloso.
       Era terrvel dar-se conta do que fora o destino de Hilary... mas como poderia ter 
sabido... se tivesse... comeou a tossir terrivelmente ao pensar nisso, e acabou tendo que 
desligar. E John voltou ao seu trabalho. Havia uma montanha de pastas  sua espera sobre a 
escrivaninha, depois de passar a semana toda na Flrida, e ele ficou no escritrio at s sete e 
meia, depois parou no Auto Pub para comer um hambrguer, a caminho de casa. Eram nove 
horas quando chegou em casa, e o telefone estava tocando. Era Sasha.
       - Onde esteve a noite toda? - Parecia desconfiada, e zangada.
       - No escritrio. E parei para comer qualquer coisa a caminho de casa. E como vai, 
Senhorita Riva? - No houvera nenhum prembulo, nenhuma pergunta sobre como estava 
passando, e ela no ligara para ele na Flrida a semana toda, embora tivesse deixado o 
nmero do telefone na secretria eletrnica, mas ele sabia que ela estivera ocupada com os 
ensaios.
       - Estou bem. Pensei que tinha machucado um dos tendes ontem, mas graas a Deus 
no machuquei. - Nada mudara na ausncia dele.
       - Que bom. Quer vir tomar uma bebida aqui em casa? - Uma parte dele queria v-la, 
outra parte no. A semana na Flrida fora incrivelmente deprimente e ele precisava se animar, 
mas, por outro lado, no queria escutar a lengalenga de sempre sobre os ligamentos e os 
tendes de Sasha.
       - Estou exausta. J estou no apartamento. Mas estou livre este fim de semana. 
Podamos fazer qualquer coisa amanh.
       - Por que no vamos passar o fim de semana fora. Que tal os Harfiptons ou Fire 
Island? - O vero j comeara e estava quente em toda a parte. Ia ser um belo fim de semana.
       - Dominic Montaigne vai dar uma festa de aniversrio no domingo, prometi a ele que 
iria e no posso desapont-lo. Lamento muito. 
       Bal, bailarinas, danarinos, ensaios, espetculos. Era interminvel.
       - Tudo bem. A gente pode s passar o dia. Eu adoraria sair da cidade e ir me deitar 
numa praia qualquer.
       - Eu tambm. - Mas ele sabia que ela passaria deitada exactamente meia hora e 
depois comearia a se movimentar e flexionaria os msculos para que nada enrijecesse 
enquanto estava relaxando. E havia horas em que isso era extremamente enervante.
       - Pego voc s nove. Est bem? - Ela concordou e ele desligou sentindo-se de sbito 
triste e indescritivelmente solitrio. Ela nunca estava presente para ele quando precisava dela, 
e em vez disso ele pensando numa garota que no conhecia, que fora jogada de lares de 
adoo para o centro juvenil h mais de vinte anos. Era uma loucura pensando nela agora. Ele 
se sentia como Eloise com os seus personagens imaginrios. Fazia tanto sentido quanto eles, 
mas ela se tornara real to para ele na ltima semana. Muito mais do que desejava.
       No dia seguinte, ele e Sasha foram  praia. No final das contas foram apenas a 
Montauk, em Long Island, e foi relaxante e gostoso. Ele correu pela praia enquanto ela fazia 
ginstica, e pararam para jantar lagosta no caminho de volta para casa. J eram onze e meia da 
noite quando voltaram para o apartamento dele, e caram na cama como duas crianas. Ela 
estava bem-humorada e fizeram amor sem que Sasha se queixasse de que a paixo dele ia 
machucar-lhe o corpo ou causar-lhe danos permanentes. E dormiram abraados at s dez 
horas da manh seguinte, quando ela saltou da cama, olhou para o relgio e um grito que o 
acordou.
       - O que foi?... onde voc est?... -Ele apertou os olhos contra a luz do sol que entrava 
pelo quarto, viu quando ela correu para o banheiro, e escutou quando ligou o chuveiro. 
Afastou os lenis e entrou pesada e lentamente no banheiro. - O que est fazendo?
       O banheiro estava cheio de vapor, ela estava com o cabelo preso no alto da cabea e 
o rosto virado para a gua que caa.
       - O que  que voc acha?
       - O que est fazendo acordada to cedo?
       - Prometi a Dominic que estaria na casa dele s onze e meia.
       - Ora, por favor! Porqu essa pressa?
       - Vou fazer o almoo para todo mundo - anunciou ela, desligando o chuveiro e 
comeando a se enxugar.
       - Que interessante. Aqui voc nunca cozinha. - Ele estava a aborrecido. Tinham 
passado um dia to agradvel na vspera, e agora estava com tanta pressa em deix-lo. Ele 
queria fazer amor com ela de novo antes que fosse embora, mas ela no parecia disposta.
       - Isso  diferente - ela explicou, parecendo que o que dizia fazia sentido. - Eles so 
danarinos.
       - Eles comem de modo diferente que as outras pessoas? 
       - No seja bobo. - No era bobo. J estava ficando cansado dos agravos 
interminveis. - Ligo para voc hoje  noite quando chegar em casa.
       - No se incomode. - Ele saiu do banheiro, pegou um cigarro na cmoda e 
acendeu-o. Raramente fumava, mas quando ela o perturbava especialmente, o fumo parecia 
aliviar a tenso, ou aument-la, nunca sabia ao certo. Mas tinha algum efeito.
       - John - sorriu ela angelicalmente enquanto escovava o cabelo com a escova dele -, 
no seja infantil. Eu at levaria voc junto, mas  que so todos danarinos. Ningum traz 
gente de fora para essas festas. Sabe - sorriu e, pela primeira vez, ele viu algo de vingativo nos 
olhos dela -,  mais ou menos como quando voc visita a sua famlia em Boston. - Ento era 
isso. Pelo menos em parte. Bem, para o diabo com os joguinhos e os danarinos dela. - Vejo 
voc amanh  noite? - Ela hesitou, graciosa, no quarto.
       - Possivelmente. Tenho muito trabalho para fazer na segunda.
       Ela caminhou at junto dele, o corpo firme e flexvel se apertando contra o dele e 
beijou-o com fora nos lbios, o que o excitou visivelmente.
       - Eu amo voc. - Tinha um jeito de provoc-lo que ele amava e detestava ao mesmo 
tempo, e antes que ele pudesse dizer qualquer coisa ela j se fora, e ele queria gritar de 
frustrao.
       Por falta de coisa melhor para fazer, ele ligou para o irmo mais moo e passou o dia 
em Greenwich com eles, jogando duplas com Pattie, Philip e o filho deles, e nadando na 
piscina com a filha deles. Foi um dia sereno, descontrado, e ele sempre se sentia embaraado 
em admitir para si mesmo, como o fez na viagem de volta para casa, o quo intensamente eles 
o entediavam. Mas eram gente decente, e constituam sua famlia, afinal de contas. Alm 
disso, fora uma fuga agradvel de Nova York e das coisas que lhe lembravam Sasha.
       O telefone tocava quando chegou em casa, mas no atendeu. No queria ouvir falar 
de Dominic, Pascal, Pierre, Andr, Josef, Ivan ou qualquer um dos outros. Estava cheio deles 
e at um pouco de Sasha. E na manh seguinte ele foi at  firma de advocacia de Arthur e 
examinou os arquivos do esplio de George Gorham depois que Arthur deu carta branca, 
encontrando exactamente o que desejava. O prprio Arthur poderia ter encontrado, anos atrs, 
se tivesse procurado. O ltimo contacto que tinham tido com Margaret Millington Gorham foi 
em 1962, e nessa poca ela j era a condessa de Borne e morava na rue de Varenne em Paris. 
No houvera mais nenhum contacto desde ento, mas ela no podia ser muito difcil de 
encontrar. E quando ele procurou na lista telefnica de Paris naquela mesma tarde, viu que ele 
ainda morava no mesmo endereo, sob o nome de Borne, P. de, e o endereo era o mesmo. 
Bem, se ela ainda estivesse viva e podesse lhe dizer onde estava Alexandra, seria sopa no mel.
       
       Captulo 19
       - Outra vez! - Sasha parecia ofendida, mas ele no se comoveu, desta vez. Negcios 
eram negcios. - Como , arranjou um emprego na companhia area? - Ela estava furiosa. Era 
a terceira viagem dele em trs semanas.
       - No vou demorar. - As coisas entre eles estavam um pouco mais frias.
       - Para onde, dessa vez?
       Ele sorriu. Jacksonville era que no.
       - Paris. Pelo menos as minhas condies de trabalho so agradveis. - Ela no 
respondeu, a principio, depois deu de ombros. Quem sabe ele estava mentindo e viajando para 
l e para c com uma variedade de namoradas? Nunca viajara tanto assim antes. Parecia 
estranho que agora estivesse fazendo as investigaes pessoalmente, como lhe dissera. - Devo 
estar de volta l pela sexta-feira, o mais tardar na segunda.
       - J se esqueceu? Viajo em turn na semana que vem, durante trs semanas. S vou 
v-lo quando voltar. A no ser que queira pegar um avio e ir me ver uma noite dessas.
       Mas ele sabia como era a coisa, um bando de danarinos completamente histricos e 
nervosos e Sasha quase incoerente, mal percebendo a existncia dele. 
       - Tudo bem, eu tambm vou ficar ocupado.
       Mas eles iam passar um ms sem se ver. Um ano atrs aquilo o teria preocupado. 
Agora estava achando que poderia ser um alvio, ao menos para ele. A obsesso dela com o 
trabalho comeava a oprimi-lo.
       Eles dormiram juntos lado a lado aquela noite, sem fazer amor, e ele a deixou em 
casa na manh seguinte, a caminho do aeroporto.
       - Vejo-a quando voc voltar. - Beijou-a na boca e ela sorriu para ele, parecendo 
muito inocente e pura.
       - Faa boa viagem. Vou sentir saudades. - Palavras invulgarmente gentis para ela, 
normalmente estaria prevendo o tempo com base na dor nos seus ps. E a sua sbita meiguice 
fez com que lamentasse v-la partir. O problema com ela era que no fazia mesmo ideia de 
como era totalmente egocntrica. Para ela, tudo parecia perfeitamente normal.
       Acenou para ela de dentro do txi e prometeu ligar de Paris quando o carro fez a 
curva. Dali a um momento estava imerso em pensamentos, imaginando o que iria encontrar 
em Paris. Sem dvida no uma viagem como a de Hilary, se Margaret Gorham tinha se 
casado com um conde francs. Pelo menos esperava que no.
       A pedido de Arthur, viajou de primeira classe, e o seu voo pousou em Paris  
meia-noite, hora local. Foi directamente para o Bristol depois de passar pela alfndega. J 
estava na cama s duas horas, mas cansado demais para dormir, e j eram cinco da madrugada 
quando pegou no sono, ficando horrorizado ao descobrir que eram onze horas ao acordar na 
manh seguinte. Saltou da cama, pediu caf e croissants e discou para o nmero de Margaret 
antes de tomar o seu banho. Pediu para falar com a condessa de Borne quando o telefone foi 
atendido por uma voz masculina falando francs, e tropeou no seu francs limitado quando o 
mordomo perguntou: "De la part de qui, monsieur?" Deu-lhe o seu nome, mas no conseguiu 
traduzir as palavras "mas ela no me conhece". Porm, fosse o que fosse que fora dito do 
outro lado, ela veio atender dali a um momento.
       - Monsieur Chapote? - ela falou em francs com um forte sotaque americano, 
parecendo intrigada.
       - Desculpe. - Sorriu. Gostava da voz dela. - John Chapman de Nova York.
       - Santo Deus. Andr no consegue entender os nomes americanos. Eu o conheo? - 
Ela era franca e directa e havia algo na sua voz que sugeria um riso pronto.
       - No, senhora. Estou aqui para tratar de um negcio que gostaria de discutir com a 
senhora to logo lhe fosse possvel. - No tinha a inteno de tocar no assunto por telefone.
       - Ah. - Ela pareceu um pouco espantada. - Todos os assuntos de negcios so 
tratados em Nova York. - Disse-lhe o nome da firma. - Excepto os de meu marido,  claro.  
sobre algum investimento?
       - No. - No queria assust-la, mas tinha que lhe dizer alguma coisa. - Na verdade,  
uma coisa um pouco mais pessoal.  sobre uma investigao que estou fazendo para um scio 
de seu falecido marido. 
       - Pierre? Mas ele no tinha scios. - Era uma conversa muito confusa.
       - Desculpe. Estou me referindo ao Sr. Gorham.
       - Ah, pobre George... mas isso faz tanto tempo. Ele morreu em 1959... h quase trinta 
anos, Sr.... h... Chapman.
       - Sei disso, e essa histria  muito antiga.
       - Houve algum problema?
       Ela parecia preocupada.
       - De forma alguma. Estvamos s esperando que a senhora nos pudesse ajudar a 
encontrar uma pessoa. Seria uma grande ajuda para ns se pudesse. Mas prefiro no entrar em 
todos os detalhes por telefone. Se puder me dar alguns momentos do seu tempo, gostaria 
muito de v-la...
       - Est bem. - Mas ela parecia indecisa. Gostaria de poder perguntar a Pierre, ou a 
outra pessoa, se achavam que devia ver esse homem. E se fosse um charlato ou um tipo de 
criminoso... no que parecesse ser. - Talvez amanh, Sr. Chapman? E o nome da sua firma em 
Nova York?
       Ele sorriu. Estava certa em querer fazer uma verificao.
       - Chapman Associates, na rua 57. Meu nome .John Chapman. que horas gostaria de 
me receber?
       - s onze horas? - Queria logo ter esse encontro. Ele estava comeando a deix-la 
nervosa. Mas quando verificou com seus advogados em Nova York, eles conheciam a firma, e 
seu advogado conhecia John Chapman pessoalmente, assegurando-lhe que era inteiramente 
ntegro. S no podia imaginar o que Chapman pretendia, falando com Margaret de Borne em 
Paris.
       Ele chegou pontualmente na manh seguinte, o mordomo idoso deixou entrar com 
uma mesura discreta, depois conduziu-o ao andar superior para esperar no gabinete da 
condessa. Era uma sala cheia de belos mveis Lus XV e um minsculo lustre russo com o 
que parecia ser um milho de cristais que refletiam a luz do sol que entrava na sala E a 
lanavam numa infinidade de arco-ris de encontro s paredes. Era a coisa mais bonita que 
John j vira, e ele nem a ouviu entrar enquanto estava as belas luzes e o lindo jardim  
distncia.
        - Sr. Chapman? - Ela era alta e elegante, com um aperto de mo firme e uma voz 
forte, e a expresso dos seus olhos eram simptica e amistosa. Usava um costume amarelo de 
Chanel e os seus sapatos clssicos e um lindo par de brincos de brilhantes amarelos, presente 
do falecido marido. Sorriu calorosamente para John e indicou uma das cadeiras maiores da 
sala. A maioria delas eram extremamente pequenas e no muito convidativas, o que sempre a 
fazia sorrir. Riu enquanto ambos se sentavam. - Receio que nenhuma dessas peas tenha sido 
projectada para pessoas de nossas propores. No uso muito esta sala. Foi projectada como 
um "gabinete de senhora" e nunca me acostumei com ele. A minha neta de seis anos  a nica 
pessoa que conheo que parece confortvel aqui. Minhas desculpas.
       - Absolutamente, condessa.  linda. - Parecia estranho cham-la assim, 
especialmente com o seu sorriso pronto e risada feliz, ele achava que ela provavelmente 
esperaria formalidade, e queria-a como sua aliada. - Infelizmente estou aqui para tratar de um 
assunto um tanto delicado. Fui contratado por Arthur Patterson. - Ele esperou para que o 
nome produzisse algum efeito, mas ela no parcia conhec-lo. - Ele foi scio do Sr. Gorham 
h muitos anos e foi quem lhes trouxe Alexandra Walker para ser adotada. - Observava os 
olhos dela e a condessa de repente parecia que ia desmaiar. O rosto ficou plido enquanto o 
observava. Esperou que ele continuasse sem dizer uma palavra. Mas era bvio que agora se 
lembrava de Arthur. - Ele est muito doente agora, e seja por que motivos forem... todos 
pessoais, eu lhe asseguro... est ansioso para encontrar as trs meninas Walker. Os pais eram 
seus amigos ntimos e ele se sente na obrigao de saber que elas esto bem antes de...
       Enquanto ele buscava a palavra certa, ela interrompeu:
       - No  um pouco tarde, Sr. Chapman? Elas no so mais crianas.
       - Concordo. Mas ele parece ter deixado tudo para a ltima hora e agora quer se 
certificar de que tiveram uma vida boa.
       - s custas de quem?
       - Como disse?
       Ela parecia zangada. E se ps de p e comeou a caminhar pelo aposento, andando 
por entre a chuva de arco-ris.
       - s custas de quem quer se certificar? Sem dvida essas moas j no se importam 
com Arthur Patterson, se  que o conheceram. E se o conheceram mesmo, no se lembraro 
dele agora. Eram todas muito novinhas. - Chapman ficou desalentado ao ver a expresso dos 
olhos dela. Era evidente que estava disposta a fazer qualquer coisa para mant-lo afastado da 
filha. - Pelo amor de Deus, que importncia tem isso? Elas so todas adultas. No o 
conhecem. Nem mesmo se conhecem.
       John Chapman soltou um suspiro. De certa forma, a condessa tinha razo. Mas ele 
estava trabalhando para Arthur.
       - Esse  parte do motivo para a minha investigao. - Falou com voz suave, ansioso 
para acalm-la e mostrar-lhe que podia confiar nele. - O Sr. Patterson quer reunir de novo as 
irms.
       - Ah, meu Deus. - Ela se sentou pesadamente numa das pequenas e desconfortveis 
cadeiras Lus XV. E ento, com intransigncia: - No vou permitir. Que necessidade h de 
tortur-las? Minha filha tem trinta e quatro anos, sabe l Deus que idade tm as outras. Por 
que iriam querer descobrir duas irms desconhecidas? Pode ser embaraoso para elas, sem 
falar em doloroso. Conhece as circunstncias das mortes dos pais delas, Sr. Chapman? - Ele 
assentiu e ela continuou: - Eu tambm. Mas a minha filha no conhece, e nem tem 
necessidade de conhecer. George e eu a amvamos muito, como se fosse nossa, e o conde a 
aceitou como sua filha. Ela cresceu como nossa filha, com todas as vantagens que lhe 
pudemos dar, tem uma vida feliz com um marido e filhas. No precisa desse sofrimento.
       Sem falar em como poderia ocult-lo do marido. S a ideia j apavorava Margaret. 
No apenas ela era adotada, mas o seu pai de verdade tinha assassinado a me.
       - Compreendo, mas quem sabe ela gostaria de conhecer as irms...  possvel... quem 
sabe ela tenha o direito de fazer essa opo pessoalmente. Ela sabe que  adotada?
       Margaret hesitou, pensativa.
       - Sim. E no. Ns lhe contamos... h muito tempo... mas no estou certa de que se 
lembre. No tem mais nenhuma importncia. Para ningum, Sr. Chapman. No vou falar a ela 
da sua visita.
       - Isso no  justo para com ela. - Falou numa voz tranquila - E se a senhora me forar 
a isso, eu a encontrarei. Prefiro que a senhora fale com ela e explique o motivo para minha 
visita. Acho que seria bem mais fcil para ela.
       Os olhos de Margaret de Borne se encheram de lgrimas de raiva.
       - Isso  chantagem. O senhor est me forando a contar-lhe uma coisa que a far 
muito infeliz.
       - Se ela no quiser v-las, no ser preciso. Tem o direito de recusar a v-las. 
Ningum pode for-la. Mas tem o direito de escolher. Talvez queira v-las. 
       - Por qu? Por qu, depois de trinta anos. Que tipo de gente so elas agora? O que ela 
tem em comum com elas? Nada. 
       Sem dvida isso era verdade no caso de Hilary, mas ele ainda no sabia sobre 
Megan. Enquanto Hilary estava sendo chutada daqui para l e estuprada pele tio e morando 
em lares de adoo pavorosos, a irm cavalgava pneis em Paris. Parecia um golpe injusto do 
destino. Pelo menos uma delas fora abenoada, a julgar pelas aparncias, aquilo apenas fez 
com que ele sofresse mais por Hilary. A vida no fora bondosa para com ela nem por um 
nico momento.
       - Condessa... por favor... ajude-me a tornar a coisa fcil para ela. Ela tem o direito de 
saber. E eu tenho a obrigao de lhe contar.
       - Contar o qu?
       - Que tem duas irms neste mundo, e que elas talvez queiram v-la.
       - J as encontraram?
       Ele sacudiu a cabea.
       - No, mas acho que vamos encontrar. - Estava sendo optimista, mas no queria 
partilhar os seus temores com ela.
       - Por que no volta quando as tiver encontrado?
       - No posso me dar ao luxo de perder um s momento. J lhe falei, o Sr. Patterson 
est morrendo.
       - Foi uma pena no ter morrido antes de decidir arruinar a vida de todo mundo.
       Ela parecia amarga e muito zangada. Durante anos ela protegera Alexandra da 
verdade, e agora este estranho, este homem vinha mago-la. Dava-lhe vontade de mat-lo, e 
John teve pena dela. Era uma mulher simptica, e era lamentvel que isso a estivesse 
perturbando.
       - Sinto muito. De verdade.
       Ela o fitou intensamente, por longo tempo. 
       - Talvez sinta mesmo. No pode dizer a ele que no pde encontr-la?
       John sacudiu a cabea e ela soltou um suspiro, depois continuou:
       - Vou ter que pensar no assunto. Ser um grande choque para ela, especialmente se 
eu tiver que contar-lhe sobre os pais. - Mas pelo menos, John pensou consigo mesmo, ela 
tinha idade bastante para suportar o golpe. No era uma mocinha, nem uma criana. Talvez 
fosse bom ele ter esperado. - Vou me encontrar com ela amanh para almoarmos. Tocarei no 
assunto, se achar um momento apropriado
       Ele assentiu. No podia pedir muito mais.
       - Estou hospedado no Bristol. Gostaria de falar eu mesmo a ela, depois que a senhora 
lhe contar.
       - Ela pode no desejar v-lo, Sr. Chapman. Na verdade, espero que no deseje. - 
Margaret de Berne empertigou-se toda e no estendeu a mo, enquanto tocava chamando o 
mordomo. - Obrigada pela sua visita. Bom dia, Sr. Chapman.
       - Obrigado, condessa.
       Andr o acompanhou at l embaixo, ostentando um ar severo de desaprovao. Era 
evidente para ele, pelo modo como a condessa se despedira, que John Chapman era persona 
non grata, e ele o tratou de modo condizente, enquanto fechava a porta ruidosamente s suas 
costas.
       
       Captulo 20
       Alexandra encontrou a me, como sempre, na pequena sala de estar florida que 
preferia, mas ela no estava bordando quando chegou e, o que no era do seu feitio, usava um 
vestido azul-escuro e muito poucas jias.
       - Est muito sria hoje, mame. Teve reunio no banco hoje de manh?
       Alexandra beijou-a carinhosamente e Margaret sorriu para ela, mas o sorriso parecia 
distrado e sem entusiasmo. Mal dormira a noite anterior, depois da visita de Chapman pela 
manh.
       - No, no, estou bem - disse Margaret, perturbada, e correu os olhos pela sala como 
que procurando um meio de fuga. E Alexandra franziu a testa, observandoa.
       - Algum problema?
       No a vira assim to nervosa desde a morte do pai, e se perguntava se algo ocorrera 
para perturb-la.
       - No, s algumas reunies de negcios desagradveis ontem. - Sorriu nervosamente. 
- Nada com que se preocupar, querida. Ah, chegou o almoo.
       Pareceu imensamente aliviada e atacou a salada, contando a Alexandra as ltimas 
fofocas do salo de cabeleireiro, e foi um alvio para Alexandra ouvir a me rindo. Mas era 
evidente que ela estava preocupada com alguma coisa e, quando a refeio chegou ao fim, 
ficou estranhamente calada.
       - Mame. - Ela fitou a me seriamente. - O que a est preocupando? Sinto que tem 
alguma coisa errada. O que ?
       Esperava que no fosse a sade dela. Era extremamente bem conservada, mas 
mesmo assim... E ento, de repente, achou que tinha sido por isso que fora a Nova York na 
semana anterior. Talvez tivesse ido a um mdico, e no fazer compras. Trouxera coisas 
maravilhosas para as meninas e um belo Galanos novo para Alexandra.
       Mas Margaret apenas a olhava tristemente, desejando nunca ter ouvido falar em John 
Chapman. Inspirou fundo e esperou enquanto Andr servia o caf e depois saa discretamente 
da sala. No que tivesse importncia, ele era terrivelmente surdo e no falava ingls. Mas 
mesmo assim, Margaret esperou.
       - Recebi uma visita bem desagradvel ontem. Uma espcie de fantasma do passado. - 
Olhou para a filha e seus olhos se encheram de lgrimas. Alexandra ficou chocada. Nunca 
vira a me assim to preocupada.
       - Que espcie de fantasma?
       - Ahhh... - Margaret no conseguia se posicionar. E olhou para a filha e enxugou os 
olhos. - No sei por onde comear.  uma histria to longa e confusa. - Assoou o nariz 
discretamente num lencinho de renda que enfiara na manga e estendeu a mo para Alexandra, 
que se acercou mais e segurou a mo da me com fora. Era bvio que, fossem quais fossem 
as notcias que esse homem trouxera, eram pavorosas. Margaret olhava para ela e lutava para 
conter as lgrimas enquanto Alexandra lhe acariciava a mo para tranquiliz-la. - Lembra-se 
de muito tempo atrs, de muitssimo tempo atrs, antes de eu me casar com Pierre?
       - No, mame. - Tudo era um borro distante, agora. Supunha que, se se esforasse 
muito, poderia lembrar de alguma coisa. - Por qu? Do que  que devo me lembrar?
       - Lembra-se de que fui casada com outra pessoa antes do seu pai? Quero dizer, antes 
de Pierre... 
       Ia ser to difcil quanto esperava, e Alexandra estreitou os olhos pensativa, depois 
assentiu.
       - Sim... mais ou menos... suponho que aquele foi meu pai verdadeiro... mas, para ser 
sincera, no me lembro dele. S me lembro de papa.
       Margaret assentiu. Era o que sempre pensara.
       - Bem, fui casada antes, e isso era bvio porque acho que voc deve se lembrar de 
que Pierre a adotou logo depois de nos casarmos.
       Alexandra sorriu ante a lembrana imprecisa. Quase tinha se esquecido, at que a 
me despertou-lhe a memria. Mas agora lembrava vagamente. Tinha ido ao escritrio de um 
advogado, e  Maire, e depois foram almoar no Maxim's para comemorar. Fora o dia mais 
feliz da vida... e era estranho que, de uma certa forma, quase tinha se esquecido.
       -  gozado. Acho que quase tinha me esquecido que era adotada. - E ento corou. - 
Suponho que devesse ter contado a Henri, mas nunca pensei que era realmente importante. E 
papa disse... 
       As duas sabiam o que Pierre lhe dissera. E ela pressentira instintivamente que Henri 
ficaria muito zangado se soubesse que era adotada. Portanto, nunca lhe contara, ou se 
permitira recordar. 
       - O seu pai a considerava assim. Voc era como a carne da carne dele... e mais... - 
acrescentou lentamente. E depois continuou com a sua histria dolorosa. - Mas voc foi 
adotada - fez uma pausa, como que tentando ganhar coragem - no apenas por Pierre... mas 
pelo meu falecido marido anterior. Ns a adotamos quando voc estava com cinco anos, os 
seus pais estavam ambos mortos. Um scio da firma de George veio nos procurar e falou de 
voc... e nos apaixonamos por voc da primeira vez em que a vimos. 
       As lgrimas escorriam copiosamente pelas suas faces e pingavam nas mos juntas, 
enquanto Alexandra a fitava. O que ela estava dizendo? O que queria dizer? Margaret no era 
sua me? De repente, abraou Margaret e a apertou com fora, como se tivesse medo de 
perd-la.
       - No me lembro nada dessa parte, eu pensei... sempre pensei que fosse minha me... 
       Como podia ter esquecido?... Como era possvel?... No que modificasse alguma 
coisa. Mas quem tinham sido seus pais, e quem era sua me? 
       Margaret fungou e assoou o nariz de novo. Isso ainda era mais difcil do que tinha 
esperado. 
       - Voc tinha quase quatro anos quando seus pais morreram... a sua me pelo menos... 
e seu pai morreu alguns meses mais tarde. Voc ficou com uma tia por parte de pai, mas ela 
no teve condies de ficar com todas... com voc... - Tropeou e continuou: - Ento um 
amigo da famlia estava procurando algum para lhe adotar. E voc nos tornou as pessoas 
mais felizes do mundo e, seis meses mais tarde, George morreu e ns viemos para a Frana e 
voc se lembra do resto depois.
       Ela estava passando por cima de algumas coisas, mas Alexandra ainda tentava aceitar 
o facto de que Margaret no era sua me. 
       - Como foi que meus pais morreram? - Fez-se um longo silncio enquanto seus olhos 
se encontraram e permaneceram fitos uns nos outros, e Alexandra sentiu um calafrio na 
espinha. Soube, bem no intimo, que algo terrvel tinha acontecido. Margaret fechou os olhos e 
depois os abriu, falando numa voz meiga.
       - Houve uma briga terrvel que ningum nunca entendera... ele era um actor famoso 
da Broadway e dizem que ela era muito linda...
       - No foi isso que lhe perguntei, mame... - As lgrimas corriam pelas faces de 
Alexandra enquanto esperava. Sabia, j sabia, essa era a parte horrvel, mas agora precisava 
ouvi-lo de Margaret.
       - O seu pai a matou.
       Alexandra falou num sussurro atormentado, olhando para alm da me, para o 
jardim:
       - E meu pai cometeu suicdio. Disseram-me que ele tinha se matado... - A mo dela 
voou at os lbios e um soluo lhe e escapou, enquanto Margaret a tomava nos braos e a 
deixava chorar. - E eu esqueci... esqueci de tudo... como pude esquecer? E minha me tinha 
cabelos ruivos... e falava francs, no ? Ah, meu Deus... mas  s isso que me lembro. - E 
ento ela olhou para Margaret de novo, a dor das lembranas estampada no seu rosto 
devastado Ias lgrimas nascidas do que recordara subitamente. - Ela era francesa?
       Margaret falou com dor evidente enquanto respondia. Era indescritivelmente terrvel, 
e ela detestou John Chapman e Arthur Patterson por submet-las a isso to 
desnecessariamente, tantos anos mais tarde.
       - Acho que era francesa... provavelmente... - E provavelmente era ruiva, porque 
Alexandra o era, quando no estava se fingindo de loura para agradar o marido. E a pequena 
Axelle se parecia muito com Alexandra na mesma idade. Era como rev-la do jeito que era da 
primeira vez em que Margaret a vira.
       - Por que meu pai se matou? Por que a matou? - Queria saber. Era horrvel, mas de 
repente ela precisava das respostas s perguntas que estavam h tanto tempo esquecidas.
       - Ele se matou porque foi condenado por mat-la. Foi uma histria terrvel, chocante. 
E deixou voc e... e deixou voc rf. - Mas no podia ficar evitando o resto da histria. Essa 
era a pior parte. Tinha que lhe contar. Segurou de novo a mo de Alexandra e alisou 
suavemente os dedos graciosos que em nada se pareciam com os seus. Na verdade, 
fisicamente, eram muito diferentes, mas Alexandra nunca ligara muito para isso. E ento, de 
repente, compreendeu... mas s o que se lembrava era do cabelo ruivo, e nada mais... no 
havia rosto para acompanh-lo. Sentia que seu corao estava sendo arrancado do peito, como 
se a dor e as lembranas h muito enterradas estivessem surgindo para atorment-la. - Voc 
tinha... voc tinha duas irms. As palavras atingiram Alexandra como uma facada e ela podia 
senti-las ecoando na sua cabea como balas ricocheteando... duas irms... duas irms... duas 
irms... Axie, eu a amo... eu a amo... Meu Deus, como pde ter-se esquecido? Lembrou-ser do 
toque, do cheiro... cabelos negros, muito negros e olhos grandes e tristes... Hillie... Hillie... e 
um beb. Sem pensar, Alexandra se afastou da me e cruzou a sala para ir olhar o jardim. - 
No podamos ficar com vocs trs... no nos sentamos...
       Alexandra no escutava a voz, as desculpas, ficava ouvindo as mesmas palavras - 
"sempre se lembre do quanto a amo, eu a amo, Axie" - e uma garotinha soluando 
incontrolavelmente. Quem era aquela garotinha? Seria a sua irm?
       - Como elas se chamavam? - Tinha que saber. Tinha, mas Margaret sacudiu a cabea. 
Sabia muito pouco a respeito das outras.
       - No sei. S sei que uma era mais velha do que voc...
       Alexandra terminou a frase por ela como que em transe:
       -...e a outra era um beb. - Fitou Margaret como se estivesse sentindo muita dor. - 
Lembro-me delas, mame... lembro de alguma coisa agora. Como pude ter esquecido?
       - Talvez fosse doloroso demais para voc, na poca. Talvez fosse mais fcil 
esquecer. Voc no fez nada de errado. Tinha o direito a uma nova vida. Ns a amvamos 
muito e fizemos todo o possvel para faz-la feliz.
       Parecia to arrasada, de repente era como se, de um s golpe, tivesse perdido a sua 
nica filha, e Alexandra se dirigiu a ela e rodeou com os braos a mulher que conhecia como 
me h trinta anos.
       - Voc  a minha me, mame. Sempre ser. Nada mudar isso.
       - Fala srio? - precisava escutar aquilo, e chorou sem constrangimento enquanto 
Alexandra a tranquilizava. -  terrvel que essa gente tenha voltado para atorment-la agora. 
Eles no tm o direito de fazer isso.
       - Por que voltaram - Alexandra olhou para ela com os olhos cheios de perguntas.
       - Arthur Patterson, o homem que providenciou a sua adoo, era um amigo da 
famlia... de seus pais... e ele quer saber agora que voc e suas... - Quase se engasgou com a 
palavra. -...irms... esto bem. E, se possvel, quer reuni-las.
       Alexandra pareceu chocada.
       - Eles sabem onde esto as outras?
       - Ainda no. Mas esto procurando. E a encontraram, ento suponho que vo 
encontrar as outras.
       Alexandra assentiu. Era muita coisa para absorver de uma s. De repente, numa 
nica tarde, adquirira duas irms e um pai matara a me de cabelos ruivos que provavelmente 
era francesa, a me que amara a vida toda no era mais a sua me, sem falar nos dois pais 
adotivos que descobrira, ao invs de um s. Era muita coisa para engolir de uma s vez, e ela 
sorriu debilmente para Margaret e tomou um grande gole de vinho com um ar de quem pede 
desculpas.
       - Acho que estou precisando.
       - Eu tambm. - E com tais palavras Margaret se levantou, tocou chamando Andr. 
Quando ele apareceu, disse-lhe para trazer para ela um Bourbon duplo. - Os hbitos 
americanos custam a morrer, especialmente em momentos de crise.
       E ento se voltou para Alexandra, copo na mo, girando lentamente os cubos de gelo 
com um dedo.
       - Quer v-las, Alex? 
       Alexandra ergueu os olhos para ela, pensativa.
       - No sei. E se nos detestarmos e formos terrivelmente diferentes? Trinta anos  
muito tempo.
       - Foi o que eu disse a Chapman. Na verdade,  ridculo. O que vocs podem ter em 
comum?
       Alexandra concordou e, no entanto havia uma atrao inegvel em encontrar as 
outras. Mas havia outro problema que tinha de enfrentar primeiro, bem mais premente. O 
marido.
       - O que voc acha que Henri diria disso tudo, mame? - Fitou a me cautelosamente, 
mas ambas sabiam o que Henri diria. Ficaria ultrajado. - Supe que faria alguma diferena 
para ele?
       Margaret podia ver que ela queria desesperadamente tranquilizar-se. Mas no podia 
ajud-la. O escndalo sem dvida seria demais para o marido de Alex.
       - No devia, se ele a ama. Mas acho que ser um choque para ele. Isso  inevitvel. 
E, francamente, ainda no veio por voc deve lhe contar. Seu pai e eu conversamos a respeito 
quando se casou, e decidimos que no era importante. Ns a amamos,  nossa filha de todas 
as maneiras possveis e o que acontece trinta anos no interessa a ningum. Talvez nem 
mesmo ao seu marido.
       - Mas isso  to desonesto, mame. Devo a ele contar-lhe a verdade. No ? - Os 
olhos dela ainda estavam cheios de perguntas.
       - Por qu? Para que perturb-lo sem necessidade? - Margaret tentou parecer calma, 
mas a coisa toda estava virando um pesadelo.
       - Porque o facto de eu ser filha do conde de Borne  muito importante para ele, 
mame. Ele acredita em toda essa histria de linhagem, e voc sabe disso. Mal consegue 
tolerar o facto de voc ser americana, pelo amor de Deus, e s o facto de que sabe que voc 
vem de uma famlia importante  que o torna disposto a superar isso. Que tal lhe contar, em 
vez disso, que meu pai era actor, e que matou a minha me, de origem desconhecida? Sou a 
filha de um assassino desconhecido e suicida, ainda por cima americano, com duas irms no 
identificadas. - Ela abriu um sorriso, mesmo a contragosto. Era uma situao difcil. - 
Francamente, acho que ele morreria de infarto. E, se sobrevivesse, se divorciaria de mim. E 
tiraria as minhas filhas de mim, se pudesse. Porm, se eu no lhe contar, estarei sendo 
conscientemente desonesta.
       - No seja tola, Alex. No estamos na Idade Mdia. Ele no seria to pouco razovel. 
E alm do que, ainda acho que no deve contar.
       - Voc no conhece o meu marido. Se eu lhe contar, poder me deixar e s meninas, 
mas o resto no  to exagerado. Especialmente com as suas aspiraes polticas. Meu Deus, 
mame, ele morreria... E se descobrisse de outra forma... se eu no lhe contasse e algum 
descobrisse... - Alexandra estremeceu visivelmente enquanto andava de um lado para o outro 
da sala, e Margaret no pde discordar dela.
       - J lhe disse. No conte a ele.
       - E se ele descobrir? E se houver um escndalo? Pelo menos, eu mesma no sabia. 
Mas agora que sei, como posso deixar de lhe contar?  enganoso.
       Antes tambm era, mas agora ela estava escondendo uma montanha de informaes.
       - Ora, no seja to inocente, pelo amor de Deus. - Tomou um grande gole de 
Bourbon e olhou para a filha. - Voc no pode ser sempre a esposa perfeita. Tem de pensar 
em si mesma de vez em quando, no que o faa muitas vezes. E seria uma estupidez fazer 
uma confisso para Henri. Para que serviria, excepto causar-lhe inmeros problemas?
       Ela no podia discordar da me. Havia muita coisa em jogo. Podia perder tudo. O 
marido. O casamento. As filhas.
       - Mas e se eu decidir que quero ver as outras? Como vou explicar isso? Como posso 
escapar para os Estados Unidos para ir me encontrar com as minhas irms? No posso dizer 
que venho almoar aqui e depois desaparecer por cinco dias, no ?
       - Tem certeza de que quer ir? - Margaret ficou desapontada, mas Alexandra sacudiu a 
cabea.
       - Ainda no tenho certeza... mas, se quisesse ir, no sei o que diria ao meu marido.
       A soluo de Margaret seria simplesmente no ir, mas sabia que no era justo dizer 
isso. Tinha seus prprios motivos para no querer que Alexandra fosse, era uma tolice, mas 
temia que, de alguma forma, fosse perd-la para o fantasma da me morta h muito tempo e 
trs irms que ajudariam a provar que a voz do sangue falava mais alto. Era infantil, porm 
queria que Alexandra voltasse as costas para elas. Mas foi sensata o bastante para no dizer 
nada.
       - Acho que no deve revelar nada a ele, Alexandra. Nada mesmo. Seria bem mais 
sensato ficar calada. - A seguir rabiscou algo num pedao de papel, e entregou a ela o nome 
de John Chapman, e o nome e o nmero do telefone do seu hotel. - O Sr. Chapman quer que 
voc ligue para ele, para poder lhe explicar tudo. Se voc quiser, pode ligar para ele no 
Bristol.
       - Por que ele est aqui? 
       Margaret hesitou, mas apenas por um instante.
       - Veio v-la.
       - Foi por isso que veio a Paris? - Margaret acenou a cabea afirmativamente. - Ento 
vou ligar para ele. Ao menos, devo-lhe isso. - E enquanto metia o papel com o nome dele na 
bolsa, viu as horas. Passava das cinco, e ela ficou horrorizada. Tinha que ir para casa, para 
Henri e as meninas. Fora uma tarde espantosa, cheia de confisses inesperadas. E Margaret 
foi com ela at  porta e abraou-a com fora e por longo tempo antes de ela partir, enquanto 
Alexandra a fitava nos olhos com as lgrimas rolando pelas faces de novo. - Mame, por 
favor, sabe o quanto eu a amo.
       - Voc sempre ser a minha menininha.
       As lgrimas comearam a deslizar pelas suas faces de novo e as duas mulheres 
ficaram abraadas por longo tempo antes de Alexandra ir embora. Fora uma tarde chocante e 
ela mal podia pensar direito enquanto se dirigia para casa. Ficava escutando uma voz do 
passado distante... "Axie, lembre-se sempre do quanto a amo"...
       
       Capitulo 21
       Alexandra continuava em estado de choque quando chegou em casa. Era difcil 
absorver tudo o que a me lhe dissera. Sentia-se como se estivesse se movendo num sonho e 
ficava tentando recordar coisas que tinham sumido h anos... a mulher de cabelos ruivos... e a 
garotinha que chamava de Hillie.
       - Voc est atrasada. - Henri aguardava no gabinete dela quando Alexandra entrou no 
aposento, sentindo-se como se tivesse pesos de chumbo nos ombros.
       - Desculpe, eu... - Ela deu um salto ao v-lo, despertada do seu devaneio. Porm, aos 
olhos de Henri, aquilo a fez parecer culpada. - Minha me tinha uns papis que precisei 
discutir com ela... No pensei que fosse levar... Henri, desculpe. - Havia lgrimas nos seus 
olhos quando se virou para ele. Henri olhava para ela como se no estivesse acreditando.
       - Onde esteve?
       - J lhe disse. - As mos dela tremiam enquanto pendurava o casaco do costume. Ele 
a fazia sentir-se como se, de alguma forma, o tivesse atraioado. - Estive na casa de minha 
me. - Tentou fazer com que a sua voz soasse calma, mas parecia nervosa, at mesmo aos 
seus ouvidos.
       - At agora? So seis horas. - A voz dele estava cheia de reprovao, e Alexandra de 
repente se voltou contra Henri, os nervos  flor da pele. Precisava de tempo para pensar, para 
absorver o que ouvira... precisava de tempo para lembrar.
       - Escute, desculpe o meu atraso. J lhe falei, estava na casa de minha me.
       Ele se acalmou um pouco, mas ainda parecia zangado.
       - Cuide para que isso no acontea de novo. No sei por que ela a prende at to 
tarde. Sabe que voc tem obrigaes importantes.
       Alexandra cerrou os dentes para no lhe responder. A me a prendera at tarde para 
poder lhe dizer que fora adotada duas vezes... e que o seu verdadeiro pai assassinara a sua 
me... que ela tinha duas irms das quais se esquecera inteiramente... coisinhas desse tipo. 
Nada de importante.
        Ela vestiu apressadamente um vestido de seda preto e meias pretas. Calou scarpins 
de cetim preto, refez a maquiagem, penteou o cabelo e guardou o batom e o p compacto 
numa bolsa de cetim preto. E dali a vinte minutos estava l embaixo de novo, reunindo-se a 
Henri no hall da frente, os dois prontos para sair. Mal teve tempo de dar boa-noite s meninas 
e, quando o fez, quase chorou. Quando olhou para elas, lembrou-se das irms que tinha 
praticamente esquecido.
       - Sejam boas uma para a outra, vocs duas - sussurrou, enquanto se despedia de 
Marie-Louise com um beijo. - No sabem a sorte que tm de ter uma  outra. - E uma vida 
como a delas, cheia de gente que as amava, protegidas do mal. Ela tivera sorte em ser adotada 
por Margaret e Pierre. Agora, porm, de repente, olhando Henri, sentia-se como se tivesse um 
segredo culposo.
       - Por que sua me no leva os problemas dela a um advogado ou a um banqueiro? - 
indagou Henri numa voz cheia de irritao enquanto se dirigiam ao restaurante onde iam 
encontrar uns novos conhecidos de Henri.
       Alexandra fez um ar vago enquanto olhava pela janela.
       - Ela pensou que eu podia ajudar.  s.
       Ele riu, como se fosse uma sugesto ridcula.
       - Podia ao menos ter me procurado. Eu poderia lhe dar assistncia.
       Mas ela sabia perfeitamente bem que Margaret jamais procuraria o seu marido. Eles 
mal se toleravam.
       Chegaram no Taillevent e Alexandra correu os olhos pelo ambiente familiar 
distraidamente. Henri levou-a at seus convidados e fez as apresentaes necessrias. A sala 
estava repleta com tout Paris, homens de ternos escuros e mulheres belas, elegantemente 
vestidas. A sala estava magnfica como sempre, com as paredes revestidas de madeira, os 
lustres magnficos, os vasos cheios de flores frescas. Era um lugar onde apenas a nata da elite 
podia entrar, e at mesmo eles tinham de esperar meses por uma reserva.
       Era o restaurante favorito de Henri, e ele gostava de frequent-lo com ela e os 
amigos, e at com relaes de negcios, como era o dessa noite. As pessoas com quem estava 
jantando poderiam vir a apoi-lo na sua carreira poltica, e Alexandra podia sentir que a noite 
era extremamente importante. Mas, no importa o quanto se esforasse, no conseguia se 
concentrar, e l pelo final da noite estava quase em lgrimas, enquanto Henri a olhava furioso 
e ela lutava desesperadamente para se manter  tona na conversa.
       - Como disse? - falou pela dcima vez durante a noite, no mnimo. No percebera 
absolutamente o que a mulher dissera... fora algo sobre o sul da Frana?... Ou algo sobre as 
suas filhas? - Me desculpe...
       Os olhos de Alexandra se encheram de lgrimas e ela os enxugou com o guardanapo, 
como se estivesse tossindo. Sentia como se a noite nunca mais fosse chegar ao fim, e Henri 
estava furioso com ela quando se retiraram.
       - Como pde fazer isso comigo? - esbravejou ele, a caminho de casa. - A sua atitude 
foi um insulto escancarado!
       - Henri, desculpe... eu no estava me sentindo bem... no conseguia me concentrar... 
eu... - Mas s no que podia pensar era em John Chapman no Bristol, e no quanto 
desesperadamente queria ligar para ele.
       - Se no estava se sentindo bem, no devia ter vindo. Voc s fez piorar as coisas. - 
Ele estava lvido.
       - Desculpe... eu tentei... tentei de verdade... - As lgrimas escorriam pelas suas faces. 
Detestava desapont-lo, mas estava com a cabea cheia de outras coisas.
       - Voc no tem desculpa! - ele esbravejou. Mas tinha. E no podia contar para ele. - 
No vou tolerar esse tipo de comportamento. - E ento, o golpe final: - Voc sempre fica 
impossvel depois de visitar sua me! - Como se ela fosse uma criana malcriada e ele tivesse 
o direito de ralhar com ela.
       - Minha me nada teve a ver com isso, Henri. - Alexandra falava em voz baixa 
enquanto assoava o nariz. Ele a fitou ferozmente quando pararam num sinal, a caminho de 
casa. Nem estava se importando que o motorista escutasse.
       - Ento onde esteve hoje at s seis horas? - Comeou de novo. Alexandra sacudiu a 
cabea e olhou pela janela, depois voltou a olhar para ele.
       - J lhe disse. Estava na casa de minha me.
       - Havia mais algum l?
       Ele nunca desconfiara dela antes, e a pergunta a magoou profundamente.
       - Claro que no. Meu Deus, do que est desconfiando? - Teve vontade de dizer a ele 
que no se dedicava aos mesmos esportes a que ele se dedicava, mas no queria abrir uma 
caixa de Pandora que causaria problemas ainda maiores. Estendeu a mo e tocou a dele, mas 
ele no se mostrou disposto a abrandar. - Henri, por favor...
       - Voc me envergonhou demais hoje. 
       - Desculpe. Estava com uma dor de cabea terrvel.
       Ele no lhe disse nem mais uma palavra, mas quando chegaram em casa na Avenue 
Foch, abriu a porta polidamente para ela, se dirigiu aos seus aposentos e fechou a porta com 
firmeza atrs de si.
       
       Captulo 22
       Logo que Henri seguiu para o escritrio na manh seguinte, Alexandra procurou o 
nmero do Bristol e discou-o. Perguntou por John Chapman sentindo a mo tremer ao segurar 
o aparelho, e a sua voz falhou ao se identificar. Era como alta espionagem, e ela estava 
extremamente nervosa. Se Henri imaginasse o que ela fazia, ou o que ficara sabendo, 
provavelmente se divorciaria dela.
       - Falou com a sua me? - Chapman tinha uma voz calma, suave, e ela teve facilidade 
em falar com ele.
       - Ontem... eu... eu tinha me esquecido de tudo. - At que era adotada. Tinha se 
permitido negar isso a si mesma durante todos esses anus... sem falar no facto de que j fora 
adotada antes.., e Hillie... e a mulher com os cabelos ruivos... Mas Chapman no parecia 
conden-la.
       - Talvez fosse mais fcil para a senhora no lembrar. No havia motivo para isso. - 
Ele fez uma pausa, depois falou com ela com suavidade: - Podamos nos encontrar ainda 
hoje?... ... hem... Desculpe, no sei o seu nome de casada. S sei o nome de sua me.
       Ele parecia muito corts e bem-educado. Ela receara que ele pudesse ser um desses 
investigadores repulsivos que se vem em -filmes de segunda classe.
       - De Morigny. Alexandra de Morigny. - No se deu ao trabalho de dizer o ttulo. 
Parecia no ter importncia.
       - Obrigado. Eu esperava que pudssemos nos encontrar. Quem sabe ainda esta 
manh. Gostaria de lhe mostrar as pastas que tenho. Talvez a senhora tivesse algo para 
acrescentar a elas... ou, de qualquer maneira, tem o direito de saber tanto quanto ns sabemos.
       - Muito obrigada. Poderia encontr-lo no seu hotel... - Deu uma olhada no relgio 
sobre a sua mesa e fez uns clculos rpidos. precisava tomar banho, se vestir e deixar 
instrues para os criados. Henri tinha convidados para o jantar. - s onze estaria bem?
       - Perfeito. - E, com sorte, poderia pegar um avio para Nova York naquela mesma 
noite. Tinha muito trabalho a fazer, e no queria ficar de papo para o ar em Paris para sempre. 
- Eu a encontro no saguo. Tenho um metro e noventa de altura, cabelo louro repartido do 
lado, e estarei usando um palet de tweed, camisa azul e cinzenta.
       Parecia mais um estudante universitrio do que um investigador particular, e ela 
sorriu ao imaginar os seus trajes. Parecia um dos primos americanos. E ento percebeu que ele 
no sabia como ela era.
       - Tambm tenho cabelo louro. Tenho um metro e sessenta, estarei usando um 
costume cinza.
       Estava pensando em usar um determinado costume de seda cinza um de que Henri 
gostava, no que isso importasse. E, quando se vestiu, ps uma blusa de seda rosa e um leno 
rosa de Herms e as moedas Bulgari nas orelhas, aquelas que usava quando no queria usar 
nada espalhafatoso. Parecia respeitvel e chique ao entrar lentamente no Bristol, sentindo o 
corao bater com fora enquanto os seus saltos batiam no cho de mrmore e ela corria os 
olhos pelo saguo. J ia se dirigir ao balco para mandar cham-lo quando o viu sentado 
discretamente na cadeira, segurando uma cpia do Herald Tribune de Paris. Ele se levantou e 
sorriu para ela, vindo em sua direo com as pernas compridas e com um sorriso que a deixou 
meio sem flego. Tinha dentes perfeitos e olhos meigos, e ela gostou dele instantaneamente. 
Parecia ser o tipo que seria um grande amigo, e ela apertou a sua mo solenemente, tentando 
no olhar para a maleta que segurava na outra mo. Sabia que dentro dela estavam os 
segredos do seu passado e do de suas irms.
       - Desculpe o meu atraso. - Sua voz mal passava de um sussurro e ele percebeu 
facilmente que estava amedrontada. - Eu mesma vim guiando e tive muita dificuldade em 
achar uma vaga. Acabei entregando o carro ao porteiro.
       Ele assentiu. Sentaram-se num canto, em duas grandes poltronas de veludo vermelho 
que pareciam perfeitamente adequadas  situao.
       - Quer uma bebida? Ou uma xcara de ch?
       Mas ela estava nervosa demais para comer ou beber, e sacudiu a cabea enquanto ele 
retirava a pasta da sua maleta. Estava bem mais grossa do que quando Arthur Patterson a dera 
a John em primeiro lugar. Agora havia nela o que ele sabia da vida de Hilary. E logo haveria o 
da vida de Alexandra.
       - Obrigada, est tudo bem. - Seus olhos fitaram os dele profundamente. - Esto perto 
de encontrar as outras? 
       - Esperamos que sim. O ltimo sinal de Hilary foi quando procurou Arthur Patterson 
h uns vinte anos, tentando encontrar a senhora e a sua irm mais moa, e ficou furiosa ao 
descobrir que ele no mantivera contacto com nenhuma das duas. Imagino que ela prpria 
tenha tentado encontr-las, em vo. De qualquer forma, ela o considerou responsvel pela 
dissoluo da sua famlia, e imagino que o odeie. E isso no  difcil de entender, pelo que 
sabemos do comeo da sua vida. No sei ainda o que aconteceu com Megan, mas, sem 
dvida, comparada  senhora, Hilary teve a pior sorte possvel. - Contou-lhe o que sabia e os 
olhos de Alexandra se encheram de lgrimas ao escutar, pensando que aquele seria um destino 
terrvel para qualquer pessoa. Tentou imaginar aquilo acontecendo s suas filhinhas, e s de 
pensar sentiu-se mal. No era de admirar que Hilary fosse amarga. Tinha todo o direito de ser. 
Abandonada, espancada, esquecida. - Suponho que tenha ido procurar Patterson to logo 
chegou a Nova York, e depois disso ns a perdemos. Mas mandei fazer uma investigao 
muito intensa esta semana, e imagino que haja informaes mais recentes sobre Hilary  
minha espera quando eu voltar. J pensamos uma vez que a tnhamos encontrado, mas foi um 
engano. - Estava se referindo  mulher da CBA. Contudo, no importa onde estivesse, ele a 
encontraria. - Mas da prxima vez, no ser.
       - Meu Deus, que vida horrvel. - Alexandra enxugou as lgrimas discretamente e ele 
lhe ofereceu a pasta para que a examinasse. Mal pde suportar o que lia, e afinal ergueu os 
olhos para ele, a angstia estampada no rosto. - Como ela pde sobreviver a isso? - Alexandra 
sentiu uma onda de culpa invadi-la enquanto pensava na prpria vida em comparao com a 
da irm. - Por que isso aconteceu?
       - No sei. As voltas do destino nem sempre so bondosas, Sra. de Morigny.
       - Eu sei. - Falou baixinho, mas nunca tinha visto a coisa com tanta clareza. Era como 
um daqueles caleidoscpios que ela dava s filhas. A gente o girava s uma frao e todas as 
mesmas peas caam num padro totalmente diferente. Num momento eram flores e no 
momento seguinte eram demnios soprando fogo. Parecia-lhe to errado que para Hilary 
tivessem sobrado os demnios. Com esforo, voltou os pensamentos para John Chapman. - O 
que posso fazer para ajud-lo a encontr-las?
       - No momento nada, a no ser que se lembre de algo especfico que possa nos ajudar. 
Mas o seu conhecimento teria terminado h muito tempo, no creio que seja de muita 
utilidade agora. Ligarei para a senhora to logo encontre as outras, e o Sr. Patterson gostaria 
que vocs viessem para a casa dele em Connecticut para se conhecerem.  a nica coisa que 
quer fazer antes de morrer.
       Parecia um desejo nobre, porm menos nobre, caso se pensasse na dor que ele lhes 
causara.
       - Como  que ele ?  estranho, mas no me lembro absolutamente dele.
       Tampouco se lembrava do pai. Dera uma olhada nos recortes de Sam na pasta de 
John Chapman e ficara impressionada ao ver como era bonito e bem-sucedido. Havia apenas 
duas fotos da me, uma moa sorridente com ondas cascateantes de cabelo ruivo vivo, de um 
certo jeito, ela se parecia um pouco com a filha mais moa de Alexandra. E a outra foto 
mostrava as trs meninas, Alexandra e Hilary em vestidos brancos iguais e sapatos pretos 
lustrosos e o beb numa camisola comprida de babados nos braos da me, tirada pouco 
depois do nascimento de Megan, na ltima Pscoa que a me delas passou com vida. Fora 
tirada diante da casa deles em Sutton Place, mas Alexandra no se lembrava dela.
       Chapman tentou responder  pergunta dela.
       - O Sr. Patterson est muito velho, e muito doente. No creio que v viver muito 
tempo mais. Est muito ansioso para reunir vocs trs antes de morrer. Significa muito para 
ele.
       - E se ele morrer antes que o senhor as encontre? - indagou Alexandra, sem rodeios.
       - Tomou providncias para continuar as investigaes e reunirei as trs. Mas gostaria 
de poder estar presente.
       Ela assentiu. Ele pensara em tudo. Mas era uma pena que no tivesse pensado trinta 
anos antes. Teria feito uma grande diferena para Hilary. E foi o que ela disse a John 
Chapman.
       - Se ele era to ntimo dos meus pais, por que no nos acolheu e nos manteve juntas?
       John Chapman sacudiu a cabea.
       - No sei. Falou algo sobre a esposa dele no se sentir em condies de faz-lo. Acho 
que ele se arrepende disso, agora. s vezes cometemos erros terrveis, mas s percebemos 
depois de comet-los. - Teve coragem de lhe perguntar o que Arthur queria saber. - Voc  
feliz, Alexandra? Perdoe-me por perguntar...
       Mas aquilo significava muito para Arthur. E ela sorriu para John. 
       - Sempre fui muito feliz. Tive a bno de ter pais maravilhosos, a quem amava 
profundamente. Pierre de Borne foi um homem admirvel, e sou grata por ele ter vivido tanto 
quanto viveu. Era a alegria da minha vida - enrubesceu -, e eu da dele. - Depois deu um 
sorriso mais largo. - E voc conheceu a minha me ontem.  maravilhosa, no ?  a minha 
amiga mais ntima e maior aliada. Isso tem sido muito duro para ela. - O rosto de Alexandra 
ficou srio ao se lembrar das lgrimas da me no dia anterior. - Foi terrivelmente duro para 
ela lembrar o passado para mim. Suponho que no seja fcil para ningum desenterrar tudo 
isso, especialmente dada a forma como tudo aconteceu. - Ela soltou um suspiro e olhou para 
ele. - Algum sabe por que ele realmente a matou?
       - No exactamente. - Sacudiu a cabea. - Tiveram uma briga, creio. Acho que ele 
estava bbado. Insanidade temporria, como alegou a defesa. O Sr. Patterson afirma at hoje 
que Sam, o seu pai, a adorava.  difcil compreender as pessoas cedendo a esse tipo de 
violncia e emoes.
       Ela assentiu, mas estava pensando em Hilary, e ainda no tinham descoberto nada 
sobre Megan.
       - Espero que Megan esteja bem. Espero que as duas estejam. - -Era como se as 
conhecesse, agora, como se j tivessem voltado para ela, como as suas prprias filhas. - Tenho 
duas filhinhas, Axelle e Marie-Louise.  estranho - refletiu, pensativa -, acho que Marie-
Louise se parece um pouco com Hilary. - Tambm era estranho que Alexandra tivesse voltado 
para a terra natal da me.
       E ento Chapman lhe fez uma pergunta difcil:
       - J contou a seu marido tudo isso?
       Ela sacudiu lentamente a cabea.
       - Receio que Henri no v compreender. Acho que ficar muito abalado por meus 
pais no terem lhe contado quando nos casamos. E, at que voc encontre as outras, no faz 
sentido contar-lhe. S o deixar infeliz. - Era uma histria que ela se estava contando desde a 
noite anterior, da qual j estava quase convencida.
       - E quando encontrarmos as outras?
       - Ento terei de lhe contar alguma coisa. - Sorriu, constrangida. - No posso ir aos 
Estados Unidos sem motivos srios, Sr. Chapman.
       - Voc no o enganou, no sabia de tudo isso.
       Estava tentando acalm-la, mas ela sabia que a verdade era outra. 
       - Mas os meus pais enganaram. Ele vai ficar muito zangado. Acredita que sou a filha 
do conde de Borne. A linhagem significa muito para Henri. Ele conhece a rvore genealgica 
da famlia dele por novecentos anos. No acho que um assassino e uma noiva de guerra 
francesa sejam exactamente o que ele idealizava para avs de suas filhas.
       Talvez fosse bom no terem tido um filho. Nesse caso ele jamais a perdoaria. E 
talvez no perdoasse, mesmo assim. Chapman teve pena dela enquanto observava o seu rosto. 
Sentia que o marido no era uma pessoa fcil.
       - Acho que ele vai se adaptar.  bvio que vocs esto casados h muito tempo. E ele 
a ama. Isso conta muito.
       - No para todo mundo, Sr. Chapman. - Sorriu melanclica. E como ele podia estar 
to certo de que Henri a amava? Ela prpria no tinha certeza disso, s vezes. Ele era seu 
dono, como era dono um belo mvel Lus XV ou um bom quadro. E se o quadro fosse uma 
falsificao? Ainda gostaria dele o bastante para ficar com ele? Sabia que algumas pessoas o 
fariam, mas no tinha certeza de que Henri fosse uma delas. Era obcecado por qualidade, 
veracidade e perfeio. E sabia agora como a sua linhagem estava danificada. No era difcil 
imaginar a reao de Henri.
       Chapman a fitava gentilmente enquanto se sentavam num canto do hotel, e percebeu 
que gostava dela. Era meiga e tmida, e tinha olhos bondosos, o tipo de olhos que sempre 
desejara encontrar numa mulher. Era to graciosa, e to meiga. Esperava que a investigao 
de Arthur no viesse a lhe causar dor. Ela no fizera nada para merec-lo. 
       - Posso convid-la para almoar, Alexandra? E quer me perdoar por ser to informal? 
- Sorriu-lhe com jeito de garoto, e ela achou graa.
       - O senhor conhece todos os segredos da minha vida. No posso esperar que v me 
chamar pelo ttulo do meu marido.
       - Ah, meu Deus... quer dizer que ele  nobre?
       - Claro. - Ela riu de novo e, quando o fez, pareceu muito mais jovem, - O baro 
Henri Edouard Antoine Xavier Saint-Brumier de Morigny. Belo nome, no ? - Ela estava 
quase soltando risadinhas. Fora uma manh muito tensa e ela precisava do alvio. Ambos 
precisavam.
       - Tudo isso cabe na carteira de motorista dele?
       Ela riu da ideia. E depois ficou sria.
       - O senhor, Sr. Chapman, o que pensa de tudo isso?  um homem inteligente. Tudo 
deve lhe parecer um tanto chocante.
       - Nada mais me choca. Acho que foi uma pena que tantas vidas tenham sido 
destrudas por um acto de loucura. E de certa forma, acho uma pena mexer nas brasas. Mas 
no cabe a mim fazer esses julgamentos e talvez traga algum consolo a alguma de vocs essa 
reunio. Est curiosa quanto s outras?
       Ela fez que sim. Tinha que admitir que estava.
       - Lembro-me um pouco de Hilary... um pedacinho aqui, outro ali, desde que falei 
com a minha me ontem. - E depois soltou um suspiro - Foi um choque tremendo para ela.
       - E para voc tambm. - Havia compaixo no olhar dele, e teve vontade de estender a 
mo e tocar a dela, mas no o fez. - Desculpe ter causado tanta encrenca.
       - Ainda no causou. - Mas causaria, quando encontrasse as outras.
       - Posso convenc-la a almoar comigo, a despeito de tudo isso? - Gostava dela e, o 
que era engraado, queria conhec-la. Disse a si mesmo que era para poder relatar tudo ao seu 
cliente, mas sabia que era mais do que isso. Os pedaos do mistrio estavam comeando a se 
encaixar, ela era uma bela mulher, e gostava dela.
       Ela hesitou apenas uma frao de um instante, calculando que aquilo no podia fazer 
mal algum.
       - Eu adoraria.
       - Alguma sugesto? No tenho estado aqui recentemente e receio no estar muito 
atualizado quanto aos restaurantes.
       - Os melhores lugares, Sr. Chapman, so os antigos. - Ela se ps de p e sorriu., e ele 
voltou a colocar tudo na maleta e tranc-la. Por um estranho momento ela teve vontade de lhe 
pedir o retrato de quando era garotinha com as irms, mas imaginava que ele precisasse da 
foto para mostrar para as outras, quando as encontrasse. E ento compreendeu, de repente, por 
que no havia fotos dela quando beb. Pensava nisso enquanto cruzavam o saguo, e ele 
insistia para que ela o chamasse de John, reparando na estranha expresso dos seus olhos.
       - Acabo de perceber uma coisa que nunca tinha entendido direito antes. Meus pais 
no tm fotos minhas quando beb. E eu aceitava, como se fosse uma coisa normal.
       - No tinha motivos para duvidar deles. Onde vamos almoar?
       - Pensei em irmos ao Ritz, com todas as velhinhas. - Abriu um sorriso e ele riu 
quando ela tomou o seu brao e comearam a andar.
       - Parece encantador.
       - Elas fazem com que eu parea terrivelmente jovem e atraente.
       - E voc , ou no reparou nisso ultimamente?
       - Tento no olhar, s vejo as rugas.
       Mas era apenas conversa fiada, ela no aparentava nem trinta anos e tinha uma bela 
pele e cabelos sedosos, o que o fez lembrar que parecia diferente do que ele esperava.
       - Sabe,  gozado, mas pensei que voc teria cabelos ruivos.
        Ela deu um sorriso culpado e pareceu muito feminina e ele se impressionou de novo 
com a beleza dela, a seu modo sutil. Era quase como se estivesse tentando ocult-la, com o 
seu penteado refinado e roupas discretas. Ficou imaginando como ela seria se se soltasse toda. 
Provavelmente se pareceria muito com a me.
       - Na verdade eu tenho cabelos ruivos. - O sorriso diminuiu, depois se apagou. - Meu 
marido no gosta, por isso uso uma rimagem loura. Axelle, a minha filha caula, tambm tem 
cabelos ruivos. Mas h anos que no sou ruiva. Henri acha vulgar. - Ela falou com 
naturalidade e John concluiu em silncio que Henri era um perfeito idiota.
       O almoo no Ritz foi relaxado, tranquilo e agradvel. Falaram sobre Boston e Nova 
York, e Cape Cod e Saint-Jean-Cap-Ferrat, onde cada um passava o vero. Falaram sobre 
barcos  vela e os veres quando eram crianas e sobre como ele comeara a sua carreira ao 
invs de exercer a advocacia, como era esperado. Eram como dois velhos amigos, e ambos 
lamentaram quando ela finalmente o deixou no hotel e voltou a entrar no carro que deixara 
com o porteiro.
       - Ligue para mim logo que souber alguma coisa, John.
       - Prometo. - Ele tocou-lhe a mo pousada no volante, depois se debruou para 
beijar-lhe a face. - Cuide-se. E espero que, da prxima vez que eu a vir, voc tenha cabelos 
ruivos flamejantes! 
       Ambos riram e ela acenou e entrou no fluxo do trfego, sentindo-se como se tivesse 
feito um novo amigo. Ele era bonito, encantador e inteligente, e ela se perguntou por que no 
se tinha casado. Ele dissera apenas que era divorciado e que tinha uma queda por mulheres 
difceis. Mas ela gostara tanto dele que no podia imaginar por que algum no o agarrara no 
momento em que se divorciara da primeira mulher.
       Mas logo os seus pensamentos voltaram para o motivo pelo qual ele viera a Paris. 
Era tudo mais do que um pouco espantoso. E ficou aturdida ao se dar conta, quando entrou em 
casa, que j eram quatro horas. E daria um jantar aquela noite. Verificou as flores e o vinho 
rapidamente, falou com o cozinheiro, olhou ao seu redor para se certificar de que tudo estava 
em ordem. E depois foi ver as filhas, que, brincavam no jardim com uma amiga. Estavam 
empolgadas porque as aulas estavam quase acabando e logo estariam partindo para Cap 
Ferrat. 
       s seis e meia ela foi se vestir e escutou Henri no seu gabinete, mas no quis 
ncomod-lo. Em vez disso, correu para o seu banho e separou o vestido que ia usar, um longo 
de seda branco. Geralmente o usava com longos brincos de brilhante que tinham pertencido  
falecida me de Henri. E estava retirando-os da caixa de jias quando a porta se abriu e ele 
entrou no quarto com expresso de fria.
       - Al, querido. - Ela se levantou para cumpriment-lo, mas o sorriso se congelou no 
seu rosto quando o viu. - Algum problema? Verifiquei tudo para esta noite e no vi nada 
errado...
       Porm era evidente que algo terrvel tinha acontecido nesse meio tempo.
       - O que est pretendendo, me fazendo de idiota por toda Paris?
       - Meu Deus, Henri, do que est falando?
       - Estou falando que foi vista hoje, almoando com um homem no Ritz, achando que 
estava se escondendo.
       O rosto dela ficou muito branco, mas permaneceu imvel enquanto explicava:
       - Se eu achasse que estava me escondendo, dificilmente iria para o Ritz. Foi um 
almoo de negcios. Ele veio de Nova York tratar de assuntos de negcios para a minha me.
       - J ouvi isso ontem, Alexandra. E voc no vai se safar com a mesma desculpa duas 
vezes. Mas isso certamente explica o seu comportamento de ontem  noite. Voc nem 
conseguia pensar direito. Bem, no vou tolerar um desaforo desses. Voc parte para Cap 
Ferrat amanh de manh.
       Ela estava sendo banida, como uma criana malcriada, e seus olhos se encheram de 
lgrimas ante a injustia.
       - Henri, nunca o enganei. Voc tem que acreditar nisso.
       No tinha coragem de se aproximar dele, e ficaram em pontos opostos do quarto, ela 
desesperada, ele ultrajado.
       - Acreditei nisso at agora. Mas no pode esperar que continue creditando.
       -  verdade.
       - Bobagem. E tenho toda a inteno de dizer  sua me o que penso dela ficar lhe 
dando cobertura. No a quero ver em Cap Ferrat neste vero.
       - Henri, isso no  justo. Ela quer ver as meninas... 
       - Devia ter pensado nisso antes de comear a acobertar os seus casos com os seus 
amantes.
       - No tenho amantes! - berrou Alexandra. - E minha me no tem nada a ver com 
isso...
       - Ah... e eu pensei que isso era um assunto de negcios para ela.
       Aproximou-se lentamente, a vitria espelhada nos olhos, e Alexandra desabou numa 
cadeira, derrotada e desesperadamente infeliz. 
       - E ...
       - Que tipo de assunto de negcios? - Ergueu-lhe o queixo rudemente para que ficasse 
olhando para ele, mas sabia que ela no estava contando inteiramente a verdade, e ela no 
podia fazer nada a respeito. Contar-lhe toda a verdade seria bem pior, sabia disso:
       - No posso explicar agora. So assuntos de negcios confidenciais dos meus pais.
       Estava plida e abatida, e ele foi saindo do aposento. Ento se virou da porta para 
olhar para ela.
       - Jamais esperaria uma coisa dessas de voc, Alexandra. Cuide para que no torne a 
acontecer, ou voc voltar para a casa da me, sem as suas filhas. Esteja com as suas coisas 
arrumadas para a Riviera at amanh ao meio-dia.
       E com essas palavras ele bateu as portas do boudoir e ela sentada, soluando de 
desespero. Divertira-se tanto com John e fora tudo inofensivo. E agora Henri achava que ela o 
estava enganando. A ela percebeu subitamente que tinha de ligar para ele. Dirigiu-se 
apressadamente para o telefone na sua mesa e ligou para o Bristol. Felizmente ele estava l e 
ela pde contar-lhe que estavam indo para Ferrat vrias semanas antes, para o caso de precisar 
falar com ela. Deu-lhe o nmero e agradeceu de novo pelo almoo, sem deixar transparecer 
nem por um momento a dor que isso lhe causara.
       - Espero poder entrar em contacto com voc brevemente.
       - Eu tambm. - Mas ela teve vergonha de pensar nisso por diversos motivos. Ele era 
to bondoso e compreensivo. Mas tinha a sua prpria vida para viver, e ela tambm. J tinha 
problemas de sobra sem se dedicar a fantasias sobre ele.
       - Ligo para voc logo que souber de alguma coisa.
       - Obrigada, John. Faa uma boa viagem de volta.
       - Farei. Vou embora amanh de manh.
       Tinha esperado arranjar um voo para aquela mesma noite, voltara ao hotel to tarde, 
depois do almoo, que no estava mais na disposio para fazer as malas e viajar. Concluiu 
que uma ltima noite em Paris no faria nenhum mal. Estava se sentindo relaxado e satisfeito 
depois do seu almoo com Alexandra, e quando ligou para Sasha do hotel ela estava atacada. 
De repente, no teve a menor pressa em voltar. Iria jantar num bistr prximo e dar um 
passeio pelas ruas de Paris.
       Despediu-se de Alexandra, e ela desligou e entrou lentamente no banheiro, incapaz 
de crer que Henri pensara o pior dela com tanta facilidade, e imaginando como seria o vero 
agora. Mas teve uma ideia naquela mesma noite. Ele falou com ela em tons glidos e at a 
manh seguinte, quando ela e as meninas partiram, tratou-a como a uma pria.
       - No receber ningum at eu chegar, est claro? Deve ficar na villa. Eu ligarei para 
voc.
       Tratava-a como uma prisioneira que tentara fugir e a raiva foi crescendo lentamente 
quando se despediram na manh seguinte.
       - Posso ir  praia ou devo ficar no quarto usando uma bola de ferro e uma corrente?
       - Lamento que voc ache o nosso casamento um fardo to grande, Alexandra. Nunca 
tinha me dado conta de que lhe causava tanta angstia.
       Ele tinha resposta para tudo e, pela primeira vez, ela o odiou quando se afastaram. O 
chofer e duas empregadas iam acompanh-las na viagem, e botariam o Citron e a camioneta 
Peugeot no trem noturno para a Riviera.
       - Por que o papa estava to zangado? - indagou Axelle enquanto rodavam pelo 
trnsito at a estao. - Brigou com voc?
       - S um pouquinho.
       Alisou os cachos cor de cobre como Hilary fazia com ela h tantos anos, e sorriu 
agora  lembrana distante da irm. Estava empolgada com a perspectiva de rev-las. S 
esperava que Chapman as encontrasse logo, e que pudesse viajar para v-las. Mas Axelle no 
lhe deu tempo de refletir.
       - Papa no parecia "um pouquinho" zangado com voc. Parecia muito zangado. Voc 
fez alguma coisa terrvel, mame?
       Alexandra sorriu e segurou a mo de Axelle. Seria bom ir para a Riviera, e talvez 
bom tambm ter uma folga de algumas semanas do marido.
       - S fiz uma pequena tolice.
       - Como aquela vez em que comprou o chapu que ele detestou, com todas as penas e 
o vu? - Axelle o adorara e Henri mandara que Alexandra o devolvesse no mesmo dia.
       - Foi uma coisa parecida.
       - Voc comprou outro chapu?
       - Hmm, sim... ... mais ou menos... 
       - Era bonito?
       - Ah, era. - Alexandra sorriu para a filha mais moa. - Muito.
       Axelle sorriu para ela com prazer evidente, quando chegaram  estao.
       
       Captulo 23
       O material que tinham desencavado sobre Hilary na ausncia de John foi excelente, e 
ele ficou imensamente satisfeito. Tinham descoberto a matrcula de Hilary na escola noturna, 
no seu emprego na agncia de empregos e da seguiram-na at a CBA. Era perfeito. Tinham 
tudo de que precisavam e, enquanto dava uma olhada na pasta, Chapman percebeu que tinham 
acertado da primeira vez. Era a Hilary Walker certa com quem ele tinha falado quando ligara 
para a CBA, e era igualmente bvio que ela no queria ser encontrada. Pois que assim fosse, 
ele geraria at encontrar Megan, depois a confrontaria pessoalmente. No momento, deixaria 
que ela pensasse que se livrara dele.
       Ao pensar nela, porm, sentiu aquele mesmo puxo estranho no corao que sentia 
cada vez que lia a pasta dela. Tinha vontade de lhe dizer que estava tudo bem, que as pessoas 
ainda se importavam com ela, que podia parar de correr. Era terrvel pensar nela zangada e 
sozinha, e ento se deu conta de que podia haver muito mais na sua vida actual do que sabia. 
Mandou o seu assistente comear uma investigao completa sobre Hilary Walker na rede 
CBA. Ela podia ser casada, divorciada, ter seis filhos. A garotinha sofrida que ele 
acompanhara a Boston, Jacksonville e Nova York poderia estar levando uma vida feliz agora. 
E, de um modo geral, ele esperava que sim. E, no entanto, sabia que no se sentiria em paz a 
seu respeito at conhec-la. Era uma loucura, mas ele estava obcecado pelas mulheres do seu 
caso, suas vidas, suas sortes e azares. To obcecado que at ligou para a ex-mulher e a 
convidou para almoar, tentando fazer com que lhe explicasse de novo como se sentia com 
relao aos seus personagens quando estava escrevendo.
       - Voc se apaixona por eles, Ellie? - Olhou para ela, confuso, quando se sentavam 
junto  fonte no Four Seasons. Era onde todos notveis do mundo editorial almoavam, e ele 
sabia que era o restaurante favorito dela, embora ainda preferisse o caos sensual e artstico do 
Russian Tea Room. Mas Eloise era uma moa diferente. Era alta, serena e controlada, tinha 
administrado uma carreira bem-sucedida de modo brilhante, e parecia mais adequada ao 
mrmore frio e s fontes discretas do Four Seasons.
       - Se me apaixono por eles? O que quer dizer? Est pensando em escrever um livro? - 
Parecia divertida, e ele sacudiu a cabea.
       - No, s estou trabalhando nessa investigao maluca. Remonta a trinta anos e as 
pessoas so to reais para mim que no consigo mais pensar direito. Sonho com elas  noite... 
penso nelas durante o dia... garotinhas que so praticamente mulheres de meia-idade, 
atualmente me dilaceram o corao, e eu quero ajud-las.
       - Para mim parece mais envenenamento alimentar do que amor - sorriu ela, depois 
estendeu a mo e bateu na dele compreensivamente. Ainda gostava de John. Almoavam 
juntos umas duas vezes por ano, e ele at mesmo a apresentara a Sasha, mas Eloise lhe dissera 
francamente no dia seguinte, pelo telefone, que achava que ele podia conseguir coisa melhor. 
- Voc est ruim, cara. Me parece que devia escrever um livro sobre isso.
       - Ningum ia acreditar na histria. E alm disso, no posso. No tenho jeito. Voc 
sabe disso. S que est me pondo maluco. Como  que as pessoas no papel podem se tornar 
reais?
       - s vezes podem.
       - Elas finalmente vo embora?
       - Vo, quando voc resolve a coisa - disse ela tranquilizadoramente, comendo a sua 
salada. - Quando termino um livro, os personagens finalmente desaparecem. Para sempre. 
Mas antes disso,  como estar assombrada.
       -  isso a! - Agitou o garfo para ela. -  exactamente isso a! - Estava sendo 
assombrado por Hilary, e quando no estava sendo atormentado por Hilary, pensando em 
Alexandra. Tinha ligado para ela to logo tivera certeza de que era Hilary na rede, e ela ficara 
radiante. Agora aguardava notcias de Megan e John andava pressionando os seus agentes 
para andarem depressa, pois Patterson parecia estar se apagando. - O que fao para me livrar 
dessa coisa?
       - Termine-a. Encerre o caso, faa o que for que tiver de fazer e ela ir embora.  
assim que funciona comigo.  um caso difcil? - Ao contrrio de Sasha, ela se mostrava 
sempre interessada, mas afinal vivia em busca de novas histrias.
       - Muito. Mas j percorremos dois teros dele. Tenho s que encontrar mais uma pea 
do quebra-cabea e resolvermos tudo.  uma histria meio extica, eu lhe conto quando o 
caso estiver encerrado.
       - Eu bem que podia usar uma boa histria. Vou comear um livro novo semana que 
vem. Aluguei uma casa em Long Island para o vero. - Era espantoso. A mulher trabalhava 
feito uma louca, mas era bvio que adorava. E ento ela abriu um sorriso para o ex-marido. O 
relacionamento deles era mais como irmo e irm, agora que no estavam mais casados. - 
Como vai a sua bailarina? - Falou sem veneno algum. Desejava-lhe tudo de bom. No ficara 
encantada com a moa quando a conhecera, mas sabia que ele estava.
       Ele deu de ombros quando respondeu:
       - Mais ou menos. As pessoas metidas com o bal parecem viver no seu prprio 
mundo. Ela no se apega  realidade, pelo menos no  minha.
       - Pior do que escritoras? - sorriu Eloise.
       - Muito pior. Pelo menos voc no se queixava dos seus ps dia e noite e no se 
preocupava com cada msculo do seu corpo. Respirar j  uma ameaa para elas, podem fazer 
algo a si mesmas que as impea de danar.
       - Parece exaustivo. - Ela terminou a salada, tomou um gole de vinho e sorriu para ele. 
Era uma das pessoas mais simpticas que conhecia, e s vezes ela lamentava no terem ficado 
casados. Ela se perguntava se devia ter-se esforado mais, porm, tambm era inteligente o 
bastante para saber que no tinha o que era preciso. No teria sido certo para eles. Ela 
precisava ficar sozinha com o seu trabalho e sempre achara que ele devia ser casado e ter 
filhos. - No consigo enxerg-la como a soluo final para voc.
       - Nem eu, mas levei algum tempo para enxergar isso. No h muitas pessoas por a 
que me interessem. A maioria no  muito inteligente, ou no  muito simptica, ou est se 
lixando para os outros. - Sem ter a inteno, ele percebeu que acabava de descrever Sasha. Ela 
j no o impressionava tanto, desde que voltara de Paris. - E quanto a voc? O Prncipe 
Encantado vem vindo do horizonte na sua direo?
       Ela deu de ombros com um sorriso tranquilo, e acenou para um editor que conhecia.
       - No tenho muito tempo para essas coisas. Nada mudou muito, no tocante a isso.  
difcil ter uma carreira e uma vida de verdade.
       - Mas pode ser feito - ele sempre salientava para ela -, se voc quiser.
       - Talvez eu no queira. - Era sempre sincera com ele. - Talvez eu no queira mais do 
que tenho. Minha mquina de escrever e as minhas camisolas velhas.
       - Ei, que terrvel,  um grande desperdcio.
       - No, no . Eu nunca quis de verdade todas as outras coisas, Detestaria ter filhos.
       - Por qu? - Parecia-lhe to errado. As pessoas eram feitas para terem filhos. H vinte 
anos que ele queria um. S que no dera certo para ele.
       - Exigem demais da gente. Distraem a gente demais. Eu teria que dar muito de mim. 
 por isso que fui uma pssima esposa para voc. Queria guardar tudo para os meus livros. 
Acho que  loucura, mas me faz feliz.
       E ele sabia que fazia. Era melhor para os dois as coisas estarem como estavam agora. 
E ento, subitamente, ele riu.
       - Voc sempre foi franca demais. Eu ia lhe dizer que conheci uma mulher fantstica 
nesse caso. - Eloise ergueu uma sobrancelha com interesse. - Mas  casada com um baro 
francs, e no est exactamente disponvel.
       - Parece bem melhor do que a sua bailarina.
       - E . Mas est totalmente envolvida na sua vidinha. O que  uma pena... ela  linda.
       - Qualquer dia desses voc vai encontrar a pessoa certa. Mas fique afastado das 
artistas. Do pssimas esposas. Escute o que lhe digo, eu sei! - Deu um sorriso pesaroso e se 
debruou para beijar a face dele quando deixaram a mesa.
       - No se culpe tanto. Ns dois ramos jovens.
       - E voc era fantstico. - Ela parou para falar com o seu editor-chefe e eles saram 
juntos para o sol. Depois John desejou-lhe sorte no seu novo livro, chamou um txi para ela e 
voltou a p para o seu escritrio na rua 57.
       E havia uma excelente notcia  sua espera quando voltou ao escritrio. Um de seus 
assistentes tinha encontrado os Abrams em San Francisco.
       - Est falando srio? - Estava radiante. Tinham tentado tudo sem achar coisa alguma. 
Mas finalmente desistiram de procurar por David e, ao faz-lo, tinham encontrado Rebecca. 
Acontece que eles tinham deixado Los Angeles no comeo da dcada de 60 e ido para o Sul 
para marchar com Martin Luther King e participar de passeatas e campanhas de registro de 
eleitores. Tinham fornecido assistncia legal gratuita para os negros na Gergia, Louisiana e 
Mississipi, e acabaram abrindo um escritrio de assistncia legal integral em Biloxi. E de l 
acabaram indo para Atlanta. Foi s em 1981 que finalmente voltaram para a Califrnia, mas 
David se aposentou depois de uma extensa cirurgia e Rebecca ingressou num escritrio de 
advocacia exclusivamente feminino em San Francisco, para defender mulheres envolvidas em 
causas femininas. Durante todas as suas vidas tinham sido liberais clssicos.
       O assistente de John nada lhes explicara. John deixara ordens severas de que, logo 
que Megan fosse localizada, ele prprio faria o contacto. Mandou a sua secretria marcar uma 
hora com Rebecca Abrams e se preparou para viajar no dia seguinte, o que era perfeito. Sasha 
ainda estava viajando e havia algo que ele vinha querendo fazer h dias. Era algo que no 
fazia pessoalmente h anos, mas sabia agora que tinha de faz-lo. Era parte do que ele tentara 
explicar para Eloise no almoo... parte de estar assombrado.
       Saiu do escritrio pouco antes das quatro horas e tomou um txi at a rede. Exibiu 
um distintivo de segurana e um passe de polcia na entrada, ambos ganhos com esforo e 
quase impossveis de serem conseguidos. A segurana da rede ficou satisfeita e 
instantaneamente deixou que ele subisse.
       Tomou o elevador e esperou discretamente na rea de recepo. Pegou um telefone 
ali e discou para a extenso dela. A secretria lhe disse que estava numa reunio.
       - Na sala dela, ou l em cima? - Agia como algum que estava por dentro, e a 
secretria apressou-se a dar-lhe a informao.
       - Est aqui. Est com o Sr. Baker.
       - Tem alguma ideia de quando vai ficar livre?
       - Ela falou que vai embora s cinco e meia.
       - Obrigado.
       Chapman desligou o telefone interno e a secretria ficou sem saber quem telefonara, 
mas imaginou que fosse algum que conhecia Hilary, obviamente algum de posio mais 
elevada na rede.
       Ela apareceu exactamente s 5:15, e John a reconheceu imediatamente, mesmo sem o 
cumprimento da recepcionista quando ela passou:
       - Boa noite, Senhorita Walker.
       Hilary se voltou para ela vivamente, meneou a cabea e no pareceu notar mais 
ningum na sala de espera, nem John, enquanto a seguia at os elevadores e entrava num 
deles ao seu lado. Quase se sentiu fraco ao v-la, podia enxergar cada fio do cabelo negro 
brilhante enrolado num coque, as mos graciosas, o pescoo comprido, podia at sentir o 
cheiro do seu perfume. Ela caminhava com passo firme, passadas longas, e quando ele deu 
um encontro nela, ergueu para ele os olhos verdes que penetraram directo no seu corao, 
olhos que diziam no me toque, no chegue perto de mim. Ela tomou um nibus na Madison 
Avenue, em vez de brigar por um txi, e saltou na rua 79. Caminhou mais duas quadras para o 
norte e ento ele percebeu que estava indo ao mdico. Esperou pacientemente do lado de fora 
e depois a seguiu de novo, quando ela tomou um txi e foi para o Elaine's, onde encontrou 
outra mulher. Ele se sentou num reservado prximo ao delas, e ficou curioso com o que podia 
estar sendo dito. A outra mulher era uma apresentadora conhecida da rede, e parecia nervosa. 
Comeou a chorar, numa certa hora, mas Hilary no pareceu se comover. Observava-a, triste, 
mas no compassiva. E ento John finalmente se lembrou, quando as duas mulheres se 
apertaram as mos diante do restaurante, que a apresentadora fora despedida quando ele 
estava em Paris. Aquilo causara o maior alvoroo, e ou ela estava suplicando a Hilary para 
no perder o emprego, ou contando-lhe o seu lado da histria. Supostamente a ordem de 
demisso viera l de cima, mas talvez ela pensasse que, conversando com Hilary, pudesse 
voltar ao emprego. Mas era evidente, pela expresso triste do rosto de Hilary, enquanto 
caminhava sozinha em direo ao centro, que no podia ajud-la. Parou para olhar vitrines 
uma ou duas vezes e caminhava com um andar decidido, mas com um movimento feminino 
dos quadris que o fascinava, enquanto a observava. Finalmente dobrou na rua 72 e caminhou 
at ao rio, para uma velha casa de pedras prxima de um pequeno parque. Era um lugar 
bonito, no entanto tudo o que ele sentia nela lhe dizia que era uma pessoa s. Tinha um ar 
solitrio, e uma espcie de dureza e determinao que indicavam muros que erguera h muito 
tempo e que nunca mais derrubara. Do mesmo modo como, ao ter sua pasta, sentiu uma pena 
intensa da mulher e estava triste enquanto percorria as poucas quadras de volta ao seu prprio 
apartamento. Ela morava to perto, no entanto parecia existir num universo prprio, um 
universo cheio de trabalho e pouco mais, no entanto no era justo fazer tal julgamento. Talvez 
ela fosse feliz, afinal de contas, talvez tivesse um namorado por quem estivesse 
profundamente apaixonada, mas tudo no seu presente e no seu passado sugeria uma pessoa 
solitria, sem ningum para amar e ningum que a amasse. E quando ele entrou no 
apartamento e acendeu a luz, sentiu um mpeto avassalador de ligar para ela, de estender a 
mo, de ficar seu amigo, de lhe dizer que Alexandra ainda se importava... que tudo no estava 
perdido... ainda... ou talvez ela no se importasse. Como explicara a Eloise no almoo, 
sentia-se como se estivesse sendo assombrado.
       Tentou dormir um pouco, mas rolou para l e para c na cama e por fim, por falta de 
algo melhor para fazer, acendeu a luz e ligou para Sasha em Denver. Ela estava no quarto, 
acabara de chegar da casa de espetculos e seus ps a estavam matando.
       - Que bom que nada mudou. - Riu enquanto jazia deitado de costas, pensando nela. 
Perguntou-se se no exagerara ao falar sobre ela no almoo. Ainda o excitava, de certas 
maneiras, e naquela noite sentia sua falta. - Quer ir me encontrar em San Francisco?
       - Quando? - falou, evasivamente.
       - Vou para l amanh. Devo acabar o que tenho que fazer nuns dois dias. Quando 
voc encerra em Denver?
       - Amanh. Vamos para Los Angeles. San Francisco foi cancelada.
       - Encontro voc em Los Angeles.
       - No acho que deva.
       Fez-se um longo silncio, e ele franziu o cenho.
       - O que houve?
       - Poderia perturbar alguns dos outros danarinos - disse ela vagamente, e ele se 
sentou na cama. No era bobo e j conhecia esse jogo. Mas no gostava de jog-lo.
       - Perturbaria algum em particular, Sasha?
       - Ah, no sei. Est muito tarde para se falar nisso. - E quando ela falou, ele escutou 
uma voz masculina ao fundo.
       -  Dominic, Pierre ou Petrov?
       -  Ivan - disse ela com petulncia. - Ele distendeu o tendo do jarrete hoje, e est 
muito nervoso.
       - Diga a ele que sinto muito. Mas diga-lhe depois de me explicar que diabo est 
havendo. Sou velho demais para esse tipo de babaquice, Sasha.
       - Voc no compreende as presses de ser um danarino - ela choramingou ao 
telefone e ele se afundou nos travesseiros.
       - Bem, eu tentei, porra. O que  que no compreendo exactamente?
       - Danarinos precisam de outros danarinos.
       - Ah... agora chegamos  raiz do problema. Quer dizer como o Ivan?
       - No, no... bem... sim... mas no  o que voc pensa.
       - Que diabo, e como voc sabe o que penso, Sasha? Est to ocupada se preocupando 
consigo mesma e seus ps e sua bunda e seus tendes que no repararia no que outra pessoa 
est pensando se viesse escrito em gs non.
       - Isso no  justo! - De repente ela comeou a chorar e, pela primeira vez em meses, 
ele percebeu que pouco se importava. Subitamente, no espao de um telefonema, tudo 
terminara. Ele estava farto.
       - Pode no ser justo, meu bem - falou ele na sua voz profunda e gentil -, mas 
acontece que  verdade. Acho que est na hora de voc e eu fazermos nossos agradecimentos 
e recuarmos graciosamente enquanto desce o pano. Se  que li o programa corretamente, o 
quarto acto acaba de terminar.
       - Por que no conversamos quando eu voltar?
       - Sobre o qu? Os seus ps? Ou sobre como os danarinos precisam de outros 
danarinos? No sou danarino, Sasha. Sou um homem. Tenho um emprego que exige muito 
de mim, tenho uma vida cheia que quero partilhar com uma mulher que eu ame e que me ame. 
Quero at mesmo ter filhos. Voc pode se ver fazendo isso?
       - No. - Pelo menos ela era sincera. A simples ideia a deixava horrorizada. No 
tencionava abandonar a dana por um ano em qualquer perodo da sua vida, e depois lutar 
para recuperar todos os seus msculos. - Por que isso  to importante?
       - Porque , e estou com quarenta e dois anos de idade. No posso mais perder o meu 
tempo com jogos como esse. J contribu para a comunidade artstica uma vez. Agora quero 
algo diferente.
       -  o que quero dizer... voc no entende as presses que sofre um danarino. John, 
os bebs no so importantes.
       - Para mim so, pequenina. Assim como muitas outras coisas para as quais voc no 
tem espao. Voc no precisa de mim. No precisa de ningum. Seja sincera consigo mesma. 
- Fez-se um silncio longo e vazio enquanto ela escutava, e de repente ele teve vontade de 
desligar. No havia mais nada para se dizer. J tinham dito tudo e esgotado as palavras h 
muito tempo. S que no tinham reparado. - Adeus, Sasha... v com calma. Vejo voc quando 
voltar. Quem sabe almoamos juntos, ou tomamos um drinque? - Sabia que ela ia querer as 
coisas que tinha deixado no seu apartamento, mas a verdade  que nem ao menos estava 
ansioso para v-la.
       - Est me dizendo que est tudo acabado?
       Ela parecia chocada e ele podia escutar a voz masculina ao fundo de novo. 
Perguntou-se se estariam dividindo um quarto, no que realmente tivesse importncia. 
       - Acho que sim.
       - Foi por isso que ligou? 
       - No. Acho que simplesmente aconteceu. Estava na hora. 
       - Existe outra pessoa? - Ele sorriu ante a pergunta.
       - No. - De um modo engraado existiam trs, as trs mulheres que procurava dia e 
noite, que enchiam os seus pensamentos e o seu corao, mas no do modo que Sasha queria 
dizer. - Ningum importante... cuide-se, Sasha. - E, com essas palavras, ele desligou 
suavemente e apagou a luz. E sorriu enquanto voltava a dormir. Sentia-se livre pela primeira 
vez em meses, e ficou contente por ter ligado para ela. Finalmente estava acabado.
       
       Captulo 24
       O voo para San Francisco foi tranquilo e ele chegou s duas da tarde, hora local, o 
que lhe deu tempo de sobra para chegar ao escritrio de Rebecca s quatro horas. Quando 
chegou l, era uma velha casa vitoriana num bairro em estado precrio. Mas ele ficou surpreso 
ao entrar e ver que a casa era bem-conservada, agradavelmente decorada e cheia de plantas, e 
Rebecca Abrams era uma mulher atraente. Estava com sessenta e poucos anos e usava o 
cabelo grisalho numa trana que lhe descia pelas costas. Usava jeans limpos e uma camisa 
branca engomada, sapatilhas vermelhas e uma flor vermelha no cabelo. Parecia uma hippie 
idosa, muito atraente, muito inteligente e bem-conservada. Sorriu com simpatia para John e 
conduziu-o  sua sala. No tinha ideia do que ele queria e no pareceu perturbada quando ele 
deixou a mala na ante-sala.
       - O senhor no se parece com a maioria dos nossos clientes, Sr. Chapman. - Sorriu 
com simpatia e apontou para uma cozinha ensolarada que dava para o escritrio. - Quer um 
caf ou um ch? Temos cerca de uma dzia de tipos diferentes de ch de ervas. -Sorriu de 
novo para ele, que sacudiu a cabea. Detestava ter de perturb-la, mas suspeitava que iria 
faz-lo.
       - Estou aqui para tratar de um assunto particular, Sra. Abrams. H algum tempo que 
estou procurando a senhora e seu marido, e tive dificuldade em encontr-los. O ltimo 
endereo que tinha de vocs era de Nova York, em 1957.
       Rebecca Abrams sorriu de novo e se recostou serenamente na cadeira. H anos que 
fazia ioga, e aquilo transparecia no seu jeito tranquilo.
       - Andamos de um lado para o outro nesses anos todos. Passamos muito tempo no Sul 
e depois voltamos para c quando meu marido ficou doente. Ele colocou quatro pontes de 
safem h seis anos e meio e ns dois decidimos que estava na hora de ele ir com calma e 
curtir a vida. Ento agora estou atendendo sozinha, ou melhor, com um grupo de mulheres de 
que gosto muito. Mas  um tipo de advocacia diferente da que fazia com David, embora 
alguns dos conceitos no sejam to diferentes. Lidamos com muitos casos que incluem 
discriminao e direitos civis. H muitos anos que fazemos isso.
       - E seu marido?
       - Leciona duas vezes por semana, em Boalt. Faz jardinagem. Est ocupado fazendo 
mil coisas que curte.
       - E sua filha? - Chapman prendeu a respirao.
       - Est bem. Ainda est no Kentucky. Como conhece a nossa famlia, Sr. Chapman?
       - No conheo. Receio ter vindo procur-la indirectamente. Tambm sou advogado e 
dirijo uma firma chamada Chapman Associates, em Nova York. Ao contrrio da senhora, 
nunca fui terrivelmente apaixonado pelo direito, e me encantei por investigaes h anos, 
portanto  isso o que fao. E meu cliente, neste caso,  Arthur Patterson. No sei se o nome 
lhe diz alguma coisa, mas foi ele quem lhes trouxe Megan, em 1958. Estou certo de que agora 
a senhora se lembra.
       Ela fez que sim, e agora o sorriso desapareceu totalmente.
       - Existe algum problema? Por que o Sr. Patterson iria entrar em contacto conosco 
agora? - Parecia amedrontada, como se ele ainda pudesse tirar Megan deles. Era isso o que 
sempre temera.
       - Falando francamente, Sra. Abrams, ele est morrendo. E quer saber se as meninas 
esto bem, se esto felizes e no passam nenhuma dificuldade. E ele espera reuni-las uma vez 
antes de morrer, para que possam se conhecer.
       - Agora? - Ela parecia horrorizada. - Depois de trinta anos? Por que elas iriam querer 
se conhecer? - Parecia prestes a expuls-lo do escritrio.
       - Ele acha que poderia significar alguma coisa para elas, e posso entender como a 
senhora se sente. Trinta anos  muito tempo para se esperar antes de fazer qualquer contacto.
       Ela sacudiu a cabea, incrdula.
       - Ns dissemos a ele quando a adotamos que no queramos contacto com ele ou as 
outras meninas. Foi esse o principal motivo por que deixamos Nova York e fomos para Los 
Angeles. No acho que seja justo para Megan exumar o passado dela agora.
       - Talvez ela deva fazer essa escolha. A senhora mencionou que ela ainda est no 
Kentucky.
       - Est terminando o seu perodo de residncia ali, em Appalachia.  mdica, 
especializada em obstetrcia. - Rebecca falava com profundo orgulho, mas encarava John com 
hostilidade indisfarvel.
       - Posso entrar em contacto com ela?
       Para ele era uma formalidade, mas para ela era uma ofensa. Ergueu-se parcialmente 
da cadeira e respondeu:
       - No, no pode, Sr. Chapman. - Ela voltou a se sentar e fitou-o, ofendida. - No 
posso acreditar que o senhor nos procuraria depois de todos esses anos e esperaria que 
expusssemos Megan a toda essa dor e confuso. O senhor conhece a causa da morte dos pais 
dela?
       - Conheo. E Megan?
       - Claro que no. Na verdade, vou lhe falar muito francamente. Esta coisa toda est 
totalmente fora de cogitao. Minha filha no sabe que  adotada.
       Ela o fitou nos olhos e ele sentiu o corao parar. Como podiam no ter lhe contado? 
To liberais que eram, to livres-pensadores, nunca lhe haviam dito que era adotada. Aquilo 
certamente complicava a questo para eles.
       - Vocs tm outros filhos, Sra. Abrams?
       - No, no temos. E meu marido e eu achamos que ela no precisava saber.  nossa 
filha nica, e veio para ns quando era beb. No havia absolutamente motivo nenhum para 
lhe contar,  medida que ficava mais velha.
       - Estaria disposta a lhe contar agora?
       Olhou fundo nos olhos dela e ficou assustado pelo que enxergou ali. Rebecca 
Abrams no ia tornar isso mais fcil para ele. Mas, pelo menos, ele sabia agora onde Megan 
estava. Se fosse preciso, iria encontr-la no Kentucky. Parecia uma atitude cruel, mas Megan 
tinha o direito de saber sobre as irms.
       Rebecca hesitou por um longo tempo.
       - No sei, Sr. Chapman. Sinceramente, acho que no, Vou ter que discutir isso com 
meu marido, e com o mdico dele em primeiro lugar. Ele no est bem e no quero deix-lo 
nervoso.
       - Compreendo. A senhora pode me ligar em um ou dois dias? Estou hospedado no 
Mark Hopkins.
       - Ligarei para o senhor quando puder. - Ela se levantou para indicar que a entrevista 
terminara, e bem que podia estar usando um costume listrado azul-marinho. Parecia to 
intimidativa como se estivesse usando um.
       - Nesse meio tempo o senhor vai voltar para Nova York?
       - Prefiro esperar pela resposta aqui, para o caso de seu marido querer me ver.
       - Eu o avisarei. - Ela apertou-lhe a mo, mas a expresso de seus olhos no era clida 
enquanto o levava at  porta e a fechava s costas dele. E quando voltou para a sua mesa, 
depois que ele se foi, baixou a cabea sobre os braos e chorou. Trinta anos tinham-se 
passado, mas ainda iam tentar tirar o seu beb. Iam despertar em Megan uma curiosidade que 
jamais tivera, e laos que jamais conhecera, e apresentar-lhe parentes que jamais desejara. 
No era justo, depois de tudo o que tinham feito por ela e o quanto a amavam.
       Foi procurar o mdico de David naquela mesma tarde, e ele achou que David estava 
suficientemente forte para receber a notcia. Mas ela levou dois dias para ganhar coragem para 
lhe dizer e, quando o fez, soluou nos braos dele e extravasou todos os seus temores. O 
marido acariciou o longo cabelo grisalho e a abraou com fora, dizendo-lhe o quanto a 
amava.
       - Ningum vai tirar Meg de ns, querida. Como poderiam? - Ficou comovido com a 
reao dela. Quando Megan era pequena ela se preocupava com as mesmas coisas. Queria que 
Megan fosse deles, e de mais ningum.
       - De repente ela vai querer ficar sabendo tudo sobre os seus pais biolgicos.
       - Ento ns lhe diremos.
       - Mas, e se ela se sentir diferente a nosso respeito, depois?
       - Voc sabe que no  assim, Becky. Por que se sentiria? Ela tambm nos ama. Em 
todos os sentidos importantes da palavra, somos os pais dela. Ela sabe o que isso significa, 
tanto quanto ns. Mas isso no quer dizer que no v querer ver as irms. Se algum me 
dissesse amanh que eu tinha duas irms que jamais conhecera, eu tambm ia querer v-las, 
mas isso no me faria amar voc menos, ou Megan.
       Mas Rebecca continuava assustada e entraram pela noite conversando. Rebecca 
queria manter o pacto de silncio e David achava que deviam contar a Megan. Levaram outro 
dia inteiro para chegar a uma concluso. E quando finalmente ligara, John sentiu o alvio 
inund-lo, estava ficando louco no seu quarto de hotel. Mas no queria ir embora at saber em 
que p as coisas estavam, e no queria pression-los.
       Ela o convidou para ir  casa deles em Tibum naquela noite. Os trs conversaram por 
longo tempo sobre as dificuldades de contar a Megan, depois de tantos anos, que era adotada, 
e era evidente que Rebecca ainda estava temerosa. Mas David era inflexvel na sua opinio. 
S exigiu de John que eles prprios se incumbissem de contar a Megan, e pessoalmente. Ela 
devia vir para casa dali a duas semanas, para umas frias curtas, e ento lhe contariam. 
Ligariam para John to logo ela soubesse, e depois ele teria liberdade para falar com Megan e 
marcar o encontro que Arthur Patterson tanto desejava. E John no teve alternativa seno 
aceitar. Eles tinham todas as cartas nas mos e ele queria fazer a coisa certa para eles, e para 
Megan.
       Voltou para casa naquele fim de semana e ligou para a casa de Arthur Patterson. Era 
bvio que ele no estava passando bem, e John sabia que no ia mais ao escritrio. Explicou 
que tinha encontrado os Abrams e que eles exigiam contar a Megan. Aquilo significava 
esperar duas semanas, mas Chapman achava que no havia escolha. Era a nica coisa decente 
a fazer, e Arthur concordou relutante, esperando poder viver o tempo suficiente para 
completar a sua misso.
       - O que mais resta fazer? - perguntou a John.
       - Esperar para saber notcias deles. Depois marcar a reunio com Megan e as outras. 
Alexandra est disposta a vir quando eu chamar, e ainda tenho de enfrentar Hilary. Mas s 
quero fazer isso no ltimo minuto. - Pressentia que, quanto mais tarde o fizesse, mais 
provavelmente ela viria  reunio. - Isso nos d duas semanas de intervalo. Avisarei ao senhor 
se acontecer alguma coisa antes.
       - Obrigado, John. - E ento, inesperadamente: - Voc fez um belo trabalho. Estou 
espantado que as tenha encontrado.
       - Eu tambm. - John sorriu, do outro lado da linha. No pensara realmente que o 
faria, mas fizera... e dentro de algumas semanas elas estariam reunidas e o seu trabalho 
encerrado. Parte dele sentia-se desolado ante a ideia, e outra parte se sentia aliviada. Ele 
pensou no que Eloise dissera quando tinha almoado. Ele ficaria livre quando tudo acabasse.
       
       Captulo 25
       O telefonema dos Abrams chegou dali a duas semanas e meia, como fora prometido, 
e John pde perceber pela voz tensa de David que contar a Megan no fora fcil.
       - Ela aceitou muito bem. - A voz dele falhou. - Sentimos muito orgulho dela... alis 
sempre sentimos... - E depois ele, prosseguiu, parecendo mais forte: - Ela falou que ligaria 
para o senhor quando voltasse para o Kentucky, se o senhor quiser falar com ela.
       - Seria possvel eu falar com ela agora? - perguntou John cautelosamente. David 
conferenciou com algum do outro lado e depois passou o telefone a algum cuja voz ele 
reconheceu dentro de momentos. Sem o sotaque francs, ela parecia Alexandra falando, tinha 
as mesmas entonaes, a mesma voz, a mesma risada.
       - Sr. Chapman?
       - Sim.
       - Isso tudo  uma surpresa. - Parecia descontrada e jovem, mas muito agradvel.
       - Lamento muito, de verdade.
       - No havia outro jeito; soube que o senhor queria falar comigo.
       -  verdade. Estava esperando encontr-la rapidamente no Kentucky antes de marcar 
a reunio. Quando acha que poderia vir a Connecticut para conhecer as outras?
       - S vou saber quando voltar. Meu horrio s vai ser feito no dia da minha volta. Mas 
eu poderia ligar para o senhor logo que souber, se quiser.
       - Eu gostaria muito.
       E ela ligou, pontualmente, no dia em que chegou, e John se perguntou se aquilo 
queria dizer que estava ansiosa para conhecer as outras ou se era apenas o seu jeito de ser.
       Ela lhe disse que estaria livre para v-lo no Kentucky, no prximo domingo  tarde, 
entre uma e cinco horas. E poderia passar dois dias em Connecticut dali a trs semanas, mas 
no antes disso.
       Chapman franziu o cenho enquanto a escutava, imaginando se Arthur viveria tanto 
tempo, e partilhou com ela as suas preocupaes. - Posso tentar trocar de folga com um dos 
outros mdicos, mas a diferena ser s de uns poucos dias. Temos muito poucas pessoas e o 
senhor ir ver o que estamos enfrentando quando vier para c.
       - Quer dizer que poderia vir daqui a trs semanas?
       - Poderia. A no ser que haja alguma emergncia, mas isso eu nunca posso prever.
       - Compreendo. - Ela era muito profissional e firme para uma moa de trinta anos, e 
conquanto tivesse a mesma voz, parecia muito diferente das outras. Tinha uma finalidade de 
propsito e fora criada com valores e tradies muito diferentes dos de Hilary ou Alexandra. 
Estava decidida a ajudar os desafortunados e a lutar na guerra contra a pobreza. Era algo em 
que Alexandra jamais pensara, e Hilary estivera ocupada demais sobrevivendo para se 
preocupar com os problemas mais esotricos das massas. Era curioso ver como eram 
diferentes. E John se lembrou de algo que Alexandra lhe dissera em Paris.
       O caleidoscpio dera mais uma volta e produzira uma imagem totalmente diferente. 
Desta vez os demnios se transformaram em montanhas cobertas de neve.
       Ele concordou em ir para o Kentucky no domingo seguinte e se encontrar com ela no 
hospital durante as suas horas de folga. Agradeceu-lhe por pass-las com ele e confirmou a 
reunio com as irms. Marcaram-na para primeiro de setembro e ele telefonou para Arthur 
logo que desligou. E na manh seguinte telefonou para Alexandra na Riviera. A ligao 
estava horrvel, mas a linha acabou limpando: e ela pde ouvi-lo.
       - J? - Ela parecia empolgada. - J encontrou as duas? - Era espantoso. - Onde estava 
Megan?
       Ele sorriu da sua voz meiga. J falava dela como uma irm que nunca perdera, que 
simplesmente tirara umas longas frias.
       - Ela  mdica no Kentucky.
       - Ah, meu Deus. E Hilary est bem?
       - Est. Eu a vi.
       - Ela concordou em ir no dia primeiro? - Prendeu a respirao  espera de uma 
resposta, mas suas esperanas foram destroadas logo que John lhe disse que no tinha falado 
com ela.
       - No quero lhe dar muito tempo para pensar no assunto. Ligarei para ela dentro de 
uma semana, mais ou menos.
       - E se ela viajar? - Alexandra estava preocupada. 
       - No se preocupe. Eu a encontro.
       Os dois riram e desligaram dali a um momento, e Alexandra ligou para a me. Ela 
estava em Cap d'Antibes, no Htel da Cap, onde sempre se hospedava. E Henri finalmente 
cedera com relao ao seu exlio.
       - Mame? 
       - Sim, querida, algum problema?
       Alexandra parecia sem flego e subitamente muito jovem, como suas prprias filhas.
       - Ele achou as duas.
       - As duas o qu? - Acabava de se levantar e estava tomando caf e lendo o Herald 
Tribuna. No podia imaginar o que Alexandra teria perdido que outra pessoa achara. - Do que 
est falando,
       - As minhas irms! Chapman achou as duas! - Parecia eufrica e Margaret sentiu o 
sangue gelar nas veias. Tinha tido esperanas de que ele no as achasse.
       - Que bom. - Tentou forar-se a parecer feliz. - Elas esto bem?
       - Uma delas  mdica, a mais moa, e a outra, Hilary, trabalha para uma rede de 
televiso em Nova York.
       - Parecem formar um grupo bem ilustre. E voc  uma baronesa. Deviam fazer um 
filme sobre vocs. - Mas no estava achando divertido, e Alexandra sabia disso.
       - No se preocupe, mame. Isso no vai mudar nada. Por favor, saiba disso.
       Margaret desejava poder ter certeza. Os seus temores no eram diferentes dos de 
Rebecca Abrams.
       - Quando vai conhec-las?
       - No dia 1 de setembro. Acabo de receber o telefonema. Vou para Connecticut.
       - O que vai dizer a Henri?
       - Ainda no resolvi. Pensei em lhe dizer que ia com voc... ou pelo menos para tratar 
de negcios seus.
       - Ele no vai acreditar.
       - No. Mas no posso lhe dizer a verdade. Vou pensar em alguma coisa.
       Conversaram por mais um momento e depois desligaram. Cinco minutos mais tarde, 
Margaret voltou a telefonar e as suas primeiras palavras deixaram Alexandra aturdida.
       - Eu vou com voc.
       - O qu?... Mame... no pode...
       - Por que no? - J tinha se decidido e achava que era uma excelente ideia, alm de 
fornecer a Alexandra o libi de que precisava. Alm disso, poderia ficar de olho nas coisas e 
ficar junto de Alexandra. Estava com um medo desesperado desse encontro.
       -  muito trabalho para voc. Voc s ia voltar a Paris no final de setembro, e me 
falou que ia para Roma durante algumas semanas.
       - E da? Eu posso ir para Roma em outubro. Ou na volta de Nova York. S o que eu 
queria era visitar Marisa - uma das suas amigas mais antigas - e comprar uns sapatos decentes. 
Mas prefiro ir para Nova York com voc. - E ento, quase timidamente: - Se voc me quiser.
       - Ah, mame... - As lgrimas lhe vieram aos olhos. Sentiu como Margaret estava 
assustada, mas no precisava estar. Ningum, nem parente consanguneo, nem marido, nem 
amiga jamais poderia substitu-la. - Claro que eu gostaria que voc fosse.  s que parece uma 
imposio.
       - No seja ridcula. Eu ficaria com os nervos em frangalhos se ficasse aqui. - E ento 
teve uma ideia totalmente maluca, mas gostou dela. - Que tal levarmos Axelle e Marie--
Louise?
       O rosto de Alexandra se iluminou ante a ideia. No lhe agradava deix-las no final 
do vero, mesmo que por alguns dias. E Henri poderia fazer objees a uma viagem familiar 
como essa.
       - Que ideia maravilhosa. Vocs trs podem ficar em Nova York enquanto eu vou 
para Connecticut e depois ns todas podemos nos divertir um pouco antes de voltarmos para 
Paris. As meninas s comeam as aulas no dia 11.
       - Maravilha, vou ligar para o Pierre e fazer as reservas hoje mesmo. Voc liga para a 
companhia area. Em que dia chegaremos?
       - Sexta-feira  dia 1... talvez devssemos viajar na quinta-feira, dia 31 de agosto.
       - Perfeito. Vou fazer reservas para dez dias. Sempre podemos modific-las se voc 
quiser voltar antes.
       - Mame... - Ela sentiu um bolo na garganta do tamanho de um punho cerrado ao 
pensar na nica me que j conhecera. - Eu a amo.
       - Tudo vai dar certo, querida. Voc vai ver s. - E, pela primeira vez desde que John 
Chapman apareceu na rue de Varennes, ela estava achando que sim.
       Alexandra no disse nada para Henri durante uma semana. E ento tocou no assunto 
casualmente certa tarde, enquanto estavam deitados no terrao.
       - Minha me quer que eu v para Nova York com ela no fim do vero.
       Ela falou com naturalidade, mas ele ergueu os olhos, iradamente. Ainda estava 
zangado com ela por sua suposta transgresso antes de deixarem Paris. Nunca a tinham 
discutido de novo, mas ela sabia que ele no a perdoara.
       - E que histria  essa, agora?
       - Nada. Ela tem uns negcios para tratar em Nova York. Alguns investimentos da 
famlia dela que precisam ser examinados, e me pediu que viesse junto e levasse as meninas.
       - Isso  ridculo. Por que voc iria para Nova York em agosto?
       Suspeitava das duas e da trama que estavam obviamente armando contra ele.
       - Na verdade  s no finzinho de agosto. E podia ser divertido para as meninas 
fazerem algo um pouquinho diferente.
       - Bobagem. Voc pode ir para Nova York outra hora, no inverno, sem as crianas.
       Mas a aspereza das palavras dele fez com que um arrepio percorresse a sua espinha. 
Ele no estava sabendo, mas nada a impediria de ir, ou de levar as filhas.
       - No, Henri. Eu vou agora. Com a minha me. E as crianas.
       Ele se sentou de sbito e fitou-a iradamente.
       - No est ficando muito independente de repente, Alexandra? Posso lhe lembrar que 
eu tomo as decises aqui, para voc e para as crianas.
       Ele nunca falara com tanta franqueza antes, mas era verdade, ou melhor, fora, at 
ento. Mas as coisas tinham comeado a mudar, desde que John Chapman viera para Paris.
       - No creio que valha a pena se aborrecer com isso, Henri.  um convite da minha 
me.
       - E se eu a proibir de ir? - O rosto dele estava vermelho de fria reprimida ante o 
comportamento chocante da esposa.
       - Terei que ir, de qualquer maneira. Minha me me pediu que fosse com ela.
       - Sua me no  uma invlida. Eu mesmo vou ligar para ela e dizer que voc no vai.
       Mas desta vez Alexandra se levantou e o enfrentou. Falou com voz suave, mas no 
havia como disfarar o ao por baixo do veludo. 
       - No quero desobedec-lo, mas preciso ir a Nova York com minha me.
       - Por qu? Me diga. Me d uma razo vlida.
       -  complicado demais para explicar. So assuntos de famlia.
       - Alexandra, voc est mentindo para mim. - Ele tinha razo mas no tinha escolha. 
A verdade era assustadora demais para partilhar com ele.
       - Por favor, no diga isso. No vou demorar. S uns dias.
       - Por qu, droga, por qu? - Ele socou a mesa de vidro e ela se sobressaltou.
       - Henri, por favor, voc no est sendo razovel. - E ela estava com medo de que ele 
pudesse for-la a lhe contar. - Minha me quer visitar a famlia e quer que eu v junto. No 
h nada de errado nisso.
       - O que h de errado nisso  que eu no disse que voc podia ir, e no vejo motivo 
para que v.
       - Talvez porque eu queira ir.
       - Voc no toma esse tipo de deciso sozinha. No  uma mulher solteira.
       - Tampouco sou uma escrava. Voc no pode decidir tudo por mim, pelo amor de 
Deus. Estamos no sculo XX, no na Idade Mdia.
       - E voc no  uma feminista moderna para fazer o que bem entende. Ou, se  isso 
que quer, Alexandra, no pode faz-lo sob o meu tecto. Por favor, no se esquea disso antes 
de comear a fazer os seus planos de viagem.
       - Isso  ridculo. Voc age como se eu tivesse cometido um crime.
       - De modo algum. Mas sou eu quem decide o que voc vai fazer, e quando. Tem sido 
assim h catorze anos e no vejo motivo para se mudar.
       - E se eu o fizer? - ela perguntou ameaadora. Pela primeira vez na vida ela estava de 
facto incomodada pelo modo como ele a tratava. Sabia que era um homem bom e decente, 
mas dirigia a vida de tal modo que ela no estava mais satisfeita. E, o que era pior, ela sabia 
disso.
       - Vai ter problemas comigo se quiser bancar a independente estou lhe avisando.
       - E eu estou lhe dizendo, o mais educadamente que posso, que vou para Nova York 
com a minha me no dia 31 de agosto.
       - Veremos. E sem eu permitir, no vai levar minhas filhas. Est claro?
       Era tudo um jogo de poder, e ela o detestou subitamente por isso. S o que lhe 
faltava era um chicote para completar a imagem que estava criando.
       - Elas tambm so prisioneiras aqui?
       -  assim que voc se v?
       - Ultimamente . Desde que voc me mandou para c como castigo por um crime 
que no cometi. Voc me tratou como uma criminosa todo o vero.
       - Talvez seja a sua prpria culpa que a faa sentir-se assim, minha cara.
       - De modo algum. E me recuso a me sentir culpada por uma viagem com a minha 
me, ou a me curvar e me arrastar e implorar. No preciso disso. Sou uma adulta e posso fazer 
uma coisa dessas, se tiver vontade.
       - Ah, a jovem baronesa est abrindo as asas. Est me dizendo que no precisa que eu 
a sustente por causa do tamanho de sua prpria renda?
       - Eu jamais diria uma coisa dessas, Henri.
       Estava chocada com a amargura que ele deixava transparecer. Mas ele se enfurecia 
porque ela no cedia aos seus desejos.
       - Nem precisava dizer, minha cara. De qualquer forma, j decidi. Voc no vai.
       Ela olhou para ele e sacudiu a cabea, em desespero. Henri no compreendia que 
estava escolhendo o assunto errado para se afirmar. Nada poderia impedi-la de ir. Nem 
mesmo o marido.
       
       Captulo 26
       Quando John Chapman chegou ao Kentucky, foi como pousar num outro planeta. 
Teve de mudar de avio duas vezes, depois um jipe veio receb-lo e o levou por trs horas de 
estradas esburacadas montanha adentro, at ser depositado num "motel" num quarto de 
solteiro e banheiro extenso. Passou a noite encolhido no quarto, escutando as corujas l fora e 
sons que jamais ouvira antes, e imaginando como seria Megan quando a conhecesse na manh 
seguinte.
       Dormiu mal e acordou cedo. Caminhou at ao nico restaurante da cidade, comeu 
ovos fritos e cereal e tomou uma xcara de um caf verdadeiramente horrvel. E o jipe veio 
busc-lo de novo depois do almoo, com um motorista desdentado que tinha apenas dezesseis 
anos e o levou at o hospital, l no alto das montanhas, sob pinheiros altos cercado por 
barracos onde moravam diversas famlias, a maioria com uma dzia de crianas correndo 
descalas e vestindo o que s podia ser chamado de trapos, seguidas por bandos de cachorros 
sarnentos que esperavam encontrar algumas migalhas ou sobras de comida que as crianas 
pudessem ter esquecido. Parecia difcil crer que esse local lgubre pudesse existir numa 
paisagem to bonita, e apenas a horas de distncia de locais como Nova York ou Washington 
ou Atlanta. A misria que John viu era de arrepiar. Rapazes que pareciam velhos encurvados 
devido s pssimas condies de trabalho, m sade e desnutrio aguda; moas sem dentes e 
com cabelos ralos. Crianas de barriga inchada por falta de comida. John se perguntou como 
ela aguentava trabalhar aqui, e entrou no hospital, sem ter certeza do que iria encontrar.
       Indicaram-lhe uma clnica nos fundos e ele foi para l, deparando em vinte ou trinta 
mulheres sentadas pacientemente em bancos, cercadas por crianas que berravam, e 
obviamente grvidas de novo com o que, em alguns casos, era o seu oitavo ou nono filho, 
muito embora tivessem apenas vinte anos. Era uma viso espantosa, e quando ele olhou para a 
recepo enxergou uma cabeleira ruiva, de tranas, numa moa bonita de jeans e botas e, 
enquanto ela caminhava em sua direo, ele soube, sem dvida alguma, que era Megan. 
Parecia-se incrivelmente com Alexandra.
       - Al, doutora. - Ela sorriu do cumprimento e conduzia uma pequena sala prxima 
onde podiam conversar em particular. Ele lhe entregou a pasta que mostrara a Alexandra e 
falou-lhe dela tambm, explicando que a reunio estava marcada para 1 de setembro como ela 
sugerira. - Ainda pode comparecer?
       Parecia preocupado e ela o tranquilizou com um sorriso clido. Tinha alguns dos 
maneirismos de Rebecca, mas na verdade se parecia muito com Alexandra.
       - Posso. Se puder me afastar delas. - Acenou na direco do exrcito de mulheres  
espera nos bancos.
       -  uma viso assombrosa.
       - Eu sei. - Assentiu com ar srio. -  por isso que vim para c. Elas precisam 
desesperadamente de ajuda. Cuidados mdicos, comida e educao.  incrvel pensar que isso 
existe no nosso prprio pas.
        Ele assentiu, sem conseguir discordar dela, e impressionada por que ela estava 
fazendo algo a respeito. 
        Ela examinou a pasta de novo, pensativa, e depois lhe fez umas perguntas sobre os 
seus pais. Queria saber a mesma coisa que Alexandra lhe perguntara. Por que Sam matara 
Solange? E depois, o que acontecera s outras? Ficou triste com o que leu sobre Hilary, e 
sorriu depois que ele terminou de falar sobre Alexandra. 
       - A vida dela parece bem diferente da minha, no ? Uma baronesa francesa. No 
tem nada a ver com o Kentucky, Sr. Chapman. - Falou com um sotaque arrastado e ele riu 
junto com ela, mas assim ela queria conhecer as irms. - Sabe, minha me est com muito 
medo dessa reunio.
       - Senti isso quando a conheci. Seu pai estava tentando tranquiliz-la.
       - Acho que  muito ameaador para qualquer pai ou me adotivos quando o filho 
adotado procura a sua famlia natural. Eu vi isso no meu perodo de residncia, antes de vir 
para c. Mas ela no tem com o que se preocupar. - Sorriu para ele com serenidade. Sabia 
exactamente quem era, aonde estava indo, e por que queria ir para l, igual s pessoas que a 
tinham formado. David e Rebecca tambm viviam segundo as suas convices e eram 
exactamente o tipo de pais de que ela precisava. Decentes, inteligentes, cheios de integridade 
e amor pelas pessoas e causas em que acreditavam. E Megan sabia disso. Dissera isso  me 
antes de voltar para c. - Ela ficar bem. Prometi ligar para ela depois de tudo terminado. Se  
que conheo os meus pais, eles provavelmente viro me visitar depois.
       Os dois riram e John observou os olhos dela. Estavam cheios de luz, vida e 
empolgao. Era uma moa que adorava o que fazia e se sentia realizada, e era emocionante 
apenas ficar perto dela. Era to diferente de moas como Sasha, que estavam envolvidas 
totalmente consigo mesmas. Essa moa no pensava em ningum excepto nas pessoas 
necessitadas  sua volta. E, no meio da tarde, ela teve de deix-lo para fazer uma cesariana de 
emergncia. Voltou dali a duas horas e pediu desculpas pelo atraso.
       - Esta devia ser a minha tarde de folga. Mas  sempre assim,  por isso que nunca 
posso ir muito longe.
       E ento ela o convidou para jantar na sua casa. Morava numa choupana simples, com 
mveis simples e belos acolchoados que comprara de algumas de suas pacientes. Preparou 
uma panela de ensopado e eles relaxaram e conversaram sobre a juventude dela, os pais e 
pessoas que conhecera. Parecia amar profundamente os pais e sentia-se grata por tudo o que 
tinham feito por ela, no entanto, ao mesmo tempo, parecia intrigada ao pensar que j 
pertencera a pessoas inteiramente distintas.
       Ela sorriu por sobre a borda do copo de vinho, e parecia muito jovem, como uma 
menina.
       - De um jeito engraado,  meio emocionante.
       Ele riu e deu uma palmadinha na mo dela. De certa forma, parecia a menos 
perturbada, a mais segura, a mais feliz das trs mulheres. Estava fazendo exactamente o que 
queria.
       E depois ela o levou at onde estava hospedado, no jipe que o pai lhe dera quando se 
mudara para as montanhas. John tivera vontade de ficar sentado ao luar, conversando com ela 
durante horas, mas Megan tinha que voltar. Retomava o servio s quatro e meia da 
madrugada.
       - Eu o verei em Connecticut no dia? - ela perguntou cautelosamente, enquanto ele a 
olhava  luz da lua.
       - Estarei l. - Sorriu. - Pelo menos por algum tempo. Prometi ao Sr. Patterson que 
estaria presente para receb-las e ajudar a botar as coisas em andamento.
       - At l, ento. 
       Ela acenou quando arrancou com o jipe e John ficou olhando para o vulto que se 
afastava, enquanto escutava as corujas piando na rvore e sentia o ar da montanha suavemente 
sobre as faces, e por um momento teve vontade de poder ficar com ela para sempre.
       
       Captulo 27
       Alexandra j estava com as malas todas prontas. S faltava organizar as meninas, 
quando Henri a confrontou no corredor e lhe agarrou o brao.
       - Pensei que voc tinha me compreendido. Eu lhe disse: voc no vai a Nova York.
       - Henri, eu preciso. - No queria brigar com ele. Era algo que tinha de fazer e no era 
justo tentar det-la agora. Ele a seguiu de volta ao quarto, onde ficou olhando carrancudo para 
ela, numa fria muda, enquanto as malas jaziam abertas sobre a cama.
       - Por que est sendo to obstinada sobre isso? - Ele sabia instintivamente que tinha 
de ser um homem. No havia outro motivo concebvel.
       - Porque  muito importante para mim.
       - Voc nada me disse que explique isso. Por que uma viagem para Nova York com a 
sua me significa tanto para voc agora? Quer me explicar?
       Os olhos dela se encheram de lgrimas enquanto olhava para ele por sobre a cama. 
Ele a tratara mal o vero todo, e era to injusto que estivesse sendo difcil agora.
       - No posso explicar direito. Tem a ver com algo que aconteceu h muito tempo.
       - Algo que diz respeito a um homem? - Olhou para ela acusadoramente e, enquanto 
observava  luz do sol forte da Riviera, ele Pareceu subitamente muito velho, e ela se 
perguntou se ele estaria com medo... medo de que ela estivesse envolvida com um homem 
mais moo. Sentiu pena dele e, por um momento, baixou a guarda, enquanto erguia a cabea.
       - No, no tem absolutamente nada a ver com um homem. Tem a ver com meus pais.
       Isso era verdade, mas no estava se referindo ao conde e  condessa de Borne.
       - O que  que tem os seus pais?.Alexandra, espero que me conte o que est se 
passando.
       E ento, de repente, como se no pudesse mais lutar contra ela se sentou numa 
cadeira e comeou a chorar. Mas ele no se acercou dela. No lhe ofereceu nenhum consolo. 
Por tudo o que sabia, ela ainda lhe devia uma explicao, e talvez muito mais.
       - No queria lhe contar isso. ...  difcil explicar. Eu s fiquei sabendo em junho. - 
Ergueu para ele os olhos profundamente perturbados e ele se deu conta, subitamente, de que 
havia muito errado, que as transgresses pelas quais a punira durante dois meses talvez no 
fossem o que estivera pensando. Um arrepio de culpa o percorreu, mas apenas brevemente, 
enquanto esperava, parado perto  janela, quando ela continuou: - Minha me... meus pais... 
havia uma coisa que deviam ter-lhe contado... que eu devia ter-lhe contado, s que tinha quase 
me esquecido, e disse para mim mesma que no era importante. Mas suponho agora que era... 
- Houve um estremecimento interno de horror enquanto ele esperava. Ela prendeu a 
respirao e prosseguiu: - Henri, eu fui adotada.
       Ele a fitou, totalmente estupefacto.
       - Foi? Por que algum no me contou? O seu pai nunca disse nada. - Parecia 
horrorizado, mas ela prosseguiu corajosamente. Ia contar-lhe tudo, no importa o quanto lhe 
custasse.
       - Tambm fui adotada antes disso. Por Margaret e seu marido anterior.
       Esperou que o impacto o atingisse e, quando atingiu, ele se sentou lentamente na 
cama e empalideceu, fitando Alexandra.
       - Est falando srio? No era a filha biolgica de Margaret e Pierre de Borne? - Era 
como se algum lhe acabasse de contar que o Renoir pelo qual pagara cinco milhes de 
dlares era uma falsificao. A sua linda esposa com a famlia impecvel no era uma 
condessa de nascena, mas uma desconhecida. Ela assentiu. Sabia quo profundamente ficara 
chocada quando Margaret lhe contara, e o quanto mais Henri ficaria aturdido. - E antes disso? 
Margaret nem mesmo  sua me?
       A voz dele era um sussurro e Alexandra assentiu, pronta a contar-lhe tudo.
       - No, no .
       Ele soltou uma risada amarga.
       - E pensar em quantas vezes me preocupei que voc ou as meninas fossem ficar 
parecidas demais com ela. Ento quem so os seus pais?
       Ela podia ser qualquer uma... uma garota das ruas... da sarjeta... de pais e linhagem 
desconhecidos. S de pensar nisso quase se sentiu mal. H dez sculos que a sua famlia se 
casava e se reproduzia com o mximo de cautela, e ele se casara com uma perfeita estranha, 
de origem desconhecida.
       - H dois meses que sei disso. E quis poup-lo. Esse  o segredo que estava 
guardando de voc. Nada mais.
       Mas ele no se abrandou, olhou para ela com raiva e cruzou o aposento com fria, 
olhando-a por sobre o ombro.
       - Antes fosse um homem.
       - Desculpe desapont-lo. - Ela falou com grande tristeza. Ele estava desapontado. 
Rezara intimamente para que ele a aceitasse... para que aquilo no tivesse importncia para 
ele. Mas no se iludira. Essas coisas significavam demais para o seu marido para que ele fosse 
magnnimo com relao a uma surpresa desse tipo. E ela soubera disso. Somente desejara que 
pudesse ser diferente, mas no era.
       - E seus pais? Quem so? Os verdadeiros...
       Ela inspirou fundo, cheia de coragem, e lhe contou.
       - Minha me era francesa. Sei apenas que se chamava Solange Bertrand, uma 
"plebia", como voc diria. Meu pai a conheceu quando libertou Paris junto com as foras 
aliadas. No sei mais nada. Meu pai era actor, um actor famoso e muito respeitado, chamado 
Sam Walker. Todos diziam que eles estavam muito apaixonados, e tinham trs filhas, das 
quais eu era a segunda. E ento... - Ela quase engasgou as palavras enquanto lhe contava, mas, 
de uma certa forma, era alvio diz-las. -...como resultado de alguma loucura, ele a matou. E 
quando foi condenado pelo crime cometeu suicdio na sua cela, fixando-me e s minhas irms 
rfs e sem vintm. Ficamos com uma tia por alguns meses, e depois um amigo da famlia, 
um advogado, encontrou lares para ns e providenciou para que fssemos adotadas, duas de 
ns, pelo menos. Eu tive muita sorte de ter sido dada para Margaret e seu primeiro marido, 
um advogado chamado George Gorham. Eu tinha cinco anos, na poca. Dizem que tinha 
quatro quando meu pai matou a minha me, e  por isso que no me lembro de nada. 
Tampouco me lembro do homem chamado George Gorham. Aparentemente, seis meses mais 
tarde ele morreu e minha me... e Margaret, quero dizer... veio para a Frana para se recuperar 
e conheceu meu pai... Pierre... e voc sabe a maior parte do resto. Ele me adotou logo que 
casou com a minha me, o que voc no sabia e suponho que eu tenha esquecido, e vivemos 
felizes para sempre e ento voc apareceu, Henri. - Ela tentou sorrir, mas o seu rosto se 
congelou quando olhou para ele.
       - Que historinha bem contada. - Henri olhou-a com fria incontida. - Como ousaram 
me impingir esse embuste durante todos esses anos? E mesmo que voc tenha se esquecido, 
como diz, a sua me no esqueceu. E seu "pai", como voc o chama. Bande de salopards.... eu 
podia pedir o divrcio com base na fraude... e ainda por cima com danos.
       - Chama as suas filhas de "danos", Henri? Eu no tinha ideia... de verdade... - As 
lgrimas lhe escorriam lentamente pelas faces e caam na blusa de seda amarela enquanto o 
observava, mas no via nele nenhuma misericrdia.
       - Chamo toda essa charada de vergonhosa! E esta viagem a Nova York? Qual a sua 
finalidade? Botar flores no tmulo de seus pais?
       - O advogado que nos entregou para adoo era o amigo chegado dos meus pais e 
est morrendo. Passou meses tentando localizar as minhas irms, e deseja nos reunir. Acha 
que nos deve isso pela dor que possa nos ter causado ao nos separar. Eu tive muita sorte, mas 
pelo menos uma de ns no teve.
       - E o que ela ? Uma prostituta nas ruas de Nova York? Meu Deus,  incrvel! No 
espao de uma hora herdei uma noiva de guerra, um assassino, um suicida e sabe l Deus o 
que mais! E voc espera que eu agite o meu leno e derrame lgrimas de alegria porque voc 
vai se reunir com as suas irms, das quais nem pode gostar depois de todo esse tempo? E a 
sua me? Que papel desempenhou nisso tudo?  a responsvel por t-la feito entrar em 
contacto com o advogado? Achou que voc precisava de um pouco de emoo na vida? Sei 
como ela me acha enfadonho, mas lhe asseguro que esta no  a minha ideia de emoo.
       - Nem a dela. - Alexandra olhou para ele orgulhosamente. Tinha-lhe contado quem 
era, e se ele preferia rejeit-la, era perda dele, pecado dele, falta de compaixo dele. Ela fizera 
todo o possvel para proteg-lo e ele exigira uma resposta s suas perguntas. Agora ele a 
tinha. E restava ver o que faria a respeito. - Minha me ficou desolada ao ter que me contar. 
No queria que nada disso viesse  luz. Mas eu quero ver as minhas irms. Eu quero ver quem 
so. E no, minha irm no  uma prostituta. Dirige uma importante rede de televiso e teve 
uma vida trgica. Minha irm mais moa  mdica e trabalha em Appalachia. E nem sei se 
vou gostar delas, ou elas de mim. Mas quero v-las, Henri. Quero saber quem so e quem eu 
sou, alm de ser sua esposa.
       - Isso j no basta para voc, no ? Teve que nos fazer passar por isso. Pode 
comear a imaginar o que isso faria  minha carreira, se fosse ventilado? O que aconteceria ao 
meu banco? s minhas ligaes polticas? Meus parentes? Pode imaginar o que suas prprias 
filhas pensariam se soubessem que o av delas assassinou a av? Meu Deus... - Ele se sentou 
de novo, abalado com a ideia. - Nem consigo comear a imaginar.
       - Nem eu - falou Alexandra com voz dbil. - Mas no vejo por que tenha de ser 
ventilado. Ningum vai dar publicidade a esse encontro. As crianas nem sabem por que estou 
indo. Simplesmente pensam que vov nos convidou e que vamos para Nova York. Vou passar 
um fim de semana em Connecticut "com amigos", enquanto as meninas e minha me ficam 
em Nova York.
       - No entendo por que as quer junto com voc. No faz sentido.
       Mas fazia para ela... e para Margaret.
       - Talvez precise delas para apoio emocional. - E ento ela deu um grande passo, um 
passo que no tinha imaginado um momento antes. - Gostaria que voc tambm viesse junto. 
 um pouco assustador voltar atrs, anos atrs, para ver pessoas que no se conhece, mas que 
se deve ter amado.
       - Nem consigo comear a imaginar. E no, no irei com voc. Na verdade, 
Alexandra... - Ele se ps de p e olhou para ela com tristeza. At onde podia ver, a vida deles 
tinha sido destroada de modo irreparvel. - Imploro-lhe que no v. No tenho ideia do que 
possa ser salvo do nosso casamento, se  que alguma coisa pode, mas no tem sentido ir e ver 
essa gente. Elas so inferiores a voc. Voc no deve voltar... - E ento, num murmrio: - Por 
favor, no v.
       Desta vez, porm, ela no podia lhe fazer a vontade. Depois de catorze anos de 
obedincia devotada a Henri de Morigny, ela no podia mais obedecer. Precisava ir a Nova 
York, para o seu prprio bem, e talvez at para o bem das filhas. Tinha de ir e enfrentar essas 
mulheres, estender a mo e toc-las, talvez at mesmo am-las, ou no, e dar descanso a 
velhos fantasmas que nem soubera que existiam.
       - Desculpe, Henri... tenho que ir... espero que voc possa entender.  terrivelmente 
importante para mim. E nada disso precisa ferir o nosso casamento. Estou fazendo algo que 
preciso fazer... por mim... no para ferir voc. - Caminhou at ele e tentou abra-lo 
meigamente, mas Henri no deixou. Tratava-a como a estranha que, na sua cabea, ela agora 
era.
       - Nem sei mais quem voc .
       - Ser que a minha rvore genealgica faz tanta diferena?
       Mas ela j sabia a resposta antes de fazer a pergunta. Ele sacudia a cabea com 
tristeza e saiu do aposento, enquanto ela assoava o nariz resolutamente e descia o corredor 
para fazer as malas das filhas. No importa o que acontecesse ao seu casamento, ela no tinha 
dvidas, Tinha que ir para Nova York. Tinha que ir. Iria.
       
       Captulo 28
       Faltavam trs dias para o encontro marcado quando John Chapman voltou  rede, 
exibiu todos os seus passes e subiu at o escritrio de Hilary. Sorriu para a secretria e fez ar 
de que ali era o seu lugar, enquanto perguntava se Hilary estava na sua sala.
       - Vai sair daqui a alguns minutos...
       Ela j ia lhe perguntar quem era, mas John passou por ela e a moa deu de ombros. 
No podia controlar todos os que entravam para ver a Senhorita Walker. Era uma legio, e ele 
parecia legal. Na verdade, parecia muito mais do que isso. Sorriu consigo mesma, imaginando 
se ele seria algum com quem Hilary estava envolvida. Ningum sabia nada da vida particular 
de Hilary. E quando a porta se fechou silenciosamente atrs dele, John ficou parado na sala de 
Hilary, que ergueu os olhos, espantada.
       - Sim? - Achou que era algum tipo de entrega, um roteiro, ou instrues urgentes. 
Estava acostumada a caras novas que entravam e saam da sua sala, mas no a esta aqui. E ele 
a fitava serenamente, como se a conhecesse bem. Teve uma sensao estranha quando ele se 
aproximou, e sentiu medo, de repente. Estendeu a mo para o telefone para pedir ajuda. 
Porm ele sorriu e ela se sentiu uma tola. Parecia inteligente, coerente e bonito, mas ela 
ainda no conseguira concluir quem diabo ele era ou o que fazia ali, quando falou com ela 
numa voz profunda e gentil.
       - Senhorita Walker? - Mas no precisava fazer a pergunta. Sabia exactamente quem 
ela era, possivelmente at melhor do que ela prpria. - Desculpe ir entrando assim desse jeito. 
Preciso lhe falar por um momento.
       Ela ficou de p atrs da mesa, como que para obter o controle da situao quando ele 
se aproximou. Os olhos verdes estavam frios mo gelo e a sua voz era seca.
       - Estou de sada. Ter de falar comigo amanh. De que departamento voc ?
       Era uma pergunta difcil e ele no sabia ao certo o que responder. No queria que ela 
ligasse para a segurana e o mandasse botar na rua. Em vez disso, falou uma coisa totalmente 
inesperada.
       - Estou aqui por causa de Megan e Alexandra... - Esperou para ver o efeito e, como 
um ferimento a faca profunda ou um tiro, a princpio no houve sangramento. Os olhos dela 
ainda eram gelo verde firme. - Elas querem v-la.
       - Quem  voc?
       Desta vez a mo dela estava tremendo quando a estendeu para o telefone. Ele chegou 
primeiro e no a deixou tir-la do gancho.
       - Por favor... me d s cinco minutos. No vou machuc-la.  uma longa histria, 
mas vou torn-la o mais rpida possvel.
       E ento, de repente, ela soube que ele era o homem que lhe telefonara, e John soube 
que ela se lembrava.
       - No quero v-las.
       - Elas querem v-la. As duas. Alexandra vem da Frana... Megan do Kentucky... - 
Ele estava ganhando tempo e ela estava mostrando sinais de dor nos olhos... uma tristeza 
incrvel...
       - Aquele velho filho da puta o mandou, no foi? Porqu agora? - Ela se esticou at 
onde sua altura o permitia e olhou para ele, largando o telefone.
       - Ele est morrendo.
       - ptimo.
       - Talvez queira se arrepender dos seus pecados. Quer reunir vocs trs neste fim de 
semana, na casa dele em Connecticut. Ele gastou meses procurando vocs...
       - Babaquice. - Ela o interrompeu. - Sei que no  assim. Eu o procurei h vinte anos e 
ele no tinha ideia de onde ningum estava, e nem interesse. Quem nos encontrou? Voc? - 
Ele fez que sim, sem ter certeza se ela o odiaria ou no. Ele s estava criando mais dor para 
ela. E h muito tempo que ela enterrara o passado. Desistira de encontrar as irms depois da 
ltima vez em que vira Arthur. Depois de dez anos, o sonho tinha morrido. E agora, depois de 
mais de vinte anos, ela no queria reviv-lo. No precisava mais delas. Tinha cortado da sua 
vida tudo o que as pudesse lembrar. No havia homens nem crianas, nem qualquer tipo de 
vida amorosa. Havia trabalho, trabalho calmante, e as pessoas a quem pisava para subir. No 
precisava sentir-se culpada ou arrependida. Estava seguindo numa direo. E estava 
completamente sozinha. -  tarde demais, seja voc quem for.
       - Chapman, John Chapman.
       - Bem diga a ele que no estou interessada. Ele est atrasado vinte anos, ou melhor, 
trinta.
       Parecia indizivelmente amarga quando se sentou. De algumas formas, ele reparou, 
ela parecia mais moa do que era, e de outras mais velha. Tinha olhos que eram mais velhos e 
mais tristes que o tempo. 
       - E o que digo s suas irms? 
       - Diga a elas... Diga a elas... - A sua voz falhou e ela ergueu os olhos para ele com 
tristeza. - Diga a elas que as amei, mas que... agora  tarde demais para mim. 
       Ele sacudiu a cabea e se sentou diante dela, do outro lado da escrivaninha, rezando 
para poder tocar algo que ainda vivesse no seu corao, se  que qualquer coisa sobrevivera  
dor interminvel que sofrera em criana. 
       - No  tarde demais, Hilary... no pode ser... voc era tudo para elas naquela poca... 
- Arthur dissera isso. Certa vez descrevera a John como ela cuidava das outras duas meninas, 
e s de falar ele se pusera a chorar. - No pode lhes dar as costas agora. 
       Ela o fitou nos olhos, perguntando-se quem era este homem, como a encontrara, e 
como sabia tanto. 
       - Elas no precisam mais de mim, Chapman. So adultas, agora. O que so? 
Secretrias? Donas de casa? - Era o melhor destino que podia esperar para elas. John 
Chapman sorriu. 
       - Uma  baronesa na Frana, com duas filhas, e a outra  mdica no Kentucky. 
Ambas so mulheres interessantes. Acho que gostaria delas.
       Mas isso no tinha nada a ver, embora estivesse curiosa a respeito. 
       - Quem  a mdica? - Era difcil imaginar qualquer das duas garotinhas como 
mdica. 
       - Megan. Ela  formidvel. E Alexandra tambm.  simptica, compassiva e 
bondosa.
       - J era assim desde beb. - A sua voz era um sussurro e ento, enterrando o rosto nas 
mos, ela sacudiu a cabea. - A ideia de encontr-las foi o que me manteve viva por dez anos 
de inferno. Roubei dez mil dlares da minha tia e vinha para Nova York para encontr-las. - 
Riu protegida pelas mos, e Chapman podia ver que havia lgrimas na escrivaninha. - E ento 
ele me contou que no mantivera contacto com elas... que no tinha ideia de onde estavam... 
eu tambm no podia encontr-las. - Ergueu para John os olhos vazios, feridos. - De que 
adianta agora, excepto para nos causar dor com as lembranas do que aconteceu?
       - Voc  a nica a t-las, Hilary. As outras no tm nada. Alexandra se lembra de 
voc, Megan no sabe de nada. S o que vocs tm agora  umas s outras. O que aconteceu 
aos seus pais no tem mais importncia. S vocs trs... no pode dar as costas a isso agora.
       - O velho sacana nos destruiu. Por que eu deveria deixar que alivie a sua conscincia 
reunindo-nos agora? Minha vida no vai mudar se eu no as vir. Isso tudo acabou. Elas se 
foram. Como os meus pais... como o passado.
       - Seus pais se foram para sempre... mas suas irms no. So reais, esto vivas e 
querem conhec-la. Mesmo que voc v e as deteste, pelo menos poder dizer a si mesma que 
tentou.
       Mas ela sacudiu a cabea lentamente e ficou de p de novo, os olhos lanaram para 
ele fogo cor de esmeralda.
       - No vou faz-lo. Diga a Patterson o quanto o odeio... no... voc nem poderia 
imaginar o quanto o odeio.
       - Por qu? Sei que ele no manteve vocs trs juntas, mas havia mais alguma coisa? - 
Tivera vontade de lhe perguntar isso desde a primeira vez que lera a sua pasta.
       - No tem mais importncia. Ele sabe o que nos fez. Ele que viva com isso. Para 
mim... est acabado... tenho a minha vida... o meu trabalho... no preciso mais do que isso.
       -  uma vida danada de vazia, Hilary. Eu sei, porque  s o que tenho. Com quem 
voc conversa  noite, no silncio? Quem segura a sua mo quando est doente ou cansada ou 
com medo? Tenho uma ex-esposa e meus pais e dois irmos. Quem voc tem? Pode se dar ao 
luxo de dar as costas para essas duas mulheres?
       - Saia do meu escritrio. - Ela foi at  porta e a escancarou. J tinha ouvido o 
bastante e no podia aguentar mais. Mas ele tirou um pedao de papel do bolso. Nele estavam 
as instrues sobre como chegar  casa de Arthur em Connecticut no dia 1 de setembro, o 
telefone, o endereo. Ele a fitou nos olhos enquanto o punha sobre a mesa e depois se dirigia 
at a porta.
       - H meses que venho vivendo a sua vida, Hilary Walker. Chorei por voc. Estive em 
Charlestown, em Jacksonville, falei com a vizinha que a encontrou quase morta na soleira da 
sua porta, estive nos seus lares de adoo. Sei como ele a magoou... sei que destino cruel voc 
teve - e havia lgrimas nos olhos dele enquanto olhava para ela e falava -, mas por favor, meu 
Deus, por favor, no faa isso... no lhes vire as costas agora. Elas precisam de voc e voc 
delas... Hilary... por favor... v  reunio. Estarei l para ajud-la. Farei tudo o que puder. - 
Ela erguia os olhos para ele, espantada, perguntando-se como ele soubera de tudo isso. - No 
deixe de estar l... por favor... - E, com essas palavras, apertou-lhe o brao suavemente e 
deixou a sala. Ela ficou ali parada, vendo-o afastar-se, toda a velha dor do passado revivida, 
juntamente com uma nova confuso. No queria ir v-las... no queria recordar os cachos 
ruivos de Axie e os gritinhos de Megan dentro da noite. Elas tinham partido. Partido para 
sempre. E ela no podia mais voltar. Nem mesmo por John Chapman.
       
       Captulo 29
       - Voc vai mesmo?
       Henri olhava para ela, do outro lado do quarto de dormir. Em Cap Ferrat eles 
partilhavam um quarto, ou tinham partilhado, at que Alexandra lhe confessara tudo. Ele se 
mudara para o quarto de.hspedes naquela mesma noite. E o gesto no precisara de 
explicao.
       - Vou.
       Parecia sria e firme. As meninas estavam vestidas e prontas. As malas j estavam l 
embaixo e Margaret ia encontrar-se com elas no aeroporto em Nice. Tinham conseguido vaga 
num voo direto para Nova York sem voltar para Paris.
       - No vai reconsiderar?
       Ela sacudiu lentamente a cabea.
       - Desculpe, querido, no posso. - Ela se dirigiu para ele na esperana de que a 
deixasse toc-lo, mas quando chegou ao seu lado Henri recuou rapidamente, o que a magoou 
profundamente.
       - No, por favor - disse ele em voz baixa. - Faa uma boa viagem, ento.
       - Voltarei no mximo no dia dez. - Ele assentiu. - E estarei no Pierre em Nova York 
se precisar de mim. Eu ligo para voc.
       - No ser necessrio. Estarei muito ocupado. - Ele se virou e saiu para o terrao e, 
com um ltimo olhar para as costas dele, ela saiu e desceu as escadas. No viu que ele a 
observava quando se afastaram, ou as lgrimas nos seus olhos enquanto fitava o mar e 
pensava nela. Sabia que a amava muito e agora se sentia como se a tivesse perdido. Era 
incrvel para ele... tudo o que tinha acontecido... simplesmente no compreendia. Como eles 
podiam ter deixado que acontecesse? De uma certa forma, ele percebia, ela era to vtima das 
circunstncias quanto ele. Mas para ele era to mais importante e agora ela estava se 
entregando a essa viagem sem sentido para encontrar duas irms desconhecidas. Ele s 
desejava ter podido det-la, mas era evidente que no podia.
       
       Margaret insistira para que viajassem de primeira classe e as meninas estavam 
encantadas ao pedirem Shirley temples e soprarem uma para a outra pelos canudinhos 
vermelhos.
       - Meninas, por favor! - admoestou Alexandra, ainda pensando no marido. Margaret 
lhe disse que deixasse elas se divertirem. E, quando as meninas desceram o corredor para ver 
se encontravam outras crianas para brincar, Margaret perguntou como Henri recebera a 
notcia. Alexandra apenas lhe contara rapidamente, alguns dias atrs, que contara a ele toda a 
verdade antes de partir.
       - Ele no verbalizou propriamente - disse Alexandra solenemente  me -, mas acho 
que acabou. Estou certa de que, quando voltar, verei que j entrou em contato com seus 
advogados.
       - Mas voc no precisava ter-lhe contado. Podia ter dito que eu a estava arrastando 
para Nova York.
       - Ele sabia que era outra coisa, mame. Eu tinha que lhe dizer alguma coisa, ento 
disse a verdade. - E, a despeito do preo a pagar, no se arrependia. Pelo menos tinha a 
conscincia limpa.
       - Acho que foi um grande erro. - No disse nada a Alexandra, mas desconfiava de 
que as desconfianas da filha tinham base. Era praticamente certo que Henri pediria o 
divrcio. Nem pediria, exigiria, e Alexandra no lutaria. Margaret s rezava para que ele lhe 
deixasse as crianas. Nada disso era agradvel de se considerar, e distraiu-se quando Axelle e 
Marie-Louise voltaram e anunciaram que, a despeito do voo estar lotado, no havia 
"ningum" no avio.
       - Em outras palavras, no h crianas? - indagou Margaret com um sorriso e elas 
acharam graa. - Ento vo ter de se contentar conosco.
       Jogaram mico-preto e sueca e ela ensinou-lhes gin rummy, depois assistiram ao filme 
enquanto Alexandra ficava imersa em seus pensamentos. Tinha muito em que pensar... nos 
pais... nas irms... e no marido, se  que ainda teria um quando voltasse para a Frana. Mas 
ainda tinha certeza de ter tomado a deciso acertada, e na manh seguinte, aps uma boa noite 
de sono no Pierre, ela ligou para a portaria e marcou uma hora no Bergdorf's, a algumas 
quadras dali. Ficou muito satisfeita com os resultados. Quando se encontrou com a me e as 
meninas na hora do almoo, elas ficaram estupefatas. Ela tirara a rinsagem loura do cabelo e 
era novamente ruiva.
       - Mame, voc est parecendo comigo! - gritou Axelle, encantada, e Margaret riu 
enquanto Marie-Louise batia palmas.
       - Por que cargas d'gua resolveu fazer isso? - indagou Margaret, por sobre a cabea 
das meninas.
       - H muito tempo que queria fazer isso. Talvez seja que agora eu sou quem sou, para 
o melhor ou o pior. Mas no estou mais me escondendo.
       E Margaret sentiu-se bem, observando-a.
       - Eu a amo - murmurou Margaret, tocando a mo da filha.
       Almoaram no "21" e pararam no Schwarz's para um "presentinho" da vov. Como 
sempre, ela cobriu de mimos as duas meninas. E como fora planejado, s quatro horas a 
limusine de Alexandra estava esperando. Tinha explicado s meninas que ia passar o fim de 
semana com alguns velhos amigos em Connecticut, e elas ficariam com a av na cidade.
       - Ligo para vocs hoje  noite - prometeu, entrando no carro com uma maleta e 
usando um vestido de linho preto muito chique de Chanel.
       - Vamos ao cinema com a vov! - gritou Axelle.
       Ela abraou a me com fora, deu um abrao nas meninas e depois jogou beijos para 
as trs, e seus olhos fitaram os da me por um longo momento enquanto se afastava. Tinha 
certeza de poder ver lgrimas nas faces da me enquanto esta acenava, e os olhos de 
Alexandra tambm ficaram cheios de lgrimas. Era assustador estar voltando para o passado e 
se adiantando no futuro, tudo ao mesmo tempo. Mas tambm era muito emocionante.
       
       Captulo 30
       A viagem at Stonington, no litoral de Connecticut, levou pouco menos de duas 
horas, e Alexandra sentava-se no banco traseiro, pensando nas pessoas que deixara atrs de si. 
Margaret e o amor que lhe dedicara por trinta anos, Axelle e Marie-Louise, to infinitamente 
preciosas para ela, talvez at mais agora... e Henri, to zangado com a sua aparente traio. 
Pensara em ligar para ele de manh, antes de sair, mas no conseguia pensar no que dizer. Na 
verdade, no parecia haver nada a dizer. Ela sabia como ele se sentia com relao  viagem 
aos Estados Unidos. Proibira que ela fosse e, pela primeira vez na sua vida de casados, ela 
desobedecera a ele. E de repente, enquanto viajava na limusine alugada, ela se sentiu 
estranhamente livre, e diferente do que se sentia h muito tempo... quase como costumava se 
sentir quando era uma garotinha, correndo com o pai nos prados perto da sua casa de campo, 
com o vento nos cabelos, totalmente segura de si e completamente feliz. Sentia como se ele 
estivesse aqui com ela, agora, enquanto fazia a viagem ao passado que se sentia forada a 
fazer. E, sem pensar, correu a mo pelos cabelos e sorriu consigo mesma. Ela era Alexandra 
de Borne de novo... Alexandra Walker, sussurrou no carro silencioso. E pela primeira vez em 
catorze anos, era novamente ruiva.
       Havia um porto eletrnico quando chegaram e uma voz desconhecida apertou a 
campainha para entrarem, mas tirando esse pouco de segurana, a propriedade parecia simples 
e despretensiosa. Havia um caminho longo e sinuoso que subia uma colina e, depois de uma 
curva brusca, uma bonita casa em estilo vitoriano com uma varanda ampla e um mirante no 
telhado. Parecia a casa da av de algum, ou de uma tia-av. A varanda estava cheia de 
mveis de vime, e havia um velho celeiro atrs da casa. Ela parecia aconchegante e 
convidativa, e Alexandra saltou da limusine com cuidado, olhando ao seu redor, admirando a 
beleza da propriedade e pensando como as filhas gostariam dali. E ento viu um rosto 
conhecido observando-a da varanda. Sorriu quando ele se dirigiu rapidamente para ela.
       - Al! Como foi de viagem? - Era John Chapman, de calas cqui e uma camisa azul 
aberta no peito. Parecia totalmente  vontade. Seus olhos eram clidos e amistosos ao se 
cumprimentarem. A seguir, ele tirou a sua mala das mos do chofer.
       - Foi tima, obrigada. Que belo lugar este aqui.
       - No  mesmo? Estive xeretando por a a tarde toda. No celeiro h umas peas 
antigas maravilhosas, acho que o Sr. Patterson  dono deste lugar h anos. Entre, voc vai 
adorar a casa. - E ele a conduziu lentamente, admirando em silncio o cabelo vermelho 
brilhante, que a fazia to diferente da loura discreta que ela fora antes. E ento, afinal, ele 
resolveu ir em frente em falar: - Seu cabelo est maravilhoso, se no  rude da minha parte 
diz-lo.
       Mas ela riu e sacudiu a cabea. Estava satisfeita porque ele gostava.
       - Resolvi voltar  minha cor natural em homenagem a essa viagem. J vai ser bem 
difcil para ns nos reconhecermos sem complicar ainda mais as coisas. - Ela sorriu, seus 
olhos se encontraram e ela finalmente tomou coragem de lhe perguntar o que mais queria 
saber. - As outras j chegaram?
       Ele franziu as sobrancelhas e fitou-a, tentando parecer descontrado, mas ainda 
estava preocupado com Hilary. Ela no dera nenhuma indicao de que viria, e ele receava 
desesperadamente que no viesse.
       - Ainda no. Megan falou que chegaria por volta das seis horas. E Hilary...
       A voz dele foi sumindo e Alexandra olhou para ele longa e intensamente, depois 
assentiu. Compreendia e se entristecia. Mas no era verdadeiramente de surpreender.
       - Ela no concordou em vir, no ?
       - No literalmente. Mas eu disse a ela o quanto vocs queriam que viesse. Achei que 
era justo dizer isso. - Ela anuiu em resposta e orou mudamente para que a irm tivesse a 
coragem de enfrent-las. Sabia que o passado era profundamente doloroso para ela, muito 
mais do que para as outras, e ela podia se decidir a no vir. Mas Alexandra torcia para que 
viesse. Bem l no fundo, uma pequena criana esquecida precisava v-la desesperadamente. - 
Vamos ficar de dedos cruzados - acrescentou Chapman, quando entraram no saguo da frente. 
Havia uma pequena sala de estar  direita e uma grande sala de visitas  esquerda, com uma 
lareira aconchegante e mveis vitorianos bem-conservados. Ela perguntou onde estaria Arthur 
Patterson, o seu benfeitor, que voltara a reuni-las, e John disse que estava descansando no 
andar de cima.
       Trouxera duas enfermeiras e quando John o viu, naquela manh, se deu conta de que 
era um milagre que o homem ainda estivesse vivo. Era como se tivesse se apegado  vida 
apenas para isso, e no pudesse se apegar por muito tempo mais. Ele envelhecera vinte anos 
nos quatro ltimos meses e era bvio que agora sentia grandes dores o tempo todo. Mas 
estava coerente e alerta, e ansioso para ver as trs mulheres que havia finalmente reunido.
       - Tem certeza de que elas viro? - insistira com John, que o tranquilizara, rezando 
para que Hilary no os desapontasse. Mas odiando Patterson como odiava, talvez no fosse 
assim to ruim que no viesse. Chapman no tinha certeza se o velho suportaria bem aquele 
tipo de confrontao. E depois do almoo as enfermeiras o puseram
       na cama e insistiram com John para que o deixasse descansar at  hora do jantar. Ele 
estava resolvido a descer naquela noite e jantar com seus convidados. E o plano era que John 
partisse depois do jantar. A essa altura as mulheres j teriam se acomodado, ele as teria 
apresentado umas s outras e o resto cabia a elas... e a Arthur.
       Alexandra estava espiando a sala de visitas e dali passou  sala de jantar com a 
comprida mesa inglesa.
       - Parece que ele passou muito tempo aqui - Observou Alexandra. - O lugar parece 
muito amado.
       Ele sorriu ante a escolha de palavras dela, e falou que no tinha certeza de quanto 
tempo Arthur passara em Connecticut. No acrescentou que Arthur lhe dissera que queria 
morrer ali.
       - Gostaria de subir?
       - Obrigada. - Ela sorriu para ele, imaginando quantos anos teria. Parecia to juvenil 
de certas maneiras e, no entanto to maduro. Ele era srio e, no entanto divertido... a um 
mundo de distncia de Henri e, no entanto parecia infantil se comparado com o marido. Ela 
estava to acostumada ao jeito dominador de Henri, aos seus hbitos de comando, ao seu jeito 
de entrar numa sala e assumir o controle, com o rosto severo e os ombros possantes, e era 
estranho como sentia falta disso, repentinamente. Ele fazia com que os outros homens 
parecessem fracos e jovens demais, e como se, no importa o quanto fossem agradveis, lhes 
faltasse algo. E no pde deixar de se perguntar se as coisas voltariam a ser as mesmas, se ele 
a aceitaria de volta quando ela retornasse  Frana - talvez se visse forada a viver de novo 
com a me, ou a encontrar a sua prpria casa. Por enquanto, tudo era incerto.
       John levou-a a um quarto ensolarado num canto da casa; ele ainda estava quente 
devido ao sol da tarde, e a colcha da cama era de um branco reluzente orlado de renda, com 
uma aconchegante cadeira de balano ao lado e os mesmos mveis vitorianos que pareciam 
encher a casa. Havia uma poltrona de dois lugares e uma pia de porcelana e algum colocara 
flores no quarto. Por algum motivo o quarto a fez rejuvenescer, como se fosse uma mocinha 
voltando para casa. E os olhos dela estavam cheios de lgrimas quando se virou para John e 
lhe agradeceu.
       -  to esquisito estar aqui - ela tentou explicar, mas no conseguia achar as palavras. 
-  como ser muito jovem e muito velha... visitando o passado...  tudo muito confuso.
       - Compreendo.
       Deixou-a arrumando-se, e ela desceu dali a pouco num costume de linho bege, a 
maquiagem retocada, os sapatos bege com a ponta escura familiar de Chanel, e o cabelo ruivo 
dando vida a tudo. Parecia elegante e controlada, e se virou ao ouvir um burburinho de vozes 
na escada s suas costas. Era Arthur que descia, ajudado pelas duas enfermeiras. Estava 
encurvado e frgil, e gemia a cada passo que dava, porm quando a viu se deteve, soltou uma 
exclamao de espanto e ento as lgrimas comearam a escorrer pelas suas faces, enquanto 
Alexandra subia a escada ao seu encontro.
       - Al, Sr. Patterson - disse suavemente e, enquanto ele tremia, inclinou-se e lhe 
beijou a face. - Obrigada por me trazer at aqui.
       Mas ele tremia to violentamente que no podia falar. Apenas tomou-lhe a mo e a 
apertou com fora, com o restante das suas foras. Depois permitiu que ela o ajudasse a 
descer, auxiliada por uma das enfermeiras. Quando elas o acomodaram numa poltrona 
confortvel na sala de estar grande, ele a fitou e falou, finalmente, numa voz que a 
enfermidade fazia rouca:
       - Meu Deus, voc se parece tanto com ela! Voc  Alexandra ou Megan? - Ainda se 
lembrava do cabelo negro da pequena Hilary, exactamente como o do pai.
       - Sou Alexandra, senhor. - Parecia sria e profundamente emocionada, e ele 
recomeou a chorar quando ela falou.
       - Voc at tem o mesmo sotaque. Atravs de todos aqueles anos, ela sempre teve 
aquela cadncia francesa... - Sacudiu a cabea, aturdido com a semelhana entre Alexandra e 
a me. E era uma sensao estranha para Alexandra ser to parecida com algum que no 
conhecera, e que, no entanto era sua me.
       - O senhor gostava muito dela? - Era algo sobre o que conversarem enquanto 
esperavam pelas outras. John reaparecera e lhe oferecera um copo de vinho, que ela recusou. 
Queria concentrar-se em Arthur Patterson e esperar pelas irms. Estava ficando mais tensa e 
excitada a cada momento.
       Mas ele meneou a cabea, pensando nas perguntas de Alexandra.
       - Sim, gostava dela... era uma moa to linda... to bela, to orgulhosa... to forte... 
to cheia de vida... - Com um sorriso desmaiado, ele falou a Alexandra da primeira vez que 
ele e Sam a tinham visto em Paris. - Pensei que ela ia chamar a polcia militar, e quase 
chamou... s que seu pai era to bonito e encantador. - Sorriu, recordando Sam. Que bons 
amigos tinham sido e como tinham se divertido nos anos de guerra. - Ele tambm era um 
actor maravilhoso. Falou-lhe de algumas das peas dele, enquanto ela escutava, quieta. E, 
ento, ouviu-se o rudo de um carro do lado de fora e John desapareceu. Dali a um momento 
escutaram vozes.
       Arthur tambm parecia estar atento e, inconscientemente, estendeu a mo e segurou a 
de Alexandra com firmeza, na hora em que a porta da frente se abriu. E, de onde estava 
sentado, pde v-la quando entrou. Ela correu os olhos ao seu redor, como Alexandra tinha 
feito, e depois os viu observando-a. Como uma criana tmida, entrou na sala parecendo 
subitamente uma cpia mais jovem de Alexandra.
       Alexandra ps-se de p devagar e caminhou instintivamente para ela com os braos 
estendidos. Era como encontrar um pedao do passado e olhar no espelho, ao mesmo tempo. 
A nica diferena era que Alexandra tinha olhos azuis e Megan, verdes. Mas, tirando isso, 
claro que eram irms.
       - Megan? - perguntou numa voz cautelosa, mas sabendo quem ela era. A moa mais 
nova fez que sim e elas se abraaram, com lgrimas nos olhos, muito embora tivessem ambas 
se prometido que controlariam as emoes. E enquanto a abraava, Alexandra sentiu por um 
momento que se lembrava.
       - Voc se parece tanto comigo! - Megan riu por entre as lgrimas e tornou a 
abra-la, depois se afastou para observ-la com um sorrisinho irnico. - S que no se veste 
to bem. - Ainda estava usando os jeans, as botas e a camiseta que usara no hospital at viajar, 
naquela tarde. De qualquer forma, porm, era o que geralmente usava, assim como Rebecca. - 
Meu Deus, voc  linda.
       Ela riu e recuou timidamente enquanto Alexandra tomava a sua mo e a apresentava 
a Arthur.
       - Como vai, Sr. Patterson? - Megan cumprimentou-o polidamente, quase como uma 
jovenzinha, e ele a fitou com satisfao. Era quase to bonita quanto Solange, mas no tanto, 
e no tinha a sofisticao de Alexandra, mas possua algo que se destacava, uma espcie de 
pureza e inteligncia que estavam estampadas claramente no seu rosto. Parecia ser uma bela 
mulher.
       - Quer dizer que  a mdica, no ?
       - Sou sim, senhor. Quase. Estou terminando agora o meu perodo de residncia. 
Estarei formada no Natal.
       Ele assentiu de novo, olhando de uma para a outra. Ali no havia amargura, nem 
raiva. Tinham levado vidas boas, o que era evidente. Ele escolhera bem para elas... mas no 
para a pobre Hilary. Depois da advertncia de Chapman, ele temia o que ela poderia lhe dizer, 
caso viesse. Mas mesmo assim queria v-la.
       Esperaram at quase oito horas, alternadamente calados e depois falando todos ao 
mesmo tempo, nervosos, constrangidos e estranhos, com Arthur contando-lhes histrias do 
passado e Megan e Alexandra tentando partilhar as suas vidas com ele e uma com a outra. 
Alexandra trouxera fotos das filhas, de Henri e dos pais. Megan fizera o mesmo, trazendo 
fotos de Rebecca e David, da casa em Tiburon e do hospital onde trabalhava no Kentucky. 
Era como se quisessem se atualizar mutuamente com a maior rapidez possvel. Tinham trinta 
anos para pr em dia. E era evidente como as suas vidas eram diferentes. O hospital no 
Kentucky aparecia ao lado das meninas diante da villa em Cap Ferrar. E Henri era o tpico 
castelo diante do seu chteau em Dordogne, enquanto as fotos de Margaret e Rebecca 
ficaram lado a lado por um momento, uma de jeans e flor no cabelo, a outra de vestido longo 
a caminho de um baile em Monte Carlo, no arco anterior. E Megan tocou no assunto com um 
sorriso tmido quando se dirigiam  sala de jantar, com Arthur caminhando lentamente s 
costas delas, com a ajuda de John.
       -  engraado como as nossas vidas foram diferentes, no ? E, no entanto ainda 
somos irms... ainda nos parecemos... ainda nascemos dos mesmos pais e provavelmente 
temos gostos, antipatias e hbitos que herdamos sem sequer saber. E, no entanto olhe s para 
ns, voc cresceu no meio de toda a pompa e luxo na Frana, e passei metade da minha 
infncia vivendo com amigos, enquanto meus pais iam para a cadeia por causas em que 
acreditavam.
       E, no entanto ela no parecia infeliz. Parecia orgulhosa deles, e o era. Era tudo 
espantoso de se pensar e as duas ficaram em silncio enquanto tomavam seus lugares de cada 
lado de Arthur. O lugar de John era ao lado de Megan e havia uma cadeira vazia do lado de 
Alexandra. Agora estava ficando evidente que Hilary no viria juntar-se a eles. Alexandra 
ficou desanimada e conversou fiado por algum tempo, enquanto Arthur parecia cochilar. E 
ento, de repente, ouviu-se o som de um carro l fora. John saiu da mesa discretamente. 
Ouviu-se um bate-boca irado do lado de fora e ento, de repente, a porta da frente se 
escancarou enquanto as duas mulheres observavam, hipnotizadas. Arthur acordou, como que 
pressentindo que mais algum viera v-lo.
       - Aconteceu alguma coisa? - ele perguntou a Alexandra, confuso por um instante ao 
acordar, e ela deu uma palmadinha na sua mo, sem tirar os olhos da porta, e ento a viu. 
Alta, magra e comprida como o pai fora, com passadas longas e cabelos negros retintos, e 
olhos verdes que de repente voltou para elas. Estava usando um costume amassado de linho 
azul-marinho. Tivera toda a inteno de no vir e ento de repente, depois do trabalho, 
resolvera alugar um carro e vir dizer a Arthur uma vez por todas o que pensava dele. E ento 
quem sabe ficaria livre dele pelo resto da vida? Nem se importava de ver as outras. Agora 
eram estranhas para ela. Era Arthur que a interessava, quando entrou na sala e ficou  sua 
frente, mas era impossvel ignorar as duas mulheres de cabelos ruivos que o ladeavam e seus 
olhos foram atrados primeiro para Megan e depois para Alexandra, enquanto John se postava 
cuidadosamente atrs dela. Ele podia sentir a tenso na sala, a angstia da mulher que estava 
to prxima dele. Teve vontade de abra-la, mas ela parecia que ia explodir. E ento, de 
repente, ela parou, quando seus olhos se encontraram com os de Alexandra, que se ps de p 
lentamente e cruzou a sala como uma sonmbula, e as palavras foram se lhe escapando 
naturalmente.
       - H... Hillie... - Podia ver o rosto de uma garotinha com longos cabelos negros e, no 
entanto c estava essa mulher... com os mesmos cabelos negros... os mesmos olhos verdes. 
Sem saber por qu, ela comeou a chorar, e sem querer, Hilary a abraou.
       - Axie... minha Axie... - Era a primeira vez que a abraava desde aquele dia em que a 
arrancaram dela, deixando-a sozinha com Eileen e Jack em Charlestown, chorando pelas 
irms a quem tanto amara, e ela mal podia suportar a dor agora, ao se lembrar, enquanto 
abraava a mulher alta, perfumada, muito bem penteada que vinha de Paris... excepto que s 
via era o rosto da criana que amara no passado, e ela ficou repetindo as mesmas palavras 
muitas vezes, enquanto chorava... - Eu te amo, Axie... - Ficaram assim abraadas por longo 
tempo, enquanto Megan observava em silncio.
       Ento, de repente, Arthur comeou a tossir e John se apressou a dar-lhe um copo 
d'gua. A governanta que servia o jantar trouxe as plulas que a enfermeira lhe dera. Megan 
verificou a dose e deu-as a John, enquanto Hilary se voltava lentamente para eles.
       - Voc deve ser Megan. - Sorriu por entre as lgrimas e segurou a mo de Alexandra, 
quando se separaram. - Mudou bastante desde a ltima vez que a vi. - As trs mulheres 
acharam graa, mas os olhos de Hilary se toldaram ao ver o velho, e ela segurou com fora a 
mo de Alexandra enquanto falava com ele. - Eu disse que no viria e falava srio, Arthur. - 
Ele assentiu, encontrando os olhos dela com medo e dor, e viu neles tudo o que temera. Ela o 
odiava, e a gente podia ver o dio como um veneno negro. Mas ele tambm sabia que o 
merecia. Sabia disso melhor que qualquer um. - Eu nunca mais queria v-lo.
       - Que bom que voc veio, Hillie - falou Alexandra na sua voz meiga. - Eu queria 
tanto v-la... s duas - acrescentou, sorrindo para Megan. Mas Hilary agora no sorria. Largou 
a mo da irm quando se adiantou para Arthur.
       - Por que fez isso conosco? Trazer-nos aqui depois de todos esses anos, para nos 
atormentar com o que no tivemos, com o que perdemos, com quem poderamos ter sido se 
tivssemos ficado juntas?
       Ele se engasgou com as prprias palavras e se agarrou  mesa com ambas as mos, 
enquanto a fitava.
       - Achei que devia a vocs compens-las pelo que fiz. - Mal conseguia respirar 
enquanto falava com ela, mas aquilo no a preocupou.
       - E acha que pode compensar? - Riu amargamente e todos tiveram pena, mas John 
temia o que ela faria agora. Esperara trinta anos por isso, e ele sempre pressentira a 
intensidade do seu dio por Arthur. - Acha mesmo que pode apagar trinta anos de solido e 
dor com um jantar?
       - As suas irms tiveram mais sorte do que voc, Hilary. - Ele falou com sinceridade. - 
E elas no me odeiam tanto quanto voc odeia.
       - Elas no sabem tanto quanto eu sei... sabem, Arthur... sabem - ela gritou na sala 
vazia, as palavras ecoando pelas paredes enquanto ele tremia.
       - Isso tudo ficou no passado, Hilary.
       Era uma conversa apenas entre os dois. Apenas eles sabiam do que estavam falando, 
enquanto os outros se questionavam.
       - Ficou? E quanto a voc? Conseguiu viver consigo mesmo durante todos esses anos, 
depois de matar os meus pais? - Seus olhos verdes chamejavam e Alexandra se adiantou 
gentilmente para tocar-lhe o brao, mas Hilary se desvencilhou.
       - Hillie, no... agora no tem importncia...
       - No tem? - Virou-se bruscamente para a irm. - Como sabe disso? Como poderia 
saber, na boa vida na Frana, enquanto eu sentava a bunda no centro de deteno juvenil, 
depois de ter sido estuprada, tentando imaginar como encontr-las? E esse filho da puta nem 
sabia onde vocs estavam, no sabia onde nenhuma de ns estava. Nem mesmo se interessou 
por saber do nosso paradeiro depois de arranc-las dos meus braos naquele dia, chorando e 
soluando... vocs no se lembram disso agora, mas eu me lembro. Eu me lembrei disso... me 
lembrei de vocs duas - olhou de Alexandra para Megan - todos os dias da minha vida e 
chorei por vocs porque no as encontrava. E agora voc vem me dizer que no tem 
importncia? Que eu no devia odi-lo por ter matado nossos pais? Como pode dizer isso? - 
As lgrimas corriam pelas suas faces, sem nenhum constrangimento.
       - Mas ele no os matou. - Alexandra falava por si e por Megan. - A sua nica falha 
foi no nos manter juntas, ou saber do nosso paradeiro ao longo dos anos, mas talvez no 
tivesse culpa. - Olhou com benevolncia para o velho, e Megan assentiu silenciosamente, sem 
conseguir entender por que Hilary o odiava tanto. Ele falhara com elas, mas no as atraioara 
como Hilary estava dizendo. Mas esta sacudia a cabea e ria delas por entre as lgrimas.
       - Vocs no sabem de nada. Eram bebs. Eu estava parada ali na noite em que 
mame morreu... na noite em que papai a matou... estava prestando ateno... ouvi o que eles 
diziam... - Ela comeou a soluar e John ficou a postos, pronto a ajud-la se desmaiasse ou 
precisasse dele. Estava perto dela, como vinha fazendo h meses, embora ela no soubesse. - 
Ouvi os gritos dela... - prosseguiu Hilary - quando ele bateu nela e depois a fez calar-se, 
estrangulando-a at a morte... - Ela engolia os soluos e agora estava parada bem diante de 
Arthur. - E vocs sabem por que ele fez isso? - Seus olhos no se desgrudavam do rosto de 
Arthur, esperara toda uma vida por isso. - Foi porque ela estava tendo um caso com ele e 
contou ao papai... - Ela estava escutando as vozes do passado enquanto falava, e parecia estar 
quase num outro mundo, recordando aquela noite em que o pai matara a me. - H anos que 
ele a vinha enganando, ela disse com muitas mulheres diferentes... todas as suas co-estrelas, 
ela falou.., e ele falou que no era verdade... falou que ela estava maluca... e ela disse que 
tinha provas... sabia quem ele acabara de levar para a Califrnia... com quem passara a noite 
anterior... e falou que agora no fazia mais diferena para ela... que agora tambm tinha 
algum, e que se ele no tivesse cuidado, ela o deixaria e nos levaria junto. E ele disse que a 
mataria se o fizesse e ela riu... ficava rindo dele... e ele falou que ela nunca poderia tirar as 
filhas dele... e ela riu... e ento contou a ele quem era... - Chorava tanto que mal podia falar, 
mas continuou, enquanto Arthur tremia cada vez mais violentamente na sua cadeira. Ela ficou 
a centmetros dele, gritando com ele e chorando. - Ela contou, no foi, Arthur... no foi? - 
berrou Hilary. E ento ela olhou para as irms e lhes contou o que sempre soubera, mas elas 
no. - Ela estava tendo um caso com Arthur, o melhor amigo do papai... e ele falou que a 
mataria por isso e ela apenas riu, e quando ele lhe disse que no poderia nos tirar dele, ela lhe 
contou que apenas duas de ns ramos dele... - Fez-se um silncio estupefacto na sala. Arthur 
se recostou na cadeira como se tivesse sido atingido por um raio. E a voz de Hilary era serena 
quando falou, desta vez. Fizera o que viera fazer. - Ela contou que Megan era filha de Arthur - 
disse com voz montona, fitando-o com desprezo. - E ento papai a matou.
       Ela afundou numa cadeira prxima a ele, chorando baixinho, enquanto Alexandra lhe 
rodeava os ombros com o brao e o velho choramingava baixinho na sua cadeira.
       - Eu no sabia... ela nunca me contou... - Olhou para Megan, pateticamente. - Tem 
que me acreditar... eu no sabia... sempre pensei que voc era dele, como as outras... - 
Chorava abertamente e Megan parecia ainda mais chocada do que durante o resto do discurso. 
E Arthur parecia estar pedindo desculpas para a sala em geral. - Se eu tivesse sabido...
       Mas Hilary s olhou para ele e sacudiu a cabea.
       - O que teria feito de diferente? Ficado com ela e deixado o resto de ns apodrecer? 
Voc no teria feito nada. No apoiou a minha me, ou a sua prpria filha, traiu o seu melhor 
amigo, e o que voc fez? Matou a ambos. Voc tem o sangue deles nas mos... e o nosso. Sem 
voc nossas vidas teriam sido muito diferentes. Como pde viver consigo mesmo todos esses 
anos, sabendo o que tinha feito? Como pde defend-lo, depois de t-lo trado?
       - Ele me implorou que o fizesse, Hilary... eu no queria. Implorei a ele que me 
deixasse chamar outro advogado. Mas ele no quis. E a verdade  que ele no queria viver 
depois que sua me morreu. - A voz dele caiu para um sussurro. - Nem eu. Aquilo acabou 
com a vida de ns dois... eu a amei profundamente desde o primeiro momento em que a vi. - 
As lgrimas lhe escorriam pelas faces enquanto Megan o fitava. Ele no era mais apenas um 
amigo da famlia. Era o seu pai.
       E Hilary o fitava com olhar vazio, como se o visse pela primeira vez. Era um velho, 
moribundo, e no havia como desfazer o que estava feito. Para ele estava tudo acabado, no 
importa o sangue de quem estivesse em suas mos. H muito que o sangue estava seco... as 
pessoas quase esquecidas. Ela se ps de p e olhou para ele.
       - Vim aqui para lhe dizer o quanto o odiava. E sabe de uma coisa estranha, Arthur? 
Depois de todos esses anos, no tenho tanta certeza se ainda tem importncia. - Sentiu a mo 
de Alexandra no ombro e se virou para olhar nos seus olhos. Estava exausta com as emoes 
da noite e se virou para olhar para as duas moas. - Eu as amei muitssimo h muito tempo... 
mas isso talvez tambm faa parte do passado...
       Estava exaurida, gasta, no tinha mais nada para dar ou receber, mas Alexandra no a 
largou e Megan tambm a estava observando. Foi esta quem falou primeiro.
       - Faz muito tempo para todas ns, mas viemos mesmo assim. Eu no me lembrava de 
vocs. E no sabia que o Sr. Patterson era meu pai. Viemos para prestar homenagens ao 
passado, mas tambm para prosseguir daqui em diante. Todas temos outros pais agora, outras 
vidas, outras pessoas de que gostamos. No vivemos num vcuo durante trinta anos, nenhuma 
de ns, nem mesmo voc com a sua raiva e seu dio. - Foi uma reprimenda suave porm 
possante, e acertou o alvo. - Voc no pode vir aqui, largar uma bomba como essa no nosso 
colo e depois partir. Deve a ns reparar as feridas, assim como devemos a voc fazer o 
mesmo. E  por isso que todas viemos at aqui. - As lgrimas escorriam lentamente pelas suas 
faces e John Chapman teve vontade de aplaudi-la. Se Hilary fosse embora agora estragaria 
tudo. Isso destruiria a vida dela de uma vez por todas. Ela tinha de ficar, apesar de Arthur, e 
enfrent-los.
       Hilary olhou para Alexandra como se buscando confirmao. Ela assentiu e falou na 
sua voz suave:
       - Por favor, fique, Hillie... esperei tanto por isso. - Todos tinham corrido muitos 
riscos, pagado um preo to alto. Ela desafiara Henri, possivelmente a um custo muito grande, 
s pelo prazer de ver as irms. - Foi preciso muita coragem para vir at aqui. Para todas ns. 
Meu marido me proibiu de vir... nem sei se ele vai me aceitar de volta. E a minha me... a 
mulher que conheo como minha me... veio comigo, e est com muito medo do que tudo isso 
v significar. Est com medo de me perder, depois de todo esse tempo. - Seus olhos estavam 
cheios de lgrimas enquanto falava com Hilary e Megan estava balanando a cabea com os 
prprios olhos marejados. Rebecca estava apavorada do que ver as irms significaria para ela. 
Tinham falado por telefone uma hora, na noite anterior, e ela prometera que ligaria logo que 
fosse possvel para tranquiliz-la. - Voc perdeu mais do que qualquer um de ns, Hilary... 
mas no est sozinha... ns a amamos, mesmo agora. No pode virar as costas para ns. - E 
ento, abraando-a novamente, ela exclamou baixinho: - No vou deixar.
       Hilary se manteve imvel por um longo momento, depois seus braos envolveram 
Alexandra... como ela poderia saber o que fora a sua vida? Mas no era culpa dela... nem de 
Megan... ou talvez nem de Arthur. Detestava ter de admitir agora, mas era possvel. Ele fora 
um tolo, e pagara um preo alto por isso. Ele olhava para Hilary com tristeza, por sobre o 
ombro de Alexandra.
       - Podem me perdoar, todas vocs? - Mas estava olhando para a mais velha das trs, e 
Hilary levou muito tempo para responder.
       - No sei... no sei o que sinto...
       Mas estava abraada com fora a Alexandra e seus olhos buscavam Megan.
       - Mas estou contente que tenham vindo. Vocs trs tinham o direito de estar juntas. E 
se eu tivesse sido um tipo diferente de homem, teria desafiado a minha mulher e ficado com 
vocs. Era o que eu queria, mas ela se opunha com muita veemncia e eu no tinha coragem 
de enfrent-la. - Olhou pesaroso para Hilary, e depois para a criana que rejeitara, que era sua 
prpria filha. - Cometi um erro terrvel: Mas paguei por ele. Tenho sido um homem solitrio a 
minha vida toda... desde que a me de vocs morreu... - No conseguiu continuar. Sacudiu a 
cabea e se ps de p, trmulo, enquanto John Chapman e uma das enfermeiras vinham 
ajud-lo. - Agora vou subir. Todos temos muito em que pensar. - A revelao de Hilary 
chocara a todos especialmente a Megan e Arthur. De uma maneira estranha, Megan ficou se 
questionando se seria a responsvel pela morte da me... se no tivesse nascido, ser que Sam 
teria matado Solange? Mas era tarde demais para pensar nisso, tarde demais para chorar pelo 
que acontecera trinta anos antes. Era hora de seguir adiante, da melhor maneira possvel. E ele 
se voltou de novo para elas antes de sair da sala. - Quero que fiquem o mximo de tempo que 
puderem... o tempo que quiserem. Esta ser a casa de vocs algum dia; vou deix-las para 
todas vocs, para terem um lugar para onde vir, um lar em comum, finalmente, e um lugar 
para onde levar as suas famlias e seus filhos. Vou me manter longe de vocs enquanto 
estiverem aqui, mas quero que permaneam e fiquem se conhecendo.
       Alexandra e Megan lhe agradeceram, e Megan se levantou rapidamente para ajud-lo 
a subir, enquanto Hilary observava, calada. E quando ele desapareceu, ela se voltou para 
Alexandra e sacudiu a cabea.
       - No sei se algum dia vou parar de odi-lo, Axie. - Ainda era to fcil cham-la 
assim, mesmo depois de todos esses anos, e a mais jovem das duas sorriu.
       - Voc vai. Tem que parar. No sobra mais nada para odiar. Ele est quase morto. - 
Hilary assentiu. Estava claro que o homem no ia viver muito. - S estou agradecida que ele 
nos tenha reunido a tempo. Que ainda se importasse o bastante para fazer isso.
       Subiram as escadas lentamente, de braos dados, e Hilary entrou no quarto de 
Alexandra, lembrando-se de sbito do quarto que tinham partilhado na casa de Jack e Eileen, 
e das trs numa s cama, enquanto ela tentava impedir o beb de chorar para que Eileen no 
as espancasse.
       - Como so as suas filhas? - Sentou-se na cadeira de balano. Era um quarto 
confortvel, mas ela ainda no se resolvera a passar a noite. S queria ficar conversando um 
pouco com Axie.
       Alexandra sorriu ante a pergunta.
       - Marie-Louise se parece muito com voc. Tem os seus olhos... e Axelle se parece 
muito com as minhas fotos de criana. Tem seis anos... e Marie-Louise tem doze. Perdi um 
menino entre as duas. - E, com uma dor cortante, Hilary se lembrou do seu aborto pela 
primeira vez em anos. Tinha sido cuidadosa, desde ento, em evitar qualquer gravidez, e 
agora, de repente, tinha duas sobrinhas. - Ainda se lembra do seu francs?
       - Um pouco. - Hilary sorriu. - No muito, acho.
       - Mas Marie-Louise e Axelle falam ingls, graas  minha me.
       - Como  o seu marido? - Hilary tinha curiosidade sobre tantas coisas a respeito 
dela... o marido... os pais... a vida... as filhas... os hbitos... Queria saber se eram parecidas. 
Se, depois de todos esses anos, tinham alguma coisa em comum. E o casamento no era uma 
delas. Hilary evitara-o diligentemente.
       Alexandra suspirou, sentindo-se muito sincera.
       - Ele  difcil.  inteligente. E exigente. Quer dirigir tudo, desde a casa ao escritrio e 
vice-versa. E espera nada menos do que a perfeio.
       - Voc no se importa? - Parecia curiosa, os olhos verdes observando Alexandra, que 
deu de ombros e sorriu.
       - No. J estou acostumada. E, por baixo da aparncia rgida, sei que nos ama... ou 
amava. - Soltou um suspiro. - No sei o que vai acontecer agora. Ele ficou chocado quando 
lhe contei a nossa histria... quero dizer, sobre nossos pais...
       - No  muito bonita, no ?
       - Especialmente para Megan - acrescentou Alexandra baixinho, justo quando ela 
vinha descendo o corredor. Megan pusera Arthur na cama. Ele sofria dores terrveis, e estava 
chorando. E ela lhe dera uma injeo para sed-lo.
       - Ele no vai viver por muito tempo. - Falou suavemente quando entrou no quarto e 
Hilary reparou, como John reparara, o quanto ela se parecia com Alexandra. - Desconfio que 
est em metstase por toda a parte. Mas ainda est muito alerta.
       - O velho safado - sussurrou Hilary e Megan se virou para ela com olhos faiscantes.
       - No fale assim. Ele se arrependeu dos pecados... trouxe-nos para c. O que mais 
voc quer dele?
       - Algo que no pode nos dar - retrucou Hilary. - O passado... algo decente que 
podamos ter partilhado, ao invs do sofrimento da separao.
       - Ns sobrevivemos, mesmo assim... at voc, Hilary. Olhe s para voc,  um 
grande sucesso. Tem um emprego fantstico, uma vida boa.
       Mas vazia, como s ela sabia e Alexandra desconfiava. No havia ningum de quem 
gostasse e ningum que gostasse dela, ao menos que ela soubesse. E enquanto conversavam, 
John Chapman apareceu  porta. Tinha desaparecido discretamente por algum tempo e 
desconfiava de que elas ficariam conversando at tarde da noite. Tinham muitas coisas para 
resolver, e muito que aprender umas sobre as outras. E o servio dele tinha afinal terminado.
       - Ns vamos ver voc de novo, John? - Alexandra foi a primeira a perguntar, e ele 
sacudiu a cabea, com um sorriso agridoce.
       - No, a no ser que queiram procurar algum algum dia, e espero que nunca 
precisem. Meu servio acabou. - E ento, em voz baixa, acrescentou: - Vou sentir falta de 
vocs. - H meses que vinha vivendo com elas, caando-as, buscando-as, conhecendo-as. E de 
repente percebeu que ia sentir mais a falta de Hilary. Sofrera tanto por causa do passado dela, 
e chegara tarde demais para ajud-la. - Boa sorte para todas vocs.
       - Obrigada. - Todos ficaram de p e apertaram a mo dele. Megan beijou-o 
suavemente na face com um sorriso tmido. Gostara muito dele.
       - Se aparecer no Kentucky, me procure.
       - Vai ficar por l muito tempo? - perguntou ele, detestando ter que deixlas. Ela 
sorriu para ele, com o cabelo ruivo que era exactamente como o da me, e o de Alexandra.
       - Acabo o meu perodo de residncia em dezembro, mas tenho certeza de que vou 
ficar por l. Ainda no contei a meus pais. - Deu de ombros com uma risada descontrada e 
pareceu muito jovem de novo. - Mas acho que j esto esperando. Meu pai est, pelo menos. 
Sabe como sou maluca. - Trocaram um sorriso longo e clido e depois Alexandra o abraou.
       - Cuide-se. - Ela tinha tendncia a bancar a me para todo mundo, e John ficou 
emocionado quando ela lhe deu uma palmadinha no ombro. - Obrigada por tudo.
       - No deixe que ningum a convena de pintar o cabelo de novo... voc est linda...
       - Obrigada - disse ela enrubescendo. John sorriu e Hilary estendeu a mo e agradeceu 
com certa aspereza.
       - Desculpe ter agido como agi no escritrio... eu estava lutando contra tudo isso... - E 
ento, com grande esforo, em voz baixa. - Mas fico contente por ter vindo. - Olhou para as 
duas irms e seus olhos ficaram cheios de lgrimas de novo. E ento voltou a fitar John e, sem 
convite, ele a tomou meigamente nos braos e ela se aninhou ali enquanto ele a abraava, 
desejando poder mant-la ali para sempre. Ainda havia tanto que a vida lhe devia.
       - Voc vai ficar bem agora, Hilary... tudo vai dar certo...
       A sua voz tocou um lugar nela que estava fechado h muito tempo, e ela lamentou 
quando se afastou dele. Ergueu os olhos para ele com um sorriso tmido.
       - Venha me ver qualquer hora dessas na rede.
       - Eu vou. Quem sabe possamos almoar juntos?
       Ela assentiu, incapaz de dizer qualquer coisa, e teve de virar o rosto enquanto as 
lgrimas desciam pelas suas faces. Depois de tantos anos de isolamento, via-se cercada por 
pessoas de quem gostava profundamente, e que pareciam am-la.
       Foi Alexandra quem a abraou desta vez e alisou o seu cabelo para trs ao 
acompanharem John Chapman at o carro. Acenavam enquanto ele se afastava. E ela e Hilary 
subiram as escadas at o quarto de Hilary. Fora-lhe dado um quarto contguo ao de Alexandra, 
e Hilary vestiu a camisola e voltou para bater papo. Megan e Alexandra conversavam sobre 
Paris, Kentucky e o Sul da Frana, e se Megan ia querer ter filhos, algum dia. No tinha 
certeza se iriam ou no interferir com a sua carreira, mas Alexandra estava lhe dizendo que 
eram a sua maior alegria, enquanto Hilary se sentava na cadeira de balano e sacudia a 
cabea, espantada. Era extraordinrio estarem reunidas depois de tantos anos, conversando 
como se sempre tivessem estado juntas.
       - Nunca quis filhos e nunca me arrependi - mentiu Hilary, pensando 
momentaneamente no aborto. - Bem, no sei... talvez quisesse quando era mais jovem. De 
qualquer forma, agora  tarde demais.
       - Quantos anos voc tem? - indagou Megan, franzindo o cenho. Tinha se esquecido 
por um momento. Estava com trinta anos e Hilary era... quase oito anos mais velha.
       - Trinta e oito.
       - Hoje em dia a maioria das mulheres s tem o primeiro filho com essa idade. Pelo 
menos nesta parte do mundo. - Sorriu. - Onde eu trabalho, vejo-as tendo os primeiros bebs 
com doze ou treze anos, s vezes menos.  espantoso. - Era todo um outro mundo, diferente 
desta velha casa confortvel em Connecticut, e das vidas que as irms levavam nos lugares 
onde viviam. Ento, de repente, ela riu. - No  espantoso como somos todas diferentes e, no 
entanto to parecidas? Eu moro nas colinas do Kentucky - falou, olhando depois para 
Alexandra -, e voc mora numa casa chique em Paris, e num chteau noutro canto qualquer e 
numa villa no Sul da Frana no vero - e ento se virou para Hilary -, e voc praticamente 
dirige uma rede de televiso.
       - Teria sido ainda mais espantoso - disse Hilary suavemente - se pudssemos ter nos 
visto h vinte e cinco anos. Minha vida no era to agradvel, na poca.
       - Como era ela? - Megan finalmente perguntou o que ambas queriam saber, e aos 
pouquinhos, durante as duas horas seguintes, com as lgrimas escorrendo pelas faces, 
contou-lhes. Tudo. O feio e o mais feio, e o trgico e o brutal. Mas aquilo a ajudou a partilhar 
seu destino com elas, e Hilary, que as protegera, agora era consolada por elas. Alexandra 
segurou-lhe a mo enquanto Megan contava a sua histria, de passeatas no Mississipi e da vez 
em que o pai levara um tiro numa noite chuvosa no leste da Gergia, das pessoas decentes que 
os pais eram, e de como acreditavam totalmente em suas causas, e de como ela os amava. E a 
seguir Alexandra lhes contou sobre Margaret, e Pierre antes de morrer, e sua vida com Henri, 
e como receava agora que fosse divorciar-se.
       - Seria um idiota se o fizesse - manifestou-se Hilary, jogando os longos cabelos 
negros por sobre o ombro, num gesto que mexeu na memria de Alexandra, que a observava.
       - Ele tem obsesso pela sua linhagem, e temos de admitir que a nossa  um tanto 
extica para algum como o meu marido.
       As trs riram e o sol nasceu enquanto conversavam. Foram para a cama em meio a 
bocejos, beijos, abraos e promessas de se reverem. Todas dormiram at o meio-dia, e 
Alexandra foi a primeira a se levantar. Ligou para a me e as meninas no hotel, mas elas 
tinham sado. Deixou um recado de que tudo ia bem e que chegaria no domingo  noite. 
Pensou em ligar para Henri, mas no sabia o que dizer. Ento subiu de novo, tomou banho e 
se vestiu. Quando desceu, Megan estava usando um par de jeans limpo e uma blusa branca, 
com um lao de fita no cabelo. Parecia mais uma menininha do que uma mdica, e Alexandra 
lhe disse isso. As duas bateram papo enquanto tomavam caf e comiam biscoitos quentes. 
Uma das enfermeiras de Arthur informou que ele havia passado uma noite difcil, ento 
Megan subiu para v-lo, no momento em que Hilary descia, de shorts e camisa de seda, os 
cabelos negros repuxados para trs num coque, os ps descalos, pronta para tomar caf. 
Parecia muito mais jovem do que na noite anterior, e Alexandra se deu conta de que todas 
pareciam. Estavam viajando para trs no tempo, e os fardos que as envelheciam estavam 
caindo de seus ombros. No seu caso era o medo do que Henri faria com ela, e de que ningum 
mais a amaria se ele se divorciasse dela. Se o fizesse, ela ainda teria Margaret, e as meninas, e 
agora tinha essas duas mulheres para apoi-la. No parecia mais to apavorante. Na verdade, 
sentia-se bem e, pela primeira vez em muito tempo, no teve medo.
       - Ficamos acordadas at tarde ontem, no foi? - Hilary sorria preguiosamente 
enquanto tomava o seu caf. - O que vamos fazer hoje? Podemos morrer de tanto conversar 
at amanh  noite, se no tomarmos cuidado. - Riram e Alexandra olhou para ela, pensativa,
       -Tambm vai voltar amanh  noite? - O recado que deixara no hotel dizia que sim. 
No queria abandonar a me e as meninas por muito tempo. Prometera passar uma semana 
com elas em Nova York, e sabia que as filhas acabariam por esgotar a me dela.
       - Preciso voltar - respondeu Hilary. - Tenho umas reunies importantes marcadas 
para segunda de manh. - Isso no era novidade. Sempre tinha. Abriu um sorriso. - E voc, 
quando volta?
       - Para Nova York amanh  noite. Deixei minha me no Pierre com Axelle e 
Marie-Louise. Acho que at amanh  noite ela j ter atingido o seu ponto de saturao, 
embora seja tima para elas. Mas elas so dose! - Alexandra fez uma pausa, pensando em 
Margaret e em como se preocupara com essa reunio. - Acho tambm que devo voltar para 
tranquiliz-la. Acho que ela estava com medo de que eu fosse parar de am-la quando 
conhecesse as minhas irms, como se ela fosse deixar de ser a minha famlia. Devo a ela 
tranquiliz-la.
       Hilary assentiu e sorriu.
       - Eu podia lev-la de carro, se voc quisesse. Podamos ir jantar esta semana... ou 
almoar... - Olhou para ela esperanosa, como uma criana tmida com uma nova amiga, e os 
olhos de Alexandra se iluminaram em resposta.
       - Eu adoraria. E voc podia conheceras meninas! Vamos passar uma semana aqui. E 
depois - disse triunfantemente, Henri de Morigny que se danasse -, voc podia vir nos 
visitarem Paris!
       - Que grande ideia! - riu Hilary, enquanto Megan se reunia a elas.
       - O que vocs duas esto aprontando hoje? - Ela sorria, mas seus olhos estavam 
srios.
       - S umas travessuras em Nova York. - Hilary sorriu para ela. Ainda pensava nela 
como "o beb". - Quer participar? Voc podia ficar na minha casa.
       - Ou no Pierre conosco - ofereceu Alexandra, mas Megan j havia tomado outra 
deciso.
       - Adoraria, e irei visitar as duas logo que puder. Mas vou ficar aqui por uns dias. Ele 
parece bem pior hoje. - Seus olhos indicaram Arthur no andar superior. - Gostaria de estar 
aqui se alguma coisa acontecer. - E era evidente que ia acontecer em breve. Era a nica coisa 
que ela podia fazer por ele agora, o seu primeiro e ltimo presente para ele como filha, estar 
ao lado quando morresse. Mais tarde, tentou explicar os seus sentimentos para Alexandra, 
enquanto passeavam pelo jardim. - Ele parece to pattico... e to frgil... como se j estivesse 
morto. Sei que Hilary o odeia, mas no tenho nada contra ele. Tive uma boa vida. Amo os 
nicos pais que conheci... ele  uma espcie de presente tardio na vida. Algum que poderia 
ter significado alguma coisa para mim no passado, mas agora  tarde demais.  tarde demais 
para fazer outra coisa excepto dizer adeus e ajud-lo a partir. E, se eu puder ajud-lo a fazer 
isso, ficarei feliz.
       - Ento  isso o que deve fazer, Megan.
       Alexandra sorriu para ela. De uma forma estranha, ela lhe lembrava as suas filhas.
       Jantaram sossegadamente aquela noite. A governanta era extremamente discreta e as 
deixava sozinhas a maior parte do tempo, e elas acabaram por conversar sobre John Chapman.
       - Pensei que ele ia me atacar quando entrou  fora no meu escritrio - disse Hilary e 
Alexandra sorriu e enrubesceu, como costumava fazer.
       - A primeira vez que o vi, achei que era muito bonito.
       - Eu tambm - confessou Megan, e as trs riram como trs menininhas e ficaram 
conjecturando sobre a esposa dele.
       - Acho que ele falou que era divorciado. - Alexandra franziu o cenho, tentando 
recordar, mas Hilary deu de ombros. H anos que no abria o corao para ningum, e era 
suficiente t-lo feito para as duas irms. Tinham sido 24 horas exaustivas. Mas era como 
voltar para casa, para a casa de campo gostosa, confortvel, o navio delas finalmente em 
segurana no porto.
       
       Captulo 31
       No dia seguinte elas se sentaram na varanda e conversaram por muito tempo. 
Prometeram visitar-se e escrever, e as trs choraram quando Hilary e Alexandra entraram no 
carro e se afastaram, acenando para Megan at no a poderem ver mais. Ela prometera parar e 
jantar com as outras duas em Nova York naquela semana, antes de voar de volta ao Kentucky. 
Alexandra entrara p ante p no quarto de Arthur para se despedir dele, mas Megan acabara 
de lhe dar uma injeo e ele estava dormindo. Ele abrira um dos olhos e sorrira para ela, como 
se estivesse vendo outra pessoa, e depois cochilara de novo, enquanto Hilary observava 
parada no vo da porta. No tinha mais nada a dizer para ele, e olhou-o por um longo 
momento antes de se virar para descer a escada, entrar no carro e partir com Alexandra.
       - Acha que ele vai morrer logo? - perguntou Alexandra enquanto voltavam para 
Nova York. Sentia pena dele. Estava to triste e solitrio, e ficou contente por Megan ter 
decidido ficar com ele.
       - Provavelmente. J fez o que queria fazer. - Na sua voz no havia ternura, mas pelo 
menos a raiva sumira.
       Chegaram ao hotel pouco antes da hora do jantar, e Alexandra insistiu para que ela 
subisse e conhecesse as meninas e Margaret. Finalmente, depois de protestos de que no 
estava arrumada, de que era tarde - quando na verdade, receava conhecer a famlia de 
Alexandra. E se a odiassem? - ela subiu com a irm. Pareciam duas garotas voltando de um 
acampamento, ligeiramente desarrumadas, mas relaxadas e felizes. Alexandra abriu a porta da 
sute com sua chave e ouviu a exclamao abafada de Hilary quando Axelle correu para ela.
       - Oi, corao... veja s quem eu trouxe! - Agia como se Papai Noel tivesse vindo 
para casa com ela. Axelle parou de chofre e fitou a mulher alta e de cabelos escuros que 
chorava abertamente.
       - Quem  ela?
       - Ela  minha irm - disse Alexandra, e comeou a chorar tambm e estendeu a mo 
para pegar a de Hilary. - H muito, muito tempo que no nos vamos. E temos outra irm, 
chamada Megan... mas ela no pde vir esta noite. Esta  sua tia Hilary. - Falou com voz 
meiga e Axelle se dirigiu para ela cautelosamente, enquanto Hilary abria os braos e 
comeava a soluar. S pde sussurrar as palavras de tanto tempo atrs:
       - Ah, Axie...
       Marie-Louise se adiantou e beijou-a solenemente, e at mesmo Hilary podia ver 
como elas se pareciam. Era como ter uma filha toda sua. Ficaram de mos dadas enquanto 
Alexandra a apresentava  me.
       - Mame, esta  Hilary... Hilary, esta  minha me, Margaret de Borne... - E de 
repente as trs estavam chorando. Margaret tomou Hilary nos braos, como outra filha.
       - Como vai? Vocs duas esto bem? Estava to preocupada com vocs!
       Alexandra sorriu e enxugou os olhos. Hilary fez o mesmo, e olhou para as meninas 
com um largo sorriso.
       - No estamos um horror? Mas  que no vejo a me de vocs h tanto, tanto tempo...
       - Por qu?
       Era tudo um tanto confuso para as meninas, e Alexandra se sentou com Axelle no 
colo enquanto olhava dela para Marie-Louise, para Hilary e a me.
       - Muitas coisas tristes nos aconteceram h muito tempo, e ns no nos vimos mais 
desde que eu tinha cinco anos, um pouquinho mais nova do que Axelle. E Hilary cresceu nuns 
lugares muito tristes. Sentimos muita falta uma da outra, mas s pudemos nos reunir agora.
       - Ah - exclamou Axelle,como se tudo aquilo agora fizesse sentido para ela, e Marie-
Louise assentiu. E ento Axelle falou uma coisa que para ela tambm era importante: - Fomos 
ao Zoolgico do Bronx ontem, e depois vimos as Rockettes no Radio City Music Hall
       Todos riram, e Margaret pediu champanha. Enquanto Alexandra ps as meninas na 
cama, Margaret disse a Hilary como estava aliviada de que a reunio tivesse sido boa para 
elas. Admitiu que estivera muito preocupada.
       - Alexandra a ama muito - consolou-a Hilary, surpresa ao ver como gostava dela. Era 
uma mulher com calor humano, coragem e classe, e um maravilhoso senso de humor. - Ela 
nos contou tudo sobre a senhora e o pai dela. Nada vai mudar o que sente por vocs, e o que 
fizeram por ela. No seu corao, vocs sempre sero os pais dela.
       As lgrimas rolaram pelas faces de Margaret ante essas palavras. Ela deu uma 
palmadinha agradecida na mo de Hilary e depois fez uma pergunta:
       - E Henri? Ela falou nele? - Hilary fez que sim. - Ele no telefonou desde que 
partimos. Encarou tudo isso muito mal. Foi um grande choque para ele, e acho que ela agiu 
mal ao lhe contar.
       - Ela quer ser aceite como , creio. Isso  muito importante para ela. E no posso 
discordar. Ele ter que se adaptar. Como ns nos adaptamos - falou, displicente.
       Margaret lhe lanou um sorriso pesaroso.
       - No conhece o marido dela.
       - Do que esto falando? - Alexandra acabava de pr as meninas na cama, a despeito 
de seus protestos de que queriam ficar acordadas com a tia, mas ela lhes prometera que a 
veriam no dia seguinte.
       - A propsito, as meninas querem almoar com voc amanh. Est livre?
       - Para vocs? Pombas, estou! - sorriu Hilary. Mal podia esperar para mostrar a rede 
de TV para as meninas, lev-las para almoar e para o "21" para jantar. De repente se tornara 
tia, e espantava-se ao ver como estava gostando.
       Fizeram os seus planos para o dia seguinte e, Margaret sorria ao ouvi-las. Beijou 
Hilary como beijaria a prpria filha, quando ela se foi. E depois fitou profundamente os olhos 
de Alexandra.
       - Est mais feliz, no est, corao?
       Alexandra fez que sim.
       - Sim, estou. Significou muito para mim conhecer as duas... at mais do que eu 
imaginava. Que bom que viemos. - Jogou os braos ao redor de Margaret e a abraou com 
fora. - E que bom que voc veio comigo!
       - Tambm acho. - A mulher mais velha teve que lutar contra as lgrimas outra vez. 
Todos tinham chorado muito nos ltimos dias. E ento Alexandra lhe contou sobre Megan. - 
Que choque para o Sr. Patterson - falou, horrorizada.
       - Foi mesmo. Pensei at que ia mat-lo. Megan vai ficar com ele por mais alguns 
dias. No acha que ele v viver muito.
       Era triste pensar nisso, mas talvez Hilary tivesse razo. Ele fizera o que queria fazer, 
e agora podia ir em paz, segurando a mo da filha.
       
       Captulo 32
       O almoo com as meninas no dia seguinte foi muito divertido. Margaret insistiu em 
deix-las a ss com as crianas. Disse que precisava fazer algumas coisas e queria um 
tempinho para si mesma. Hilary e Alexandra divertiram-se a valer com as meninas. Depois de 
muitos malabarismos, Hilary at mesmo conseguiu tirar a tarde de folga. Foram ao parque, 
depois ao Plaza tomar ch. E por sobre as cabeas das meninas, enquanto elas comiam petits 
fours, Hilary e Alexandra refletiram sobre como teria sido se os pais no tivessem morrido, e 
elas tivessem continuado a viver a boa vida em Nova York, morando em Sutton Place, o pai 
um astro, e fazendo coisas como lev-las para tomar ch no Plaza.
       - Acho que nunca vamos saber, no , Axie? Mas isso no  to ruim assim.
       Hilary sorriu enquanto saam do Plaza e cruzavam a rua at o Pierre, onde Alexandra 
e as meninas estavam hospedadas. Jantou com elas naquela noite e, quando voltou para o seu 
apartamento, sentia-se exausta. No estava acostumada a crianas, e embora fossem 
encantadoras, eram muito mais cansativas do que um dia no escritrio.
       O telefone tocava quando ela entrou pela porta da frente e ficou surpresa ao ver que 
era John Chapman. Megan ligara para ele h uma hora. Arthur morrera serenamente durante o 
sono e o enterro seria dali a dois dias, em Connecticut. Megan ia ficar para o enterro e depois 
voltaria ao Kentucky.
       - Pensei que voc gostaria de saber. Terei prazer em lev-la de carro at l.
       Ela pensou no assunto por um longo momento, depois sacudiu a cabea no 
apartamento tranquilo.
       - Acho que no, John. No creio que ali seja o meu lugar.
       Embora suspeitasse de que Alexandra iria, mas isso era diferente, pois a prpria 
Alexandra era muito diferente.
       - Ainda est zangada?
       - Talvez no. Ainda no tenho certeza. E, de qualquer forma, est tudo acabado 
agora. No creio que eu precise estar presente.
       De qualquer forma era sincera. John ficou encabulado ao ver como ficara agradecido 
por um motivo para ligar para ela, at mesmo este.
       - Que tal o fim de semana?
       - O mais feliz da minha vida. Foi maravilhoso. Passei a tarde toda com as minhas 
sobrinhas. Elas so fantsticas e Alexandra tambm. E Megan tambm... - E ento, 
encabulada: - Obrigada por tudo que fez para nos reunir, John. - Era muito mais agradecida a 
ele do que a Arthur.
       - O Sr. Patterson foi quem o tornou possvel. S o que fiz foi encontrar vocs. -... e 
pensar em voc dia e noite... e me preocupar com voc e suas irms... e passar noites insones. 
- Eu estava pensando se voc gostaria de almoar qualquer dia desses. Quem sabe mais para o 
fim de semana, depois que eu voltar de Connecticut? - Sentia-se como um garoto de quinze 
anos, e riu. - Pode parecer uma maluquice, mas sinto a sua falta... - A voz dele foi sumindo e 
o que ele dissera a emocionou. Parecia aberta, de repente,  ternura e  dor e aos sentimentos 
de outras pessoas. E sentia algo de muito poderoso e clido vindo dele, o que lhe despertou 
uma variedade de novas sensaes. O fim de semana lhe dera algo que nunca tivera antes, 
pelo menos durante trinta anos. Amor. E ela era como uma flor que acabara de ser molhada. - 
Eu costumava me preocupar muito com voc.
       Era mais fcil dizer coisas para ela ao telefone do que pessoalmente.
       - Por qu? - Parecia surpresa. - Voc nem me conhecia.
       - Conhecia sim... de muitas maneiras... conhecia voc melhor do que a maioria das 
pessoas conhece os prprios filhos. - E ento disse a si mesmo que era maluco por lhe estar 
dizendo essas coisas, mas no conseguia parar agora. - Voc deve pensar que sou biruta.
       - Mais ou menos. - Ela riu. - Mas um biruta bonzinho. Parece que leva a srio o seu 
servio.
       - Nem sempre... mas desta vez... Quando pode almoar comigo? - Sentia-se mais do 
que nunca como um garotinho de escola, mas na outra ponta do fio ela estava sorrindo. - 
Quinta est bem?
       - Est timo. - E, se no estivesse, ela cancelaria tudo o que tivesse para fazer, talvez 
at ver Alexandra. - Sabe onde fica o meu escritrio.
       Ambos riram.
       - Apanho voc ao meio-dia e quinze. E se eu estiver atrasado, no esquente. s vezes 
tenho um trabalho para sair do escritrio.
       Mas, ao contrrio de Sasha, ela compreendia isso muito bem. Frequentemente tinha o 
mesmo problema.
       - No se preocupe. Ns dois teremos sorte se eu no estiver presa numa reunio. 
Farei o possvel para estar livre ao meio-dia, nem que isso signifique despedir menos gente.
       Ela riu e ele sorriu ao desligar. Mal podia esperar para v-la.
       
       Captulo 33
       Como Hilary desconfiara que faria, Alexandra fora ao enterro de Arthur, 
principalmente para estar com Megan. E depois, ela, Megan e John tinham voltado para Nova 
York de limusine, e naquela noite as trs irms jantaram juntas pela ltima vez. Megan 
voltaria de avio para o Kentucky  meia-noite. Ela conheceu Margaret e as meninas e 
tiveram outra noite agradvel, embora Megan se mantivesse um pouco calada. Fora uma 
semana estranha para ela, descobrindo um pai que nunca conhecera e vendo-o morrer nos seus 
braos dali a alguns dias. Mas o maior presente de todos era o reencontro com as irms.
       Elas conversaram sobre a casa que Arthur lhes deixara e o que fariam com ela. A 
governanta continuaria l at que tudo estivesse resolvido, e Arthur deixara um fundo 
suficiente para a manuteno da casa, e o resto do seu esplio seria dividido entre as trs. Ele 
no tinha outros parentes. E Alexandra queria que elas combinassem passar algum tempo ali 
no vero seguinte.
       - Podamos fazer isso todos os anos! Virar uma tradio! - Sorriu para elas e Megan 
abriu um sorriso.
       - Posso trazer alguns dos meus caipiras quando eu vier?
       - Por que no? - acrescentou Hilary com um olhar misterioso. Estava na expectativa 
do almoo com John Chapman no dia seguinte, mas no contara nada s irms. Era um pouco 
embaraoso e temia que elas desconfiassem do quanto gostava dele.
       Levaram Megan ao aeroporto s onze horas, e depois Hilary e Alexandra voltaram 
juntas para a cidade. Hilary deixou a irm mais moa no hotel e foi para casa. Ambas estavam 
exaustas. Fora uma semana muito emotiva para todas. E Alexandra esperava ir se deitar cedo.
       As luzes do seu quarto estavam acesas, a porta fechada, e Margaret tinha ido para a 
cama, aparentemente. Mas Alexandra podia ouvir algum se mexendo no seu quarto, 
enquanto ela ficava parada junto  porta. Ento algum a abriu e ela se deparou com o marido. 
Ele chegara um pouco antes. E Margaret se recolhera, prudentemente, aps cumpriment-lo. 
Ele no oferecera explicao para a sua vinda e agira quase como se sua visita fosse planejada 
e ele estivesse sendo esperado.
       - Henri? - Alexandra o fitava como se estivesse vendo um fantasma.
       - Estava esperando outra pessoa? - Mas desta vez no era uma acusao. Sorria para 
ela, e Alexandra fitava-o, espantada. - Espero que no. As crianas esto bem?
       - Muito, obrigada. Ns nos divertimos muito.
       - Foi o que sua me me disse. Eu a vi quando cheguei.
       E ento Alexandra no pde mais suportar aquela charada. Por que ele tinha vindo? 
Por que estava aqui? Que ameaa ia fazer agora? Mas era estranho, ela no o temia tanto 
quanto antes. Ela o fitou curiosamente do outro lado do aposento quando ele se sentou e 
bebeu um pouco do champanha que pedira enquanto a esperava.
       - Quer um pouco? - disse, estendendo o copo para ela com indiferena. Alexandra 
no estava entendendo.
       - No, obrigada. Henri, por que veio at aqui? - indagou friamente.
       - Vim v-la... e s crianas... - Falava com cautela, como se no estivesse muito certo 
do que dizer. - Achei que precisvamos conversar. - Olhou para ela com olhar preocupado.
       - Podia ter telefonado. - Os olhos dela eram frios, mas estava se protegendo da dor 
que sabia que ele podia lhe causar.
       - Voc teria preferido? - Ele parecia to triste que lhe dilacerou o corao, embora 
estivesse resistindo ao impulso de se dar a ele. Continuava receosa de uma possvel rejeio. 
Quem sabe ele viera para lhe dizer que ia se divorciar dela? E ela queria saber, agora.
       - S no compreendo por que voc veio para c.
       Ele se levantou e depois caminhou lentamente para ela.
       - Para v-la, ma chrie. Embora seja difcil acreditar s vezes, eu a amo muito... no 
importa quem voc seja... - Ele acrescentou cuidadosamente: - Ou quem tenha se tornado. - 
Sorriu-lhe quase timidamente. - Vejo que ficou ruiva de novo. No  to espalhafatoso quanto 
eu recordava. - Ele a observava, fitando-lhe os olhos  procura de algo que esperava ainda 
estivesse ali, se ele no o tivesse rompido para sempre, desta vez. - Foi um grande choque 
para mim quando voc me contou sobre... sobre sua famlia. Acho que teria sido para 
qualquer um... e no posso chegar aqui agora e lhe dizer que estou mudado, que no vou mais 
ser to exigente, que vou parar de arrast-la ao Elyse para jantar... mas aceito quem voc ... 
se voc aceitar quem eu sou... - Havia lgrimas nos seus olhos e Alexandra fitou-o atnita. 
Este era o homem que ela pensava que a odiava... e c estava ele, dizendo-lhe que a amava. - 
Eu a amo muito. E quero que volte para casa... daqui a alguns dias... e se voc quiser, eu 
ficarei aqui com voc... - Puxou-a com firmeza para os seus braos e ela soube, com absoluta 
certeza, que ele jamais mudaria. Mas viera para ela com os braos abertos e lhe devia muito 
por isso. Devia-lhe a vida. E volveu os lbios para os dele com um sorriso meigo enquanto ele 
ria baixinho. - Sabe, adoro o seu cabelo. - Correu as mos pelas sedosas mechas ruivas e 
ambos acharam graa. Talvez as coisas tivessem mudado o suficiente... talvez... e se no 
tivessem, ela vivia com ele h catorze anos... para o melhor ou para o pior... e no tencionava 
fazer nada diferente pelo resto da vida.
       Ele empurrou a porta, fechando-a, e tomou a esposa nos braos com um sorriso de 
expectativa e prazer. Estava contente por ter feito a viagem e, quando sentiu as suas mos 
meigas tocando-o, ficou ainda mais contente.
       
       Captulo 34
       A ltima noite deles em Nova York foi feliz, triste e emotiva. Jantaram no Cte 
Basque e Henri e Alexandra trouxeram as meninas. Margaret tambm veio, por insistncia de 
Alexandra, e Hilary falou que ia trazer um amigo, o que Alexandra achou meio esquisito. Mas 
no quis questionar a irm. Ficou secretamente encantada, porm, quando o amigo acabou 
sendo John Chapman. Sempre gostara dele e podia ver que Henri aprovava John, muito 
bonito de terno escuro, com o seu jeito tranquilo, e inteligncia e bero evidentes. O grupo 
se entrosou maravilhosamente e Margaret divertiu a todos. Henri at deixou as meninas 
tomarem champanha no jantar. Era um clmax perfeito para a viagem, e todos se abraaram e 
se beijaram na despedida como se nunca mais fossem se ver, embora Hilary e John tivessem 
insistido em ir ao aeroporto no dia seguinte, quando os outros partissem para Paris.
       Era uma cena clssica, com Axelle carregando uma boneca enorme debaixo de cada 
brao e Marie-Louise agarrada ao seu novo estojo de mgica, presente da tia Hilary,  claro. 
Os trofus de Alexandra da Bergdorf e da Bendel's pareciam virtualmente ilimitados, e a pilha 
de Louis Vuitton de Margaret parecia ter crescido consideravelmente nesses meros dez dias, 
enquanto Henri tentava tomar conta de tudo, segurar as passagens e salvar os passaportes das 
mozinhas atarefadas de Axelle. E, nesse meio tempo, Hilary e Alexandra falavam sem parar, 
prometendo rever-se o mais breve possvel. Hilary estava pensando em passar o Natal com 
eles em Saint Moritz, a no ser que Megan viesse para Nova York, e nesse caso ela iria na 
primavera, mas a despeito de todas as palavras e da conversa frentica, o momento final 
acabou chegando. Margaret foi levando as meninas para o avio, acenando para Hilary a cada 
passo, e Henri deixou as duas mulheres sozinhas, afastando-se da esposa e batendo papo com 
John, e de repente Hilary  olhou nos olhos da irm e comeou a chorar quando a abraou.
       - Axie, no posso deixar voc de novo... - Engasgou com as palavras e Alexandra a 
apertou com fora.
       - Eu sei... Prometa-me que vai ficar bem. - Elas estavam chorando de novo e Hilary 
pensou que desta vez no conseguiria solt-la Era parecido demais com o passado, os cachos 
ruivos nos seus braos, a garotinha que amara. "...Axie... eu te amo... Axie, eu..." Os ecos do 
passado ressoavam nos ouvidos dela enquanto Alexandra a abraava com fora. - Eu a verei 
logo e vou ligar o tempo todo de Paris.
       Henri a chamava para tomar o avio e ela sabia que tinha de ir. Dali a um momento 
fechariam a porta, mas ela no podia largla no podia deix-la sozinha. E ento John se 
aproximou delas e tirou Hilary de Alexandra, gentilmente, segurando-a nos seus braos 
possantes enquanto ela ficava ali com as lgrimas escorrendo pelas faces. - Faa boa viagem, 
Alexandra. Nos veremos em breve - falou John na sua voz tranquila. Alexandra se afastou 
lentamente, os olhos cegos pelas lgrimas enquanto olhava para Hilary, os olhos imensos, o 
rosto mortalmente plido enquanto John a segurava suavemente.
       Alexandra acenou pela ltima vez com um sorriso choroso enquanto Hilary a fitava e 
sussurrava as palavras familiares.
       - Adeus, Axie. - Acenou e depois sorriu lentamente por entre as lgrimas, e 
Alexandra desapareceu dentro do avio com o marido.
       - Est tudo bem, corao... - John murmurou para Hilary enquanto a abraava, e de 
repente, pela primeira vez na vida, ela se sentiu sega. Ergueu os olhos para ele, que sorriu. - 
Est tudo bem, Hillie... - Ele a abraava com fora e ela sabia que ele dizia a verdade. - Agora 
vai ficar tudo bem.
       
       Fim
